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terça-feira, 17 de setembro de 2019

Sobre o filme «Santiago, Itália» de Nanni Moretti, 2018












Nanni Moretti não consegue fazer um filme igual a outro. Melhor, Nanni Moretti assume sempre, antes de mais, o seu papel de cidadão, político, social, familiar e emocional. Como realizador, como actor, como persona que tem de falar perante um mundo que, por vezes, gira em sentido retrógrado. Assim como a memória que deve ser resgatada. A única imagem sua é a do confronto com um carrasco, preso, que insiste de modo néscio em fazer-se perdoar perante uma entrevista que deseja imparcial. «Eu não sou imparcial!», responde secamente o realizador.

Este documentário inicia-se com uma série de entrevistas a chilenos que tão bem falam a língua italiana. Facto estranho… Falam eles dos momentos de alegria do governo de Salvador Allende, eleito democraticamente. Ouvem-se gritos dos manifestantes felizes. «O povo unido jamais será vencido!» Porém, o tom dos discursos começa a toldar-se e chegamos ao sangrento golpe militar de Augusto Pinochet. 11 de Setembro de 1973.

Depois, existe um ângulo morto no muro da Embaixada Italiana que se manteve aberta durante o horror. Esse muro não era suficientemente alto. Tinham de saltar. O muro deu asilo a perto de 750 refugiados. A fluência em italiano destes cidadãos, agora com duas pátrias, estava explicado. eles não esquecem o papel benévolo do país de acolhimento. Há quem lembre que a Itália de 1973 pouco tem a ver com a actual Itália de Salvini.

Talvez seja um documentário que termina de modo abrupto com uma festa dos chilenos-italianos mas é um documentário importante e comovente. Principalmente para quem não esquece que, de 11 de Setembro de 1973 a 25 de Abril de 1974, passaram poucos meses e que, acima de tudo, as palavras migram de continente para continente.

jef, setembro 2019

«Santiago, Itália» de Nanni Moretti. Documentário. França / Itália / Chile, 2018, Cores, 80 min.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Sobre o filme «Vem e Vê» de Elem Klimov, 1985


















O filme contém o princípio bélico da inocência castigada. E se temos de nos preparar para ver um dos filmes de guerra mais violentos alguma vez realizado, antes ainda teremos de proteger a memória para que ela não esqueça as 628 aldeias da Bielorrússia que os nazis incendiaram com os seus habitantes dentro de celeiros e igrejas para instalarem a leste populações «arianas».

É o último filme de Elem Klimov e é impossível descrever esse lado impuro e sangrento, ao mesmo tempo bíblico e diabólico, do jovem Florya (Aleksei Kravchenko) que, em 1943, com uma arma desenterrada e arrancada a um cadáver, tenta a todo o custo integrar as fileiras da resistência bielorrussa. Porém, a guerra é implacável e o sonho (ou ímpeto) colectivo é ‘desmascarado’ impiedosamente, logo a seguir, pela solidão do estupor de uma guerra que tudo castiga. Acima de tudo, apaga o futuro da infância.

Dois anos depois, o filme «Império do Sol» de Steven Spielberg também coloca o jovem Jamie Graham (Christian Bale) nessa corrida forçada contra o vazio, mas adoçava-lhe o final, colocava os decores em locais privilegiados e a luz como imagem protectora. Em «Vem e Vê», apenas temos o espectro das florestas, o vapor negro das turfeiras, o descampado enevoado, como ponto de fuga. Não há meio de não olhar! Não há forma de adoçar-lhe a perspectiva. E mesmo, no final, as imagens reais das paradas militares em honra a Adolf Hitler, talvez em Nuremberga 1936, e colocados no de trás para a frente, aparece um pouco como passo em falso a tentar reverter o irreversível. Em «Vem e Vê» apenas temos o verdadeiro horror da humanidade e os olhos de Florya que sobreviveu mas ainda corre atrás dos partisans ao som do Requiem de Mozart.

Encontro um filme que me deixa igualmente neste estado de dor no estômago, aperto no coração e incredulidade face ao género humano. E aí as imagens estão se certo modo «ausentes» e a palavra escutada é que a fonte brutal. «Shoah» de Claude Lanzmann (1985).

jef, setembro 2019

«Vem e Vê» (Idi i Smotri) de Elem Klimov. Com Aleksei Kravchenko, Liubomiras Lauciavicius, Olga Mironova. URSS, 1985, Cores, 146 min.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Sobre o filme «O Quarto Mandamento» de Orson Welles, 1942
















Mesmo com as cenas adicionais colocadas pela produção para «amaciar» a história e dar-lhe o necessário happy end que Hollywood da época exigia, tudo neste filme é de Orson Welles, o menino-prodígio, o rebelde com causa, o realizador inclassificável. «And my name is Orson Welles» refere em epílogo a ficha ‘presencial’ focando a iluminação e o microfone onde o próprio Orson Welles foi narrando a história de uma época americana focada na família rica dos Ambersons e do seu mimado e orgulhoso filho George Amberson Minafer (Tim Holt).

Não consigo esquecer o filme-documento de Mark Cousins, «Os Olhos de Orson Welles» (2018), que nos indica a impossibilidade de conhecer a essência de Orson Welles mas explica o seu exemplar método estético e o modo político de fazer cinema. Este filme é exemplo disso.

O esplendoroso cenário onde as personagens se movimentam, se escondem umas das outras ou se escutam e vigiam em vários planos sucessivos e portas entreabertas.

A própria narrativa, centrada num menino orgulhoso e despeitado que vai destruindo os laços dentro de casa e fora dela, é caracterizada pela figura ressabiada «ausente-presente» da tia Fanny Amberson (Agnes Moorehead), afastando a atenção do casal impossível Eugene Morgan (Joseph Cotten) e Isabel Minafer (Dolores Costello), levando à colisão, quase destruição de Lucy Morgan (Anne Baxter) A 'anti-cena' do desmaio é inesquecível!

A cena da corrida na neve entre a charrete puxada a cavalos-músculo e o novíssimo carro movido a cavalos-vapor, opondo os jovens George e Lucy a toda a família e ao progresso na cidade, é de uma tensão maior e revela tudo sobre o motivo subliminar que o realizador quer impor. Acima de tudo, é de uma beleza incomparável!

Neste enorme filme, tudo parece ser dito pelo seu contrário num acto de retórica artística tão apurado que os percalços de produção parecem vir até sublinhar e o ridículo título em português tornar mais grandioso.

jef, setembro 2019

«O Quarto Mandamento» (The Magnificent Ambersons) de Orson Welles. Com Orson Welles (narrador), Joseph Cotten, Tim Holt, Agnes Moorehead, Anne Baxter, Dolores Costello, Ray Collins, Richard Bennett, Erskine Sanford, Anne O’Neal, Don Dillaway. Argumento e Diálogos: Orson Welles, segundo romance de Booth Tarkington. Fotografia: Stanley Cortez. Música: Bernard Herrmann. Produção: Mercury - RKO. (realizadores das cenas complementares: Freddie Fleck, Robert Wise, Jack Moss). EUA, 1942, P/B, 88 min.


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Sobre o filme «Sylvia Scarlett» de George Cukor, 1936















O filme é um caso de estudo e paixão, dos que reúnem um inicial e estrondoso desaire comercial, com o público a sair a meio da sala e os críticos a zurzir na fama do realizador, e, posteriormente, o crescente aplauso universal, tornando-se desses, vistos, revistos e escalpelizados até ao tutano pelos ratos de cinemateca. Diga-se, ratos de cinemateca de excelente gosto e crítica apurada!

«Sylvia Scarlett» é, realmente, assombroso e deixa qualquer um de cara à banda a pensar que, em 1936, ainda não existiam Truffauts, Godards, Antonionis, Kusturicas ou Tarantinos, a desviar o normal curso da história a seu bel-prazer com o público a rejubilar pelas incoerências ‘de estilo’ e as irreverências políticas, morais ou sexuais.

O filme é dominado por uma belíssima e vibrante marselhesa Katharine Hepburn (Sylvia Scarlett) que começa por cortar as longas tranças recusando casar-se para acompanhar o pai viúvo (Edmund Gwenn) que deve fugir para Londres por falcatruas financeiras, trocando de identidade de Sylvia para Sylvestre Scarlett. Já no barco encontra um galã, contrabandista e denunciante, Jimmy Monkley (Cary Grant) que fica atraído pelo belo ‘rapaz’ e propõe passarem a trio de aldrabões nos parques londrinos. Apenas um passo até se tornarem ladrões inconsequentes e depois, rapidamente, a trupe de vaudeville-saltimbancos formando um quarteto com a criada desafinada Maudie (Dennie Moore). Durante a tournée dos ‘Pink Pierrots’ encontram o diletante pintor Michael Fane (Brian Aherne) e a sua amiga particular Lily (Natalie Paley), e a história muda novamente de curso. O que estava a parecer uma comédia dramática começa a ser uma tragédia de género, onde Sylvestre / Sylvia se vê a espiar as raparigas na praia para lhes roubar o vestido, travestindo-se de si própria, para seduzir o pintor Michael Fane. Tudo anda trocado. O pai Henry Scarlett está doentiamente apaixonado por Maudie e a amiga do pintor, Lily, desencantada, cede o seu amor para Sylvia. Tudo parece acabar mal. Até que durante uma viagem de comboio…

Pode dar-se muitas voltas ao cinema mas será difícil encontrar um filme onde o realizador demostre uma maior agilidade para as rápidas mudanças de cenário ou uma tão grande intuição em gerir as reviravoltas de uma intriga “infinita”…

…Bem, jamais esquecerei Katharine Hepburn e Cary Grant em «As Duas Feras» de Howard Hawks (1938)! (também é de recordar que este filme existia antes de «Victor / Victoria» (Blake Edwards, 1982) ou «Crying Game» (Neil Jordan, 1992)).

jef, setembro 2019

«Sylvia Scarlett» de George Cukor. Com Katharine Hepburn, Cary Grant, Edmund Gwenn, Brian Aherne, Dennie Moore, Natalie Paley, Harold Cheevers, Lennox Pawle. Robert Adair, Lionel Pape, Peter Hobbes, Leonard Mudie, Harold Entwhistle, Adrienne D’Ambricourt, Gaston Glass, E.E. Clive. Argumento: Gladys Unger, John Collier e Mortimor Offner segundo o romance de Compton McKenzie. Música: Roy Webb. Fotografia: Joseph August. Produção: Pandro S. Berman / RKO Radio. EUA, 1936, P/B, 90 min.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Sobre o filme «Roma» de Federico Fellini, 1972.














«Alea jacta est», diz o professor, descalço, mostrando às crianças a ponderada determinação de Júlio César ao atravessar o Rubicão. Infelizmente não teve o mesmo sucesso instrutivo quando apresentou os slides sobre os importantes monumentos de Roma e, no final, surgem as voluntariosas nádegas de uma dona romana.

Em 1972, Federico Fellini já havia realizado «La Dolce Vita» (1960) e «Oito e Meio» (1963). Um ano depois faria «Amarcord» (1973). Todos filmes sobre o interior, o passado, talvez o futuro do realizador-poeta. Todos eles são mais ajustes de contas do que homenagens nostálgicas ou reverentes. Contudo, em nenhum deles a retaliação é tão nítida, talvez tão agressiva. Não é Júlio César que fala, é Fellini: «Alea jacta est». Avancemos para a monumentalidade de Roma, agigantada mas decadente, imperial mas enredada no catolicismo, com um enorme pretérito mas adulterado pela pressa de um futuro que não chegará.

O que existiu. O que existe. O cinema italiano sobre a época clássica que a Cinecittà de Mussolini difundia. As memórias de criança longe da capital (a mais de 340km de Roma, segundo a imagem inicial). As variedades do Teatro da Barafonda. A chegada deslumbrada do jovem Fellini que se afunda na castiça e truculenta, agitada e esfomeada, terna e musical, urbe. O triste bordel dos pobres. O infeliz bordel dos ricos. O palácio da princesa Domitilla e a passagem de modelos com os novíssimos paramentos litúricos…

Mas também a mais bela cena dentro do recente metro de Roma a destruir pela fruição da humidade frescos que deviam pertencer a um intocado futuro. É essa a poesia estratégica de um carinhoso e enraivecido realizador. Os engarrafamentos que acontecem durante as cheias na radial de Roma, os estudantes que exigem o cinema da verdade ao próprio Fellini e, por fim, essa corrida de motards inquietante e abstracta sobre uma cidade que já desapareceu sob a sensaboria dos turistas.
Um filme difícil e premonitório.
«Alea jacta est!»

jef, setembro 2019

«Roma» (Roma de Fellini) de Federico Fellini. Com Peter Gonzales, Fiona Florence, Marne Maitland, Norma Giachero, Britta Barnes, Pia de Doses, Renato Giovannoli, Elisa Mainardi, Paile Rout, Paola Natale, Marcelle Ginette Serboli, Amgela De Leo. Libero Frissi, Dante Cleri, Mimmo Poli, Galliano Sbarra, Alvaro Vitali, Marcello Mastroianni, Anna Magnani, Gore Vidal, Alberto Sordi, Federico Fellini. Produção: Lamberto Pippia. Música: Nino Rota / Carlo Savina. Itália / França, 1972, Cores, 119 min.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Sobre o filme «Variações» de João Maia, 2019















Segunda-feira. Cinema do Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa. Sessão das 18h15. A sala a abarrotar. Ou me engano muito ou este filme português sobre as aventuras de um português muitíssimo respeitável embora totalmente incomum, será um sucesso de bilheteira, tornando-se um caso de estudo. E com toda a justiça!

(Lembram-se de «Cinema Paraíso» (Giuseppe Tornatore, 1988) e «O Carteiro de Pablo Neruda» (Massimo Troisi e Michael Radford, 1994)?)

O filme contém elementos que, em conjunto, o fazem um dos filmes portugueses mais sérios, sinceros, honestos, discretos e comoventes. E como é difícil tocar (sem tocar) numa das figuras mais especiais e acarinhadas (porque não era de todo controverso) da música pop portuguesa dos anos 80. E o realizador João Maia consegue rodar todo o filme em torno das canções de António Variações sem o 'expor' ou beliscar qualquer dos temas ‘fracturantes’ adjacentes. Esses temas modernos que clamam por audiências e facilitam a crueldade mórbida e a curiosidade voyeurista que tanto ensopa a arte hoje em dia.

O filme centra-se nessa centelha, incompreensível talvez até para o próprio cantor, que o fazia amar de tripas, alma e coração a sua própria música. E tudo o resto é filmado com uma cortesia e elegância, quase deferência, que muito se aproxima da imagem bondosa que nós fazemos de António Variações, no televisivo «Passeio dos Alegres» de Júlio Isidro ou nas festas do Jornal «se7e» no Campo Pequeno. Isso é espantoso. É um filme sobre a bondade de que ele vivia e fazia viver. E isso é raríssimo num filme.

Também é um filme que fala com pinças da emigração para a capital e para a Europa, da guerra colonial, do avanço da epidemia da SIDA, dos afectos homossexuais ‘livres’, de um país que, após o 25 de Abril, se ia reconstruindo a ouvir o novo rock, o punk, a pop, a electrónica…

Claro, que o actor Sérgio Praia tem um papel importantíssimo nessa oclusão de persona dramática face à obra de arte. Sem desejar colar-se ao ‘cliché António Variações’, representa-o como se o estivesse a construir de dentro para fora. Não é ele mas entrega-lhe a totalidade da sua própria obra de arte. Um papel único de esplendor e desaparecimento. Claro que o rodeiam os actores Filipe Duarte, José Raposo, Teresa Madruga, Augusto Madeira ou Tomás Alves.

Este é um filme, acima de tudo, sobre a solidão. Essa solidão generosa, alegre mas aflita, que fazia António Variações compor, cantar e viver «A Canção do Engate», «O Corpo É que Paga» ou «Dar e Receber».

Por todas as razões (incluindo as razões formativas), e na minha modesta opinião, este filme merece esgotar as salas com gente de todas as idades.

jef, agosto 2019

«Variações» de João Maia. Com Sérgio Praia, Filipe Duarte, Victoria Guerra, Augusto Madeira, Tomás Alves, Madalena Brandão, José Raposo, Teresa Madruga, Diogo Branco, Eric da Silva, Lúcia Moniz, Miguel Raposo. Direcção musical: Armando Teixeira. Portugal, 2019, Cores, 109 min.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Sobre o filme «Era Uma Vez em... Hollywood» de Quentin Tarantino, 2019


















O filme vive em duas velocidades.
Existem os momentos pausados, quase carinhosos, em que Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), antigo herói de westerns televisivos, luta contra o tempo que o coloca agora nos estúdios de cinema de Hollywood dos finais dos anos 60. Novos cowboys que devem seguir as novas modas de vestuário e cabelos compridos para novas plateias. Ele chora ao ver esse tempo passar. Fuma e bebe muito. Mas tem o conforto de uma espécie de valete-pagem-irmão-duplo-motorista-bricoleur, Cliff Booth (Brad Pitt), com quem partilha quase tudo na vida. Cliff Booth vive o dia-a-dia sem questionar o tempo. Rick Dalton vive em Hollywood, em Cielo Drive. É vizinho de Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e Sharon Tate (Margot Robbie).

É o mesmo tempo lento em que Sharon Tate circula grávida e sorridente, vendo filmes, flanando encantada por Los Angeles, longe de Polanski por este ter viajado para outro continente. Tudo brilha e resplandece. Os carros são maravilhosos, o guarda-roupa extraordinário, a banda sonora magnífica.

Contudo, esse tempo de Woodstock (e Vietname!), de filmes, música e amor, tem o peso da História. Estamos no início do ano de 1969 e suspeitamos que terminará a 8 de Agosto de 1969, quando os acólitos e ‘familiares’ de Charles Manson partem, sanguinários, do rancho comunitário de Spahn em direcção a casa dos famosos vizinhos de Rick Dalton.

Claro que os factos reais, aqui, colocam o espectador, durante a maior parte do filme, em tensão máxima, transtornando de modo óbvio a suavidade da crise do Tempo que envolve a dupla Rick Dalton / Cliff Booth ou a luminosidade casta que cobre os passos de Sharon Tate.
Nesta duplicidade temporal Tarantino é, mais uma vez, fantástico!

Por outro lado, o realizador presenteia-nos, claro, com as suas cenas encarnadas em alta voltagem, de um suspense inacreditável, uma violência atroz, quer no rancho de Spahn, quer, finalmente, na casa de Rick Dalton.
É, neste momento de alta velocidade, o momento do sangue, quando o murro estala, o lancha-chamas ferve, a faca espetada aguça a hemoglobina, que o espectador, em catarse, aplaude, suspira de alívio e descansa!
Afinal, a realidade podia até ter sido diferente.

O cinema de Tarantino tem tido, ultimamente, essa função justiceira, alterando o rumo à História, sublimando os traumas colectivos mais impiedosos, fazendo a ficção moldar a realidade e deixando o espectador de cara à banda, a sorrir face à possibilidade de fantasia. Assim tem sido com «Sacanas Sem Lei» (2009), «Django Libertado» (2012), «Os Oito Odiados» (2015).
Nada mais há de ficcionalmente verdadeiro! Nada mais psicanalítico!

[E só os grandes realizadores – Martin Scorcese, Steven Soderbergh, irmãos Coen – conseguem extrair tanta energia criativa de um conjunto tão grande de actores. Maravilhosos!]

jef, agosto 2019

«Era Uma Vez em... Hollywood» (Once Upon a Time... in Hollywood) de Quentin Tarantino. Com Margot Robbie, James Marsden, Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Dakota Fanning, Tim Roth, Luke Perry, Al Pacino, Kurt Russell, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Dakota Fanning, Austin Butler, Bruce Dern, Damon Herriman, Rafal Zawierucha. Grã-Bretanha / EUA, 2019, Cores, 159 min.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Sobre o filme «Las Hurdes, Terra Sem Pão» de Luis Buñuel, 1932
















E eis que, em 1932, aparece o terceiro filme de Buñuel após o surrealismo estonteante de «Um Cão Andaluz» e «A Idade de Ouro». Um filme rodado num mês pelas terras montanhosas de Espanha, Las Hurdes, junto à fronteira com Portugal e pelas bandas da Serra da Gata. O dinheiro veio de um amigo anarquista que ganhara a lotaria e a vocação de o realizar chegou da leitura do relatório etnográfico do francês Maurice Legendre. Buñuel tinha regressado dos Estados Unidos e Espanha chegava à Segunda República que proibiu o filme após a exibição nos finais de 1933. Não era coincidente com as imagens que a república desejava dar do seu país (futuro).

Porque Buñuel afasta-se drasticamente do surrealismo e avança até à mais feroz realidade. Nota-se que o realizador fica mergulhado por aqueles factos atrozes que deseja muito filmar pois coincidem com os seus sonhos mais estranhos e incoerentes.

Porque a realidade que se vê no filme é brutal, estranha e ‘incoerente’! De surrealista Buñuel transforma-se em realista (ou neo-realista), apesar da nota final, apesar das forças progressistas o terem rejeitado.

E entende-se, causa ou consequência, como o sub-mundo da degradação humana de Las Hurdes veio moldar, aperfeiçoar ou simplesmente confirmar a estética do realizador. O modo cru de nos apresentar a miséria abjecta de Las Hurdes, talvez tenha sido o ‘golpe de sorte’ no meio do ‘azar supremo’ de uma região e de um povo, que veio deixar em carne viva o modo de filmar a sua fantasia interior. Outros, que não eu, chamar-lhe-ia “a obsessão de Buñuel”.

Entende-se, ainda, por estas imagens, a angústia secreta pela injustiça social e o afecto ‘escondido’ pelas crianças e pelos animais na obra de Buñuel.

Confesso. Após ter visto de enfiada mais de dezena e meia de filmes de Luis Buñuel, confirmo (a) que esta reportagem só poderia ter feita pelas suas mãos, (b) que me deixou um superior aperto no coração e nos olhos e o estômago virado do avesso. Luis Buñuel é um mesmo um génio e a sua obra transformou-se para mim, a partir de agora, verdadeiramente psicossomática.

jef, agosto 2019

«Las Hurdes, Terra sem Pão» (Las Hurdes) de Luis Buñuel. Com os habitantes de Las Hurdes. Voz off de Francisco Rabal. Argumento: Luis Buñuel, baseado no estudo etnográfico de Maurice Legendre. Fotografia: Eli Lotar. Música: 4ª Sinfonia de Brahms. Produção: Luis Buñuel. 1932, Espanha / França, 29 min.

Sobre o filme «A Idade de Ouro» de Luis Buñuel, 1930





















E um ano depois de «Um Cão Andaluz» surge «A Idade de Ouro». Afinal, havia sucessor na fama, na irreverência, na liberdade de filmar. No espanto. Mais Buñuel que Dali, já com uma verba substancial em francos cedidos pelos excêntricos Viscondes de Noailles (mecenas também de Man Ray e Jean Cocteau), em vez das pesetas da mãe Buñuel. Produção em grande. Argumento com uma possível história a ser seguida. Um escândalo. Apenas treze dias em cartaz na cidade de Paris, em vez dos oito meses do filme anterior. O cinema atacado por grupos de direita. Petardos lançados. Cadeiras partidas. 50 anos de proibição. Só em 1982 foi visto em Portugal.


Luis Buñuel consegue o impossível. Levar o segundo filme até ao patamar do primeiro em conceito estético, em discussão ética. Talvez mesmo ultrapassando-o, quem o poderá afirmar?

Numa ilha deserta os escorpiões fazem pela vida (ou pela morte). Tal como o grupo indigente de bandidos. Tal como um grupo de bispos que, em tempo, passam a esqueletos. Um conjunto de altos dignitários desembarcam para ali lançar a primeira pedra de Roma Imperial, mas o discurso é interrompido pelas cenas de afecto apaixonado de uma mulher (Lya Lis) e de um homem (Gaston Modot) no meio da lama. Ela é banida, ele vai preso, mas reencontram-se numa festa que não é perturbada pelo guarda que mata com tiros de caçadeira o próprio filho. Eles reencontram-se mas o amor aproxima-se da morte e da não consumação. Ela chupa libidinosamente o pé de uma estátua de um deus clássico, ele acaricia-se entre as penas brancas saídas de uma almofada esventrada. Parecem apaixonadamente desesperados. Uma vaca deve sair da cama. Um bispo, defenestrado, assim como uma girafa e um velho arado. Entretanto, no castelo de Séligny, as orgias sucedem-se, como em «120 Dias de Sodoma» de Sade. Mas o Duque de Blangis é Cristo!

A revolução e a psicanálise, dois dos motes do surrealismo, estão lá. De Luis Buñuel, tudo. A surpresa, a velocidade das cenas, as personagens como que suspensas ou encarceradas nos seus desejos. Também os animais, as cordas, os objectos como personagens ou como vítimas, o amor desvairado, a impossibilidade do amor e a morte, interligados, a igreja e o poder. A narrativa que acolhe o inexplicado como vocação e adesão da lógica de quem assiste… Está lá tudo como estará em «Este Obscuro Objecto de Desejo», o último filme, em 1977.

O que representará este filme, afinal, não para a História do Cinema mas para o espectador que o vê hoje, numa sala de cinema, em horário comercial, depois de sair do trabalho e antes do quotidiano o invadir novamente?

jef, agosto 2019

«A Idade de Ouro» (L’Âge d’Or) de Luis Buñuel. Com Lya Lis, Gaston Modot, Max Ernst, Pierre Prévert, Caridad de Laberdesque, Germaine Noizet, Duchange, Evardon, Joseph Albert, Marval, Manuel Ángeles Ortiz, Ibañez, Valentine Hugo, Lionel Salem, Llorens Artigas, Jacques B. Brunius, Marie-Berthe Ernst, Jacques Prévert, Firmo, Enrique Maula, Mario Call, Pancho Coll, Simone Cottance, Xaume Miravitlles, Pedro Flores, Jean Aurenche, Juan Esplandiá, Joaquin Roa, Pruna e a voz off de Paul Éluard. Argumento: Luis Buñuel e Salvador Dali. Fotografia: Albert Duverber. Música: Georges Van Parys, Mendelssohn, Mozart, Beethoven, Debussy, Wagner, ‘paso-doble’ e os tambores de Calanda. Produção: Visconde e Viscondessa de Noailles. 1930, França, P/B, 62 min.


quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Sobre o filme «Um Cão Andaluz» de Luis Buñuel, 1929













Ou me engano muito ou o primeiro filme de Luis Buñuel, «Um Cão Andaluz», é o famosíssimo, o mais revisto, mais discutido, mais estranhado, de toda a sua carreira. Um dos mais importantes filmes da História do Cinema. Tem 18 minutos e não se explica, aliás como pretendiam os argumentistas, Luis Buñuel e Salvador Dali, quando o escreveram em menos de uma semana, baseado em sonhos recorrentes que iam contando um ao outro. Um filme que o lado racional do córtex jamais explicará. Apenas interpretável pelo outro lado, o lado sensorial, dos sentidos, o nosso lado ‘visível’. Olhado pelo olho impassível que logo nas primeiras imagens-ícone é corrompido e vazado por uma lâmina afiada com esmero. Tocado por uma mão corrompida pelo trabalho incessante das formigas, decepada depois. Mãos que apalpam as mamas de uma mulher que se oferece mas se nega a ser 'corrompida' por um homem-não-homem-sem-boca que arrasta com o esforço dois padres / dois pianos de cauda / dois burros mortos e a sangrar. Nada que uma certa ‘caixa de esmolas’ não possa significar. Nada que não fique apaziguado por um passeio dado à beira-mar pelos amantes. Um happy-end. O superlativo absoluto do surrealismo de «Um Cão Andaluz»!

jef, agosto 2019

«Um Cão Andaluz» (Um Chien Andalou) de Luis Buñuel. Com Pierre Batcheff, Simone Mareuil, Luis Buñuel, Salvador Dali, Xaume Miravitlles, Marval, Fano Messon. Argumento: Luis Buñuel e Salvador Dali. Fotografia: Albert Duverber. Sonorização em 1960 segundo indicação do realizador com fragmentos da ópera “Tristão e Isolda” de Wagner e tangos argentinos. Restaurado em 1993. Produção: Luis Buñuel. 1929, França, P/B, 18 min.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Sobre o filme «Ensaio de um Crime» de Luis Buñuel, 1955
















Quando comecei a perceber a divertida direcção que o filme levava lembrei-me de um dos mais ternos e obscuramente esquecidos filmes de Alfred Hitchcock: «O Terceiro Tiro» (1955). Aquele em que a floresta parece um cenário de papelão (ou vice-versa) e todos desculpam o vizinho próximo de um suposto assassinato que afinal não aconteceu.

Só que em «Ensaio de um Crime» é o pobre (mas rico) e frustrado Archibaldo de la Cruz (Ernesto Alonso) que bem deseja matar, porém as tristes circunstâncias da vida impedem-no de ser um assassino encartado, bem como um aristocrata sexualmente consumado. Como se o desejo e o destino estivessem de má vontade e o impedissem, a cada segundo, de tocar a morte e o sexo.

Tudo começa durante a revolução mexicana, no interior da confortável casa de uma rica família onde o menino mimado Archibaldo de la Cruz que odeia a baby-sitter, recebe uma caixa de música que, segundo a lenda, lhe permitirá concretizar os seus maiores desejos…

…a partir daí, todas as imagens-símbolos de Buñuel começam a surgir de modo desenfreado e louco, envolvendo Archibaldo numa correria para concretizar finalmente o crime ansiado. As mulheres mais bonitas perseguem-no: Lavinia, a falsa e a verdadeira (Miroslava Stern); Patrícia, a lasciva amante de um velho que prefere ser enganado a desconfiado (Rita Macedo); Carlota, a menos casta noiva (Ariadna Welter). São depois as navalhas, bengalas, objectos-fetiches, símbolos fálicos. Copos de leite, sapatos femininos, roupa interior, mulheres duplicadas, símbolos maternais e edipianos. Caixas de música com bailarinas afogadas, freiras em fuga, quartos como celas, hospitais, camas e pijamas, troca de roupas, tudo muito púdico a um passo da derradeira perversão. As chamas, o fumo, o sonho, a toldar a realidade e o desejo. Mulheres que são ‘santas’ mas se oferecem em ‘sacríficio’ aos amantes. Um bolo de noiva a sair de um carro funerário. Tiros perdidos que matam, deixando, libidinoso, o sangue a escorrer pela pele. E a vida de um gafanhoto que, por fim, talvez venha a ser poupado pela ponta da bengala de Archibaldo quando, por um acaso, este reencontra Lavinia no recanto onírico de um jardim-floresta:

«Onde é que vai?»
«Para onde você for.»
«Que coincidência!»

Uma absoluta pérola do non-sense surrealista!

jef, agosto 2019

«Ensaio de um Crime» (Ensayo de un Crime) de Luis Buñuel. Com Ernesto Alonso, Miroslava Stern, Rita Macedo, Ariadna Welter, Rodolfo Landa, José Maria Linares Rivas, Andrea Palma, Leonor Llausas, Eva Calvo, Rafael Banquells Jr., Enrique Garcia Alvarez, Chabela Durán, Manuel Dondé, Carlos Martinez Baena, Carlos Riquelme, Roberto Meyer, Enrique Diaz Indiano, Armando Velasco, Antonio Bravo, Janet Alcoriza. Argumento: Luis Buñuel e Eduardo Ugarte baseado no romance «La Vida Criminal de Archibaldo de la Cruz» de Rodolfo Usigli. Fotografia: Agustín Jiménez. Música: Jorge Pérez Berrera, Produção: Alianza Cinematográfica / Alfonso Patiño Gómez. 1955, México, P/B, 90 min.