quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sobre o livro «break dance» de André Ruivo, MMMNNNRRRG, 2015














O sonoro cheiro das sebentas escolares.
Digam o que disserem, existe uma poalha de liberdade, um laço perene de criatividade, deixados ao acaso pelas sebentas escolares. Um cheiro único e sedimentar nos riscos que cobrem a atenção que não é dada às aulas, às matérias, às vozes. Um silêncio único que é coberto de esferográfica, lápis de cor, grafite, tinta, e que vai dançando pelas folhas pautadas através de uma concentração muito especial. (Quem nunca dançou não sabe o poder dessa ‘ausência’). Um vácuo terno e caloroso em cada uma das pautas que poderia estar atafulhada de fórmulas teóricas e demonstrações dogmáticas.
Não é rebeldia mas, pura e simplesmente, Liberdade! Coisa única para o homem e respectiva sobrevivência. É esta a demonstração oferecida pelo recente livro de André Ruivo. «break dance».
Mas tomem atenção, muita atenção!
Não leiam estas ilustrações como desperdício infantil que ocupa muito do espaço psicanalítico da Arte com redes paternalistas de segurança ou acusações iradas contra um passado qualquer. As páginas finais, suspensas nos traços compactos de esferográfica preta, são dessa história prova e redenção!
As pontes executadas pelos traços, ilusoriamente descomprometidos e insconscientes, lançam para dentro de nós as hifas de um futuro que gostamos de ter na mão. Doa a quem doer!

jef, novembro 2015

«break dance» de André Ruivo, MMMNNNRRRG / the inspector cheese adventures, Outubro 2015.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Noite de Halloween. Dia de Todos os Santos. Dia de Finados.












Noite de Halloween. Dia de Todos os Santos. Dia de Finados.

Nunca devemos perder o sentido do nosso desassossego. Mesmo desconhecendo onde, num dado instante, este se encontra. Por vezes, esconde-se, anda cosido com as paredes, finge não nos afectar, até parece andar contente, distraído de nós. Ser independente do nosso sossego. Desengane-se quem pensa que, por fim, partiu de vez, podendo descansar e esquecer o lugar de onde veio.
Não. Esse quem está perante um acto ilusório.
Pelo contrário, o desassossego apenas recua para trás da árvore, faz um cocó, alivia a sua própria dor, desfaz a pressão, para depois tomar balanço e dar, ainda com mais força, um pulo assustador, aparecendo repentinamente à nossa frente.
Faz «Buuuu!».
Nós damos um salto, o coração na boca. No silêncio, assustamo-nos, gritamos sem fazer barulho e acabamos a olhar para o chão, a palma das mãos suadas, o rosto corado, como a criança perante o vidro partido.
Arrependimento, remorso, culpa... O desassossego alimenta-se de várias espécies de abóboras-meninas.
A morte momentânea arrebata-nos para os carris do absurdo e nós, por um momento, morremos com ela, desconhecendo de onde ela saiu, para onde nos levou. A morte perene fica por perto.
Depois as células recolhem à sua valva, esquecem, como esquecem todas as células de qualquer ser vivo que tem o dever da sobrevivência. Acalmam-se e voltam ao acto ilusório.
O desassossego foi só ali atrás da árvore fazer um xixi.

jef, novembro 2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Sobre o filme «As Mil e Uma Noites: Volume 3 – O Encantado» de Miguel Gomes, 2015














O passo do pássaro.

No terceiro volume de «As Mil e Uma Noites: Volume 3 – O Encantado», Miguel Gomes terá ficado encantado pelas histórias que Xerazade foi contando na roda gigante de Marselha, deixando o filme alongar-se entre a ameaça das noites que terminam e as auroras que concedem um dia mais de vida.

Pode o realizador, entre o soberbo material sobre os passarinheiros de Chelas, Camarate, e até da Linha, ter ficado tão enfeitiçado que não teve coragem de o truncar. Ganha o documentário, os rostos, as figuras maravilhosamente filmadas. Perde a ficção e a história.

Mas isto nada importa quando, no final dos três volumes, surge uma das cenas mais belas que eu vi no cinema. Chico Chapas, após passarinhar, solta das redes um velho génio que já não voa nem transporta vento presunçoso. Depois segue caminho entre os campos primaveris dos arrabaldes de Lisboa, amado pelo espírito de Cesário Verde.

Chico Chapas segue a sua vida! Em silêncio, concentrado no objectivo, resistindo, obstinado e perseguido pela natureza. Pela beleza.

Não será melhor seguirmos nós o exemplo? E quanto antes...

jef, outubro 2015

“As Mil e Uma Noites: Volume 3 – O Encantado” de Miguel Gomes, 2015. Com Miguel Crista Alfaiate, Bernardo Alves, Chico Chapas, Carloto Cotta, Américo Silva, Gonçalo Waddington. Portugal / França / Alemanha / Suiça, 125 min.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Lamento












Lamento

Sim, é coisa conhecida. Estranha.
A poesia enche-se
de fenómenos naturais.
Inconsequências meteorológicas
insignificâncias geográficas.

Atmosferas, nuvens, cordilheiras,
luares, oceanos, mares,
estrelas, aves.
Poucos artrópodes.
Um ou outro mamífero
mais estético ou poderoso.

Mas,
poesia à parte,
na realidade, existe
uma calma tensa escondida na face inferior
da superfície do curso médio
de um rio.
Um quase lamento,
talvez choro,
aquoso por incontido,
a correr ao arrepiar das águas.
Uma nostalgia ténue
a fugir para montante,
tão inocente quanto ingénua
por julgar-se infinita.
A nascente.

Só agora a saber-se finita.

Por isso, triste o curso médio do rio
a rever-se já a jusante,
num futuro, lugar incerto por definição,
perdido mar dentro, imenso, reflectido na foz
seja delta ou estuário.

Simbologias. Semiologias. Poesias.
Tudo fenómenos da natureza
e figuras de estilo.

Na realidade,
a realidade do lamento,
talvez de um choro, permanece
desconhecida, alga incompreendida,
oscilando
na face inferior da superfície do rio,
questionando para sempre a turbulência:
vem da estratégia luminosa da nascente
ou pela atracção abissal do oceano?

É esse o curso médio dos planetas
e do resto.

jef, outubro 2015

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Sobre o filme «As Mil e Uma Noites, Volume II – O Desolado» de Miguel Gomes, 2015















O realismo do absurdo.

Neste volume é narrada a história da fuga e da captura do pérfido Simão «Sem Tripas», da exausta juíza que se comove por tudo, e ainda da vida de um prédio, semelhante a uma torre decrépita, onde morou um cão simpático de nome «Dixie».
Tudo junto, o filme deixa aquela angústia tola que Portugal coloca dentro dos seus viventes há longo tempo. Um país cheio de almas soltas, sem eira nem beira, mas que vão resistindo em colectivo pois assim cumprem as leis do governo, da biologia e de Deus. Também as leis do caos e do desejo.
Na alma do espectador fica o caruncho da nostalgia, essa triste perda de uma casa que os gregos sabiam como ninguém. De Ulisses e dos bancos somos todos altos devedores.

Miguel Gomes e Xerazade dizem que a realidade tem artes de dar coesão, talvez justificação, ao absurdo que enche as páginas dos jornais e as redes ditas da sociedade.

jef, outubro 2015

«As Mil e Uma Noites, Volume II – O Desolado» de Miguel Gomes. Crista Alfaiate, Crista Alfaiate, João Pedro Bénard, Isabel Muñoz Cardoso, Luísa Cruz, Adriano Luz, Américo Silva, Teresa Madruga, Margarida Carpinteiro, Gonçalo Waddington. Portugal / França / Alemanha / Suiça, 131 min.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Frases feitas











Frases feitas

Francamente,
a pobreza é coisa de pobres.
Haja contenção no assombro das palavras!

O que é dos pobres, dos pobres será.
O dos ricos, estes que silenciem para o garantir.

Dos pobres, nada está garantido. Garantido, nada é!
Dos ricos, passará de rico para rico,
logo, cada rico, o presente,
deve permanecer alerta. Sempre.
Não vá o rico, o futuro,
fazer mão baixa ao futuro do rico presente.
Uma maçada!

Conquanto,
o pobre
continuará a ir ao piquenicão,
a ouvir Tony Carreira,
a mordiscar um ou dois tremoços.

Esse pobre, passado, presente ou futuro,
permanecerá feliz.
Nada há a vigiar.
Um sossego!


jef, outubro 2015

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Gosto do tempo lento











Gosto do tempo lento.

Prefiro o arrastar das horas
da tarde para além da tarde
do corpo para além do corpo.

Quando o mar sabia ser
de seres estranhos e solitários
e o ar enchia o espaço de balões
de mastaréus e gáveas imaginários.

As estepes eram das palavras
os palácios reflectiam lagos
as florestas corriam através dos cavaleiros.

Cada nome tinha uma história
fundamental
os dedos procuravam o sono
no sereno roçagar do pó das páginas.

As noites ficavam em branco
e São Petersburgo recebia o despertar eterno
a bela Samarcanda vivia ao longe.
Havia moinhos que lutavam
cabelos ao vento
e as selvas possuíam fauces negras.

Um ou outro Emílio a procurar detectives.
Um ou outro Barão trepador.

Guardo o tempo lento dentro de um relógio
E entrego-o ao coelho.

[…]

E espero pela Mãe que vem sempre apagar a luz.


jef, outubro 2015