quarta-feira, 22 de junho de 2016

Sobre o livro «Um Rasto de Alfazema» de Filomena Marona Beja, Parsifal, 2015















Filomena Marona Beja é uma autora única. Muda de editora a cada novo romance. Não se mostra mas impõe-se há muito no panorama literário português. Não gosta de modas mas atenta a tudo quanto é política e publicamente contemporâneo.

A escrita de Filomena Marona Beja não utiliza metáforas, não usa adjectivos gongóricos ou outras partículas adjectivantes. Não preenche o espaço de períodos e parágrafos com algodão para amortecer a queda do leitor.

O leitor que se prepare, que ginastique a leitura. A leitura parece mas não é simples. Deve ser muito atenta.

Filomena Marona Beja não moraliza, não romantiza, não julga.
A escrita de Filomena Marona Beja compreende. Compreende o espaço e o tempo de um modo invulgar.

A leitura de «Um Rasto de Alfazema» é exigente e gratificante. E não se espere primeiras páginas tradicionais, conclusões grandiloquentes.
                                                                                    
Talvez as únicas metáforas que Filomena Marona Beja consente em «Um Rasto de Alfazema» sejam o aromático título, a arriscada ascensão do balão de ar quente do palhaço Vira-Vento e a directa referência ao escritor e jornalista Guilherme de Melo, ao seu livro «A Sombra dos Dias» (1981).

Por isso, a leitura de «Um Rasto de Alfazema» de Filomena Marona Beja é eficaz.

(Já decorou o nome da autora e do livro? Ainda bem! Não se arrependerá de o ler.)

jef, junho 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

Sobre o filme «O Tio Vânia» de Andrei Konchalovsky, 1971























Anton Tchékhov é o autor do tempo depois do tempo. Escreve sobre aqueles cuja memória e o relógio aprisionaram num espaço sem solução. Imutável. Mesmo que a emancipação feminina se apresente, a revolução espreite ou as ideias novas sobre a floresta e o equilíbrio do clima estejam aí. A família e a inelutável hierarquia feudal. Sobre tudo, o cansaço imenso da vida e do amor por realizar.
Andrei Konchalovsky coloca as personagens sob o calor que invade a casa por janelas envelhecidas. No cenário, as portas vão rangendo, os vidros partem-se, alguns livros são lidos. As folhas que anunciam novidades são rasgadas. Um mapa de África que anuncia viagens. 
O médico parte, os outros também. Voltam a ficar juntos, mas sós.
O Tio Vânia e a sobrinha retomam a contabilidade urgente. O ábaco faz as vezes de clepsidra, a cor desvanece-se no ecrã. Apesar do fim anunciado, a tundra surge como esperança da floresta.
Descansaremos.
Depois sim, felizmente poderemos descansar.

jef, junho 2016

«O Tio Vânia» (Dyadya Vanya) de Andrei Konchalovsky. Com Irina Anisimova-Wulf, Serguei Bondarchuk, Irina Kupchenko, Yekaterina Mazurova. URSS, 1971, Cores P/B, 104 min.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Sobre o filme «Asas» de Larisa Shepitko, 1966

















«A única galinha empalhada do mundo», refere Nadezhda Petrukhina (Maya Bulgakova) olhando o animal, enquanto se passeia pelo museu. Ali se expõem, juntamente com despojos de mamutes, o seu nome e a sua imagem como aviadora-heroína soviética na Grande Guerra. Agora Nadya é directora de uma escola e pede alguém em casamento. Ri.

Com este filme, Larisa Shepitko acaba de vez com o neo-realismo ou com o realismo-socialista ou com a aproximação a qualquer outro realismo.

Tal como a Nouvelle Vague usou a paixão pelo cinema americano, Hitchcock em particular, para realçar o existencialismo e atribuir às personagens a sombra de ícones modernistas, aqui o humor truncado surge em permanência na figura austera da directora da escola. Um Senhor Hulot trágico-cómico consciente de que a vida raras vezes leva ao lugar certeiro mas que transporta, por hipótese, uma brisa de mudança. Talvez apenas um sorriso.

A cena em que, sob o calor, tenta lavar os frutos que transporta nas mãos mas a torneira não colabora e, logo depois, é encharcada por um forte aguaceiro, é o belíssimo exemplo! Enquanto todos fogem, Nadya sorri e apresenta os frutos à chuva.

É um filme sobre a resistência ao tédio,
sobre um certo modo de olhar o dia-a-dia,
sobre o poder da liberdade e da esperança.

jef, junho 2016

«Asas» (Krylya) de Larisa Shepitko. Com Maya Bulgakova, Sergey Nikonenko, Zhanna Bolotova, Pantelejmon Krymov. URSS, 1966, P/B, 85 min.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Lembrar Stefan Zweig. Lembrar o século XX.














Sobre o livro «Amok, O Doido da Malásia» de Stefan Zweig. Livraria Civilização, 1942, 3ª edição, edição fac-símile de uma colecção contemporânea do jornal «Público». Comprado no dia 25 de Abril de 2016, Vila Franca de Xira. 5,95€.

Stefan Zweig representa o século XX. O horror e o esplendor.
Tal como o século, Stefan Zweig pode ser esquecido como escritor mas regressa sempre como personagem trágica de um mundo que não tem volta diversa a dar. Será como a literatura do século XX, entre a leitura amorosa do romance e a penalização difícil da crítica. Hoje em dia quanto valerá a escrita de Stefan Zweig, que tanto rendeu pelo meio do dito século? Quem desclassificará um autor que tão bem descreveu a tragédia feminina, a solidão, o desamor, a obsessão?
Stefan Zweig é um mestre a escrever a história de alguém que conta a sua vida a um narrador inicial. Não sei como se chamará o método. Assim o fez em «Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher». Assim escreveu nas três novelas que compõe este livro: «Amok», «Carta de Uma Desconhecida» e «A Colecção Invisível, um Episódio da Inflacção Alemã».
Por mim, voltarei sempre a Stefan Zweig.
Voltaremos sempre ao século XX.

jef, junho 2016

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Geneticamente eterno














Vi o «O Couraçado Potemkine», pela primeira vez, no Cinema Império lá para 1974. Como toda a plateia chorou com a cena da escadaria e aplaudiu de pé ruidosamente, no final. Voltei a vê-lo no Cinema Universal, na rua da Beneficência. Foi ficando na minha memória, fico retiro na minha estrutura cognitiva e emocional. Ontem voltei ao filme, no cinema, com a distância de algumas décadas. Contemplo a estética universal, a ópera intemporal, o coro grego, a movimentação de figurantes, rostos, barcos, água, os cenários perfeitos e luminosos.

Recordo uma cena de «O Navio / E la Nave Va» de Federico Fellini (1983), quando duas passageiras se chegam à amurada para contemplar um pôr-do-sol pintado em papelão: «É tão bonito que até parece falso!»

Em «O Couraçado Potemkine», as coisas e as pedras e o porto de Odessa conservam para a eternidade essa falsidade única do verdadeiro teatro, o sinal de uma Arte Absoluta.


jef, junho 2016

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Sobre o filme «Ascensão» de Larisa Shepitko, 1977

















Quando a floresta é imensa, a neve interminável, a guerra desmedida.
Qualquer coisa me fez lembrar «Roma Cidade Aberta» de Roberto Rossellini (1945), «A Paixão de Joana d’Arc» de Carl Dreyer (1928), um filme qualquer de Jean Cocteau com Jean Marais que a memória confunde.
De uma estética atroz, de um rigor absoluto.
De como a força de uma ideia ultrapassa a vil sobrevivência do algoz. 
E a traição é desarmada perante o amor pelo próximo.
De como a consciência redime o sofrimento.
De como Cristo não foi o único.
Um dos mais belos filmes sobre a Guerra que vi.

jef, junho 2016

«Ascensão» (Voskhozhdeniye) de Larisa Shepitko, 1977. Com Boris Plotnikov, Vladimir Gostyukhin, Sergei Yakovlev, Anatoliy Solonitsyn, Lyudmila Polyakova, Sergei Kanishchev, Viktoriya Goldentul. URSS, P/B, 105 min.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Sobre o filme «O Homem da Câmara de Filmar» de Dziga Vertov, 1929















A perfeita máquina da humanidade e o seu desejo do futuro.
O que pretendia o músico futurista Dziga Vertov com as suas experiências no «Laboratório do Ouvido»? O que pretendia ele com a vanguarda do «Cinema-Olho»? Escutar e filmar a realidade sem guião, actores, preparação de cena. Imiscuir-se dentro da verdade desvendando-lhe o senso e o seu mais íntimo desejo de futuro. Nada mais do que a máquina, o homem, a mulher, o trabalho, o movimento, o riso, a multidão, o lazer….
Mas como fazê-lo com uma câmara pesada, de presença inquestionável, e uma necessidade brutal de iluminação?
Simplesmente entrar para dentro do filme assumindo o duplo protagonismo das câmaras em contracampo (juntamente com o seu irmão Kaufmann).
Olhar sobre a verdade da câmara e do seu operador torna-se o motivo central e quase surrealista deste modo de filmar.
A cidade e o seu mundo gigante contemplam quem os venera, anulando-se perante a própria imagem. 
Todos gostam de se ver ao espelho, tirar auto-retratos (selfies), criar a sua própria máscara. Quase toda a urbe sorri para a câmara.
O maravilhoso fica suspenso na impressionante jóia que é a montagem desta inqualificável peça de liberdade de acção.
Um filme que nos reconcilia com a Humanidade, com a sua, ainda possível, harmonia. Com a sua ficção!

jef, junho 2016

Vertov, Dziga «O Homem da Câmara de Filmar» (Chelovek K Kino-Apparatom). 1929, P/B, 68 min.