quarta-feira, 15 de junho de 2016

Lembrar Stefan Zweig. Lembrar o século XX.














Sobre o livro «Amok, O Doido da Malásia» de Stefan Zweig. Livraria Civilização, 1942, 3ª edição, edição fac-símile de uma colecção contemporânea do jornal «Público». Comprado no dia 25 de Abril de 2016, Vila Franca de Xira. 5,95€.

Stefan Zweig representa o século XX. O horror e o esplendor.
Tal como o século, Stefan Zweig pode ser esquecido como escritor mas regressa sempre como personagem trágica de um mundo que não tem volta diversa a dar. Será como a literatura do século XX, entre a leitura amorosa do romance e a penalização difícil da crítica. Hoje em dia quanto valerá a escrita de Stefan Zweig, que tanto rendeu pelo meio do dito século? Quem desclassificará um autor que tão bem descreveu a tragédia feminina, a solidão, o desamor, a obsessão?
Stefan Zweig é um mestre a escrever a história de alguém que conta a sua vida a um narrador inicial. Não sei como se chamará o método. Assim o fez em «Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher». Assim escreveu nas três novelas que compõe este livro: «Amok», «Carta de Uma Desconhecida» e «A Colecção Invisível, um Episódio da Inflacção Alemã».
Por mim, voltarei sempre a Stefan Zweig.
Voltaremos sempre ao século XX.

jef, junho 2016

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Geneticamente eterno














Vi o «O Couraçado Potemkine», pela primeira vez, no Cinema Império lá para 1974. Como toda a plateia chorou com a cena da escadaria e aplaudiu de pé ruidosamente, no final. Voltei a vê-lo no Cinema Universal, na rua da Beneficência. Foi ficando na minha memória, fico retiro na minha estrutura cognitiva e emocional. Ontem voltei ao filme, no cinema, com a distância de algumas décadas. Contemplo a estética universal, a ópera intemporal, o coro grego, a movimentação de figurantes, rostos, barcos, água, os cenários perfeitos e luminosos.

Recordo uma cena de «O Navio / E la Nave Va» de Federico Fellini (1983), quando duas passageiras se chegam à amurada para contemplar um pôr-do-sol pintado em papelão: «É tão bonito que até parece falso!»

Em «O Couraçado Potemkine», as coisas e as pedras e o porto de Odessa conservam para a eternidade essa falsidade única do verdadeiro teatro, o sinal de uma Arte Absoluta.


jef, junho 2016

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Sobre o filme «Ascensão» de Larisa Shepitko, 1977

















Quando a floresta é imensa, a neve interminável, a guerra desmedida.
Qualquer coisa me fez lembrar «Roma Cidade Aberta» de Roberto Rossellini (1945), «A Paixão de Joana d’Arc» de Carl Dreyer (1928), um filme qualquer de Jean Cocteau com Jean Marais que a memória confunde.
De uma estética atroz, de um rigor absoluto.
De como a força de uma ideia ultrapassa a vil sobrevivência do algoz. 
E a traição é desarmada perante o amor pelo próximo.
De como a consciência redime o sofrimento.
De como Cristo não foi o único.
Um dos mais belos filmes sobre a Guerra que vi.

jef, junho 2016

«Ascensão» (Voskhozhdeniye) de Larisa Shepitko, 1977. Com Boris Plotnikov, Vladimir Gostyukhin, Sergei Yakovlev, Anatoliy Solonitsyn, Lyudmila Polyakova, Sergei Kanishchev, Viktoriya Goldentul. URSS, P/B, 105 min.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Sobre o filme «O Homem da Câmara de Filmar» de Dziga Vertov, 1929















A perfeita máquina da humanidade e o seu desejo do futuro.
O que pretendia o músico futurista Dziga Vertov com as suas experiências no «Laboratório do Ouvido»? O que pretendia ele com a vanguarda do «Cinema-Olho»? Escutar e filmar a realidade sem guião, actores, preparação de cena. Imiscuir-se dentro da verdade desvendando-lhe o senso e o seu mais íntimo desejo de futuro. Nada mais do que a máquina, o homem, a mulher, o trabalho, o movimento, o riso, a multidão, o lazer….
Mas como fazê-lo com uma câmara pesada, de presença inquestionável, e uma necessidade brutal de iluminação?
Simplesmente entrar para dentro do filme assumindo o duplo protagonismo das câmaras em contracampo (juntamente com o seu irmão Kaufmann).
Olhar sobre a verdade da câmara e do seu operador torna-se o motivo central e quase surrealista deste modo de filmar.
A cidade e o seu mundo gigante contemplam quem os venera, anulando-se perante a própria imagem. 
Todos gostam de se ver ao espelho, tirar auto-retratos (selfies), criar a sua própria máscara. Quase toda a urbe sorri para a câmara.
O maravilhoso fica suspenso na impressionante jóia que é a montagem desta inqualificável peça de liberdade de acção.
Um filme que nos reconcilia com a Humanidade, com a sua, ainda possível, harmonia. Com a sua ficção!

jef, junho 2016

Vertov, Dziga «O Homem da Câmara de Filmar» (Chelovek K Kino-Apparatom). 1929, P/B, 68 min.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Sobre o filme «Peça Inacabada para Piano Mecânico» de Nikita Mikhalkov, 1977














Fim de ciclo
ou como mudar de vida num mundo onde os maltrapilhos pretendem vir a tocar piano (mecânico).
Quem abraça a causa e luta pela emancipação feminina?
Quem distribui casacas pelos camponeses? Quem monta o porco? Quem irá ser castigado por um beijo?
Afinal, quem oferece o jantar?
Como sobreviver ao tempo de Darwin se tudo aparenta terminar, quando o eterno «depois» ressurrecto não mais existe?
Pobre aristocracia. Pobre médico sem causa. Pobre professor traído pela profissão e pela idade. Talvez pelo amor…
Mas o amor é a única solução. É a própria ressurreição.
Um filme sobre o afecto maior, princípio ígneo da esperança.
Na firme presença de Tchekov («Platonov»).
Na acolhedora sombra de Visconti.

jef, maio 2016


«Peça Inacabada para Piano Mecânico» (Neokonchennaya Pyesa Dlya Mekhanicheskogo Pianino) de Nikita Mikhalkov, 1977. Aleksandr Kalyagin, Yelena Soloney, Yevgeniya Glushenko, Antonina Shuranova. URSS, 1977, Cores, 103 min.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

A beleza e a casa












Andrei Tarkovsky (1932 – 1986)

Hesitei em adquirir a caixa com os oito filmes, a obra completa de Andrei Tarkovsky, agora editados. Fiquei na dúvida se tais obras resistem ao formato encaixotado, doméstico, franzido, sempre à espera que o telefone se intrometa ou o vizinho barulhe.

Tenho a sensação que a sua beleza superior está contida no efémero de uma tela maior quando nos cinge e liberta numa sala negra e, em simultâneo, luminosa. Na ausência de nós próprios. Apenas no nosso cérebro e na nossa pele. A ideia e os sentidos.

Em retrospectiva íntima, surgiram-me duas palavras para definir o que sinto por tais filmes: Poesia ecuménica. 

Fui ao dicionário.

Poesia – carácter daquilo que, por ser considerado belo ou ideal, desperta uma emoção ou sentimento estético.

Ecúmena – área da superfície terrestre habitada permanentemente pelo homem. Do grego oikouméne «a terra habitada». Qualquer coisa ligada a «casa».

E levei os DVD para casa.

jef, maio 2016

terça-feira, 17 de maio de 2016

Esquadria














Levanta-te
Põe-te frio
Gela o olhar
Estende o braço
(não esse… o outro)
Não fales
Não abras a boca
(a língua é do outro)
Grita como os outros
Com os outros
(tu és o outro)
Não sorrias
(o riso torna-te outro)
Vá, agora desaparece
Sobrevive
Sem ti
Por ti
Pelo outro
A Terra sobreviverá em ti
(a terra, a outra, viverá sobre ti)

jef, maio 2016