terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O segredo e Heisenberg











Secretos são os vícios de Polónio. 
Como todos os vícios são, ou tendem a ser.
A vida tem destas coisas. Se não houvesse segredos, na prática poderíamos dispensar até a própria vida.
Porém, pouco ali havia a descobrir.
Foi isso que Estefânia pensou ao encontrar a carta debaixo do forro de papel da gaveta do armário.
Mais do que a confiança perdida (uma vez perdida, perdida para sempre), Estefânia descobriu o Princípio da Incerteza.
Coisa da Mecânica Quântica e do Futuro.

jef, dezembro 2015

[«A Calúnia» de Irma Renault]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Sobre o filme “Minha Mãe” de Nanni Moretti, 2015.















A Arte e o Luto.
«O Grande Peixe» de Tim Burton, 2003. «O Quarto do Filho» de Nanni Moretti, 2001. «Amor» de Michael Haneke, 2013. «Tudo Vai Ficar Bem» de Wim Wenders, 2015. São filmes hiper-realistas sobre a assunção de um sentimento sem senso. Só a arte pode ocupar o espaço de uma tal ausência. Só a arte traduzirá um espectro tão vazio que chega a encher o universo. «Minha Mãe» de Nanni Moretti refaz a estrutura de uma família nesse trajecto desértico e impuro, entre o remorso e um carinho perdido mas reeleito e refeito em reconstrução velocíssima. Memória e Luto, os mais amados frutos do Tempo.

jef, dezembro 2015

Moretti, Nanni “Minha Mãe” (Mia Madre). Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti, Beatrice Mancini. França / Itália, 2015, Cores, 107 min.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A um ouriço-cacheiro.














Santo Sacrifício pelo tempo que já não existe. Vã proposta de felicidade ausente. Vento preso no lençol do estendal. Fingida actualidade de um corpo que muda constantemente no desejo de chegar mais perto da morte, a pedir por um pouco mais de vida. Assim o fruto apodreceu, assim a tinta secou na caneta, assim tão belas e heróicas odes de Píndaro desapareceram para sempre. Como se o deixar de existir fosse o mesmo que o futuro.

Ah, Santo Ofício pela eternidade do sacrifício. Antes ele que eu, diz o pássaro, assustado ao sobrevoar a estrada onde o ouriço-cacheiro acaba de ser esmagado pela roda de um automóvel. Santo veículo a ultrapassar o ofício.

Pura vantagem da ventania que abandonou o lençol em pendente decreto da gravidade. Gravidade do ofício que é veículo do Tempo. Um minúsculo orifício suspenso no estendal do vento cósmico. Santo Orifício!

Um orifício negro preso ao universo. Secreto. Tão negro como a estrada. Um esférico, a outra plana, como um plano secante à esfera de raio infinito. Pobre animal que já não olhará o pássaro do medo a correr por cima do vento, por cima da estrada, por cima do nosso sacrifício. 

Ah, Ouriço! Nosso Sagrado Bicho!

jef, dezembro 2015

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Sobre o filme «Da Natureza» de Ole Giæver e Marte Vold, 2014.














Da natural (mas sem remédio) solidão humana.
O melhor deste curto filme são as suas imperfeições: os anacrónicos hiatos narrativos, a apressada voz off sobre o fundo montanhoso a mover-se lentamente, os ténues flash-backs justificando aquilo que, por vezes, não devia ser desaprovado. A liberdade e a solidão são temas principais para reflexão durante um fim-de-semana em isolamento na montanha norueguesa. A consciência moral em fim-de-ciclo da vida humana em confronto com o ciclo da Natureza sem fim, sem pecado, sem perdão. Para onde caminhamos nós? A solidão é apeadeiro inevitável?

jef, novembro 2015


«Da Natureza» (Out of Nature / Mot Naturen) de Ole Giæver e Marte Vold. Com Ole Giæver, Rebekka Nystabakk, Marte Magnusdotter, Sivert Giæver Solem. Noruega, 2014, Cores, 77 min. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Sobre o filme “Tudo Vai Ficar Bem” de Wim Wenders, 2015.














Wim Wenders, Edward Hopper e a Noite Americana.
Este filme é sobre a improbabilidade da felicidade, ou melhor, sobre a linha que separa a abrupta assunção do luto e a névoa densa em que a memória se transforma com o passar tempo. Como nas telas de Edward Hopper, a sombra recortada ou a luz cega encobrem sempre um factor escondido, inconstante, instável. O factor narrativo da arte e também o do dia-a-dia. Os planos fotografados por Benoit Debie espicaçam a noite americana «hopperiana». A luz de serenidade presa ao fio da tragédia que se deseja sublimar. Tudo se passa sob a anacrónica e tensa banda sonora de Alexandre Desplat. Um dos grandes compositores de Hollywood! Afinal, a felicidade está assente sobre a areia movediça de uma bela luz que pacifica mas que é dramaticamente finita.

jef, novembro 2015


Wenders, Wim “Tudo Vai Ficar Bem” (Every Thing Will Be Fine). Rachel McAdams, James Franco, Peter Stormare, Charlotte Gainsbourg. Fotografia: Benoit Debie; Música: Alexendre Desplat. Argumento: Bjorn Olaf Johannessen; Canadá / Alemanha / França, 2015.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Ora! Ora!













Ora! Ora!

Imagine que o Sol se revolta contra Galileu Galilei e vai de andar desenfreadamente à volta da Terra sem tropeçar sequer na Lua.

Imagine que as galerias Uffizi começam a adquirir Rui Chafes por insuspeita ordem sentimental e todos acorrem a aplaudir o Baco de Caravaggio suspenso num imponderável arame.

Imagine que começam a citar John Cage, Wittgenstein ou Husserl logo ao abrir da primeira classe da instrução pública, por exigência da lógica, dos símbolos ou da lesa-majestade.

Imagine-se que algum iconoclasta resolve adorar a cultura pimba, as flores de plástico, a fastfood, que lhes dedica imagens coloridas, recita belas mantras, evangeliza por textos puros. Imagine que, sobre tudo isso, ainda sorri como se nada fosse.

Imagine que a ciência se transforma numa arte como todas as demais artes não figurativas. Apenas por exacto deleite de conhecer, de criar e de provocar a conversa.

Imagine a natureza a interrogar-se sobre a gravidade, a tensão superficial dos líquidos, a impenetrabilidade dos corpos, a transformação da matéria em vácuo, a energia potencial e o respectivo halo cinemático.

Imagine ainda um fogo a arder sem ser visto, uma ferida que dói sem se sentir, uma dor a desatinar sem doer, um cuidar que se ganha por se perder, uma lealdade a matar e a vencer o vencedor, um andar solitário por entre o mundo.

Ora!

Ficará esclarecido que o coração humano, algum dia, causará amizade favorável no próprio coração humano, mesmo sabendo que tão contraditório é este ao ser que o compreende. Tão contraditório que chega a compreender o seu próprio Amor…

…e Camões que se perca a imaginar rimas sérias para sonetos tolos.

jef, novembro 2015

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A honestidade do pecado














A tômbola do pecado ou a honestidade do aleatório.
Saber o que uma esfera contém é uma motivação profissional tão honesta quanto a de qualquer outra profissão honesta. Agora, saber se existe alguma profissão minimamente honesta, isso já é outro problema. Nesse campo, poderemos recordar a frase célebre dita por algum filósofo em alguma conferência esquecida e da qual ficaram apenas uns quantos registos mal copiados e ainda por cifrar. «Atire a primeira pedra aquele que nunca pecou!». Se assim a verdade fosse, teria desabado uma chuva de pedras mentirosas sobre o pobre atormentado que não se decidia a abrir a bola nas duas metades de que era composta. Frederico colocara a moeda de euro na ranhura e rodara o manípulo em 360º. A esfera caíra, colorida e vã, outra metade transparente, no que agora se chamaria receptáculo. Frederico, como uma criança, ficou a vê-la ali por uns segundos, desconhecendo o que continha: um porta-chaves futebolístico, uma pastilha elástica embrulhada em cromo sugestivo, um corta-unhas com a imagem da santa. Apesar de estar viciado naquelas tômbolas, não movia os braços e as mãos pois tinha a cabeça noutro lugar. Pensava onde residiria o lado honesto de uma profissão. Abrir as bolas para testar o seu conteúdo. Nesse momento, Frederico pensava em Valéria, a prostituta de quem se tornara uma espécie de amigo. Não estaria a ser honesto para com o chulo de Valéria, conhecido do bairro desde miúdos. Frederico queria ser o chulo de Valéria e, logo à tarde, oferecer-lhe-ia o que saísse daquela esfera.
E quem ainda não tivesse pecado que atirasse a primeira pedra.

jef, novembro 2015