quarta-feira, 4 de maio de 2016

Sobre o filme «A Casa na Praça Trúbnaia» de Boris Barnet, 1928


















Da bela cidade de Moscovo, das suas criadas de servir e de todo o campo que ela contém.
Do seu acordar, da sua limpeza, de tanto tráfego e de um pato que se sente perdido mas não está.
Da complexidade de um prédio que não deve ter lenhadores a rachar toros nos patamares.
Também da hipocrisia da pequena burguesia que é bem mais complicada que a consciência de classe do proletariado em organização sindical.
Da importância das cabeleiras postiças para o êxito da Revolução Francesa e do teatro para a diversão da sociedade. [Beaumarchais e Fígaro sabiam mais de revoluções que muitos políticos juntos!!]
Da importância da Revolução Russa e da mobilização para as eleições municipais.
Do humor mais louco, da justiça mais cabal, da mais furiosa criatividade.
Da arquitectura de um cenário vertical prodigioso e de uma encenação extravagante, insólita, modernista, como um bailado tonto entre roupa estendida, lixo pelos cantos, dois gatos fugitivos e um cão escanzelado.
Da Liberdade pura e simples!

jef, maio 2016


«A Casa na Praça Trúbnaia» (Dom Na Trubnoy) de Boris Barnet. Com Vera Maretdkaya, Vladimir Fogel, Yelena, Tyapkina, Sergei Komarov. URSS, 1928, P/B.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Sobre o filme «A lei do Mercado» de Stéphane Brizé, 2015















A lei do mercado não é a lei dos homens.
O mercado não é humano.
Thierry (Vincent Lindon), pai de família com encargos particulares e desempregado de longa duração, vê-se obrigado a aceitar trabalho num supermercado como vigilante.
O mercado constrange a sua vida, oprime-o, mas vai mais longe e utiliza-o, humilha-o, deixando-o perante situações cada vez mais confrangedoras. Thierry resiste.
O espectador entra sem rede numa sequência de cenas sem princípio nem final. Não se vêem portas a fechar, passos em corredores. As conversas são apanhadas a meio e praticamente não existem cenas de exterior. Apenas o diálogo, o silêncio e os olhares, como na realidade, a explicar (ou revoltando) o acto da subjugação. A denunciar a claustrofobia de quem deve aceitar as piores condições apenas para fazer sobreviver a família e o afecto que a mantém unida.
Vincent Lindon é extraordinário! 
Também Karine de Mirbeck, a sua mulher, e Matthieu Schaller, o seu esforçado filho e aspirante a Biologia na faculdade.
«Quantas gotas de água cabem num copo vazio?», pergunta-nos Matthieu, numa das cenas mais metaforicamente perfeitas do filme, digamos, de uma beleza política!

«Paraíso, Agora» de Hany Abu-Assad, 2005; «O Segredo de um Cuscuz» Abdellatif Kechiche, 2007; «A Morte do Senhor Lazarescu», Cristiu Puiu, 2005; «4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias» de Cristian Mungiu, 2007; «Dois Dias, Uma Noite» de Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2014; «A Lição» de Kristina Grozeva e Petar Valchanov, 2014.

Estaremos perante um Neo-neo-realismo onde a doutrina dirigida para a ética do colectivo se transformou na doutrina para a resistência do indivíduo só?

jef, maio 2016

«A Lei do Mercado» (La Loi du Marché) de Stéphane Brizé. Com Vincent Lindon, Karine de Mirbeck, Matthieu Schaller. França, 2015, Cores, 93 min.

sábado, 30 de abril de 2016

Reflexo urbano












Há qualquer coisa no reflexo
(ali, sobre o asfalto molhado)
que nos diz que aquilo está para além do que se vê,
está para além de nós.
Aquilo que ali está vai para além do que se acredita.
E nós mantemos os pés juntos como se eles garantissem que aquilo que se vê ali na rua,
espelhado na água da noite,
é o que jamais será
(reflexo de prédio e meio e luminárias urbanas em simetria),
reflexo de nós.
Mas talvez seja esse além do acreditar,
essa ideia perene do improvável palpável
que nos mantenha os pés juntos,
e garanta a alegria instável de suspeitar que o centro de gravidade
continuará em geometria linear com a base de sustentação
do futuro.

jef, abril 2016

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Sobre o filme «Arsenal» de Aleksandr Dovzhenko, 1929



















O movimento tomado como alma. 
Dizem certas correntes da espiritualidade que a alma está contida no olhar (fotografias à parte, que a sonegam!). Os 87 anos deste filme assim indicam nesse expressionismo extravagante e poético, nesse desconexo pretexto narrativo, nesse humor a extravasar a tragédia e o drama. O desastre ferroviário a lembrar o futuro dos filmes catástrofes com o concertina a escorregar moribunda pelo plano fora. O operário desmobilizado (Semyon Svashenko) a gritar: «O maquinista sou eu!» Os planos diagonais, as figuras a desapareceram na cena, os esgares caricaturais e burgueses na Assembleia a serem combatidos pela exigência do poder soviético. A cavalgada desenfreada sobre a neve para poderem enterrar condignamente o herói morto em glória. A imobilidade de quem  já não tem força, não resiste ou colabora. A insurreição reprimida.
Esse poema máximo do operário em greve que dá o peito às balas e não morre. A essência da alma de um homem invencível pelas suas ideias e pela sua acção.
E os olhares a extravasarem a alma…
A reinvenção estética e libertária de um cinema que acabara de ser inventado!

jef, abril 2016

«Arsenal» de Aleksandr Dovzhenko. Com Semyon Svashenko, Amvrosi Buchman, Georgi Khorkov, Dmitri Erdman. Ucrânia, 1929, P/B, 90 min.

terça-feira, 19 de abril de 2016

E Zeus deixará cair a máscara


















Saber pelo mal que existe
o bem que nos faremos.
Se o vento nas tabuas persiste,
segredo de rãs e alfaiates,
sobre o rio perene, ele de prece servirá.
Oremos então.
Leda ama, o cisne se revela,
nocturno e branco
silhueta do Deus.
A água e o amor, sombra de sua vela,
a rocha húmida, viciada de luar.
É o pequeno céu que desafiamos,
da flor exígua que se entrega,
seremos nós a buscá-la:
ranúnculo, alga, semente a vogar como provir
na ténue corrente,
no exíguo firmamento,
a dificuldade das constelações
derrotada pelo diálogo da madrugada.
Conquistamos assim o que é escuro
e de estranha luz do entendimento o faremos.
Castor e Polux nascerão.
O futuro será nosso, o bem também.
E Zeus deixará cair a máscara.

jef, abril 2016

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Sobre o filme «A Lição» de Kristina Grozeva e Petar Valchanov, 2014








Contra-relógio.
Não sei se é fácil organizar a ansiedade mas Nade (Margita Gosheva), professora de inglês, mantém a vida na justa parcimónia da razão. É cuidadosa na sua apresentação na escola. É meticulosa a apanhar os papéis do chão. É justa na avaliação e face ao comportamento dos alunos. Mas a sociedade (a familiar e a outra) está contra ela. Tem de correr para que a vida não descambe. E tudo está contra quem menos tem, quem menos pode. Nade luta até ao fim para que o lado justo prevaleça e que a humilhação social se mantenha dentro das exigíveis baias.
A meticulosa correria contra a adversidade sugere outros filmes, outros actores, outras circunstâncias. A maravilhosa Gena Rowlands em «Gloria» de John Cassavetes, 1980. A incansável Marion Cotillard em «Dois Dias, uma Noite» de Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2014. E claro e não comparando mas simbolizando, Lamberto Maggiorani como Antonio Ricci de «Ladrões de Bicicletas» de Vittorio De Sica, 1948.
O cinema serve (também) para sublinhar a Verdade.
«A Lição» é uma parábola estética sobre a condição humana, por isso o final é quase irónico por interrompido. O confronto do olhar entre os dois ladrões vale a conclusão moral que deixa no espectador. Um quase sorriso de vencedora.
Quanto custa organizar a ansiedade?
Qual o preço cobrado actualmente pela dignidade?
[«Lava Jato / Panama Papers» 0 - «A Lição» 100]

jef, abril 2016

«A Lição» (Urok) de Kristina Grozeva e Petar Valchanov, 2014. Com Margita Gosheva, Ivan Burnev, Ivanka Bratoeva, Ivan Savov, Deya Todorova, Stefan Denolyubov. Bulgária / Grécia, Cores, 111 min.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Sobre o filme «A Infância de Ivan» de Andrei Tarkovsky, 1962











A génese e a tese.
Para entender a dimensão bíblica ou homérica do cinema de Andrei Tarkovsky, no sentido de narrativa infinita (diria José Tolentino Mendonça), observemos as personagens encarnadas pelo actor Nikolai Bourliaev. Ivan, em «A Infância de Ivan» 1962 e Boris em «Andrei Rublev» (1966). Na realidade, a mesma figura infante, órfã e adulta, tornando todos os mais velhos que se lhe aproximam espectadores infantis e receptores inseguros da sua dádiva absoluta, sem hipótese de retorno. Digamos «dádiva cristã». Ivan sofre de sonhos, quatro memórias da absoluta perda maternal. Contudo, Ivan transforma-as em direito de ser batedor-espião junto da frente soviética contra o avanço nazi. Ele recusa ir para a academia, deseja continuar a combater na frente de batalha. Apenas exige tal paga. Mais nada quer. Ivan é o Herói, o órfão-guerreiro, protegido entre os oficiais soviéticos, exaltando nestes o lado mais puro e maternal, talvez carente. Também o choro convulsivo e catártico de Boris, a criança-sineiro, nos braços de Andrei Rublev é um simétrico da Pietá.
Em «A Infância de Ivan», Andrei Tarkovky inicia essa génese-tese estética a que podemos chamar luta pela Redenção contra a Violência, o Abandono e o Exílio. 
O perdão de Cristo, o exílio de Ulisses.
Simultaneamente, o nosso próprio exílio, o nosso próprio perdão.

jef, abril 2016


«A Infância de Ivan» (Ivanovo Detsvo) de Andrei Tarkovsky., Valentin Zoubkov, Evgeny Zharikov, Stepan Krylov, Nikolai Grinko, V. Malgavina, Irma Tarkoskaia, Andrei Mikhalkov-Kontchalosvky. 1962, P/B, 95 min.