segunda-feira, 9 de março de 2015

Teatro da Cornucópia «Lisboa famosa (portuguesa e milagrosa) ... »



















Teatro da Cornucópia «Lisboa famosa (portuguesa e milagrosa), cenas lisboetas de autos antigos» (Gil Vicente, Baltasar Dias, Afonso Álvares, alguns anónimos)

Lisboa, a fome e a fama que vêm de longe!

Por vezes, podem as palavras vindas de tempos antanhos ficar a soar diferente aos ouvidos de hoje, talvez incompreensíveis. Mas são palavras fundamentais embora diversas, transformando-se, chegando compreensíveis até nós pela expressão dos corpos dos actores, talvez pela sua dança… Como não entender a conversa entre Lisboa e a Fome, entre a Verdade e a Honra, entre o Centeio e o Milho estrangeiro? Como não sorrir com o ciúme de Santo António pela fama de São Vicente?

Esta é uma peça para quem gosta de Lisboa e das cores e da cenografia deslumbrante de Cristina Reis e da recriação subtil do Tejo e do Cais das Duas Colunas. Para quem não esquece o convívio insubstituível com Luis Miguel Cintra, Luís Lima Barreto e José Manuel Mendes. Para quem não esquece o riso de Sofia Marques e a suspensão no olhar de Rita Durão. Para quem apreciar a nova voz e a nova expressão dramática de Ana Amaral, Guilherme Gomes, Isac Graça, Rita Cabaço e Sílvio Vieira. Três gerações de actores para acarinhar quem, como eu, aprendeu a ver teatro com a Cornucópia, desde os idos de 1974 com «a Ilha dos Escravos» de Marivaux, lá no Capitólio, quando este ostentava ainda umas instáveis escadas rolantes.

É um crime teatral não ir ver e rir e pensar com esta peça! Como gostaria eu de ser dramático sem beliscar o profissionalismo destes que mentem com a verdade, deste superior Luis Miguel Cintra que diz a verdade mefistofélica, ajudado pelas deixas escritas no papel que traz na mão um pouco trémula… Ele mente, sim, dizendo a verdade mais pura! Nós os espectadores e esta cidade de fama e fome é que talvez estejamos doentes!

Viva o Teatro da Cornucópia! Viva Luis Miguel Cintra! Viva Lisboa!


jef, março 2015

domingo, 8 de março de 2015

A realidade existe. Parte I [lince-ibérico]


 
Afinal a realidade está aqui: o solo, as plantas, os animais. Segundo a fotografia de Inês Vasco, tirada a 4 de Março de 2015, observa-se o sexto lince reproduzido em cativeiro (Silves) dentro do cercado na região de Mértola. Antes de ser libertado em área aberta. Lince-ibérico Lynx pardinus, o felino mais ameaçado do mundo, também um dos mais belos. (Haverá felinos menos belos? A beleza, prática ética usada pelos humanos para seleccionar objectos, aplicar-se-á à Natureza?)
Repito: A fotografia não é minha, é de Inês Vasco. Nem o lince-ibérico, nem o solo, nem as estevas são minhas. Posso eu fazer parte do Mundo mas ele não me pertence.
 
jef, março 2015

sábado, 7 de março de 2015

sobre o filme «Yvone Kane» de Margarida Cardoso (2014)

 
«Yvone Kane» de Margarida Cardoso. Com Beatriz Batarda, Francilia Jonaze, Gonçalo Waddington, Irene Ravache, Samuel Malumbe. Portugal / Brasil / Moçambique, 2014.
A verdade e o esquecimento
Existe uma frontalidade, diria exactidão e contenção, nas palavras ditas que mantêm os diálogos a pairar na nossa cabeça como epígrafes das imagens. As imagens, essas, na justeza da câmara a tocar o rosto das actrizes (Beatriz Batarda vs. Irene Ravache) com as rugas e as manchas a que as personagens têm direito, tornam os enquadramentos arquitectónicos e a cenografia dos corpos dos actores o modo mais eficaz de fazer escutar as tais palavras poucas. E é importante ser-se exacto e contido quando se trata da oposição entre a verdade e a memória, entre Portugal e Moçambique, brancos e pretos, colonizados e colonizadores, arrogância e generosidade, entre a perda definitiva e a memória dorida, entre a paixão e a compaixão. Que fazer da verdade do passado quando o presente nos transporta para uma fronteira armadilhada que mal distingue a verdade, o esquecimento, o rancor e o perdão?
 
 
jef, março 2015
 

terça-feira, 3 de março de 2015

No Reino dos Macambúzios










Eu sou o Rei dos Macacos!
Há pouco os dados foram lançados.
Os peões no tabuleiro,
o açúcar no açucareiro,
o sortido fino e as burguesas,
o risinho delas e o chá das cinco.
Fazem alegres o piquenique,
a toalha no relvado,
entre brancos e pretos,
fogem os macacos dos quadrados.

Eu sou o Rei dos Malacuecos!
Entre lianas e avencas,
ilhas menos desertas, canibais,
eu dirijo o bicho-carpinteiro.
Traz consigo o bicho-matreiro,
bicho-malino que faz de bicho-de-conta,
príncipe da bisca, do bilhar e da bimbi.
Segue-o o valete dos matrecos.
Só depois vem o burrinho, José, Maria e Jesus,
a mulher dos sacos,
o homem dos trapos,
a menina do tule e dos laços.
A fechar, saltam os macacos a tocar os pratinhos,
(basta pôr a moedinha)
e os manetas trapezistas.
As ciganas trazem à cabeça os tarecos,
trastes velhos, mesquinhices,
gatos pardos, garfos rombos, patos marrecos.
O resto é fantasia!

Eu sou o Rei dos Trampolineiros!
Infantes malacuecos,
donzelas macacas, príncipes malinos,
virgens trapaceiras,
da selva surgem ainda negros flibusteiros,
espada em punho de renda branca.
Pulam manhosos
piratas maravilhosos,
gel na trunfa, sapatos garbosos,
vêm mansos como ministros,
e entre burguesas estendem
a toalha no relvado,
a dos quadrados.
Papoilas rubras, sangue nas flores prisioneiro.
Eles são os reis dos cavalheiros,
belas mãos, os financeiros.
Fingem o riso, trazem embuste,
cativam a fantasia por cumprir
invocam a beleza para a estiolar.
Saem macacos dos quadrados
dominós, arlequins, saguins,
outros bichos afins.
Fazem momices,
trajam de paletó, capindó,
trocam felizes pantominices,
sorriem em salamaleques,
agitam os leques velozes.
Tocam a sociedade em maior dó.

Eu sou o Rei dos Economistas!
Seres avessos, quatro patas,
cauda quase a apartar-se.
Ai as sardaniscas,
osgas putativas
de um Estado por servir!
Lançam um brinde de alegria,
um brunch comemorativo,
um pequeno-almoço de negócio.
Ai o sortilégio dos macacos
a toalha dos quadrados,
o valete dos malacuecos,
o piquenique das burguesas!
Rubro o ventre de quem banqueteou,
esquecido o sangue,
as papoilas, toda a beleza,
e o olhar branco do faminto.
Que requinte!

Ó Banqueiro dos Macacos,
Ó Ministro dos Malacuecos,
Ó CEO dos Trampolineiros,
Ó Director-Geral dos Trapezistas,
oiçam lá!

Eu sou o Rei das Pataniscas!


jef  março 2015