terça-feira, 17 de março de 2015

«Que Importa a Fúria do Mar» de Ana Margarida de Carvalho. Vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela, da Associação Portuguesa de Escritores.


 
O oceano que nos lê
Ao ler «Que Importa a Fúria do Mar» verificamos que, com o passar das páginas, somos pescados para dentro do romance, seguindo a linha da história, iscados pela minúcia. O Mar, esse, é o mesmo oceano que banha a Marinha Grande (18 de Janeiro de 1934), Vila Praia de Âncora, o Porto e o Tarrafal, não o dos «resorts» mas o da «frigideira». O barco é o «Luanda». O peixe é arraia-miúda. Ou talvez não. Neste livro, percebemos onde, dentro de nós, se finca o anzol que é o gosto pela leitura. Ficamos também a saber que é no detalhe que reside a literatura. Tal como a conversa. E esta, tal como a literatura, é feita de cerejas. Qualquer coisa que deleita, entretém e entretece os fios do conhecimento / curiosidade. Como uma pinça ou agulha que vai buscando e cerzindo as memórias, as mnemónicas, os silogismos, na teia do desconhecido. Resumindo, Ana Margarida de Carvalho é uma contadora de histórias, ideias e imagens, ao jeito de José Saramago ou Rui Cardoso Martins – o humor e a tragédia, o amor e a fúria, o microscópio e a luneta astronómica. Tudo no mesmo plano. Tudo com barcos, aventura e muitos bichos. Perfeito.
 jef, junho 2013

«Que Importa a Fúria do Mar» de Ana Margarida de Carvalho, Teorema, 2013. Edição de Maria do Rosário Pedreira.

sábado, 14 de março de 2015

O Teatro de Firmino Bernardo: «Teremos Sempre Tebas»




Consideremos que o oráculo de Delfos não diz a verdade. Antes revela, não a mentira, mas a fantasia que abominamos ou desejamos que aconteça. Tirésias, o cego, apenas sente e também pode estar errado. E a Esfinge e Jocasta, que falsidade terão elas para contar? Édipo, já rei, pode enganar-se, mas poderá também enganar? E Tebas responderá pela culpa? Qual o papel do espectador ao aproximar-se das sete portas de uma cidade sitiada? Em cada um de nós, haverá sempre Tebas!
 
A escrita para teatro de Firmino Bernardo é única. Parece ser uma escrita leve, humorística, lúdica. E é. Contudo, numa camada paralela, parece ser uma dramaturgia existencialista vinda de séculos passados recentes onde o indivíduo em crise se confronta com o coro colectivo. E é. Contudo, num outro extracto interior revela um composto visivelmente político, um sentido brechtiano para se revoltar contra a própria política do espectáculo – discursos curtos, cenas sobrepostas – que dão um trabalhão ao encenador. E revela muito bem. «Teremos sempre Tebas» é uma peça que regressa do classicismo grego, venerando-o, ao mesmo tempo que o excomunga e transporta para a alma contemporânea. Sem mácula faz-nos rir na tragédia, respeitando-a. Tal facto é, em teatro, único. Quem não conhece o teatro de Firmino Bernardo não sabe o que anda a perder.
 
«Teremos Sempre Tebas» peça de Firmino Bernardo (vencedor do Concurso de Dramaturgia Guilherme Cossoul 2014). Encenação de Susana Arrais, com Cláudio Henriques, Miguel Santos, Rui Ferreira e Sara Felício. Em cena na S.I. Guilherme Cossoul, em Lisboa, sextas e sábados, de 27 de Fevereiro a 27 de Março, às 21h30.
 
jef, março 2015


sexta-feira, 13 de março de 2015

A realidade existe. Parte II [os andaimes de Fernand Léger]















 

 
[Diz Fernand Léger: «Uma nuvem, uma máquina, uma árvore, são elementos que apresentam tanto interesse quanto as personagens.»]
 
Quem escreve (ou diz) saberá exactamente a massa volúmica de cada palavra, o peso específico de cada um dos seus significados?
Como eu gostava de saber se as palavras poderão formar, sintagma a sintagma e período a período, discursos bem definidos, digamos, muito simples, vejamos, visuais. Sem vírgulas ou advérbios a destruírem o peso volúmico ou a verticalidade da linha.

Gostava tanto de saber se é possível medir a realidade da palavra quando dita (ou escrita) de olhos abertos e braços levantados ou, silenciosamente, bem de perto da volta de uma orelha.
 
Serão os parágrafos que encontramos dentro de uma frase longa traduzíveis por plantas e alçados, planos, cartas, mapas ou talvez rascunhos, caso a ideia ainda não esteja formada, caso a ideia esteja em pré-palavra?
 
Alguém me dirá se a realidade da palavra, em português, na velhíssima ortografia, pode ser definida pelas linhas grossas, a duas dimensões, egípcias, das telas de Fernand Léger?

Ou se a frase, com estrutura própria, deixará que a revertam em laje, viga, betão armado, aço, cimento, cofragem, na dimensão pura, na característica verdadeira, como se fosse a ideia do pintor?

Andaimes que garantem, pilares que suportam, operários que içam a cabo, roldana e braço. A hipótese de um parágrafo e, com tal puxada, discutir o ponto de aplicação do discurso. Um discurso que dispensa parágrafos. Alavanca.

Sim, como se as frases de um discurso fossem feitas não de parágrafos, que pouca coisa são, apenas tinta escura em papel claro, mas de cores primárias, únicas, distintas, determinadas pela força da gravidade que é multiplicada pela citada massa. Na Terra, 9.8 é a substância certa de cada uma das palavras. Atracção das massas.
 
E se as letras de um poema estivessem inscritas nas cores de Fernand Léger? Caso tivessem dado a Mondrian um ponteiro e um baraço, ele desenharia a circunferência imperfeita. Como se os olhos de Miró segurassem o esquadro e o nível e, através destes, admitissem a recta gravidade. Como eu gostava de conhecer as cores das palavras primárias! [Presunção: as palavras contidas nas cores primárias são perpendiculares entre si.]
 
Como gostava que os que escrevem (os que dizem) colocassem o contrapeso bem medido no equilíbrio da palavra, reviravolta de ferro aço dentro da viga, cimento acomodado na cofragem. Editando a declaração.

Como eu gostava que as declarações fossem cimento. As palavras, tijolos. As vírgulas, fio-de-prumo. O nível-de-bolha, pensamento. Tudo o resto, o ar, a água, a temperatura, as circunstâncias do nada, ou seja, da vida, ou seja, de tudo.

Eu gostava muito que os poemas fossem de sílica, calcário, gesso, quando contactam com as circunstâncias. Cimento endurecido. Não para serem invencíveis, indestrutíveis, irremediáveis. Não. Apenas para o serem desse modo, e desse modo mudarem, transformando as circunstâncias de que são devedores.
 
[Porque o cimento muda as condições em que é trabalhado.]

As palavras, os tijolos e as suas condições, unidos pelo ar, a água, a temperatura, a pressão atmosférica. Tudo faz parte da declaração do poema. O cimento que une os tijolos, as palavras.
 
As palavras são, deste modo, as condições necessárias para quem escreve escrever, para quem diz dizer. Mudando as condições, alteram-se as circunstâncias do cimento, fazendo-as vencíveis, destrutíveis, remediáveis. Adaptáveis às exigências do tempo em mudança. Por isso mesmo, cimento eterno.

Porque as palavras, tal como os castelos construídos com areia na linha da maré, ora baixa ora preia-mar, são prontamente destruídas, ficando apenas a ideia do que eram. A ideia, talvez sílica, calcário, gesso ou areia. Argamassa de cimento com areia e água e calor. E por vezes, armada de aço para que as placas, os pilares, as vigas não cedam às marés. Mas a ideias também elas são destruídas pelo salitre que é alimentado pelo mar. Como o cimento (e o ferro das janelas), se forem esquecidas as circunstâncias e não aplicarem um primário protector como base…
 
Quem me dera que as ideias pudessem ser apenas ar, água e calor. Mas as ideias são como o cimento endurecido que, por mais indestrutível que seja, está sempre pronto a ser derrubado e de novo reconstruído. A ideia é também, por objectivo e consequência, palavra reciclada. Recurso infinito, por princípio. [Aí difere do cimento.]
 
Será então possível avaliar com correcção, em tabela da resistência dos materiais, milimetricamente, a realidade da ideia quando é dita (escrita) de olhos bem abertos, de braços levantados, sob a cor primária de uma bandeira? Ou, quando é escrita (ou dita) ao de leve, de mansinho, roçando silenciosa o lóbulo de uma orelha?

Serão as palavras «clamor» ou «sussurro» de betão armado, iguais aos castelos no ar, fenómenos meteorológicos, fabricados pelas nuvens que o vento modifica a cada sopro? Mas, apesar das circunstâncias volantes, tais castelos, palavras (e ideias) não continuarão a ser objectos absolutamente reais?
 
Não estaremos, assim, perante a realidade de que são feitos os andaimes de Fernand Léger?
 
jef, março 2015

segunda-feira, 9 de março de 2015

Teatro da Cornucópia «Lisboa famosa (portuguesa e milagrosa) ... »



















Teatro da Cornucópia «Lisboa famosa (portuguesa e milagrosa), cenas lisboetas de autos antigos» (Gil Vicente, Baltasar Dias, Afonso Álvares, alguns anónimos)

Lisboa, a fome e a fama que vêm de longe!

Por vezes, podem as palavras vindas de tempos antanhos ficar a soar diferente aos ouvidos de hoje, talvez incompreensíveis. Mas são palavras fundamentais embora diversas, transformando-se, chegando compreensíveis até nós pela expressão dos corpos dos actores, talvez pela sua dança… Como não entender a conversa entre Lisboa e a Fome, entre a Verdade e a Honra, entre o Centeio e o Milho estrangeiro? Como não sorrir com o ciúme de Santo António pela fama de São Vicente?

Esta é uma peça para quem gosta de Lisboa e das cores e da cenografia deslumbrante de Cristina Reis e da recriação subtil do Tejo e do Cais das Duas Colunas. Para quem não esquece o convívio insubstituível com Luis Miguel Cintra, Luís Lima Barreto e José Manuel Mendes. Para quem não esquece o riso de Sofia Marques e a suspensão no olhar de Rita Durão. Para quem apreciar a nova voz e a nova expressão dramática de Ana Amaral, Guilherme Gomes, Isac Graça, Rita Cabaço e Sílvio Vieira. Três gerações de actores para acarinhar quem, como eu, aprendeu a ver teatro com a Cornucópia, desde os idos de 1974 com «a Ilha dos Escravos» de Marivaux, lá no Capitólio, quando este ostentava ainda umas instáveis escadas rolantes.

É um crime teatral não ir ver e rir e pensar com esta peça! Como gostaria eu de ser dramático sem beliscar o profissionalismo destes que mentem com a verdade, deste superior Luis Miguel Cintra que diz a verdade mefistofélica, ajudado pelas deixas escritas no papel que traz na mão um pouco trémula… Ele mente, sim, dizendo a verdade mais pura! Nós os espectadores e esta cidade de fama e fome é que talvez estejamos doentes!

Viva o Teatro da Cornucópia! Viva Luis Miguel Cintra! Viva Lisboa!


jef, março 2015

domingo, 8 de março de 2015

A realidade existe. Parte I [lince-ibérico]


 
Afinal a realidade está aqui: o solo, as plantas, os animais. Segundo a fotografia de Inês Vasco, tirada a 4 de Março de 2015, observa-se o sexto lince reproduzido em cativeiro (Silves) dentro do cercado na região de Mértola. Antes de ser libertado em área aberta. Lince-ibérico Lynx pardinus, o felino mais ameaçado do mundo, também um dos mais belos. (Haverá felinos menos belos? A beleza, prática ética usada pelos humanos para seleccionar objectos, aplicar-se-á à Natureza?)
Repito: A fotografia não é minha, é de Inês Vasco. Nem o lince-ibérico, nem o solo, nem as estevas são minhas. Posso eu fazer parte do Mundo mas ele não me pertence.
 
jef, março 2015

sábado, 7 de março de 2015

sobre o filme «Yvone Kane» de Margarida Cardoso (2014)

 
«Yvone Kane» de Margarida Cardoso. Com Beatriz Batarda, Francilia Jonaze, Gonçalo Waddington, Irene Ravache, Samuel Malumbe. Portugal / Brasil / Moçambique, 2014.
A verdade e o esquecimento
Existe uma frontalidade, diria exactidão e contenção, nas palavras ditas que mantêm os diálogos a pairar na nossa cabeça como epígrafes das imagens. As imagens, essas, na justeza da câmara a tocar o rosto das actrizes (Beatriz Batarda vs. Irene Ravache) com as rugas e as manchas a que as personagens têm direito, tornam os enquadramentos arquitectónicos e a cenografia dos corpos dos actores o modo mais eficaz de fazer escutar as tais palavras poucas. E é importante ser-se exacto e contido quando se trata da oposição entre a verdade e a memória, entre Portugal e Moçambique, brancos e pretos, colonizados e colonizadores, arrogância e generosidade, entre a perda definitiva e a memória dorida, entre a paixão e a compaixão. Que fazer da verdade do passado quando o presente nos transporta para uma fronteira armadilhada que mal distingue a verdade, o esquecimento, o rancor e o perdão?
 
 
jef, março 2015
 

terça-feira, 3 de março de 2015

No Reino dos Macambúzios










Eu sou o Rei dos Macacos!
Há pouco os dados foram lançados.
Os peões no tabuleiro,
o açúcar no açucareiro,
o sortido fino e as burguesas,
o risinho delas e o chá das cinco.
Fazem alegres o piquenique,
a toalha no relvado,
entre brancos e pretos,
fogem os macacos dos quadrados.

Eu sou o Rei dos Malacuecos!
Entre lianas e avencas,
ilhas menos desertas, canibais,
eu dirijo o bicho-carpinteiro.
Traz consigo o bicho-matreiro,
bicho-malino que faz de bicho-de-conta,
príncipe da bisca, do bilhar e da bimbi.
Segue-o o valete dos matrecos.
Só depois vem o burrinho, José, Maria e Jesus,
a mulher dos sacos,
o homem dos trapos,
a menina do tule e dos laços.
A fechar, saltam os macacos a tocar os pratinhos,
(basta pôr a moedinha)
e os manetas trapezistas.
As ciganas trazem à cabeça os tarecos,
trastes velhos, mesquinhices,
gatos pardos, garfos rombos, patos marrecos.
O resto é fantasia!

Eu sou o Rei dos Trampolineiros!
Infantes malacuecos,
donzelas macacas, príncipes malinos,
virgens trapaceiras,
da selva surgem ainda negros flibusteiros,
espada em punho de renda branca.
Pulam manhosos
piratas maravilhosos,
gel na trunfa, sapatos garbosos,
vêm mansos como ministros,
e entre burguesas estendem
a toalha no relvado,
a dos quadrados.
Papoilas rubras, sangue nas flores prisioneiro.
Eles são os reis dos cavalheiros,
belas mãos, os financeiros.
Fingem o riso, trazem embuste,
cativam a fantasia por cumprir
invocam a beleza para a estiolar.
Saem macacos dos quadrados
dominós, arlequins, saguins,
outros bichos afins.
Fazem momices,
trajam de paletó, capindó,
trocam felizes pantominices,
sorriem em salamaleques,
agitam os leques velozes.
Tocam a sociedade em maior dó.

Eu sou o Rei dos Economistas!
Seres avessos, quatro patas,
cauda quase a apartar-se.
Ai as sardaniscas,
osgas putativas
de um Estado por servir!
Lançam um brinde de alegria,
um brunch comemorativo,
um pequeno-almoço de negócio.
Ai o sortilégio dos macacos
a toalha dos quadrados,
o valete dos malacuecos,
o piquenique das burguesas!
Rubro o ventre de quem banqueteou,
esquecido o sangue,
as papoilas, toda a beleza,
e o olhar branco do faminto.
Que requinte!

Ó Banqueiro dos Macacos,
Ó Ministro dos Malacuecos,
Ó CEO dos Trampolineiros,
Ó Director-Geral dos Trapezistas,
oiçam lá!

Eu sou o Rei das Pataniscas!


jef  março 2015