sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Sobre o disco «Delírio» de Roberta Sá, Som Livre / Sony 2015












Há discos assim. Tomam-nos de assalto!
Este é um deles. A música popular brasileira foi, é, será sempre deste modo. Moderna, ancestral, antiga, já ouvida, sempre nova, a colocar o coração nas mãos e a alma dos sapatos no samba.
Um magnífico hífen que liga a maravilhosa África à relha Europa. Uma espécie de Juno que descobre o feitiço de novas Ítacas.
Martinho da Vila, Chico Buarque, Moreno Veloso, Arnaldo Antunes, António Zambujo, Adriana Calcanhoto, Jacques Morelenbaum...                     
É tão bom voltar ao ponto de partida, ao que já fomos, sabendo que ele nos entregará a um ponto desconhecido do futuro.
Simples, fácil, difícil, complexo.
É tão bom dançar!
Maravilhoso!


jef, agosto 2016

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Sobre o livro «A Apologia do Ócio / A Conversa e os Conversadores» de Robert Louis Stevenson, Antígona 2016. Tradução: Rogério Casanova.

                                                                                        











«Muitos dos que se “agarraram aos livros com diligência”, e tudo aprendem sobre um ou outro ramo do conhecimento comum, emergem da sala de estudos com um semblante de coruja velha, e revelam-se rígidos, ineptos e dispépticos nas mais luminosas e agradáveis partes da vida. Muitos acumulam grandes fortunas, mantendo-se pouco refinados e pateticamente estúpidos até ao último dos seus dias. E entretanto vai o gazeteiro...»

«O excesso de actividade, na escola ou no colégio, na igreja ou no mercado, é sintoma de uma vitalidade deficiente; enquanto a capacidade para o ócio implica um apetite ecuménico e uma vigorosa identidade pessoal.»

«As palavras certas saem-lhe por vezes da boca, quase por acidente; e, vinda de lugares mais profundos, atingem-nos de forma mais pessoal, pois estão envoltas na velha crosta de humanidade, rica em sedimentos e humor.»

O Ócio é lugar de conhecimento e reflexão, a Escola é o seu lugar. A conversa é o lugar da retórica, do diálogo, da ideia comum, da Liberdade e da Democracia. Assim dizem os antigos, que gregos foram, dizem outros e também Robert Louis Stevenson que tão bem escreve e com tamanha graça. Soa-me à distância próxima: Sócrates, o velho, «O Elogio da Loucura» de Erasmo de Roterdão, «A Ideia de Europa» de George Steiner, «O Prazer do Texto» de Roland Barthes, e por aí fora… Os textos são como as cerejas!

Que alívio ler Stevenson sobre o ócio e a conversa após ter visto o filme «Experimenter» de Michael Almereyda (1915) sobre Stanley Milgram, Adolf Eichmann, o controlo, a mentira, a repugnância, a manipulação, ódio e o pior silêncio.

jef, agosto 2016

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Sobre o filme «Experimenter» de Michael Almereyd, 2015













Palavras-chave.
Autoridade / Consciência. Escolha /Obediência.
Verdade / Mentira. Condicionamento / Livre arbítrio.

1961. Adolf Eichmann era julgado em Israel e Stanley Milgram experimentava em seres humanos as suas teorias sobre psicologia social, nos Estados Unidos da América. Eichmann não enjeitou os crimes mas defendeu-se dizendo que “apenas” obedecia a leis e ordens. Milgram, mentindo, levava cobaias humanas a exercer o suposto sofrimento a semelhantes quando estes falhavam as respostas. A Obediência é estimulada. A Consciência, a Ética, a Moral, são questionadas e colocadas num plano secundário.

A questão fulcral é sugerida por uma aluna, quando lembra que, ao contrário das experiências em que Milgram mente aos “agentes da dor”, no Teatro a “mentira” é assumida conscientemente pelo espectador quando entra na sala de espectáculo. Deste modo, a fantasia, muda de figura.

Muito interessante é, exactamente, a questão teatral no filme em que Peter Sarsgaard (Stanley Milgram) discursa para a câmara, dialogando directamente com o espectador. Sasha Milgram (a bela e reaparecida Winona Ryder) faz o contraponto feminino, talvez o coro, tornando mais verdadeiro e complexo o propósito do realizador. Os cenários visivelmente construídos ou projectados em grande imagem sobre a tela, aproximam e humanizam o protagonista e o tema central do filme.

Esse tema tem por base uma frase que surge amiúde na arte contemporânea, vinda daquele que tinha alguma dificuldade em escolher. Søren Kierkegaard. “Só compreendemos a vida se olharmos para o passado, mas só a podemos viver se olharmos para o futuro”.

Muita atenção à banda sonora de Bryan Senti.

jef, agosto 2016


«Experimenter» de  Michael  Almereyd. Com Peter Sarsgaard, Winona Ryder, John Palladino, Anthony Edwards, Jim Gaffigan, Tom Farrell, Anton Yelchin, Winona Ryder, Jim Gaffigan, Anthony Edwards, Taryn Manning, John Leguizamo, Kellan Lutz, Dennis Haysbert. EUA, 2015, Cores, 98 min.

domingo, 14 de agosto de 2016

Flor do Tejo









Flor do Tejo

Ser rio ou as suas margens.
Ser rio e as suas margens.
Que rio não é sem o que o limita.
Elas nada seriam se o curso lhes desistisse.

Em que ficamos?
Frases feitas.

Dizem que a cheia lhes traz desgraçadas ou graças
fertilidades, felicidades, inundações,
afogamentos,
amores também.
Nilo, Mondego, Tejo,
qual for…

Escrituras sagradas, o êxodo,
 vêem uma ou duas garças, curvo pescoço,
e os crocodilos, olhar sobrevoando a superfície.
Talvez um cesto suspenso nos juncos.
Escrito nos papiros. Hieróglifo inconstante,
aquático,
por decifrar.
Prece pela catástrofe iminente,
benfazeja.
Rei incógnito libertado das águas por mão da princesa contrária.
Sacrificado esse amor pela salvação do povo e do seu reino.

O vale dos reis.
O menino vogando nas águas.
Quem o canta, quem as cantará.

Nílicas, tágides, rainhas do Mondego.
Ninfas discretas, condoídas, por identificar,
que as últimas sem nome vão.
Quem as exige só de fado lembra
de saudade e do penedo e do encanto na despedida.
Escadarias nocturnas, desertas.
Ah, os campos de Santa Clara!
Pedro, o cru, e Inês, a bela eterna
por rainha, cadáver desenterrado,
sobrenadando a terra, como Ofélia! Depósito em suspensão, solução, limo,
líquido, o pó
e o amor.
Dele regressou, a ele voltará.

E os esteiros, as marachas, os campos alagados.
Algas, peixes, a doença lacustre
como sáurio dolente, o arroz,
sustento de Primavera.
A ela o rio volverá a cada novo ano,
dela o homem escapa a cada ano volvido.

Pobre Camões… Constância, Coimbra, Lisboa.
A lampreia não consegue passar o açude,
o sável já não desova, pobre rio.
Salvaterra, Vilafranca. Alentejo
e o Tejo ainda em riba.

Em que ficamos?
Versos comuns,
Esquecidos, por ditos,
musas adormecidas,
por distraídas,
quase desleixadas.
Tão cantadas como descartadas.

O poeta em exaustão!

Em que ficamos?
Tolas as frases.

Cantos mil e o céu a desaguar
Sobre a garupa do touro
que rei é
do rio que na lezíria fez cama
e do vale se despediu,
escravo do pasto, do silêncio falso, da farpa do futuro.

A terra prometida é aqui!
Abram-se as águas!

O animal, boa mensagem dos deuses e das rainhas,
no calor imolado
na areia o sangue purificado,
fértil e vermelho
como o mar.

Olha o tartaranhão a vigiar as crias no paul.
Salve sejam!
Salvem-se também a alma dos viventes
que a dos mortos já se evolou,
como Cristo, como o escravo, como o touro derramado.
Como o verdilhão que canta,
mesmo por trás das grades,
pela boa alma de quem o aprisionou.

E o amor, quase o amor,
de quem fica prisioneiro?
Que na palma da mão detém o pendor,
no corpo, o silêncio,
nos lábios, a margem do sorriso,
o curso dessa palavra
escondida no junco que guarda o ninho de patos
à flor do Tejo.

Em que ficamos?
Frases cativas.
Lugares comuns.

Somente o amor.

jef, 15 de agosto 2016

sábado, 13 de agosto de 2016

Sobre o filme «Uma Pastelaria em Tóquio» de Naomi Kawase, 2015













Estará a minha memória cansada das cerejeiras em flor de Tóquio? Não acredito. A paisagem é absolutamente admirável e o Japão cinematográfico (que eu conheço) marca fortes pontos nesse conflito interior (e exterior) que a grande guerra deixou entre as gerações.

Sou apaixonado por Yasujiro Ozu e pela rigorosa benevolência estética com que vai acarinhando essa ferida aberta no Japão (e no mundo). Aprendi a gostar do traço milenar da árvore que se cobre de rosas (na verdade, a cerejeira é uma rosácea). Admiro o dramatismo com que Ozu mostra como a modernidade conquistada pela juventude japonesa do pós-guerra entra na difícil reverência pela tradição. Um traço muito fino que une a suavidade da flor à esquadria peremptória da nova cidade do Japão.

Essa estética também está presente no novo filme da realizadora, nesse encontro de gerações truncadas. Na troca de sorrisos respeitosos mas cada vez mais próximos entre Tokue (Kirin Kiki), Sentarô (Masatoshi Nagase) e Wakana (Kyara Uchida). Na comunhão dessas panquecas ancestrais (dorayakis) recheadas de compota de feijão (an). Contudo, Naomi Kawase, tal como em «A Quietude da Água» (2014), tropeça um pouco no apuro técnico da beleza, quase cliché, quase delicodoce, em prejuízo da linha narrativa de uma bela história. Talvez devesse voltar a ver «Primavera Tardia» (1949) e tirar umas notas sobre a contenção artística. 

Prefiro as histórias contemporâneas filmadas de Takeshi Kitano e Hirokazu Kore-eda.

Contudo, uma bonita história que nos faz recordar a construção do Hospital-Colónia Rovisco Pais em 1938, na Tocha. Por decreto de Oliveira Salazar / Bissaya Barreto. Ainda viverá algum ex-doente? Onde estará agora?


jef, agosto 2016

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Sobre o filme «Dersu Uzala» de Akira Kurosawa, 1974











Dersu Uzala (Maksim Munzuk) vai a enterrar entre um cedro e um abeto. Um cedro e um abeto que já não existem, a construção assim o ditou. O Capitão Vladimir Arseniev (Yuri Solomin) perde-se no local. As árvores também e, com elas, a memória.
Mas a Sibéria é demasiado grande para ser descrita pelas palavras até agora inventadas. Olivier Rolin sabe-o com conhecimento de causa. Akira Kurosawa tenta fazê-lo através de um enorme filme de aventuras.
Um dos mais belos filmes sobre a floresta como princípio da humanidade perdida e reencontrada. Sobre a natureza humana, sobre o homem na natureza, benévola e assustadora. Que o vento, o fogo, a água ou o tigre, não se revoltem!
No fundo, um filme sobre a humanidade, a sua curiosidade e compreensão pelo que lhe é alheio.
Um filme sobre topografia e o uso diverso de um nível. 
Sobre desertos gelados, tundras, taigas e conservação da natureza. Sobre recursos naturais e caça sustentável, muito antes dos programas escolares se encherem de fast-Ecologia.
Acima de tudo, este filme fala do mundo, da bondade superior, da amizade maior.
Um filme comovente. Um filme inteligente. Um filme que faz bem à alma.
Tenho dito.

A música é de Isaac Schwartz e por lá andam duas canções cantadas pelos soldados russos que ficam na memória.

jef, agosto 2016
                 
«Dersu Uzala – A Águia da Estepe» de Akira Kurosawa. Com Maksim Munzuk, Suimenkul Chokmorov, Yuri Solomin, Svetlana Danilchenko. URSS / Japão, 1974, Cores, 140 min.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Sobre o livro «A Morte de Ivan Iliitch» de Lev Tolstói, Relógio D’Água 2007. (Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra. Posfácio: Vladimir Nobokov)















Uma morte comme il faut ou a melhor maneira de chegar a tempo a uma agradável partida de whist.

Sobre a morte de Ivan Iliitch Golovin, nada há a dizer. Ivan Iliitch morreu aos 45 anos.
Sobre a vida do protagonista, o caso é mais complicado. Tolstói refere no início do segundo capítulo: «A história acabada da vida de Ivan Iliitch era das mais simples, vulgares e terríveis.» Nobokov acrescenta no posfácio: «Ivan viveu uma vida má e visto que uma vida má é apenas a morte da vida, este viveu uma morte viva.»

Mas sobre que perspectiva poderemos julgar nós a vida? Juiz em causa própria é mau juiz e a faculdade de julgar muda de luz consoante a meteorologia do dia que nasce. Diz o Senhor Kant.

Tolstói é genial. Vai rodando, sondando, perspectivando de todos os cantos da sala e do quarto, os brocados, a mantilha de Praskóvia Fiodorovna que fica presa numa farpa da mesa, o pouf que se amotina contra Piotr Ivánovitch, o reposteiro inexpugnável que, afinal, venceu Ivan Iliich, este que desejava apenas viver a vida de modo agradável, segundo as regras do decoro. Tudo é dado com lógica semântica e social que, apesar de rigorosa, é brutalmente modificada ao longo dos 12 sucintos capítulos. É a vida impossível de julgar, mas sempre julgada, que chega ao ponto de ruptura. Sem conclusão e torturando quem a pretende decidir mas enfastiando todos os demais (excepto talvez a pureza do jovem copeiro Guerássim.)

Para que queremos nós, leitores, então viver? Esta enorme novela de 95 páginas dá-nos todas as respostas consequentes. E por Tolstói nos dar todas elas acabamos por ficar sem nenhuma.

Confuso? Voltemos então ao início do livro, como refere Valério Romão no episódio de «Os Livros» coordenado por Inês Fonseca Santos, RTP 3.

[Apesar de eu saber que comparar é limitar, digam-me lá doutos leitores: não existirá qualquer ligeira correspondência, coisa de inconstância, de existencialismo frustrado, metamorfose circunstancial, de julgamento apressado e distraído dos outros, que resvala igualmente sobre a quitina involuntária de Gregor Samsa?]

jef, agosto 2016