quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Biografia








Caríssimo amigo,
por respeito a quem passa
(cheio de pressa e afazeres inauditos)
resumirei a minha vida a cinco / seis episódios:

(a) o meu nome
(b) a primeira queda
(c) o segundo ou terceiro encontro marcado
(d) um cheiro fresco na rua
(e) a vaga atmosfera a flores
(f) um novo dono para o gato.

Resumo também para não me enfastiar.
Sabe, o passado, 
o passado segue-me, tolhe-me o passo,
surpreende por demasia.
Um bom amigo sim, traz uma lembrança por outra,
mas faz-me tropeçar,
faz-se trôpego,
anda sempre a ficar para trás
e eu a recuar para o ir ajudar.
Amigo, já lhe contei a minha vida.
Agora, por favor,
vá-se embora!

jef, novembro 2016


Sobre a leitura de «Que Importa a Fúria do Mar» de Ana Margarida de Carvalho, Teorema, 2013














Ao ler «Que Importa a Fúria do Mar» verificamos que, com o passar das páginas, somos pescados para dentro do romance, seguindo a linha da história, iscados pela minúcia de milhares de objectos. O Mar, esse, é o mesmo oceano que banha a Marinha Grande (18 de Janeiro de 1934), Vila Praia de Âncora, o Porto e o Tarrafal, não o dos «resorts» mas o da «frigideira». O barco é o «Luanda». O peixe é arraia-miúda. Ou talvez não. Neste livro, percebemos onde, dentro de nós, se finca o anzol que é o gosto pela leitura. Ficamos também a saber que é no detalhe que reside a literatura. Tal como a conversa. E esta, tal como a literatura, é feita de cerejas. Qualquer coisa que deleita, entretém e entretece os fios do conhecimento / curiosidade. Como uma pinça ou agulha que vai buscando e cerzindo as memórias, as mnemónicas, os silogismos, na teia do desconhecido. Resumindo, Ana Margarida de Carvalho é uma contadora de histórias, ideias e imagens, em linha com José Saramago ou Rui Cardoso Martins – o humor e a tragédia, o amor e a fúria, o microscópio e a luneta astronómica. Tudo no mesmo plano. Tudo com barcos, aventura e muitos bichos. Leitura perfeita.

jef, junho 2013

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Género à parte











Questão de género.

Pergunta o cavalo-marinho à sardinha:
– Por que razão ninguém chama
à cavala
«égua-do-mar»?

jef, novembro 2016


(Hippocampus erectus / Scomber scombrus)

Sobre o livro «Se fosse fácil era para os outros» de Rui Cardoso Martins, Dom Quixote 2012












A viagem continua… com crédito em cartão. 
Uma viagem sem retorno, um cartão sem direito a estorno, pois é vingado. Uma viagem sem exterior porque realizada ao interior de um território a que costumamos chamar «América», a Grande. E é interior porque estamos a viajar pela sua paisagem, construção de Rui Cardoso Martins (e nossa) sobre o seu corpo, imagem amada, que cada um transporta dentro de si. De Nova Iorque, da tragédia e da cerveja irlandesa, até Nova Orleães, das grandes barreiras aquáticas e dos lagostins da Louisiana. Escravos negros, índios em reserva, cowboys e canyons, Las Vegas e Monument Valley. 
E todos sabemos como são belas as viagens, mas não são fáceis!
Rui Cardoso Martins retoma o caminho pelo mundo das histórias, de muitas histórias diferentes. No entanto, a viagem é a mesma, e o crédito está garantido. Cláusula única no contrato, em letra maior: ninguém pode fazer «aquela» pergunta, ninguém pode olhar para Eurídice.
Dizem que John Ford, um dos mais geniais e prolíferos realizadores de sempre, passou a vida e realizar o mesmo filme, a mesma paisagem, o mesmo herói. Basta lembrar o céu e as nuvens em «Forte Apache» (1948), ou a turbulência étnica em «A desaparecida» (1956).
Como nos cromos, Rui Cardoso Martins vai completando a nossa caderneta de imagens, fixando a melhor memória.


E no fim fica a ressoar a maldição (ou constatação) de António Vieira: «Pelo que fizeram, se hão-de muitos condenar. Pelo que não fizeram, todos.»


jef, maio 2013

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Sobre o filme «Grand Budapest Hotel» de Wes Anderson, 2014




















Este é um filme muito interessante.

(1) Porque recorda Stefan Zweig, um escritor perseguido, que me persegue, mas que devia ser por todos nós perseguido para que não o esquecêssemos.
(2) Porque é um filme muito divertido sobre um assunto muito sério.
(3) Porque tem uma lista sem fim de actores extraordinários libertados num palco que podia ser de um circo ou de uma casa de bonecas.
(4) Porque tem uma banda sonora maravilhosa – por favor, não saiam do cinema antes da ficha técnica terminar.
(5) Porque é uma comédia trágica, talvez muito negra, encenada sobre um cenário amoroso, cor-de-rosa, cobiçado por uma fotografia quase científica.
(6) Porque é uma tragédia cómica sobre o amor, colocada dentro de uma Europa a fugir do fausto, a cair da tripeça, a entrar em estado de guerra.
(7) Porque parece a Mary Poppins, a My Fair Lady, o Hello, Dolly!, mas não é. Não é um musical, mas bem podia ser.

Pode não ser o melhor filme de Wes Anderson, mas é um filme inesquecível!
A ordem dos factores atrás mencionada é arbitrária.

jef, abril 2014

«Grand Budapest Hotel» de Wes Anderson. Com Ralph Fiennes, Tony Revolori, Adrien Brody, Willem Dafoe, Saoirse Ronan, Edward Norton, Jude Law, F. Murray Abraham, Jeff Goldblum, Mathieu Amalric, Harvey Keitel, Bill Murray, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Léa Seydoux. Cores, 99 min., 2014.

Sobre o livro «O Eléctrico 16» de Filomena Marona Beja, Divina Comédia 2013


















Para quem não conheça a escrita de Filomena Marona Beja e, em simultâneo, tenha alguma dificuldade em descobrir uma rua ou um monte através da análise de uma carta, prepare-se: a tarefa não é fácil. Principalmente na leitura do mapa de «O Eléctrico 16».
No centro desse mundo cartesiano está uma casa na Madre de Deus ocupada pela história central de quatro mulheres: Arlete, Helena, Yolanda e Joana, mães e filhas. A linha das ordenadas é identificada pelo trajecto do eléctrico que vai de Xabregas a Belém. Nas abcissas está o percurso desde 1938-1943 (a construção do «bairro social») até à perspectiva de localização do novo aeroporto de Lisboa, passando por 1958 e pelas viagens realizadas por Humberto Delgado durante a mais famosa campanha eleitoral em Portugal. No eixo dos zz’ estão os edifícios: o liceu D. Filipa de Lencastre, os cafés do Poço do Bispo, a célebre escola de Mestres, ofícios e operários, Afonso Domingues. Também lá vemos cinemas, fábricas, quintais, jardins.
A autora reflecte a emotividade da narrativa através da ocultação de sujeitos, por vezes até de verbos, dando espaço aos pormenores, numa linha semântica de aparente ausência de descrição-narração. Ou seja: escreve sem palavras, preferindo o uso de pequenos traços e sinais, como uma arquitecta que desenrola perante o leitor alçados e memórias descritivas.
A Lisboa neste livro é encantadora e nostálgica, assumindo para metáfora inicial o mundo florestal de Monsanto e para metáfora final a memória de uma amoreira sem vocação de futuro.

jef, agosto 2013

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Sobre o filme «20.000 Dias na Terra» de Iain Forsyth e Jane Pollard, 2014















«Your Funeral My Trial» (1986), «Murder Ballads» (1996), «Skeleton Tree» (2016). 
Dez anos, vinte anos, trinta anos passaram. Sobre a Terra, sobre quem ouve Nick Cave & The Bad Seeds.

Para o músico, naquele instante, tinham sido 20.000 dias com os pés no planeta. Agora, quantos lhe restam? Quantos nos restam? Que fazer com estes dias?

Existimos. Sem dúvida que existimos mas apenas no momento em que a realidade toca a imaginação. Se esse momento é um ponto, uma linha em segmento, ou um plano curvo, só quem existe o poderá definir (e nele trabalhar).

jef, novembro 2014 / novembro 2016.
Dois anos depois…

«20.000 Dias na Terra» (20.000 Days on Earth) de Iain Forsyth e Jane Pollard . Com Nick Cave, Kylie Minogue, Anita Lane, Blixa Bargeld, Susie Cave, Warren Ellis, Ray Winstone. Cores, 97 min., 2014.