terça-feira, 15 de setembro de 2015

Intercepção











Intercepção

Pousar a mão na rocha
e o braço afundar na água.

Tentar reter breve o sorriso
e não encontrar o corpo no olhar.

Investigar a carne até a penetrar
e não tocar o osso
apenas cingir a concha.

Sondar a concha e do amor
receber o brilho vítreo da lava endurecida.

Procurar a génese do movimento
e ficar preso no instante que a lava arrefeceu.

Muito desejar a noite
mas ser atingido pelo róseo do alvor.

Muito desejar a manhã
mas arrancarmos as frases tardias.

Tanto querer segurar o gomo sanguíneo
mas assistir à folha imaculada sobre a mesa.

Rasurar o vocábulo na folha imaculada
o contorno brilhante do pequeno escaravelho
e verificar que é a névoa nas lentes desactualizadas.

Dever parar
por dever de continuar.

Por último,
ter a certeza que o mar,
esse mar distante e revolto
barulho dos búzios vazios
mágoa dos polvos virados do avesso
cachalotes perdidos dos mais belos marinheiros
violinos rogando pelos náufragos do gelo azul  
zangas de Cila e Caríbdis
gritos de Polifemo por Ninguém

sim,
ter a certeza que esse mar,
cansado do sonho silente das sereias,
será tão próximo e tão manso quanto o desejarmos,
nossa concha, nosso osso, nosso gomo.

A fantasia por descanso final.


jef, setembro 2015

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Contradição












Contradição

existe
a luz e a contraluz
o tempo e o contratempo
o senso e o contra-senso
o peso e o contrapeso
o ciclo e o contraciclo
o campo e o contracampo
a mão e a contramão

o dicionário enche-se de figuras de retórica
definidas a preto e a branco

porém

a maior parte do tempo, a maior parte das coisas
vogam, solenes, talvez de modo saudável
nessa zona que não é carne nem é peixe

onde não nos sentimos mal
mas poderíamos estar bem melhor.

jef, setembro 2015

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Sobre o filme «As Mil e Uma Noites, Volume I – O Inquieto» de Miguel Gomes, 2015















Estranho este modo de contar histórias.

Contar histórias para adormecer os outros, para não adormecermos, para que a morte não nos encontre. Xerazade e Miguel Gomes sabem bem como levar-nos até a essa estranheza, até à fronteira daquilo a que Ingmar Bergman chamou, em 1968, «A Hora do Lobo». A hora de vigília, a hora da incerteza brutal.

Aqui, a ficção é a realidade, o País dos Desempregados e do Desespero, a ficção. [Os estaleiros de Viana, a vespa asiática, a fuga do realizador, os Homens de Pau Feito, o galo sabedor, a paixão e o incêndio florestal, os desempregados heróis, a baleia explosiva, o electrocardiograma, a praia, o banho iniciático do 1º de Janeiro...] A Esperança.

Porém, quem nos leva a escutar as histórias não é a vida nem é a morte, como alguém escreveu. É a Ternura, essa poética maior, tão difícil de transcender, por vezes tão difícil de reter no coração.  O filme nela está ensopado.

Estranho modo este de ouvir histórias para acordar e levar a Ternura a ultrapassar os limites da Hora do Lobo.

Xerazade e Miguel Gomes sabem bem como adiar a morte.

jef, setembro 2015

«As Mil e Uma Noites, Volume I – O Inquieto» de Miguel Gomes. Com Crista Alfaiate, Luísa Cruz, Maria Rueff, Diogo Dória, Adriano Luz, Américo Silva, Rogério Samora, Carloto Cotta, Fernanda Loureiro. Portugal / França / Alemanha / Suiça, 2015

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

sobre o filme «A Fonte da Virgem» de Ingmar Bergman, 1959













A Estética e o Verbo.
Apesar de parecer uma arcaica fábula de natureza religiosa, onde são invocados o Deus Odin e o Deus de Cristo, onde também é nomeado o Diabo como figura principal de retórica, sobre todas elas paira uma quarta imagem, mais poderosa que as anteriores. A Estética. É esse lugar poético e abstracto que poderá garantir a sobrevivência da Ideia.
Tudo conduz à encenação e preparação da tragédia, à consumação desta e, finalmente, à redenção de quem assiste a uma história. Eterna. O confronto entre Ingeri (Bunnel Lindblom) e Karin (Birgitta Petersson), em que o bem e o mal trocam de identidade. A simplicidade chã dos algozes, cuja culpa é suspensa na morte de uma criança amargurada e arrependida por um crime que não cometeu. O pecado confesso de quem vinga. Uma bétula que é vergada até quebrar. A procissão dos aflitos em busca de um corpo virginal e morto. A busca de uma salvação improvável. A água sagrada que lava a consciência. A fonte em redor da qual os sobreviventes se dispõem numa cruz de pena e penitência. Um milagre colocado nas imagens olhadas como palavras iniciáticas. O Verbo, supremo bem da humanidade.
Caso exista Deus, ele residirá na Beleza!

jef, agosto 2015

«A Fonte da Virgem» (Jungfrukällan) de Ingmar Bergman, 1959. Com Max von Sydow, Birggita Vahlberg, Bunnel Lindblom, Birgitta Petersson, Alex Duberg, Tor Isedal, Ove Porath, Allan Edwall, Axel Slangus.
jef, agosto 2015

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Justino mora na sua aldeia












Em qualquer sistema, ser sistemático é um contra-senso. Ser-se sistemático é reduzir a entropia que, a cada momento, o mundo a desorganizar-se vai criando. Mas o mundo desorganiza-se para depois criar mais átomos, mais células. A desconstrução é a estratégia de sobrevivência do mundo. E se num sistema não existe entropia a contrariar, logo não é necessário que Justino seja sistemático. Mas Justino era sistemático, o que provocava não propriamente o riso, mas pelo menos o sorriso complacente da comunidade. E a sua comunidade resumia-se às pessoas, muitas delas suas parentes, que habitavam as quatro ruas, o largo da capela e a estrada junto ao terreiro onde colocaram o reservatório da água e o moinho de vento, onde chegavam as camionetas. A aldeia. Ou seja, o sistema. Aí poderíamos incluir também os animais e as árvores que o rodeavam, já que a comunidade não sobreviveria sem eles. Não sobreviveria no seu modo económico, social ou simbólico. Diga-se, modo moral. Sem as pessoas (e o gado, as árvores de fruto), dificilmente passaria pois era no largo que o sistema se moralizava. Principalmente quando, aí, falavam precisamente de Justino. Pois, nesse aspecto, também a comunidade era sistemática. Não havia tarde em que dele (ou da sua mulher, filha, filho, gato, cão, cabras e galinhas) não falassem. Era apenas um sistema moral equidistante entre a soberba e a inveja. Precisavam só de um elemento teórico externo para poderem observar-se por dentro e sorrirem.

Pode dizer-se que, moralmente, Justino era feliz na sua aldeia.


jef, agosto 2015

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O volume de um perfil












Sim, as estátuas, esses belos e antigos ermos, estão a salvo do pudor.
Apenas pedra e frio. Sílica.
Sangue mineral.
A elas regressaremos, sempre.

jef, agosto 2015

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Simbiose











A árvore estende os ramos,
alastra-os, afasta a atmosfera.
Melhor, ocupa a atmosfera.

Como aquela película de cinema que,
fotograma a fotograma, 
agora sem ruído nem fumo,
lisa, pura, digital,
sem cheiro, temível,
invade durante duas horas
o volume total do nosso ser.
Andrei Tarkovsky, Pedro Costa, Wim Wenders.

Como a tinta imposta a certas páginas
de certos livros,
quando se apodera de um espaço
nunca antes imaginado dentro da nossa cabeça.
Agora sem pó nem cheiro a cola,
em visualizações electrónicas,
finamente iluminadas,
sem sombra de página,
ou, ao menos, um ácaro invisível
(que devorou um pouco de
Fiódor Dostoiévski, Mário de Carvalho, Boris Vian)
a passear carinhosamente entre os pêlos
nascidos nas nossas falangetas.

Sim, a árvore estende os braços,
espreguiça-se agora,
indiferente ao sentido ou à direcção,
integralmente dominada
pela eléctrica vontade
de uma trovoada virtual que,
no fundo da atmosfera, esconde as radículas
luminosas, simbióticas,
a incendiar a própria copa,
milagrosa.

jef, agosto 2015