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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Manhã












Por vezes, há um som claro na manhã,
uma voz limpa, um ponto alto,
sem sombra, sem explicação,
apenas a luz de um reflexo na ausência de história
ou de memória, que lança a vontade em direcção
do que fazer. Nada de argumentos práticos ou contestação híbrida.
Apenas a demanda do futuro.
Aquilo que realmente está escrito será dito
porque sem pressentimento ou destino.
Coisa que se apodera, sem direito a devolução ou modo de recriminação, de um som claro
que surge, assim, sem querer mas por imposição,
como o acto indissolúvel
que é esta minha manhã.


jef, dezembro 2016

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Índia de papel













– Vamos lá a marchar! Para a frente é que é o caminho, rapidamente e em força! Porte atlético, cabeça erguida, peito para fora, barriga para dentro. Estandartes ao alto, a Nação no espírito! Agora, chegados à fronteira, não é possível hesitar. Recuar é a morte, a afronta, a desonra!
Costumava dizer-me ao pequeno-almoço, frente a uma boa fatia de pão de centeio barrada de banha e açúcar, o metal da caneca a transbordar de café negro a escaldar os dedos, o meu tio-avô, coronel quase general de uma Índia tomada por convalescença, bebedeiras e malária, guerras e epidemias, muito chá, sarapatel e vindalho. Um tom vermelho no hálito matinal, o fumo de um charuto vogando entre comissões de serviço na selva e histórias de nativas desaparecidas, porventura devoradas. Elefantes esforçados na rechega da madeira. Templos invadidos por botânicas esfaimadas a esconder falos amantes e donzelas por eles ansiosas. Um relance de cumplicidade máscula e sóbria no olhar que divagava sobre a linha do horizonte invisível e desgastado pelo suor, em contraluz. Bigodes fartos e grisalhos, calções de investida, pingalim e botas cardadas. Um tigre a vigiar sobre o ombro, sobranceiro e forte. Na sombra. Pronto a saltar, logo que o comando da metrópole o permitisse!
Era um tio-avô de nome Venâncio Anselmo de Matos Salomão Noronha de Albuquerque e Sá que, diga a verdade verdadinha, nunca cheguei a conhecer mais gordo!
Raios partam os livros! Malditas paisagens de papel!


jef, novembro 2016

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Biografia








Caríssimo amigo,
por respeito a quem passa
(cheio de pressa e afazeres inauditos)
resumirei a minha vida a cinco / seis episódios:

(a) o meu nome
(b) a primeira queda
(c) o segundo ou terceiro encontro marcado
(d) um cheiro fresco na rua
(e) a vaga atmosfera a flores
(f) um novo dono para o gato.

Resumo também para não me enfastiar.
Sabe, o passado, 
o passado segue-me, tolhe-me o passo,
surpreende por demasia.
Um bom amigo sim, traz uma lembrança por outra,
mas faz-me tropeçar,
faz-se trôpego,
anda sempre a ficar para trás
e eu a recuar para o ir ajudar.
Amigo, já lhe contei a minha vida.
Agora, por favor,
vá-se embora!

jef, novembro 2016


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Género à parte











Questão de género.

Pergunta o cavalo-marinho à sardinha:
– Por que razão ninguém chama
à cavala
«égua-do-mar»?

jef, novembro 2016


(Hippocampus erectus / Scomber scombrus)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Tem dias...










Tem dias…
Sincronizar os erros de paralaxe e, mesmo assim, não acertar o salto da prancha para o lado mais fundo da piscina, é caso semelhante a Deus que acabou de comprar um caderno de duas linhas, daqueles para fazer a letra muito redondinha, enche depois com todo o cuidado a caneta de tinta permanente que foi oferecida pelo Natal, prepara o mata-borrão, endireita as costas, respira fundo e, mesmo assim, não acerta na parábola a utilizar na homilia da próxima missa da paróquia.
Apesar de tudo…

jef, novembro 2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Tranquilidade















Tranquilidade.
Resolve-se sobre uma mesa na qual
colocamos uma toalha branca alisada
com as mão limpas.
Ali vamos dispondo objectos vários,
uns mais coloridos do que outros,
todos com um peso definido
pelo sistema internacional de unidades de medida.
Peso definido mas diverso entre si.
Damos, depois, um passo atrás e olhamo-los.
Parecem pontos num outro sistema, o das coordenadas,
como uma matriz de valores identificáveis porque definidos também.
Se persistirmos na observação e intensificarmos a atenção,
reparamos que os objectos não estão ali segundo um acaso qualquer,
involuntário.
Pelo contrário,
notamos que eles se ligam entre si, e entre eles e o observador,
através de um acaso estético, por isso de certo modo moral.
Um acaso cuja génese se situa num só ponto dentro do nosso cérebro visual.
Tal como a linguagem, as palavras e a sintaxe geográfica que as une, divergindo a cada momento. Talvez, por isso,
devêssemos falar em casos e não em acasos.
Poderiam, assim, ser vistas sobre a toalha,
perfeitamente branca e alisada por mãos limpas,
disposições infinitas, sistemas cartesianos de cores diferentes,
matrizes identificáveis com pesos vários,
unidas aos eixos dos xx’ e dos yy’ que são o comprimento e a largura da mesa.
(a,b) (a’, b’) (a’’, b’’).
Nesse instante, poderíamos até sorrir,
esquecendo a volatilidade dos sistemas de coordenadas,
acreditando na infinidade da nossa moralidade estética.
Momentânea.

Enquanto o sorriso persistir,
enquanto essa crença se mantiver activa,
a tranquilidade habitará em nós.

jef, novembro 2016

[Antonio López / Claude Monet]

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Na partícula do sono










Como se escutasse no eco esse perdão
O suspiro passado de um serão
A mão do sonho sobre o ombro
A sombra plena
E o calor do corpo a respirar.

A quebra serena da ausência
Na construção lenta de um escombro.

Durante a noite podemos então nós
Em certo sentido
Absolver a ruína
E reinventar o oceano
Película do sono universal
Que de memória já esquecida
Faz da luz a véspera do dia.

Sombra quieta no calor a respirar
Corpo suspenso que alheio
Fica guardado na palma de uma mão.
Essa mão plena sobre o ombro
Faz da noite sombra mais próxima
E do perdão o eco de um suspiro.

Está refeito o calor do universo
Na partícula de um serão.

jef, outubro 2016

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

«Ai, que me dói o Poplíteo!»














«Ai, que me dói o Poplíteo!»
gemeu o Luís Miguel, após um agachamento menos ponderado.
Até o melhor dos mestres, o mais forte dos líderes, pode, a dado instante, avaliar de modo inconsequente o movimento muscular quando o pretende levar até ao limite da competição.
Assim gritaram os persas em fuga da peloponésia Maratón.
Assim foi o grito heróico daqueles que atravessavam o Mediterrâneo, temendo-o sem o temer, enfrentando o desgaste das fibras como se entregassem aos deuses a última sílaba da última elegia de Píndaro.
Assim gritou a nereida Tétis ao saber do calcanhar de seu filho, da desgraça por terras de Tróia.
Assim gritou Eneias quando daquela saiu e avistou Roma, ainda por inventar.
Assim fremiu o músculo escavado na diagonal sobre a tíbia quando, em razão menos ponderada, Luís Miguel se agachou perante a fúria de mais um compasso quaternário de Madonna:

« If we took a holiday / Took some time to celebrate / Just one day out of life / It would be, it would be so nice / Holiday Celebrate / Holiday Celebrate».

Logo tremeu o ígneo pelotão,
as cabeças baixas
as vestes em rasgos.
Logo, em coro, todos os ginastas gritaram,
atormentados por tão dramática lesão:
«Ai, que nos dói o Poplíteo!»

jef, outubro 2016

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Noite Americana










As sentenças firmadas a marca de água
são carimbos submersos,
presas fáceis,
dentes ágeis,
dóceis véus.
Prefiro a sombra. Não me culpa. É real e só depende dos meus passos
quando o Sol se deita
ou a noite americana se levanta,
feéricos holofotes a proteger a luz crua
e a chuva luminosa a fingir tristeza.
Quando nos grita aos ouvidos:
«O dia não traz remetente!»

jef, setembro 2016

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A borboleta e o tsunami










É de injustiça extrema associar a tormenta geológica ao bater das asas de uma borboleta.
Longínquo.
É injusto para o furacão, claro. Também para a meteorologia ventosa que arrasa palmeiras, turistas e hospitais. A borboleta sabe o que faz.
E fá-lo na consciência da perfeição. Na consciência de um coração.
No olhar que o perturba sem agitar as folhas do salgueiro aquoso. Na instável ventania da separação que nem enruga a superfície do mar chão. Na altercação alegre quando a vista avista pelo horizonte do cais.
O faroleiro faz sudokus enquanto aguarda a mudança de turno.
Posídon adormece enquanto aguarda o boletim meteorológico.
E o tal coração em roda livre nas asas de um lepidóptero.
Ali tão perto.

jef, setembro 2016

(já agora o animal ali em cima dá pelo discreto nome de Papilio machaon)

domingo, 14 de agosto de 2016

Flor do Tejo









Flor do Tejo

Ser rio ou as suas margens.
Ser rio e as suas margens.
Que rio não é sem o que o limita.
Elas nada seriam se o curso lhes desistisse.

Em que ficamos?
Frases feitas.

Dizem que a cheia lhes traz desgraçadas ou graças
fertilidades, felicidades, inundações,
afogamentos,
amores também.
Nilo, Mondego, Tejo,
qual for…

Escrituras sagradas, o êxodo,
 vêem uma ou duas garças, curvo pescoço,
e os crocodilos, olhar sobrevoando a superfície.
Talvez um cesto suspenso nos juncos.
Escrito nos papiros. Hieróglifo inconstante,
aquático,
por decifrar.
Prece pela catástrofe iminente,
benfazeja.
Rei incógnito libertado das águas por mão da princesa contrária.
Sacrificado esse amor pela salvação do povo e do seu reino.

O vale dos reis.
O menino vogando nas águas.
Quem o canta, quem as cantará.

Nílicas, tágides, rainhas do Mondego.
Ninfas discretas, condoídas, por identificar,
que as últimas sem nome vão.
Quem as exige só de fado lembra
de saudade e do penedo e do encanto na despedida.
Escadarias nocturnas, desertas.
Ah, os campos de Santa Clara!
Pedro, o cru, e Inês, a bela eterna
por rainha, cadáver desenterrado,
sobrenadando a terra, como Ofélia! Depósito em suspensão, solução, limo,
líquido, o pó
e o amor.
Dele regressou, a ele voltará.

E os esteiros, as marachas, os campos alagados.
Algas, peixes, a doença lacustre
como sáurio dolente, o arroz,
sustento de Primavera.
A ela o rio volverá a cada novo ano,
dela o homem escapa a cada ano volvido.

Pobre Camões… Constância, Coimbra, Lisboa.
A lampreia não consegue passar o açude,
o sável já não desova, pobre rio.
Salvaterra, Vilafranca. Alentejo
e o Tejo ainda em riba.

Em que ficamos?
Versos comuns,
Esquecidos, por ditos,
musas adormecidas,
por distraídas,
quase desleixadas.
Tão cantadas como descartadas.

O poeta em exaustão!

Em que ficamos?
Tolas as frases.

Cantos mil e o céu a desaguar
Sobre a garupa do touro
que rei é
do rio que na lezíria fez cama
e do vale se despediu,
escravo do pasto, do silêncio falso, da farpa do futuro.

A terra prometida é aqui!
Abram-se as águas!

O animal, boa mensagem dos deuses e das rainhas,
no calor imolado
na areia o sangue purificado,
fértil e vermelho
como o mar.

Olha o tartaranhão a vigiar as crias no paul.
Salve sejam!
Salvem-se também a alma dos viventes
que a dos mortos já se evolou,
como Cristo, como o escravo, como o touro derramado.
Como o verdilhão que canta,
mesmo por trás das grades,
pela boa alma de quem o aprisionou.

E o amor, quase o amor,
de quem fica prisioneiro?
Que na palma da mão detém o pendor,
no corpo, o silêncio,
nos lábios, a margem do sorriso,
o curso dessa palavra
escondida no junco que guarda o ninho de patos
à flor do Tejo.

Em que ficamos?
Frases cativas.
Lugares comuns.

Somente o amor.

jef, 15 de agosto 2016

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Flores e Rebuçados










Sebastião foi comprar rebuçados mas apenas encontrou flores pelo caminho. O facto não lhe agradou. Esperava ele uma nova solução poética para o comércio de guloseimas ou para o fundamental acto de andar. E o que ali ia vendo, bem rasteiro, junto às solas das botas eram as soluções estafadas do costume, habituadas a embelezar o olhar e a toldar a veracidade de um percurso que devia unir, o que não era tarefa pouca, o ponto A ao ponto B, mesmo que A fosse a casa dos avós e B a loja do Sr. Albano, fazendas e mercearias.

Desde que nascera, Sebastião não se contentava com a realidade que, de tão usual, desaparecia na paisagem quente daquela tarde e, por inexpressividade, deixava de ser olhada, pensada e, por isso, desaparecia igualmente do mundo. Habituara-se a exigir um pouco mais de cada situação, e a compra de rebuçados ao Sr. Albano parecia-lhe assunto bem importante para ser somente acompanhado por aquele tapete de flores imóveis que esmaeciam na força do calor.

Mas aí Sebastião entendeu. Afinal, um rebuçado, aquele objecto ou conjunto de objectos que se situariam no ponto B, a loja do Sr. Albano, fazendas e mercearias, seria coisa bem mais volátil ou derretível, como os sonhos que, com o calor ou a emoção onírica, fazem suar e humedecer os lençóis do paciente. Enquanto as flores a resistir à tarde seca e ao ranger dolente dos élitros dos insectos, eram agora, no ponto AA’, a deslocar-se continuamente sobre a linha dos seus passos desde a casa dos avós, o objecto mais perene que o seu olhar, cada vez mais atento, podia reter. As flores, um objecto que ficaria cravado, menos volátil ou derretível, na película perene do seu córtex imaculado de criança.

Nessa altura, Sebastião inverteu a marcha. Guardou as moedas no bolso e colheu dois malmequeres, uma papoila, um dente-de-leão, dois coelhinhos, duas azedas, três espigas de espécies diversas. E voltou ao ponto inicial A, a casa dos avós, um pouco mais satisfeito. Encontrara o fundamento poético para a constância dos passos que, em tempo, faziam dar um piparote certeiro numa pedra ou noutra com a biqueira da bota.


jef, julho 2016

terça-feira, 5 de julho de 2016

terra











Vá. Mete as mãos debaixo da terra e procura. Não sejas preguiçoso. Não adies. Tu sabes, tu queres, mas evitas arregaçar as mangas e sujar as unhas. Pareces ter consciência do que é gastar a última energia sem teres a certeza de, com ela, encontrar o que pretendes e, nesse caso, esvaíres-te, ficares exangue, exausto, inerte e, acima de tudo, de mãos vazias. Vá. Vamos lá. Não temas os dedos feridos, não te preocupes em partir as unhas. Elas de nada servirão se não gastares a última energia que te resta. Mesmo se, por debaixo da terra, apenas terra exista. A terra poderá ser vã, a procura não.

jef, julho 2016

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Lembrar Stefan Zweig. Lembrar o século XX.














Sobre o livro «Amok, O Doido da Malásia» de Stefan Zweig. Livraria Civilização, 1942, 3ª edição, edição fac-símile de uma colecção contemporânea do jornal «Público». Comprado no dia 25 de Abril de 2016, Vila Franca de Xira. 5,95€.

Stefan Zweig representa o século XX. O horror e o esplendor.
Tal como o século, Stefan Zweig pode ser esquecido como escritor mas regressa sempre como personagem trágica de um mundo que não tem volta diversa a dar. Será como a literatura do século XX, entre a leitura amorosa do romance e a penalização difícil da crítica. Hoje em dia quanto valerá a escrita de Stefan Zweig, que tanto rendeu pelo meio do dito século? Quem desclassificará um autor que tão bem descreveu a tragédia feminina, a solidão, o desamor, a obsessão?
Stefan Zweig é um mestre a escrever a história de alguém que conta a sua vida a um narrador inicial. Não sei como se chamará o método. Assim o fez em «Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher». Assim escreveu nas três novelas que compõe este livro: «Amok», «Carta de Uma Desconhecida» e «A Colecção Invisível, um Episódio da Inflacção Alemã».
Por mim, voltarei sempre a Stefan Zweig.
Voltaremos sempre ao século XX.

jef, junho 2016

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Geneticamente eterno














Vi o «O Couraçado Potemkine», pela primeira vez, no Cinema Império lá para 1974. Como toda a plateia chorou com a cena da escadaria e aplaudiu de pé ruidosamente, no final. Voltei a vê-lo no Cinema Universal, na rua da Beneficência. Foi ficando na minha memória, fico retiro na minha estrutura cognitiva e emocional. Ontem voltei ao filme, no cinema, com a distância de algumas décadas. Contemplo a estética universal, a ópera intemporal, o coro grego, a movimentação de figurantes, rostos, barcos, água, os cenários perfeitos e luminosos.

Recordo uma cena de «O Navio / E la Nave Va» de Federico Fellini (1983), quando duas passageiras se chegam à amurada para contemplar um pôr-do-sol pintado em papelão: «É tão bonito que até parece falso!»

Em «O Couraçado Potemkine», as coisas e as pedras e o porto de Odessa conservam para a eternidade essa falsidade única do verdadeiro teatro, o sinal de uma Arte Absoluta.


jef, junho 2016

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A beleza e a casa












Andrei Tarkovsky (1932 – 1986)

Hesitei em adquirir a caixa com os oito filmes, a obra completa de Andrei Tarkovsky, agora editados. Fiquei na dúvida se tais obras resistem ao formato encaixotado, doméstico, franzido, sempre à espera que o telefone se intrometa ou o vizinho barulhe.

Tenho a sensação que a sua beleza superior está contida no efémero de uma tela maior quando nos cinge e liberta numa sala negra e, em simultâneo, luminosa. Na ausência de nós próprios. Apenas no nosso cérebro e na nossa pele. A ideia e os sentidos.

Em retrospectiva íntima, surgiram-me duas palavras para definir o que sinto por tais filmes: Poesia ecuménica. 

Fui ao dicionário.

Poesia – carácter daquilo que, por ser considerado belo ou ideal, desperta uma emoção ou sentimento estético.

Ecúmena – área da superfície terrestre habitada permanentemente pelo homem. Do grego oikouméne «a terra habitada». Qualquer coisa ligada a «casa».

E levei os DVD para casa.

jef, maio 2016

terça-feira, 17 de maio de 2016

Esquadria














Levanta-te
Põe-te frio
Gela o olhar
Estende o braço
(não esse… o outro)
Não fales
Não abras a boca
(a língua é do outro)
Grita como os outros
Com os outros
(tu és o outro)
Não sorrias
(o riso torna-te outro)
Vá, agora desaparece
Sobrevive
Sem ti
Por ti
Pelo outro
A Terra sobreviverá em ti
(a terra, a outra, viverá sobre ti)

jef, maio 2016