terça-feira, 20 de setembro de 2016

Sobre o filme, «Cartas da Guerra» de Ivo M. Ferreira, 2016






















«Gosto tudo de ti»,
ressoa pelo filme nas palavras eternamente repetidas por António a Maria José, num jogo de planos, redes, perspectivas, dúvidas, inseguranças. Paixão.
As palavras, as mais belas palavras, são do escritor António Lobo Antunes a sua mulher e sua filha, vindas de Angola em guerra, no início dos anos 70. Escritas, lidas e publicadas. É a realidade das palavras que é exposta. Puras e simples como a verdade do tormento da guerra colonial e da paixão assolapada.
Mas a voz ouvida não é de quem as escreve, António (Miguel Nunes), mas de quem as lê, Maria José (Margarida Vila-Nova). Uma voz feminina que se exprime por cima da guerra de homens, ensanguentada e suada. Por vezes uma voz confundida pelos extraordinários trechos musicais de Luís de Freitas Branco, Fernando Lopes-Graça ou Ligeti. Por vezes, assustada pela imagem maravilhosamente captada por João Ribeiro. Por vezes, toldada pelo olhar esplêndido de Miguel Nunes.
Em que plano, rede, perspectiva, então me devo situar?
As palavras que são únicas; o olhar claro como água; as nuvens, a água e os elefantes, que a fotografia a preto e branco exalta; a belíssima música que interpreta a guerra; podem não atingir um foco único… 
Ou estarei a sentir mal um excelente filme?
Ou, na verdade, o tempo de África não coincide com a Guerra, em tempo?

jef, setembro 2016


«Cartas da Guerra» de Ivo M. Ferreira. Com Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira, João Pedro Vaz, Isac Graça, Francisco Hestnes Ferreira, Cândido Ferreira, Maria João Abreu. Portugal, 2016, Cores, 105 min.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Sobre o filme «E Agora? Lembra-me» de Joaquim Pinto, 2013














A botânica do vírus ou o erro na programação.
Este é um complexo tratado sobre a botânica dos vírus (VIH + VHC) ou um compêndio longo e anacrónico de entomologia e do querer humano. E desengane-se quem, por pressa mediática, vá à procura da morbidez das células ou da finitude do corpo. Aqui, a doença é o móbil e a palavra do evangelho de João, uma espécie de lança. Também há cães, fogos florestais, análises clínicas e, por superior humor, a morte anunciada dos perus. Entretanto, durante a sessão, alguns filmes vão-se aproximando, depois afastam-se. Afasta-se “Silverlake Life: The View from Here” (Peter Friedman e Tom Joslin, 1993) pelos planos próximos com que o presente filma a vida dos outros, incluindo a de libélulas e rãs. Aproxima-se de “Ruínas” (Manuel Mozos, 2010) na perspectiva com que olha o presente como o grande transfigurador de memórias. Vem à liça “Ao Correr do Tempo” (Wim Wenders, 1976), essa viagem inicial, mas sem fim, de dois homens pela fronteira de países, entre a força dos silêncios e das palavras.
Este é um filme sobre a esperança (ainda). A esperança de “Blade Runner” (Ridley Scott, 1982) quando, no final, a andróide Rachael descobre que, por erro de computador, já ultrapassara o limite vital programado, atirando para o futuro a incerteza do seu prazo de validade. Aliás como acontece com Joaquim e Nuno. Aliás como sucede com todos nós.
Poder-se-ia chamar o filme de «absurdo» por observar de tão próximo a morte e o corpo só para expressar o plano mais distante em que se movem a Vida e a Natureza. No entanto, quando o «absurdo» toma consciência do próprio «absurdo», deixa de o ser. Aqui, o absurdo poder-se-á apelidar de «estética do movimento e da luz».

jef, setembro 2014

«E Agora? Lembra-me» de Joaquim Pinto. Com Joaquim, Nuno, Jo, Deolinda, Cláudia, Nelson, Rita. Cores, 164 min. Portugal, 2013

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

sobre o filme «O Gosto do Saké» de Yasujiro Ozu, 1962














Depois de ver «O Gosto do Saké» de Yasujiro Ozu, 1962.

Será um facto menos anacrónico do que despropositado, mas a realidade é que, ao sair do cinema, recordei «O Meu Tio» (1958) e «Playtime» (1967) de Jacques Tati. Talvez pelo rigor da arquitectura, das portas e das mesas, das taças de saké, dos electrodomésticos, das chaminés, dos reclames luminosos. Talvez pela banda sonora em tons de valsa, desanuviando pelo som a espessura da sequência e a austeridade dos planos. Talvez pela silenciosa e cândida ironia com que as personagens são caracterizadas, sempre sentadas, sempre a beber, quase sempre sorrindo. Talvez pela ternura que envolve de modo infalível o isolamento do protagonista. Sem dúvida pela inevitável nostalgia que, no final do filme, invade a tela, tristeza sentida, quando Shuhei Hirayama (Chishu Ryu), após casar a filha, verifica que o Tempo afinal não parou de correr e deixou a vida lá para trás. A modernidade sabe sobrepor-se à pontualidade de um relógio que está a ficar sem corda, mas não compensa a guerra, a perda, o erro, o remorso…
Afinal, quando o filme termina e saio do cinema, verifico que a vida não chegou a ser interrompida.

jef, setembro 2013

«O Gosto do Saké» (Sanma No Aji) de Yasujiro Ozu. Com Chishû Ryû, Shima Iwashita, Keiji Sada, Mariko Okada, Teruo Yoshida, Noriko Maki. Japão, 1962, Cores, 112 min.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Juvita Maria nasceu tarde








Juvita Maria nasceu tarde.
Fora de horas, noite dentro. O pai desesperava, a mãe mais ainda, os rins a doer, as dilatações a contrair, as horas lentas a passar, os médicos ora impacientes ora distraídos, as enfermeiras cansadas.
Juvita Maria lá nasceu, lá foi crescendo, lá foi vivendo, com alegria. A mãe de um lado, o pai do outro, os avós por cima e por baixo. Sem irmãos. Uma chegava e sobrava.
Nunca ela se toldou pelo pormenor do carinho, cercada de exageros afectuosos, de protecções cuidadas pela aflição. Apenas pressentia que nascer custava e, por isso, vivia com atenção. Não era mimada. Não fazia birras.
Gostava muito da atenção dos outros.
Gostava dos beijos que os outros lhe davam, do sorriso da família, das festas no cabelo que os vizinhos lhe faziam. Das idas ao hospital iluminado e a cheirar a lavado. Ali, ia brincando em vez de esperar. Tarde fora, fora de horas. Sem saber bem, muito se entretinha a observar os outros que se entretinham a observá-la.
Entre brincadeiras, aprendeu, por fim, o jogo das cores e dos nomes respectivos. Plasticina.
Gostava muito de plasticina. Tanto, que os outros se habituaram a dar-lhe plasticina.
Gostava de repetir o que via na matéria colorida. Com nomes já. Repetia e aprendia. Tinha jeito para aquilo. Repetia cães com trela e árvores de fruto, a mãe, o pai, o médico. Repetia os outros pelas cores da plasticina. Pelos nomes respectivos. Gostava de os outros gostarem das formas que repetia e que a mãe guardava com cuidado.
Juvita Maria entretinha-se a ver a cara dos outros a olhar os nomes coloridos quando a mãe ou o pai os levavam para espantarem o médico.
Mas sabia que, com o calor das mãos ou do Verão, as cores desapareciam. Ou melhor, transformavam-se em vez de desaparecerem. O calor fazia moldar as cores e amolecer as formas. Mas Juvita Maria não se entristecia. Mais cores novas apareceriam enquanto o calor do Verão não passava. E novas plasticinas chegavam no aniversário seguinte.
Era só esperar um pouco e continuar a brincar.
Melhor ainda era repetir a forma dos nomes sob o olhar dos outros. Com o correr do tempo. Ocre. Magenta. Anil. Violeta. Sépia. Terra de Siena queimada. Carmim. O preto que nunca o é. O branco que tudo junta. O verde que é azul e amarelo.
Cores nas palavras. Todos compreendiam o que elas significavam. Como todos falavam. Apenas não compreendiam que o tempo assim corria.

Um dia, Juvita Maria parou de misturar as palavras mas permaneceu agarrada à caixa de plasticinas por abrir. Sorria ligeiramente com a alegria de quem repetia o gato que todos os dias espreitava pela janela. Afinal era uma gata e tinha três cores. Branco, cor de laranja, cor de burro quando foge.
A gata voltou. Todos vieram dar-lhe uma festa nos cabelos. O médico também. Tentaram sorrir.
Juvita Maria morreu cedo. Era manhã dentro, finda nas horas.


jef, setembro 2016

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Sobre o livro de «40 Histórias» de Donald Barthelme, Antígona 2013














Autor revolta-se
contra o estatuto do leitor. Como é óbvio, o autor pretende que os leitores abusem da capacidade, por hipótese ilimitada, que têm para interpretarem a realidade através dos textos que lhes estão pela frente. Por essa razão, Donald Barthelme (1931-1989) abusa da capacidade que possui para narrar situações que colocam o tal leitor sob a explicação do próprio coração, da própria pele. Parece estar a solicitar ao leitor: «explica-me agora a tua cabeça, as tuas mãos». O leitor fica sozinho a ouvir-se

(na página 193) «, e eis que Ludwig cai através da Villa Tugendhat e mergulha na história dos artefactos humanos; uma desilusão, sem dúvida, mas recorda-nos que a frase em si é um artefacto humano, não aquele que desejámos, é claro, mas, ainda assim, uma construção humana, uma estrutura que devemos acarinhar devido à sua fraqueza, por oposição à solidez das pedras»

E se eu falar em Boris Vian («O Arranca Corações») ou Flann O´Brien («Uma Caneca de Tinta Irlandesa») não estarei a comparar mas a reduzir o mundo sem fim destas histórias para pessoas em estado de agitação semântica. Barthelme não é paternalista, nem pedagogo, nem sério, nem irónico, é um escritor que pretende muito mais da leitura da América e do Mundo. (E, caramba, que não lhe chamem «surrealista»!)

[A tradução aqui é tarefa árdua e está muito bem entregue a Paulo Faria. Caso se pretenda melhor publicidade, leia-se o artigo que Pedro Mexia publicou no Expresso, por altura da edição deste livro.]

Um ano depois, a Antígona Refractária edita do autor «60 Histórias». Ainda não li.


jef, setembro 2014

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Sobre o livro «Ronda das Mil Belas em Frol» de Mário de Carvalho, Porto Editora 2016.














Romantismo? Deixemo-nos de falácias e mal-entendidos…
«Recuso-me a associar romantismo a violinos, varandins e álcoois espirituosos, em fundo de lua. Para mim, é aquilo que me ensinaram na escola: arroubos de sentimento e atitudes, palavreado altissonante, espadeiradas, mortes prematuras, suspiros enlanguescidos, exaltações nacionalistas e ruínas fabricadas. Cumpriu, passou, vislumbra-se a acenar de lá, entre despojos da História, vai-se buscar quando for necessário. Mas não faz nenhuma falta num prélio deleitado de corpos.»

O mote está dado!
O corpo de um homem ao encontro (ou desencontro) do corpo de uma mulher. Só isso. Não é coisa para a qual devesse contar o cenário, ou o romantismo, que ficaria para mais tarde, na Poética, segundo o velho Aristóteles.
Mas, afinal, sempre haverá mais.

«Em alturas destas, emerge algures, no cérebro masculino, o repisar de certa incomodidade recôndita: a da absoluta irrelevância da sua presença. Certo que o corpo está lá, cumprindo mal ou bem, a obrigação que lhe cabe, com mais ou menos denodo, mas é um pouco como o tipo que levanta e baixa as bandeiras nas corridas. O tumulto, o que verdadeiramente treme e ruge, não parte dele.»

São 16 histórias (com algumas mais mulheres «em flor»), digamos crónicas de sexo anunciado – e um epílogo circunstanciado –, que medem o correr dos dias de um homem com família, modos e medos normais. Um homem com desejos e consciência. Um homem que pratica porque a vida não é só teoria. Porque um homem também é «fisionomia».

«O prazer que se tem está, sobretudo, no prazer que se dá.»

(Por estas e por outras, Mário de Carvalho continua a ser um dos meus mais dilectos escritores. E que fique ele sabendo o prazer tanto que me dá em ler as suas linhas. Sinceramente, espero que tanto prazer tenha sofrido em as escrever…)

jef, setembro 2016

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Sobre o filme «Uma Diva Fora de Tom» (Florence Foster Jenkins) de Stephen Frears, 2016



















Pode não ser o melhor filme actualmente em exibição, mas que o mestre Stephen Frears («A Minha Bela Lavandaria» 1985, «Ligações Perigosas» 1988, «Anatomia de Um Golpe» 1990, «Estranhos de Passagem» 2002, «A Rainha» 2006)  resolve a coisa na perfeição, lá isso resolve!

Podia até ser o filme musical mais dissonante de sempre (não fosse a banda sonora de Alexandre Desplat), mas a diva Meryl Streep, sempre atraída por musicais («Prairie Home Companion» 2006, «Mamma Mia!» 2008, «Ricki and the Flash – de Volta a Casa», 2015), tudo interpreta com a maior distinção.

Stephen Frears entrega-lhe fielmente a difícil tarefa do burlesco e da desafinação luxuriante. Ela deve cantar mesmo muito mal (e todos sabemos como a actriz canta afinado) e produzir o melhor palhaço. E nesse papel Meryl Streep é, sem qualquer dúvida, única!

O realizador deixa, depois, a Hugh Grant (St. Clair Bayfield, o marido e primeiro facilitador) e Simon Helberg (Cosmé McMoon, o pianista e segundo facilitador) o papel de transmitir ao mundo musical abstracto de Florence Foster Jenkins a necessária boa disposição emocional. E  eles também se saem bastante bem.

Sem falar da fotografia, do guarda-roupa, dos décors das salas de espectáculo e restaurantes, dos carros, dos acessórios, das cores de um mundo que de comédia «gargalhosa» vai sendo transformado em tragédia contemplativa.

(E nas mais belas imagens do rosto desfalecido sobre a almofada de Florence, de crânio coberto pelo turbante, não pude deixar de recordar a famosa pintura de Jean Louis David «A Morte de Marat» 1793.)

jef, agosto 2016


«Uma Diva Fora de Tom» (Florence Foster Jenkins) de Stephen Frears. Com Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, John Kavanagh, Rebecca Ferguson e Nina Arianda.  Grã-Bretanha, 2016, Cores, 110 min.