segunda-feira, 14 de março de 2016

Ondas Gravitacionais









Ondas Gravitacionais
[Ainda os planetas. Onde assentamos os passos e a gravidade.]

Escrevo a Mercúrio.

Como uma letra chinesa, Mercúrio é mais do que um vocábulo. É um mito. E um mito é um símbolo, um sinal. Um modo de nos entendermos ou de nos desentendermos.

Hg. Hidrargírio, prata líquida segundo os antigos. Número atómico: 80. Massa atómica: 200,59. Invulgar elemento líquido quando a pressão atmosférica e a temperatura são as que nos atingem. Diz-se romboédrico quando cristaliza, em condições inauditas. Em tempos idos, gostou da arte de espelhar e dos termómetros. Faz agonizar o ouro.

Planeta também é, a rodar sobre si e em torno da estrela. Elíptica translação do mais pequeno planeta do nosso sistema. Diâmetro equatorial de 4.879,4 quilómetros. Tão perto vai do Sol que leva apenas 87,9 dias de revolução sideral. Dos nossos dias entenda-se, dias da Terra, o terceiro planeta. Pobre, que nem direito tem a nome divino.

Mercúrio é deus romano mas de brilho fosco quando olha por cima do ombro e vê no espelho a sombra do grande grego, filho de Zeus e irmão de Apolo, Hermes o seu nome. Deus do comércio, dos viajantes, das encruzilhadas. Hermes, sim um grande mito a roubar rebanhos a seu irmão, a inventar harpas e siringes. De caduceu em riste! Triste Mercúrio sempre com o outro na comparação. Deus também, dos mercadores, dos ladrões.

Mesmo assim, leva as mensagens e traz notícias de Júpiter. Anuncia guerras. Quantas vezes terão degolado o mensageiro das sandálias aladas pelo sangue no punhal que o lacre transportou?

Mercúrio, deus-símbolo de uma posta-restante ancestral. Agora privatizada.

Por essas e por outras, disse-me ele que não é bom olharmos para trás pois podemos entender o que temos pela frente. Espelho fatal! Quem consegue ver por cima do ombro o que já foi, presume que caminha sobre o que ainda está por ser. Mas espreitar a rota do passado e ver a sombra de Hermes… O abismo surge a qualquer instante, e o infinito, esse negro vão de escada a esconder o que seremos, engolir-nos-á de modo instantâneo. O pudim do cosmos.

Mas o futuro, como tu, Mercúrio, é apenas um sinal, um símbolo, qualquer coisa que apenas indica o desejo.

Uma letra chinesa sem possibilidade de identificação. Pelo menos, por agora.

E a repercussão desse olhar na esquadria do espaço provoca ondas que ficam a vibrar tempo demais. Essa atracção ou repulsão no espelho sideral não deixa nada indiferente.

Por vezes é uma pequeníssima vibração imperceptível.

Mercúrio, falaram-te algum dia das Ondas Gravitacionais? O poder das massas quando ultrapassam as leis comuns da gravidade e da junção energética. Uma coisa que é ouvida agora mas que vem do antanho, quando a matéria-anti-matéria de dois buracos negros se fundiram nos tempos que a memória não compreende. Como um ralo de banheira centrifugado pela força de Coriolis, a deixar o pano das abcissas e das ordenadas a tinir por muitos anos e bons.

Estranha a influência do passado que é o nosso futuro, por só escutarmos as ondas neste momento preciso. Fantasia ou desejo de Einstein?

Mas se o desejo pode ser tudo, até representar a qualidade de quem espera, então não representa o futuro, o desejo é o próprio futuro. Futuro como qualidade de Esperança, não te parece?

Caríssimo Mercúrio, escrevo-te.
Coisa estranha essa de enviares mensagens que podem liquidar ou exaltar o porvir do Cosmos. Esse perfume gravitacional que, de tão forte e poderoso, altera até o modo como o eixo do Tempo se inclinará.
Quantas mensagens de batalha súbita enviaste através das ondas do passado?
Quantas mensagens de lençóis trocados por Júpiter transportaste tu sem a capciosa Juno saber?
Quantas marés gravitacionais estarão ainda para chegar?
Terás deixado no infinito alguma mensagem escrita pelo teu próprio punho, Ó deus dos ladrões e dos sinais chineses por identificar? Talvez de guerra ou traição…
Alguma de Amor, essa inequívoca lei da atracção universal das massas?

Escuta, Mercúrio, o que Einstein nos diz:
«Na complexa estratégia gravitacional dos planetas, não basta atrair, é fundamental influenciar!»

jef, março 2016

quinta-feira, 10 de março de 2016

Sobre o filme «Muito Amadas» de Nabil Ayouch, 2015











A vida é um cliché.
O filme até pode estar ensopado em clichés, mas deixa um espectador, aquele que olha um filme com o coração e a memória, a reflectir em como esta história é mesmo muito velha. Assim sempre repetem. Tão velha como a humanidade e, por isso, tão literária. É uma história, para o bem e para o mal, perene, sem julgamentos oficiais ou paternalismos evangélicos. Estas mulheres são bonitas. Estas mulheres sofrem mas divertem-se muito! A Europa, Espanha, a Arábia Saudita, Marrocos, talvez não sejam assim tão bonitos. Marraquexe é inesquecível!

jef, março 2016

«Muito Amadas» (Much Loved) de Nabil Ayouch, 2015. Loubna Abidar, Asmaa Lazrak, Halima Karaouane. Marrocos / França, 104 min.

terça-feira, 8 de março de 2016

Sobre o filme «O Filho de Saul» de László Nemes, 2015















Tudo o que brilha! Tudo o que brilha!
Tudo o que falta está para além, para lá dos dois ou três metros da exacta focagem. Tudo o que resta é a morte ou é a vida ou é essa película indistinta que as separa. Desfocado. O horror é demasiado para ser colocado directamente sob o olhar do espectador. O importante é estar perto, muito perto. O importante é a resistência. Também a acção e os movimentos de Saul Ausländer.
Auschwitz, Polónia, 1944. Os soviéticos avançam sobre Cracóvia. Os fornos já não dão vazão à massa combustível e a morte a tiro nas valas comuns é apressada e ineficaz. As cinzas atiradas às águas do rio é um método desorganizado.
Contudo, existe um corpo que tentou resistir à fúria da «Solução Final» e ao «Zyklon B». A esse corpo chamou Saul seu filho. Tudo o que falta a esse corpo é a terra. Tudo o que pode ainda brilhar é a oração.
Mas a oração pode ser vã.
As palavras nela contida e a consciência do espectador não o serão.

Sobre o assunto, Claude Lanzmann, em «Shoah» (1985) e «Sobibor» (2001), demonstrou que uma palavra focada pode honrar a vida ou a morte de 6.000.000 de imagens perdidas.

jef, março 2016

«O Filho de Saul» (Son of Saul / Saul Fia) de László Nemes, 2015. Com Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Todd Charmont, Sándor Zsótér, Amitai Kedar, Uwe Lauer. Hungria / EUA, 107 min.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Sobre o filme «Solaris» de Andrei Tarkovsky, 1972













Regressemos à Terra.

O oceano de Solaris anda nervoso. Sub-reptício, pela calada da noite, retira personagens dos sonhos e confronta os homens com as suas recordações mais fundas. Kris é visitado por Hari. E quem já morreu uma vez não tem medo de morrer novamente. Hari volta uma e outra vez.
Estaremos preparados para tantas ressurreições? Estaremos condenados à alucinação?
A consciência da alucinação será a própria loucura ou o seu inverso? Remorso.
Fausto. Tolstoy. Dostoievsky. D. Quixote. Martin Lutero. Sísifo. Bruegel, o velho.
Qual o nome completo de Deus?
Qual o verdadeiro sentido da vida?
Será a felicidade um dado obsoleto?
Amaremos mesmo o que tememos perder?

O melhor mesmo é regressar à Terra.

jef, março 2016

«Solaris» de Andrei Tarkovsky. Com Natalia Bondartchouk, Donatas Banionis, Iouri Yarvet,  Anatoly Solonitsyne, Vladislav Dvorjetsky, Nikolay Grinko, Sos Sarkissian. Argumento sobre uma obra de Stanislav Lem. Música: Edouard Artemiev / J.S. Bach. URSS, 1972, cores / P/B, 167 min.

terça-feira, 1 de março de 2016

Sobre o filme «Andrei Rublev» de Andrei Tarkovsky, 1966















Neva na catedral.
Após a profanação do templo, os dois monges estetas angustiam: «Não há nada mais horrível que ver nevar na catedral». E no espectador cala fundo a evidência da liturgia do sublime, da substância arquitectónica da metafísica. Nada mais há a dizer sobre o filme [e vem-me à memória outra obra onde a crucificação de Cristo é igualmente colocada de modo tão avassaladoramente espiritual que torna o acto artístico pura ideologia. Refiro-me a «O Evangelho Segundo São Mateus» de Pier Paolo Pasolini, 1964. Dois anos separam os dois filmes!]
Em «Andrei Rublev», logo no início, é-nos revelado: «Para chegarmos à essência das coisas temos de encontrar a verdadeira palavra.» E aqui notamos outras das demandas obsessivas de Tarkovsky – a busca de uma linguagem artística tão pura que revele o cerne da verdade, sendo tal criação humana dádiva pela sua própria criação. A verdade! Nada mais fácil de perseguir. Tão mais difícil de tocar.
E quanto sofrimento leva a fundição de um sino perfeito? 
Tamanha abnegação e dor faz do fraco o mais forte. Do fraco será o reino da verdade porque tomou ele o amor como fé e a terra como sangue. O que resta é dor.
[E beleza, acrescento eu!]
Repito, nada há a dizer sobre «Andrei Rublev».

jef, fevereiro 2016

“Andrei Rubliev” (Andrei Rublyov) de Andrei Tarkovsky, 1966. Com Anatoly Solonitsyne, Nikolay Grinko, Ivan Lapikov, Nikolai Sergueev, Irma Raouch, Iouri Nazarov, Sos Sarkissian, NikolaiBourliaev, Rolan Bykov,  Mikhail Kononov, BolotEighrlanev, S. Krylov, Iouri Nikoulin. URSS, cores / P/B, 205 min.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Sobre o filme «Stalker» de Andrei Tarkovsky, 1979















O som vazio ou o modo de acreditar.
A chama genial de Tarkovksy está no modo em como concretiza uma ideia, por mais abstracta que seja. Tarkovsky é o idealista da estética. Experimente ouvir «Stalker» de olhos fechados. Concentre-se no som- música que acompanha, por exemplo, a viagem dos três personagens pela linha férrea até chegarem à Zona. Sobreponha os «retratos» que acompanham tal banda sonora. Estará pronto para ultrapassar a fronteira da Esperança. Tal como Pamina e Tamino devem passar pelo Calvário de provações e privações, proposto por Sarrastro, para chegarem à consciência da felicidade, também Stalker quer levar o Escritor e o Professor até à Zona para um certo exame do passado e do presente, devolvendo-lhes a difícil e abstracta ideia de Acreditar. Stalker, o tolo, move-se por gratuito desejo de dar, ou seja, move-se por Fé. Porque a Esperança (ou o Desejo de Futuro) é essa ideia abstracta mas imprescindível criada pela humanidade. Que o diga quem se recolhe em oração na penumbra religiosa de uma catacumba ou de uma catedral; quem resistiu e saiu vivo de Auschwitz-Birkenau, em Janeiro de 1945; quem sobreviveu à tortura e não revelou os nomes dos camaradas; quem ama e se entrega devoto ao corpo amado num desejo ideal de Futuro…
Todas são abstracções. Abstracções fundamentais. A Esperança é um dos fundamentos do homem.
Mas Stalker não consegue levar os outros até lá: «O órgão da Esperança deles está avariado.», chora ele. E é a sua mulher que o redime (e nos redime) numa das cenas mais belas do cinema de todos os tempos. Diz ela lavada em lágrimas e virada para o espectador: «Prefiro uma vida amargurada a uma vida vazia.»
Se escutarmos o carinho com que Andrei Tarkovsky envolve o som dos passos nos seus filmes talvez compreendamos que o nosso dever de Acreditar pode ser gratuito mas não é certamente em vão.

jef, fevereiro 2016

“Stalker” de Andrei Tarkovsky. Com Alissa Friendlikh, Alexandre Kaidanovsky, Anatoly Solonitsyne, Nikolay Grinko, Natacha Abramova, F. Yourna, E. Kostine, R. Rendi. Música: Edouard Artemiev. Poemas de Fedor Tioutchev e Arseni Tarkovsky. URSS, 1979, cores / P/B, 163 min.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Sobre o filme «O Espelho» de Andrei Tarkovsky, 1974









A Mãe, mãe de todos os lutos.
Tarkovksy parece ter uma obsessão. Melhor, um olhar político e sistemático de analisar a dor, de a mostrar invariavelmente a outros, de a sublimar e, ao mesmo tempo, expor ao público de modo estético. Ou seja, de modo ético.
A mãe Rússia. A mãe Guerra. A mãe uterina. A mãe espiritual e santa. A mãe que expulsa e se eleva do plano terreno a um estatuto de sofredora, fazendo sofrer em simultâneo. A que é abandonada. A mãe que morre e, finalmente, abandona sem apelo nem agravo, deixando-o perdido no meio da terra, Terra!
Qualquer coisa de muito puro e simples. Qualquer coisa entre o frio da água e o fogo. Tão doloroso e insubstituível como o nascimento que faz a mulher perder, em definitivo, o estatuto protegido de filha para a tornar naquilo que ainda não sabe o que é mas a deixa sem Mãe.
Esse Édipo por reflexo.
Esse espelho.


jef, fevereiro 2016