segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sobre o disco «Skeleton Tree» de Nick Cave & The Bad Seeds, Bad Seed Ltd 2016













Entre «Your Funeral My Trial» (1986) e «Murder Ballads» (1996).
Longe dos Birthday Party mas perto de Wim Wenders.
Entre Kylie Minogue e P.J. Harvey.
Entre Anita lane e Mick Harvey.
Entre Angelo Badalamenti e Leonard Cohen.
Entre as histórias de Flannery O’Connor e as de Laurie Anderson.
Nick Cave flutua entre tempestades eléctricas e raparigas mergulhadas no âmbar.

«All the things we love, we love, we love, we lose
It's our bodies that fall when they try to rise
And I hear you been looking out for something to love.»
(Anthrocene)

Mas cuidado, estas oito canções podem sugerir vir imersas no éter espacial mas enterram bem fundo o remorso e o indulto. A culpa continua em carne viva. As palavras de Nick Cave assim o ditam!

jef, novembro 2016

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Tem dias...










Tem dias…
Sincronizar os erros de paralaxe e, mesmo assim, não acertar o salto da prancha para o lado mais fundo da piscina, é caso semelhante a Deus que acabou de comprar um caderno de duas linhas, daqueles para fazer a letra muito redondinha, enche depois com todo o cuidado a caneta de tinta permanente que foi oferecida pelo Natal, prepara o mata-borrão, endireita as costas, respira fundo e, mesmo assim, não acerta na parábola a utilizar na homilia da próxima missa da paróquia.
Apesar de tudo…

jef, novembro 2016

Sobre o livro «Correios» de Charles Bukowski, Antígona 2010 (1971)















«Onze anos. Apesar de cada noite ter sido longa, os anos passaram depressa. Talvez fosse por ser trabalho nocturno. Ou por fazer a mesma coisa repetidamente.» diz Henry Chinasky, homem bom e inteligente, hábil com a caneta, amigo dos seus amigos e dos animais, relativamente cumpridor da lei dos Correios, local onde distribui a correspondência por cacifos numerados, em modo cronometrado. Também é muito, muito amigo das mulheres e do sexo, da bebida e das corridas de cavalos. Violento? Só quando o tentam roubar e vê brilhar a lâmina da navalha… O GPS diz que estamos nos Estados Unidos da América, 1969, o país da pré-guerra, dos conflitos raciais, dos cowboys e dos búfalos, da «supervisão científica». Se pedissem para colocar neste livro os pontos cardeais da narrativa exemplar, eu diria que era uma comédia sexual, nostálgica e terna, sobre a resistência à ressaca e aos males do amor; uma crónica sobre a sobrevivência à frustração. Um libelo moral que ensina ser o humor e a inteligência as grandes ajudas contra a adversidade e a solidão.

jef, outubro 2013 / novembro 2016

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Sobre o filme «Blue Jasmine» de Woody Allen, 2013













«Não brinques com a felicidade», parece dizer Woody Allen, entre silêncios, no final do filme. «Blue Jasmine» fala sozinha, quer viaje de Nova Iorque para São Francisco, quer se sente num banco de jardim ouvindo cair o pano sobre a tragédia. Não há volta a dar, este filme pertence à escola do grande melodrama americano (Douglas Sirk e Jane Wyman; Tennessee Williams, Richard Brooks, Paul Newman e Elizabeth Taylor; Nicholas Ray e James Dean, Elia Kazan e Natalie Wood). O ser e o Mundo: que fazer? Toda a narrativa corre a dois tempos para chegar a uma conclusão aguardada. São Francisco, apesar da baía, da água e da ponte, reduz-se a um ponto claustrofóbico. As canções, maravilhosas, sobram sobre a ansiedade. O humor (e como ele é importante!) apenas escarafuncha a ferida infecta. O guarda-roupa, peça incontornável nos filmes do realizador, espicaça os laivos de caricatura das personagens. Tudo concorre para o desfecho que o nosso coração tristemente já suspeita. E assim se conclui o drama – o reino é entregue a Cate Blanchett para que sofra por «Blue Jasmine» e também por nós.

jef, setembro 2013 / novembro 2016


«Blue Jasmine» de Woody Allen. Com Cate Blanchett, Alec Baldwin, Peter Sarsgaard, Sally Hawkins, Bobby Cannavale, Andrew Dice Clay, Michael Stuhlbarg, Louis C.K. Sally Hawkins.  EUA, 2013, Cores, 98 min.

Sobre o filme «Magia ao Luar» de Woody Allen, 2014





















América mágica.
Quando eu começo a diabolizar a América de modo desesperado, por uma razão ou por outra, convoco a minha América, de modo emocionado. Penso em «Se Fosse Fácil Era para os Outros» de Rui Cardoso Martins, penso em Ry Cooder ou Tom Waits, em John Ford ou Howard Hawks. Penso na hora e meia de cinema que, anualmente, Woody Allen me oferece. Esta América é pura, é mágica, é muito real. De Woody Allen recordo «Blue Jasmine» (2013); «Match Point» (2005); «Poderosa Afrodite» (1995); «A Rosa Púrpura do Cairo» (1985); «Manhattan» (1979); «O ABC do Amor» (1972) ou «Inimigo Público» (1969). Agora posso lembrar «Magia ao Luar», com um argumento feito à medida de um prestidigitador atafulhado de fleuma aborrecida, onde Colin Firth (canastrão cumpridor da tradição hollywoodesca de Kirk Douglas, Robert Mitchum ou Victor Mature) consegue uma interpretação que lhe ficará na memória. Também guardarei um elefante em palco, a canção berlinense de Ute Lemper, o modo como Dickens e Nietzsche se debatem entre o espírito da Razão ou a razão de um certo Espírito. Ficar-me-á presente a magia de um sorriso real contra a fraude de um truque de magia. Afinal, o amor e a razão estarão mesmo condenados a contradizer-se? Valerá a pena acreditar ainda na alta comédia romântica de Woody Allen? Se disso restar dúvida, reveja-se a cena e o diálogo entre o sobrinho (Colin Firth) dividido entre certezas e a tia (Eileen Atkins) que faz uma paciência de cartas e vai contornando, entre negativas, as dúvidas emocionais do sobrinho. Um exercício de sobriedade e alegria.
Esta é a América de Woody Allen (que também é minha).
Uma América mágica e inatacável!
jef, agosto 2014 / novembro 2016


«Magia ao Luar» (Magic in the Moonlight) de Woody Allen. Colin Firth, Emma Stone, Eileen Atkins, Erica Leerhsen, Hamish Linklater, Jacki Weaver, Marcia Gay Harden, Erica Leerhsen, Simon McBurney. EUA, 2014, Cores, 97 min.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Sobre o filme «Mónica e o Desejo» de Ingmar Bergman, 1953


















Realismo, por hipótese.
Não é possível esquecer o Verão em «Mónica e o Desejo», um dos mais belos tratados sobre o fim da juventude e o início da cidade. A evasão e o trabalho. O sonho e o futuro. Aqui, a beleza é tamanha, tão assumida, tão estilizada, tão ideal, que lança sobre a realidade o olhar mais puro da abstracção, desfazendo os paradigmas sociais de uma qualquer arte dita «realista» ou «neo-realista». 

A imagem de Harriet Andersson transforma-se numa substância corpórea, deslumbrante, logo mítica, logo irreal, quanto já o fora Janet Gaynor em «Aurora» de Murnau (1927) ou Clara Calamai em «Obsessão» de Visconti (1943) ou Jean Seberg em «O Acossado» de Godard (1959) ou Anita Ekberg em «A Doce Vida» de Fellini (1960) ou Scarlett Johansson em «Match Point» de Woody Allen (2005) […] 

Teoria e prática sobre como significar a Natureza em três módulos: I – Mónica (a mulher), II - Estocolmo (a cidade) e III - Suécia (a paisagem).


jef, fevereiro 2014 / novembro 2016

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Sobre o filme «Café Society» de Woody Allen, 2016





















Todos nós guardamos no coração as obras-primas de Woody Allen. E não são poucas.
Porém, este não é uma delas.
Mas é um filme de Woody Allen e coloca-nos a questão interessante: face a um argumento seu, dos poucos, votados ao romantismo mais académico, o grande realizador procurará os actores justos para as mais ténues personagens? Jesse Eisenberg faz de «Bobby» e Kristen Stewart, de «Vonnie», ou, pelo contrário, tendo à mão aqueles actores, ele veste-os à medida da possibilidade das respectivas prestações?
Um facto é que Jesse Eisenberg e Kristen Stewart formam o par ideal para uma comédia sem história mas que provoca o brilho em seu redor:
(a)   Steve Carell (Phil Stern) como há muito não o víamos;
(b)  a fugaz aparição de Candy (Anna Camp), a possível «acompanhante» inicial de Bobby. A verdadeira personagem à Woody Allen!
(c)   um brilho único de cenários, guarda-roupa, automóveis, arquitectura e décors;
(d)  uma iluminação particularmente fundamentada e cores a tocar a composição clássica;
(e)   um modo muito particular de mover as câmaras face aos objectos e à posição de cena dos actores, fingindo o glamour musculado que existia por Hollywood nos anos 30 do século passado;
(f)   ainda a música e o génio Woody Allen sobre os modos «gangster», «família», «judeu»;
(g)  uma matriarca a declarar:
«Vive todos os teus dias como se fossem o último, algum dia terás razão!»

Será que a felicidade é mesmo o romantismo apesar dos sonhos por realizar?

Que bela tarde de cinema!

jef, novembro 2016

«Café Society» de Woody Allen, 2016. Com Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carell, Parker Posey, Blake Lively, Corey Stoll, Jeannie Berlin, Ken Stott e Tony Sirico. EUA, 2016, Cores, 96 min.