quinta-feira, 2 de junho de 2016

Sobre o filme «Ascensão» de Larisa Shepitko, 1977

















Quando a floresta é imensa, a neve interminável, a guerra desmedida.
Qualquer coisa me fez lembrar «Roma Cidade Aberta» de Roberto Rossellini (1945), «A Paixão de Joana d’Arc» de Carl Dreyer (1928), um filme qualquer de Jean Cocteau com Jean Marais que a memória confunde.
De uma estética atroz, de um rigor absoluto.
De como a força de uma ideia ultrapassa a vil sobrevivência do algoz. 
E a traição é desarmada perante o amor pelo próximo.
De como a consciência redime o sofrimento.
De como Cristo não foi o único.
Um dos mais belos filmes sobre a Guerra que vi.

jef, junho 2016

«Ascensão» (Voskhozhdeniye) de Larisa Shepitko, 1977. Com Boris Plotnikov, Vladimir Gostyukhin, Sergei Yakovlev, Anatoliy Solonitsyn, Lyudmila Polyakova, Sergei Kanishchev, Viktoriya Goldentul. URSS, P/B, 105 min.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Sobre o filme «O Homem da Câmara de Filmar» de Dziga Vertov, 1929















A perfeita máquina da humanidade e o seu desejo do futuro.
O que pretendia o músico futurista Dziga Vertov com as suas experiências no «Laboratório do Ouvido»? O que pretendia ele com a vanguarda do «Cinema-Olho»? Escutar e filmar a realidade sem guião, actores, preparação de cena. Imiscuir-se dentro da verdade desvendando-lhe o senso e o seu mais íntimo desejo de futuro. Nada mais do que a máquina, o homem, a mulher, o trabalho, o movimento, o riso, a multidão, o lazer….
Mas como fazê-lo com uma câmara pesada, de presença inquestionável, e uma necessidade brutal de iluminação?
Simplesmente entrar para dentro do filme assumindo o duplo protagonismo das câmaras em contracampo (juntamente com o seu irmão Kaufmann).
Olhar sobre a verdade da câmara e do seu operador torna-se o motivo central e quase surrealista deste modo de filmar.
A cidade e o seu mundo gigante contemplam quem os venera, anulando-se perante a própria imagem. 
Todos gostam de se ver ao espelho, tirar auto-retratos (selfies), criar a sua própria máscara. Quase toda a urbe sorri para a câmara.
O maravilhoso fica suspenso na impressionante jóia que é a montagem desta inqualificável peça de liberdade de acção.
Um filme que nos reconcilia com a Humanidade, com a sua, ainda possível, harmonia. Com a sua ficção!

jef, junho 2016

Vertov, Dziga «O Homem da Câmara de Filmar» (Chelovek K Kino-Apparatom). 1929, P/B, 68 min.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Sobre o filme «Peça Inacabada para Piano Mecânico» de Nikita Mikhalkov, 1977














Fim de ciclo
ou como mudar de vida num mundo onde os maltrapilhos pretendem vir a tocar piano (mecânico).
Quem abraça a causa e luta pela emancipação feminina?
Quem distribui casacas pelos camponeses? Quem monta o porco? Quem irá ser castigado por um beijo?
Afinal, quem oferece o jantar?
Como sobreviver ao tempo de Darwin se tudo aparenta terminar, quando o eterno «depois» ressurrecto não mais existe?
Pobre aristocracia. Pobre médico sem causa. Pobre professor traído pela profissão e pela idade. Talvez pelo amor…
Mas o amor é a única solução. É a própria ressurreição.
Um filme sobre o afecto maior, princípio ígneo da esperança.
Na firme presença de Tchekov («Platonov»).
Na acolhedora sombra de Visconti.

jef, maio 2016


«Peça Inacabada para Piano Mecânico» (Neokonchennaya Pyesa Dlya Mekhanicheskogo Pianino) de Nikita Mikhalkov, 1977. Aleksandr Kalyagin, Yelena Soloney, Yevgeniya Glushenko, Antonina Shuranova. URSS, 1977, Cores, 103 min.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A beleza e a casa












Andrei Tarkovsky (1932 – 1986)

Hesitei em adquirir a caixa com os oito filmes, a obra completa de Andrei Tarkovsky, agora editados. Fiquei na dúvida se tais obras resistem ao formato encaixotado, doméstico, franzido, sempre à espera que o telefone se intrometa ou o vizinho barulhe.

Tenho a sensação que a sua beleza superior está contida no efémero de uma tela maior quando nos cinge e liberta numa sala negra e, em simultâneo, luminosa. Na ausência de nós próprios. Apenas no nosso cérebro e na nossa pele. A ideia e os sentidos.

Em retrospectiva íntima, surgiram-me duas palavras para definir o que sinto por tais filmes: Poesia ecuménica. 

Fui ao dicionário.

Poesia – carácter daquilo que, por ser considerado belo ou ideal, desperta uma emoção ou sentimento estético.

Ecúmena – área da superfície terrestre habitada permanentemente pelo homem. Do grego oikouméne «a terra habitada». Qualquer coisa ligada a «casa».

E levei os DVD para casa.

jef, maio 2016

terça-feira, 17 de maio de 2016

Esquadria














Levanta-te
Põe-te frio
Gela o olhar
Estende o braço
(não esse… o outro)
Não fales
Não abras a boca
(a língua é do outro)
Grita como os outros
Com os outros
(tu és o outro)
Não sorrias
(o riso torna-te outro)
Vá, agora desaparece
Sobrevive
Sem ti
Por ti
Pelo outro
A Terra sobreviverá em ti
(a terra, a outra, viverá sobre ti)

jef, maio 2016

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Sobre o filme «Nove Dias de Um Ano» de Mikhail Romm, 1962








Ocorre-me escrever que, ontem, vi um dos filmes da minha vida.
«Nove Dias de Um Ano» não tem tempo. Enquanto o via, qualquer coisa foi rebuscar o abecedário da minha memória de cinema. «O Medo» de Ingmar Bergman (1954), «Jules e Jim» de François Truffaut (1962), «A Casa Encantada» de Alfred Hitchcock (1945), «Casablanca» Michael Curtiz (1942) […]
Depois reconheci que a minha memória andava errónea, que o filme tinha a ver apenas com a sintética arquitectura da luz, de portas e escadas, uma estratégia concisa de sombras e planos cruzados, corredores percorridos, plasmas ionizados, sobrecarga de reactores nucleares, corpos sobre-expostos a neutrões enervados.
A voz-off a expor a tragédia escondida sob uma comédia latente.
Nesse momento, entendi como os parvos estão geneticamente muito mais adaptados ao mundo do que os inteligentes. Também me disseram como, desde Neanderthal até aos abajures feitos de pele de judeus, a humanidade pouco evoluiu. Justificaram também que nada valia ficarmos pela visita a Vénus se podemos chegar ao fundo da galáxia. Fizeram-me compreender que a vida significa pois podemos falhar uma ideia 100 vezes e tentar de novo.
Quem não vir este filme e não descobrir nele a maravilhosa luz do cinema, o riso subliminar das palavras, o futuro energético do planeta, a composição teatral da humanidade, então não compreende a função da Arte.
Percebi eu com este filme que a memória compara mal e que a ternura vale tudo e a vida também.


jef, maio 2016

terça-feira, 10 de maio de 2016

Sobre o filme «Tu e Eu» de Larisa Shepitko, 1971


















«Ninguém recorda a sua primeira mentira», refere Piotr (Leonid Dyachkov), neurocirurgião em trânsito. Da Suécia para a Sibéria passa por Moscovo. Em torno de Piotr giram saudosos Sacha (Yuri Vizbor), antigo e devoto colega de investigação, e Katya (Alla Deminova), a ex-mulher ainda apaixonada. Todos são satélites de alguma insatisfação profunda e ninguém consegue verdadeiramente tocar em ninguém. Parece um filme de ficção científica sem ficção ou ciência. Apenas sentimentos. «Enquanto sentirmos, existimos», volta a dizer Piotr na sua eterna viagem entre imagens de trabalho, multidão e transportes. Carros, comboios, barcos, aviões. Magnífica deriva!
Sempre gostei de filmes sobre exílios, fugas ou libertações.
A cena do circo é maravilhosa e a cena final, no centro da neve e da reconciliação emocional de um cão, única!
Sobre este existencialismo modernista, essa Nouvelle Vague soviética, recordei-me de que, três anos antes, nas salas de Paris, mal começara a Primavera de 1968, Jean-Luc Gogard estreava um dos mais maravilhosos filmes sobre o sentido da liberdade: «Weekend»!

jef, maio 2016
                 

Larisa Shepitko «Tu e Eu» (Ty I Ya). Com Leonid Dyachkov, Yuri Vizbor, Alla Deminova, Natalya Bondarchuk, Leonid Markov. URSS, 1971, Cores, 97 min.