sábado, 23 de julho de 2016

Sobre o livro «Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato» de Ana Margarida de Carvalho, Teorema 2016.

Ana Margarida de Carvalho atira-nos à tormenta. Entre o céu dos pardais e o mar dos naufrágios somos navegados através da metáfora. A Nave dos Loucos, Robinson Crusoé, Dois Anos de Férias, A Ilha do Tesouro, O Deus das Moscas, Gulliver, Ulisses… A viagem eterna, ou seja, a viagem sem retorno.
A solidão de uma praia é o mais apetecível ponto de chegada mas, igualmente, o mais intransigente local para partir. Aqui, Alexandre O’Neill, José Mário Branco, Caetano Veloso, Dostoievsky, Marisa Monte, Paulo Varela Gomes…
Que não se espere a benevolência de uma natureza revoltada, de um Deus inclemente, do passado inconformado. 
Assim sempre será!
«A inferior condição do ser humano quando a única força de que dispõe é a de ter muita fome.»
«Talvez deixar-se dormir, e ir-se assim, embalado num barco tempestuoso e bêbado que é o próprio corpo.»
«O caos é uma das ordens de Deus, porventura, a lei por ele mais praticada.»
«Os deuses não nutrem pingo de interesse pela condição humana e percebem tão pouco de religião.»
Mas devemos continuar. Sempre. O regresso está vedado.
Pela imolação do anho ao sagrado, e são tantas as criaturas inocentes sacrificadas, a escritora dá largas à veia de narrar o passado dos passageiros naquela praia de acolhimento infernal até os vir colocar num presente eternamente inconclusivo e amoral, cravado nas viagens clandestinas de escravos após a abolição da tal lei. 
África, Brasil, Portugal.
Como se Ana Margarida de Carvalho nos avisasse. Como se ouvíssemos dizer que a viagem é perigosa, que a literatura é um lugar estranho, muito mais implacável do que a morte, bem mais compreensivo do que a sobrevivência.

jef, julho 2016

terça-feira, 5 de julho de 2016

terra











Vá. Mete as mãos debaixo da terra e procura. Não sejas preguiçoso. Não adies. Tu sabes, tu queres, mas evitas arregaçar as mangas e sujar as unhas. Pareces ter consciência do que é gastar a última energia sem teres a certeza de, com ela, encontrar o que pretendes e, nesse caso, esvaíres-te, ficares exangue, exausto, inerte e, acima de tudo, de mãos vazias. Vá. Vamos lá. Não temas os dedos feridos, não te preocupes em partir as unhas. Elas de nada servirão se não gastares a última energia que te resta. Mesmo se, por debaixo da terra, apenas terra exista. A terra poderá ser vã, a procura não.

jef, julho 2016

terça-feira, 28 de junho de 2016

Sobre o filme «Adeus a Matiora» de Elem Klimov, 1983

















«Adeus a Matiora», realizado por Elem Klimov sobre a ideia de Larisa Shepitko, sua mulher (falecida num acidente de viação), afasta-se de Tchekov e aproxima-se de Shakespeare. Violentamente.
É um filme sobre a mortalha e o remorso que sobre ela recai.
Sobre a morte e os fantasmas perseguidores que vai deixando para trás.
Sobre a culpa e o medo de não sobreviver à memória. A verdade é a memória, diz-se.
Sobre o sacrifício de uma Aldeia submersa pelas águas de uma barragem; a defesa de um carvalho secular imolado pelo fogo; a salvação das campas dos antigos, dos samovares, das reses, das batatas, do musgo.
Sobre a mulher e a água, a terra, o fogo, as cinzas.
Sobre a Mãe, ícone russo e universal, ser material e etéreo. Sobre a Mãe-Terra querida. Aqui, ela é Daria que, escondida, reza por uma terra defunta, enquanto os aldeãos dançam loucos com os camaradas que chegaram para ajudar a ceifar o derradeiro feno.
O centro é a belíssima, a magnífica Daria. Sublime interpretação de Stefaniya Stanyuta que, em cena inesquecível, lava os restos mortais de sua casa.
Um requiem sobre o que nós fizemos perder, em consciência, e que não voltará mais. Shakespeare fala da culpa e do remorso. Klimov, de arrependimento e do grito desesperado de quem se perdeu definitivamente nas águas e no nevoeiro.
Grandioso filme!

jef, junho 2016


«Adeus a Matiora» (Proshchanie) de Elem Klimov. Com Stefaniya Stanyuta, Aleskei Petrenko, Lewonid Kryuk. URSS, 1983, Cores, 112 min.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Sobre o filme «Chuva de Julho» de Marlen Khutsiev, 1966












Não temos medo do futuro.
Imaginemos James Stewart e Grace Kelly, uma perna partida à frente de uma janela. Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg, o Herald Tribune nos Campos Elísios. David Hemmings e Vanessa Redgrave, a fotografia a revelar uma aparição pouco clara.
Imaginemos agora Evgeniya Uralova (Lena) e Aleksandr Belyavskiy (Volodya) na resplandecente aparição em «Chuva de Julho».
No cinema, não existem imagens mais futuristas!
E no fundo, «Chuva de Julho» é um filme musical com uma banda sonora perfeita no seu valor absoluto, (escutemo-lo de olhos fechados!), até que Lena pede a Alik (Yuriy Vizbor) para não cantar mais. É a cena determinante do piquenique. São melodias vindas de uma guerra que todos devem esquecer. Mas «É impossível não cantar no país da juventude!», mesmo que o pai tenha morrido, que se discuta o crescente consumo de água potável, que a ginástica isométrica faça furor. Estamos no tempo do Ye-Ye, no tempo em que os antagonistas de um duelo se cumprimentam com um olá! e um adeus!
Para que servirá o casamento se o futuro anda na rua?

Já no final, os abraços entre os veteranos da guerra contra o olhar sério de tantos jovens enfrentando a câmara directamente representa esse confronto perfeito entre a Arte Contemporânea e o Presente Histórico da Sociedade.

Um filme imperdível!!

jef, junho 2016

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Sobre o livro «Um Rasto de Alfazema» de Filomena Marona Beja, Parsifal, 2015















Filomena Marona Beja é uma autora única. Muda de editora a cada novo romance. Não se mostra mas impõe-se há muito no panorama literário português. Não gosta de modas mas atenta a tudo quanto é política e publicamente contemporâneo.

A escrita de Filomena Marona Beja não utiliza metáforas, não usa adjectivos gongóricos ou outras partículas adjectivantes. Não preenche o espaço de períodos e parágrafos com algodão para amortecer a queda do leitor.

O leitor que se prepare, que ginastique a leitura. A leitura parece mas não é simples. Deve ser muito atenta.

Filomena Marona Beja não moraliza, não romantiza, não julga.
A escrita de Filomena Marona Beja compreende. Compreende o espaço e o tempo de um modo invulgar.

A leitura de «Um Rasto de Alfazema» é exigente e gratificante. E não se espere primeiras páginas tradicionais, conclusões grandiloquentes.
                                                                                    
Talvez as únicas metáforas que Filomena Marona Beja consente em «Um Rasto de Alfazema» sejam o aromático título, a arriscada ascensão do balão de ar quente do palhaço Vira-Vento e a directa referência ao escritor e jornalista Guilherme de Melo, ao seu livro «A Sombra dos Dias» (1981).

Por isso, a leitura de «Um Rasto de Alfazema» de Filomena Marona Beja é eficaz.

(Já decorou o nome da autora e do livro? Ainda bem! Não se arrependerá de o ler.)

jef, junho 2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

Sobre o filme «O Tio Vânia» de Andrei Konchalovsky, 1971























Anton Tchékhov é o autor do tempo depois do tempo. Escreve sobre aqueles cuja memória e o relógio aprisionaram num espaço sem solução. Imutável. Mesmo que a emancipação feminina se apresente, a revolução espreite ou as ideias novas sobre a floresta e o equilíbrio do clima estejam aí. A família e a inelutável hierarquia feudal. Sobre tudo, o cansaço imenso da vida e do amor por realizar.
Andrei Konchalovsky coloca as personagens sob o calor que invade a casa por janelas envelhecidas. No cenário, as portas vão rangendo, os vidros partem-se, alguns livros são lidos. As folhas que anunciam novidades são rasgadas. Um mapa de África que anuncia viagens. 
O médico parte, os outros também. Voltam a ficar juntos, mas sós.
O Tio Vânia e a sobrinha retomam a contabilidade urgente. O ábaco faz as vezes de clepsidra, a cor desvanece-se no ecrã. Apesar do fim anunciado, a tundra surge como esperança da floresta.
Descansaremos.
Depois sim, felizmente poderemos descansar.

jef, junho 2016

«O Tio Vânia» (Dyadya Vanya) de Andrei Konchalovsky. Com Irina Anisimova-Wulf, Serguei Bondarchuk, Irina Kupchenko, Yekaterina Mazurova. URSS, 1971, Cores P/B, 104 min.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Sobre o filme «Asas» de Larisa Shepitko, 1966

















«A única galinha empalhada do mundo», refere Nadezhda Petrukhina (Maya Bulgakova) olhando o animal, enquanto se passeia pelo museu. Ali se expõem, juntamente com despojos de mamutes, o seu nome e a sua imagem como aviadora-heroína soviética na Grande Guerra. Agora Nadya é directora de uma escola e pede alguém em casamento. Ri.

Com este filme, Larisa Shepitko acaba de vez com o neo-realismo ou com o realismo-socialista ou com a aproximação a qualquer outro realismo.

Tal como a Nouvelle Vague usou a paixão pelo cinema americano, Hitchcock em particular, para realçar o existencialismo e atribuir às personagens a sombra de ícones modernistas, aqui o humor truncado surge em permanência na figura austera da directora da escola. Um Senhor Hulot trágico-cómico consciente de que a vida raras vezes leva ao lugar certeiro mas que transporta, por hipótese, uma brisa de mudança. Talvez apenas um sorriso.

A cena em que, sob o calor, tenta lavar os frutos que transporta nas mãos mas a torneira não colabora e, logo depois, é encharcada por um forte aguaceiro, é o belíssimo exemplo! Enquanto todos fogem, Nadya sorri e apresenta os frutos à chuva.

É um filme sobre a resistência ao tédio,
sobre um certo modo de olhar o dia-a-dia,
sobre o poder da liberdade e da esperança.

jef, junho 2016

«Asas» (Krylya) de Larisa Shepitko. Com Maya Bulgakova, Sergey Nikonenko, Zhanna Bolotova, Pantelejmon Krymov. URSS, 1966, P/B, 85 min.