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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Sobre o livro «Correios» de Charles Bukowski, Antígona 2010 (1971)















«Onze anos. Apesar de cada noite ter sido longa, os anos passaram depressa. Talvez fosse por ser trabalho nocturno. Ou por fazer a mesma coisa repetidamente.» diz Henry Chinasky, homem bom e inteligente, hábil com a caneta, amigo dos seus amigos e dos animais, relativamente cumpridor da lei dos Correios, local onde distribui a correspondência por cacifos numerados, em modo cronometrado. Também é muito, muito amigo das mulheres e do sexo, da bebida e das corridas de cavalos. Violento? Só quando o tentam roubar e vê brilhar a lâmina da navalha… O GPS diz que estamos nos Estados Unidos da América, 1969, o país da pré-guerra, dos conflitos raciais, dos cowboys e dos búfalos, da «supervisão científica». Se pedissem para colocar neste livro os pontos cardeais da narrativa exemplar, eu diria que era uma comédia sexual, nostálgica e terna, sobre a resistência à ressaca e aos males do amor; uma crónica sobre a sobrevivência à frustração. Um libelo moral que ensina ser o humor e a inteligência as grandes ajudas contra a adversidade e a solidão.

jef, outubro 2013 / novembro 2016

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Sobre o livro «Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher» de Stefan Zweig. Livraria Civilização, 8ª edição,1949. Tradução de Alice Ogando. Capa de Roberto Araújo.


















(a)
Eduardo Lourenço num recente Jornal de Letras diz:
«Sem um sublime filme de Max Ophüls o nome de Stefan Zweig talvez não dissesse grande coisa à jovem geração. Para a minha, o autor de Confusão de Sentimentos e Amok dizia de mais. Para a geração crítica que então, como é norma, separava sem complacências os vivos dos mortos, o pobre Stefan Zweig, puro produto da Viena misteriosa dos começos do século, tinha o pecado sem remissão de ser lido por toda a gente. A celebridade torna-o, entre nós, um autor maldito.»

O filme referido é «Carta de uma Desconhecida» que Max Ophüls realizou em 1948. Acrescentaria eu, humildemente, «O Medo» de Roberto Rossellini de 1954. Muitos outros filmes foram realizados à sombra das letras de Stefan Zweig. Os filmes são recordados, o autor das novelas não. Injustiça plena para quem realmente era lido por toda a gente! Quem não encontra nas estantes perdidas as edições da Livraria Civilização?
Felizmente a Assírio & Alvim, a Antígona e a Relógio d’Agua, voltaram a colocar o famoso-esquecido autor austríaco nas prateleiras.

Stefan Zweig pertencia à elite iluminada de uma Europa ecuménica e galante, culta, ávida pela novidade poética mas distraída perante a novidade política, digamos antes, fleumaticamente distante da intriga social e económica de um continente que germinava a crise como um furúnculo. E tal como muitos judeus ricos, Stefan Zweig não se sentia judeu, apenas europeu. E foi surpreendido.

(b)
«A maior parte das pessoas possui apenas uma imaginação fraca. O que não as fere directamente, enterrando-se-lhes como uma punhalada em pleno cérebro, não as chega a impressionar; porém, se diante dos seus olhos se produz qualquer coisa, mesmo de pouca importância, mas que esteja ao alcance da sua sensibilidade, imediatamente brota nelas uma paixão desmedida. Assim, com uma veemência imprópria e exagerada, essas pessoas compensam, de certo modo, o pouco interesse que têm pelos outros acontecimentos.»

Logo na primeira página, Stefan Zweig monta a estratégia desta novela de reflexos, olhares e confissões. Estamos na casa de espelhos de uma pequena pensão da Riviera burguesa. 1904. Todos os olhares se concentram à mesa da refeição. O mundo torna-se pequeno. E uma comensal deixa a família e evade-se com o seu jovem apaixonado.

Este é o caso que irá despoletar toda a história que é contada ao narrador que é igualmente o leitor, o juiz, o padre, o psicanalista. É necessário contar para ser julgado e compreendido, para libertar a pena, para ganhar a confiança, para matar o preconceito.

«Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher» reflecte esse extraordinário jogo de reflexos narrativos, de monólogos e ouvintes, de confissões e perdão, de rostos estáticos e mãos ávidas. Reflexos que a noite faz concentrarem-se a sobre o objecto observado.

Stefan Zweig tem, no fundo, horror ao preconceito, ao falso juízo que tolda a liberdade individual e leva os de pouca imaginação a exagerarem e, em última instância, a restringirem a liberdade colectiva.

(c)
«Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher» é um livro cheio de recantos misteriosos e Stefan Zweig escreve muito bem. Contudo, como refere Eduardo Lourenço, era lido por toda a gente. E, como muitos outros judeus, o autor foi derrotado por quem saiu derrotado na Grande Guerra. Causa essencial do estratégico esquecimento universal.
Dupla maldição!

(d)
Nota: a ilustração da capa desta edição é do artista modernista Roberto Araújo Pereira (1908-1969).


jef, outubro 2016

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sobre a leitura de «A Liberdade de Pátio» de Mário De Carvalho, Porto Editora 2013














Sobre a leitura de «A Liberdade de Pátio» de Mário De Carvalho, Porto Editora 2013

Entender a leitura de Mário de Carvalho, em especial «A Liberdade de Pátio», é reflectir sobre o que nós, leitores, pretendemos da literatura. Coisa imprescindível para quem preenche parte do tempo com livros e, acima de tudo, se entretém a ler.

Tal como sucedeu em «O Homem do Turbante Verde» (2011), os sete contos do último livro publicado pelo autor estão divididos por estâncias. Desta feita, três: «Névoas», «Esgares», «Vincos». Pois coisas pouco definidas, difíceis de narrar a terceiros, imagens mais sentidas que digeridas, voláteis, efémeras. Uma subordem proposta para que possamos separar e juntar o que não existe, em jogo de peões, pedras e dados. A nosso bel-prazer. (a) o Realismo sem prefixos ou adjectivos serôdios e académicos; (b) a Liberdade limitada pelo pátio que o paradoxo lhe transmite; (c) o que na vida se torna Insólito e, por fim, (c) o Riso, sem o qual a percepção da realidade desvanece em insuportável tédio.

A literatura como deve ser é assim: íntegra, consciente do seu passado, extravagante, divertida e forte! Jamais modernista!

«A Liberdade de Pátio» e «O Homem do Turbante Verde e Outras Histórias» são fundamentais para nos conhecermos como leitores!

jef, novembro 2013 / outubro 2016

«O Homem do Turbante Verde e Outras Histórias», Caminho 2011

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

sobre o livro «A Lebre de Olhos de Âmbar – Uma Herança Escondida» de Edmund de Waal, Sextante 2012














[É bom não esquecer épocas, não esquecer histórias, não esquecer livros inesquecíveis. Não esquecer a nossa própria história. Eram dias cinzentos, de eleições europeias... Março de 2014.]

As lágrimas das coisas.
Neste tempo de carnavais tristes, muita chuva, orelhas moucas e falas curtas, termino a leitura de Edmund de Waal. Um livro que, certo dia, Rui Cardoso Martins me instigou a ler. Respiro fundo, o silêncio incha, releio as últimas páginas e digo para mim próprio que nunca o esquecerei. Há livros assim, que pedem mais de nós, mais consciência, mais tempo. Lágrimas também. Revejo as ilustrações que acompanham o decorrer dos capítulos e pergunto-me como é possível estar de novo a ler a mesma história. Estar de novo sem entender como é possível aquela lógica. Penso no presente e não no passado, ao dar conta de umas eleições europeias, muito próximas, agitadas por Marines Le Pens a ocidente, Auroras Douradas mais a leste, e pelo meio…
No final do livro, Viktor Ephrussi conta aos netos como Eneias chora ao ver retratada nas paredes de Cartago a perda irrecuperável da sua Troia. «Sunt lacrimae rerum», as lágrimas das coisas. Agora está refugiada em Inglaterra a velha colecção das 264 figurinhas japonesas em marfim e madeira polidos, meio-talismã, meio-berloque, meio-brinquedo – os netsuke –. Fora (dentro) da sua história natural, distante da sua identidade, sacada da sua casa, da sua vitrine.
Esta é a história de pequenos objectos tácteis, mas é sempre a mesma história, aquela contada de cor por Stefan Zweig, longe da pátria e das estantes; aquela que Amos Oz conta, também ela ilustrada por uma simples fotografia a meio de um livro de amor e de trevas. Edmund de Waal conta-nos como o tacto e a pele e os músculos podem sentir o esplendor e o estupor, a suavidade e a rugosidade de objectos que fazem parte da História da Arte e da Iniquidade Humanas.
Desta história irrecuperável não podemos escapar. O melhor é voltar a lê-la.

jef, março 2014 / outubro 2016

+
«O Mundo de Ontem» de Stefan Sweig, Civilização 1953
«Uma História de Amor e Trevas» de Amos Oz, Asa 2007

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

«Neo-Realismo: da Arte e da Razão». Sobre a leitura de «Barco sem Âncora» de José Loureiro Botas, Portugália Editora 1963













Sobre a leitura de «Barco sem Âncora» de José Loureiro Botas, colecção O Livro de Bolso n.º 44, Portugália Editora 1963.

[Vem o presente texto a propósito do esquecimento do neo-realismo e de um certo «desprezo sobranceiro» que a crítica parece derramar sobre os seus autores. Da série «Neo-Realismo: da Arte e da Razão».]

O que farão os livros para serem esquecidos?
Quem ler estes contos dificilmente passará ao lado das alegrias e das dores das gentes da beira-mar de Vieira de Leiria. Por ventura, o vigor social fará esquecer o modo hábil, melodramático, operático, com que José Loureiro Botas arrasta o leitor através da geografia de um povo. Quando escreve: «Fala Zé Catrau, pescador», o autor devolve o discurso directo à realidade e oferece-lhe a bela fórmula cronista, tão velha quanto contemporânea. Os diálogos e os quadros paisagísticos são agilíssimos, as narrativas de comoção romântica e o conto visivelmente autobiográfico com que encerra o livro, «A Mãe», abre todo o poder afectivo do autor à profundidade da memória. (A capa é bela e da autoria de João da Câmara Leme).

Há livros que não foram feitos para serem esquecidos!
(1) Como não conhecer José Loureiro Botas?
(2) Por que continuarão a negar o valor certo ao neo-realismo? Não residirá nele influência bastante para autores presentes como Mário de Carvalho, Rui Cardoso Martins, Mia Couto, Lídia Jorge, José Eduardo Agualusa, David Machado, Valter Hugo Mãe, Afonso Cruz, Pepeteta, Ana Margarida de Carvalho…?

jef, novembro 2014 / outubro 2016

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Sobre o livro «O Deserto dos Tártaros» de Dino Buzzati, Cavalo de Ferro 2008


















Dizem que não há muitos temas para a literatura. A Morte e a Guerra, seguramente. A Solidão, se quisermos acertar em 99% da crítica.
Pouco mais.
Enfim, depois temos «A Cidade e as Serras»... Irreverentemente luminoso mas publicado no início do século passado, após a morte do autor.

«O Deserto dos Tártaros» tem o condão de colocar a Morte, a Guerra e a Solidão em pé de igualdade e no interior do labirinto do tempo, condensando a humanidade num átomo apenas:
“O que fizemos com o tempo que nos foi já concedido, o que faremos com o restante, sabendo que o que ficou para trás vai sempre aumentando e o que virá será sempre mais curto?”
E tendo a certeza de que a linha do tempo não é rectilínea, nem sequer curva, é mesmo labiríntica.

O jovem tenente Giovanni Drogo sai de casa da família quando é colocado, numa manhã de Setembro, na Fortaleza Bastiani. Decrépita fortificação castrense esquecida entre a vida influente da cidade e o deserto dos tártaros. Será apenas mais um dia da sua juventude a ser vivido.

Mas a Fortaleza Bastiani é um labirinto estranho, digamos «Escheriano», onde o velho passado vive apaixonado pelo futuro, mas onde muito pouco acontece. Apenas as circunstâncias condicionantes e as escolhas duvidosas podem indicar a saída e a alteração de um «destino».

Este é um livro sobre a capacidade de decidir face ao correr do tempo, de segurar o que não é tangível, de conquistar o imprescindível, de nos aproximarmos da metafísica.

«O Deserto dos Tártaros» é, acima de tudo, um livro sobre a Liberdade. Sobre essa faculdade, quantas vezes existencial, de que Mário de Carvalho nos fala num dos mais assombrosos contos da literatura universal. «A Liberdade de Pátio».

Nota: num livro desta dimensão temporal, geográfica e arquitectónica, a revisão deveria ter sido mais aturada e a tradução mais ponderada.

jef, outubro 2016

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Sobre o livro «O Torcicologologista, Excelência» de Gonçalo M. Tavares, Caminho 2015.

A escrita de Gonçalo M. Tavares organiza as ideias. É sabido.
Dá corpo a essas ideias. Lembra que vêm de algum lugar, de algum tempo. E que o corpo, o nosso, também não nos chegou por geração espontânea ou criação. Mas que não resiste sem criatividade. A ela deve ele o futuro.
A ideia e o corpo não estão sós no mundo.
Aliás, como nós [corpo / ideia] também não estamos sós do mundo, por mais que, por vezes, isso nos estranhe.
Há sempre um antes, um depois, um acima, um abaixo, um melhor, um pior, um maior, um menor…
A organização do corpo das ideias segundo o autor demonstra que ela se procede através de catalogação, silogismos, interpretação de sinais, resolução da linguagem. A do interior de cada um de nós e aquela que serve para dialogar com os outros. 
O diálogo em Gonçalo M. Tavares é essencial. Revela que existe múltiplas organizações. Enfim, um sistema múltiplo e democrático.

O Caderno 36 da sua Biblioteca é composto por dois textos dirigidos para o teatro, logo ao diálogo. É um veículo da compreensão (entendimento + integração) e contém dois capítulos: 1. Diálogos; 2. Cidade. Este último, com 19 páginas, dedicado à gestão urbana do silêncio. O diálogo com sinal negativo.

O primeiro, o corpo maior do livro, respeita o discurso partilhado entre duas corteses, delicadas, cerimoniosas, Excelências. Em palco, em confronto de palavras, em movimento constante. Com didascálias e tudo o resto.

Nunca o discurso do autor assumiu um ponto tão alto de humor. Um humor brilhantíssimo! Um humor excelentíssimo!

«O Torcicologologista, Excelência» é um livro bonito, divertido, sensato e absurdo, infantil e adulto! Apetece lê-lo em voz alta, para os outros. Lê-lo ao serão. 

E que família (em corpo e ideia) se prepare!

jef, outubro 2016

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Sobre o livro «A Apologia do Ócio / A Conversa e os Conversadores» de Robert Louis Stevenson, Antígona 2016. Tradução: Rogério Casanova.

                                                                                        











«Muitos dos que se “agarraram aos livros com diligência”, e tudo aprendem sobre um ou outro ramo do conhecimento comum, emergem da sala de estudos com um semblante de coruja velha, e revelam-se rígidos, ineptos e dispépticos nas mais luminosas e agradáveis partes da vida. Muitos acumulam grandes fortunas, mantendo-se pouco refinados e pateticamente estúpidos até ao último dos seus dias. E entretanto vai o gazeteiro...»

«O excesso de actividade, na escola ou no colégio, na igreja ou no mercado, é sintoma de uma vitalidade deficiente; enquanto a capacidade para o ócio implica um apetite ecuménico e uma vigorosa identidade pessoal.»

«As palavras certas saem-lhe por vezes da boca, quase por acidente; e, vinda de lugares mais profundos, atingem-nos de forma mais pessoal, pois estão envoltas na velha crosta de humanidade, rica em sedimentos e humor.»

O Ócio é lugar de conhecimento e reflexão, a Escola é o seu lugar. A conversa é o lugar da retórica, do diálogo, da ideia comum, da Liberdade e da Democracia. Assim dizem os antigos, que gregos foram, dizem outros e também Robert Louis Stevenson que tão bem escreve e com tamanha graça. Soa-me à distância próxima: Sócrates, o velho, «O Elogio da Loucura» de Erasmo de Roterdão, «A Ideia de Europa» de George Steiner, «O Prazer do Texto» de Roland Barthes, e por aí fora… Os textos são como as cerejas!

Que alívio ler Stevenson sobre o ócio e a conversa após ter visto o filme «Experimenter» de Michael Almereyda (1915) sobre Stanley Milgram, Adolf Eichmann, o controlo, a mentira, a repugnância, a manipulação, ódio e o pior silêncio.

jef, agosto 2016

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Sobre o livro «A Morte de Ivan Iliitch» de Lev Tolstói, Relógio D’Água 2007. (Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra. Posfácio: Vladimir Nobokov)















Uma morte comme il faut ou a melhor maneira de chegar a tempo a uma agradável partida de whist.

Sobre a morte de Ivan Iliitch Golovin, nada há a dizer. Ivan Iliitch morreu aos 45 anos.
Sobre a vida do protagonista, o caso é mais complicado. Tolstói refere no início do segundo capítulo: «A história acabada da vida de Ivan Iliitch era das mais simples, vulgares e terríveis.» Nobokov acrescenta no posfácio: «Ivan viveu uma vida má e visto que uma vida má é apenas a morte da vida, este viveu uma morte viva.»

Mas sobre que perspectiva poderemos julgar nós a vida? Juiz em causa própria é mau juiz e a faculdade de julgar muda de luz consoante a meteorologia do dia que nasce. Diz o Senhor Kant.

Tolstói é genial. Vai rodando, sondando, perspectivando de todos os cantos da sala e do quarto, os brocados, a mantilha de Praskóvia Fiodorovna que fica presa numa farpa da mesa, o pouf que se amotina contra Piotr Ivánovitch, o reposteiro inexpugnável que, afinal, venceu Ivan Iliich, este que desejava apenas viver a vida de modo agradável, segundo as regras do decoro. Tudo é dado com lógica semântica e social que, apesar de rigorosa, é brutalmente modificada ao longo dos 12 sucintos capítulos. É a vida impossível de julgar, mas sempre julgada, que chega ao ponto de ruptura. Sem conclusão e torturando quem a pretende decidir mas enfastiando todos os demais (excepto talvez a pureza do jovem copeiro Guerássim.)

Para que queremos nós, leitores, então viver? Esta enorme novela de 95 páginas dá-nos todas as respostas consequentes. E por Tolstói nos dar todas elas acabamos por ficar sem nenhuma.

Confuso? Voltemos então ao início do livro, como refere Valério Romão no episódio de «Os Livros» coordenado por Inês Fonseca Santos, RTP 3.

[Apesar de eu saber que comparar é limitar, digam-me lá doutos leitores: não existirá qualquer ligeira correspondência, coisa de inconstância, de existencialismo frustrado, metamorfose circunstancial, de julgamento apressado e distraído dos outros, que resvala igualmente sobre a quitina involuntária de Gregor Samsa?]

jef, agosto 2016

terça-feira, 26 de julho de 2016

Sobre os livros «O Meteorologista» e «Sibéria» de Olivier Rolin, Sextante 2015 / Tinta da China, 2016.















Com Olivier Rolin o leitor aprende a orientar-se olhando o planisfério. (Obriga-o a olhar o Espaço e o Tempo em simultâneo.) Entende por que os cursos de História e de Geografia sempre andaram ligados. Por que os livros de História são ilustrados por tantos mapas coloridos. Percebe que a memória, tal como sugere Gonçalo M. Tavares, resolve tanto a distância a que se encontra alguém ausente como o passado que ainda está por resolver.
Com Olivier Rolin, percebe que a ficção, a melhor ficção, enterra os pés, como raízes, no sentido geográfico e emocional da realidade.
«As histórias não caem do céu nem das nuvens, não me parece mal que apresentem credenciais.»
O autor viaja muito e a paisagem é um dos seus portos de abrigo. Talvez o principal. Ele lê muito. A literatura fá-lo concretizar a paisagem que lhe interpreta a linguagem.
Sibéria.
«“Campo”, naturalmente, é uma palavra despropositada. A Sibéria, campo?... Como já disse a respeito de Irkutsk, há palavras francesas que significam coisas, paisagens francesas, nada adequadas às coisas ou paisagens russas. A Sibéria não é “província” nem “campo”, é um continente. Talvez a palavra “solidão” fosse melhor, no seu sentido antigo e latino de “local deserto”. Vastae solitudines
Então o vasto continente é mais de Tchékhov do que de Cendrars.
Olivier Rolin ensina-nos a interpretar a solidão. A nossa solidão.
O autor também ensina a perversidade de comparar-se os pesadelos da História. Comparar Auschwitz, na Polónia, com Kolimá, na Sibéria, é relativizar sofrimentos, e o sofrimento pertence a cada corpo, a cada alma, na sua individualidade única. Mesmo assim, a comparação é válida por trazer ao (re)conhecimento o Gulag, bem menos «famoso» que os campos nazis.
Olivier Rolin faz-nos viajar ao mar Branco, até às ilhas Solovki, fim do trajecto de Alexei Feodossievitch Vangengheim. Entusiasta meteorologista, entusiasta da realidade soviética, director do serviço Hidrometeorológico da URSS, para ali transferido em 1934. Mais tarde, integrado na memória fotográfica patente em postes enterrados na neve. «Floresta dos Fuzilados».
«O Meteorologista» termina com o mais comovente álbum ilustrado que o protagonista foi enviando à sua filha, Eleonora. (Herbário Aritmético e Geométrico, Bagas, Animais, Adivinhas, As Plantas e o Clima, Cartas).

Olivier Rolin, um dos mais importantes escritores contemporâneos da paisagem e da consciência.

jef, julho 2016

sábado, 23 de julho de 2016

Sobre o livro «Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato» de Ana Margarida de Carvalho, Teorema 2016.

Ana Margarida de Carvalho atira-nos à tormenta. Entre o céu dos pardais e o mar dos naufrágios somos navegados através da metáfora. A Nave dos Loucos, Robinson Crusoé, Dois Anos de Férias, A Ilha do Tesouro, O Deus das Moscas, Gulliver, Ulisses… A viagem eterna, ou seja, a viagem sem retorno.
A solidão de uma praia é o mais apetecível ponto de chegada mas, igualmente, o mais intransigente local para partir. Aqui, Alexandre O’Neill, José Mário Branco, Caetano Veloso, Dostoievsky, Marisa Monte, Paulo Varela Gomes…
Que não se espere a benevolência de uma natureza revoltada, de um Deus inclemente, do passado inconformado. 
Assim sempre será!
«A inferior condição do ser humano quando a única força de que dispõe é a de ter muita fome.»
«Talvez deixar-se dormir, e ir-se assim, embalado num barco tempestuoso e bêbado que é o próprio corpo.»
«O caos é uma das ordens de Deus, porventura, a lei por ele mais praticada.»
«Os deuses não nutrem pingo de interesse pela condição humana e percebem tão pouco de religião.»
Mas devemos continuar. Sempre. O regresso está vedado.
Pela imolação do anho ao sagrado, e são tantas as criaturas inocentes sacrificadas, a escritora dá largas à veia de narrar o passado dos passageiros naquela praia de acolhimento infernal até os vir colocar num presente eternamente inconclusivo e amoral, cravado nas viagens clandestinas de escravos após a abolição da tal lei. 
África, Brasil, Portugal.
Como se Ana Margarida de Carvalho nos avisasse. Como se ouvíssemos dizer que a viagem é perigosa, que a literatura é um lugar estranho, muito mais implacável do que a morte, bem mais compreensivo do que a sobrevivência.

jef, julho 2016

segunda-feira, 4 de abril de 2016

















Sobre o Grande Prémio de Conto «Camilo Castelo Branco» (C.M. Vila Nova de Famalicão / APE) atribuído a Mário de Carvalho por «A Liberdade de Pátio». Terça-feira, 25 de Novembro, 19h15. Biblioteca das Galveias, Lisboa.

Hoje, vá lá conhecer a razão, apeteceu-me escrever sobre os meus escritores, aqueles que passam a vida a ampliar o Mundo, mas também pagam ao fisco e fazem muitas contas. As de cabeça e as outras.

Hoje, prefiro pensar no prémio que darão no dia 25 de Novembro ao livro «A Liberdade de Pátio» de Mário de Carvalho. Sim, é sabido, a minha leitura é devota à escrita deste autor [uso aqui a palavra com o significado de «dedicada» e não de «consagrada», pois de sagrados está o Inferno (e o DCIAP) cheio.] E se, algum dia, eu fosse compelido a escrever uma tese qualquer escolheria por tema as quatro direcções que levam os contos curtos de Mário de Carvalho. Desde «Contos da Sétima Esfera» (1981), onde tais os azimutes surgem livres e desarrumados, até a «O Homem do Turbante Verde» (2011), onde o autor resolve distribuí-los com a parcimónia dos capítulos. 

A minha tarefa estaria bastante facilitada. Bastaria seguir o rumo dos recipientes. A saber:
(1) consciência do Mundo e da Política
(2) consciência do Belo e da Estética
(3) consciência da Liberdade narrativa e do Realismo
(4) consciência da Imaginação, da Fantasia e do Humor.

A realidade é que, mais tarde, em 2013, o pequeno conto que dá título ao livro «A Liberdade de Pátio» vem apresentar os quatro factores rigorosamente multiplicados (e.g.):

(a) o confinamento inexplicado a que a sociedade vota o professor e a sequente kafkiana liberdade pátio.
(b) o rigor estético e gráfico com que o velho guarda rabisca a carvão a escrita cantada dos melros.
(c) O círculo perfeito que o texto descreve seguindo as viagens do encarcerado, levando-nos a uma cadeia infinita de penas e prisões, sugerindo o ciclo infinito dos pesadelos recorrentes.
(d) O uso imaginário de masmorras (à Alexandre Dumas), alternando o lúgubre antro repleto de invertebrados parasitas à sugestão de lautas refeições oitocentistas, onde a hipócritas mesuras e falsas mordomias só a transferência de penitenciária é oferecida. Tudo lhe dão nada lhe dando...

Pelo que ficou escrito, hoje, prefiro reler «A Liberdade de Pátio». Um conto perfeito! [para uma tese por escrever].
E confesso ainda, neste espaço, nem público nem privado, que guardo por folhear alguns livros de Mário de Carvalho (e de outros dos meus escritores). Guardo-os como reserva moral para os dias de tempestade.

jef, Novembro 2014

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sobre o livro «break dance» de André Ruivo, MMMNNNRRRG, 2015














O sonoro cheiro das sebentas escolares.
Digam o que disserem, existe uma poalha de liberdade, um laço perene de criatividade, deixados ao acaso pelas sebentas escolares. Um cheiro único e sedimentar nos riscos que cobrem a atenção que não é dada às aulas, às matérias, às vozes. Um silêncio único que é coberto de esferográfica, lápis de cor, grafite, tinta, e que vai dançando pelas folhas pautadas através de uma concentração muito especial. (Quem nunca dançou não sabe o poder dessa ‘ausência’). Um vácuo terno e caloroso em cada uma das pautas que poderia estar atafulhada de fórmulas teóricas e demonstrações dogmáticas.
Não é rebeldia mas, pura e simplesmente, Liberdade! Coisa única para o homem e respectiva sobrevivência. É esta a demonstração oferecida pelo recente livro de André Ruivo. «break dance».
Mas tomem atenção, muita atenção!
Não leiam estas ilustrações como desperdício infantil que ocupa muito do espaço psicanalítico da Arte com redes paternalistas de segurança ou acusações iradas contra um passado qualquer. As páginas finais, suspensas nos traços compactos de esferográfica preta, são dessa história prova e redenção!
As pontes executadas pelos traços, ilusoriamente descomprometidos e insconscientes, lançam para dentro de nós as hifas de um futuro que gostamos de ter na mão. Doa a quem doer!

jef, novembro 2015

«break dance» de André Ruivo, MMMNNNRRRG / the inspector cheese adventures, Outubro 2015.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Maria Manuel Viana escreve «Teoria dos Limites», teodolito 2014














O espelho universal ou o testemunho da presença.
O que Maria Manuel Viana está a querer dizer-me é que o entendimento do mundo só é possível através da abertura de espírito que é dada pela compreensão do conjunto infinito das ficções escritas e das respectivas leituras, também elas infinitas. Esse mundo será uno através da diversidade que é reflectida no contínuo de espelhos (pessoas-livros-mónadas) que se olham mutuamente e devolvem novos-antigos olhares. Como na «Dama de Xangai» ou nas bonequinhas russas ou nas latas de fermento Royal ou nos enganosos espelhos retrovisores…
Se assim nos reflectimos nas palavras da escritora-escritores tentaremos a felicidade, essa integração do mundo que a literatura nos envia para que a entreguemos ao próximo («amarmos é gostarmos da felicidade do outro», página 154).
Teoria dos Limites. Livro de escolha múltipla a reflectir (sem ordem) Lawrence Durrell, Maria Judite de Carvalho, Maria Ondina Braga, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, Hélia Correia, Hannah Arendt, Rui Cardoso Martins… Livro que chega até às minhas leituras interiores. Finalmente, às leituras do que eu era e, agora, sou.
Uma frase é repetida. «Eu sei o livro.»

jef, setembro 2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

Sobre o livro «Hotel» de Paulo Varela Gomes. Tinta da China, 2014.

 «Elogio a Paulo Varela Gomes ou a Maravilhosa Arte de Espreitar».

Não falo do texto «Morrer é mais difícil do que parece» que abre o Volume 5 da Granta – «Falhar Melhor». Um texto que interrompe a corrida, faz parar, reflectir e conversar. Esse texto parte do princípio mais íntimo da vida e coloca-o à discussão pública no momento preciso em que a zona colectiva se esboroa. Ou seja, publica a coisa mais espiritual e privada do ser humano e eleva-a a «causa política».

Falo de «Hotel», o livro que comprei na última feira do livro de Lisboa, incitado pela curiosidade que o texto anterior suscitou.

«Hotel» é um livro à antiga, daqueles que vão obrigando o leitor a partilhar a própria memória bibliográfica com as linhas que correm sob o olhar. Um livro longo, lento, ensopado numa ironia saudável e indiscreta. Um romance aberto, cheio de temas e pontas libertas, com personagens (ou caracteres, como sugeriria Mário de Carvalho) que entram e não pretendem sair, ficam-se pelo caminho. Um caminho que é o nosso.

Um livro sobre a arte de «arquitectar», sobre a arte de «espreitar». Sinónimos?

Aqui é tratado o «olhar» como objecto na função íntima que tenta o prazer. Escopofilia. Lembrei-me do ícone do cinema «Blow Up» de Michelangelo Antonioni (1966).

Aqui é tratada a «arquitectura» da intimidade, do pormenor, do bem-estar ou do bem-ser. Lembrei-me de «Suíte no Hotel Crystal» de Olivier Rolin (2006), onde são descritos, com o pormenor à la George Perec, 43 quartos de hotel de Coimbra às latitudes menos existentes. Descrições cruzadas pela vida e pela ficção, como tudo o que merece respeito.

Aqui se trata do espaço do corpo ou espaço da memória como «labirinto». Lembrei-me das solitárias escadas sem fim de M.C. Escher ou das conversas sobre «Cidades Invisíveis» tidas entre Kublai Kan e Marco Polo (Italo Calvino, 1972). Um mundo onde o desejo se transforma em hipótese de futuro. Apenas a sua hipótese, repito. Ou o seu olhar…

Paulo Varela Gomes deu-me tempo e inconclusão. E Isso é o mais importante na arte da sinonímia, da arquitectura e do olhar. Uma dádiva insofismável!

jef, julho 2015

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Sobre a leitura de «A Noiva do Tradutor» de João Reis, Companhia das Ilhas, 2015















«As pessoas neutras são as mais perigosas»,
reflecte o Tradutor à mesa do café, pela página 44, olhando para Hermengarda, a poetiza que fala mesmo quando nada tem para dizer e que se maquilha em excesso. O Tradutor não se sente bem. Viu partir um navio em direcção às terras da neve, os passageiros do eléctrico enojam-no, acaba por perder o chapéu. Uma nódoa na gravata, uma laranja no bolso. Sente cheiros nauseabundos, ameaçadores, sulfúricos. A lama, ou melhor, o lodo impede-o de avançar, ou melhor, o Tradutor afoga-se no lodo de uma cidade que apenas dá asilo a animais… A cidade, um jardim zoológico de parasitas, sovinas e energúmenos. A nossa cidade!

João Reis escreve uma novela sobre o mundo literário eterno: Gregor Samsa, Bartleby, Wakefield, Raskolnikov, O Homem Sem Nome de Knut Hamsun... E como João Reis escreve bem! É-me impossível não sorrir com a dicotomia entre os ácidos «diálogos» interiores e os maviosos diálogos «exteriores», unidos por um estranho impropério…

A grande literatura só pode ser infalível se alicerçada, ancorada, acarinhada, pelos seus digníssimos descendentes. Este Tradutor é um deles!

jef, maio 2015

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Gonçalo M. Tavares escreve «Uma Menina Está Perdida no seu Século à Procura do Pai»
















Resistir e continuar.

Qual a diferença entre as duas palavras quando o centro de gravidade do século XX está a ser ponderado? Hanna e Marius situam-se no centro dessa Europa. Por hipótese, Hanna quer encontrar o pai, por hipótese, Marius deseja fugir. Logo, nem um nem o outro se encontram aí. Poderá ser este o mote com que o escritor atrai o leitor, na curiosidade da viagem de Dom Quixote e no incómodo da evasão musical de Terezin. O espectro de uma guerra eternamente presente; o quarto chamado Auschwitz num hotel-labirinto; o rosto enorme de Goering hasteado como bandeira; um artista, Agam Josh, que grava declarações públicas em letra invisível. Berlim. Tudo está ou parece estar. «Você, se quer um conselho, tenha pelo menos uma parte do corpo um pouco afastada do mundo, senão não sobreviverá.» diz o artista de olho vermelho, infinitamente pequeno, lá pela página 130. A memória, essa, serve para refazer o passado, mas serve também, talvez principalmente, para aproximar o que está geograficamente ausente.

Este livro não é um Manual de Fuga. É um compêndio com a sequência infinita de números pares a lembrar que para resistir é mesmo necessário continuar. Fugir, não! Antes sair disto calmamente, com brio e entendimento. Para termos consciência de que o que se passou em certo século não deverá ser refeito e que a memória dos factos, das ideias e das emoções é, para tal, fundamental. Mas a vertigem de uma escada íngreme, escura e sem corrimão pode atrair o olhar lá para baixo. E a luz forte ser demente.

O caderno 34 do grande pensador talvez seja o livro politicamente mais programático, com uma intenção mais sublinhada, com um cenário mais derradeiro.

Também por essa razão, um livro a ser lido hoje. Já!

jef, abril 2015
«Uma Menina Está Perdida no seu Século à Procura do Pai» de Gonçalo M. Tavares. Porto Editora, 2014.

quarta-feira, 25 de março de 2015

«O Osso da Borboleta» de Rui Cardoso Martins. Tinta da China, 2014.



Grande enciclopédia das imagens e das sombras

Ao quarto romance, Rui Cardoso Martins identifica uma mudança no rumo da sua escrita. Afunda-lhe o propósito, aprofunda-lhe o caminho, dá-lhe o peso dos quartos fechados, dos sótãos escuros, dos prédios em vias de extinção. Se os romances anteriores mostram a acção na rua ou debaixo de terra ou ao lado dos aviões, este volta-se para dentro de casa, em palco claustrofóbico, em cenário minúsculo onde as personagens, vestidas de forma espampanante como na ópera, temem estar frente-a-frente e evitam-se, diálogo a diálogo, ou melhor, monólogo a monólogo. 

Contudo, aqui está tudo o que já era contado, somente é alterado o modo dos que por aqui vivem. Ou sobrevivem, entre a espada e a parede, entre o passado e o futuro, sejam estes últimos olhados de frente ou lá para trás. Antes, o assunto era dissecado pelo olho grande do macroscópio, agora o mundo é dos seres pequenos e microscópios, bactérias carnívoras, protozoários ferozes, onde os animais se multiplicam num imenso jardim zoológico de cristal, como escrevia o outro. Mas o mundo será o mesmo e a consciência da escrita como arma política mantém-se e prolonga-se neste acto de narrativa melodramática. As personagens estão sós, como anteriormente, mas aqui encontram-se para se odiarem, para se repugnarem, para não se compreenderem. Até ao breve capítulo final, libertador. E a rejeição de uns pelos outros, não é mais do que rejeição de uma sociedade ignóbil que abandona os cidadãos de que se alimenta. Em função canibal ou autofágica. 

Aqui voltamos a encontrar a torrente imparável de histórias, imagens, ideias, sombras. E, neste romance, é tão colossal a velocidade da associação de objectos contabilizados, de metáforas, alegorias, parábolas, que ficamos com a percepção de que é a própria sombra criada por estes, no nosso cérebro, que dá a claridade de uma imagem que, afinal, já era nossa conhecida. Um verdadeiro tratado de semiologia, a ser analisado segundo Wittgenstein ou Umberto Eco. E se a maldade, a muita maldade, e a memória, a muita memória, não forem suficiente há que repetir a frase vezes sem conta, como dizia o outro. Fixar o caruncho, o escarro, as guerras, os pombos, o naufrágio. Poder-se-ia dizer que este romance é modernista, expressionista, de certo modo diabólico, mas seria um erro crasso. «O Osso da Borboleta» não faz mais do que repetir as imagens até que fiquem dentro de nós de cor, de coração, como fazia o velho repetidor Homero. Tal como os velhos clássicos, a estratégia de Rui Cardoso Martins foi sempre a mesma: reconhecer que a Realidade não pode ser real sem a Ficção, o Mundo não existe sem a Imaginação, o Futuro desmorona-se se lhe retirarem a Poesia.

Em todos os grandes escritores, os ciclos iniciados são falsos novos ciclos. A escrita dos grandes escritores está cristalizada numa forma apenas, embora mutante, que os leitores, melhor que ninguém, sabem identificar!

jef, março 2015