quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sobre o disco «God Don’t Never Change – The Songs of Blind Willie Johnson», Vários Artistas. Produção de Jeffrey Gaskill. Alligator Records, 2016










Blues. Blues. Blues. Soul. Soul. Soul. Gospel. Gospel. Gospel.
Texas, de Marlin a Beaumont.
Janeiro de 1987 a Setembro de 1945. 48 anos na América do Norte. Negra, profunda e bela. Injusta também.
Jesus Cristo na Terra. Depressão nas alturas. Slide-guitar no colo. E mais quanta alma exista!
Tom Waits («The Soul of a Man» & «John The Revelator») como nós o ouvimos desde «Swordfishtrombones» (1983), a era Island Records.
Lucinda Williams, Cowboys ‘Margo Timmins’ Junkies, Sinead O’Connor, Maria McKee, Rickie Lee Jones. As belas, as mais belas!
Ainda, Derek Trucks & Susan Tedeschi, Blind Boys of Alabama, Luther Dickinson & the Rising Star Fife & Drum Band.
«It’s Nobody’s Fault But Mine».
«Jesus is Coming Soon».
«Mother’s Children Have a Hard Time».
«Let Your Light Shine on Me».
A maravilha de uma América do Norte que será sempre nossa, apesar da ignomínia, do racismo e da segregação. Apesar do Trump.
O milagre sobre a Terra pode existir, sim, mas está apenas nas mãos dos homens.
Também na sua música!

jef, novembro 2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Sobre o filme «Tesouro» de Corneliu Porumboiu, 2015















Gosto do cinema romeno.
Gosto do modo como Corneliu Porumboiu dá o dito pelo não dito, troca o fio à história, deixa-nos na corda bamba, de cara à banda, entre a tragédia anunciada pelo neo-neo-realismo e o humor mais dramático que, em cinema, é o mais realista.
Assim foi «12:08 a Este de Bucareste» (2006). Terá sido um pouco menos em «Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolism» (2013).
Aqui, a fábula é mesmo desconcertante e tem a ver com o Sherife de Nottingham, Little John e Lady Marian. Todos conhecem a história mas neste caso diz respeito a vizinhos e dinheiro contado.
Uma família perfeita, um tesouro escondido, um detector de metais que anda como caracol sobre um quintal sem graça e vai apitando. Aqui e ali. Também tem polícias e ladrão.
Uma diversão sobre a falta de dinheiro e o desejo eterno que o metal sonante provoca. Tudo medido pela visão inocente e justa do pequeno Alin, em interpretação terna de Nicodim Toma.
Não esquecer, por fim e enquanto corre o genérico, de ouvir a versão soft-metal de «Life is Life» dos já enterrados e esquecidos Opus.

jef, novembro 2016

Porumboiu, Corneliu “Tesouro” (Comoara). Toma Cuzin, Adrian Purcarescu, Corneliu Cozmei, Nicodim Toma. Roménia / França, 2015, Cores, 89 min.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Sobre o filme «Dois Dias, Uma Noite» de Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2014


















O fio instável da resistência.
Se existe alguma função para um filme é fazer luz sobre o fio, desequilibrado e fundamental, da resistência. A vida por um fio e, mesmo assim, levá-la para a frente. O fio da ética sobre as forças cegas do trabalho que aniquila a razão que alimenta os sentimentos que lançam o prumo da existência. Satyajit Ray em «A Grande Cidade» (1968) colocava o poder do querer e do sentir sobre a tirania e o desespero, sobre toda a inconsciência. Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne prosseguem o corolário, demonstrando que a carnificina colectiva só pode ser vencida pela tenacidade individual. Sandra (Marion Cotillard) e Manu (Fabrizio Rongione) vão, durante um fim-de-semana, desfiando de porta em porta uma litania cujo corpo está centrado no manipulador Jean-Marc (uma personagem quase em ausência de cena, com o eterno Olivier Gourmet a dar-lhe a fugaz presença final). «A Grande Cidade» (1968) e «Dois Dias, Uma Noite» (2014) levam-nos à conclusão de que a História dos sem História é feita de individual resistência. Nesse pacto de consciência reside a estética do cinema. A sua própria resistência.

jef, novembro 2014

«Dois Dias, Uma Noite» (Deux jours, une nuit) de Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Marion Cotillard, Olivier Gourmet, Fabrizio Rongione, Pili Groyne. 2014, Bélgica / Itália / França, Cores, 95 min.

Sobre o livro «Última Paragem, Massamá» de Pedro Vieira, Quetzal 2011


















Dos vírus, dos sinais e do movimento pelas linhas de Lisboa.
A Linha de Sintra e o IC19 dizem mais de Lisboa que grande parte das descrições feitas nos guias turísticos do Centro da Capital, porque, para muitos, a capital é mesmo Capital mas anda despovoada, desguarnecida, desvairada, dedicada a empregados sem contrato ou a desempregados em busca de serem contratados. Assim fala Pedro Vieira em «Última Paragem, Massamá» enquanto narra a história de Vanessa que conhece Lucas no Centro de Emprego e Formação Profissional; de Lucas que conhece João ao balcão de uma dependência bancária; de João que conhece Vanessa à porta da enfermaria para infecto-contagiosos onde Lucas está internado, a contas com o vírus, o remorso e a memória. Aqui nada revelo pois tudo é esclarecido na segunda página do romance. Esta é a história de Edson, Luana e Patrícia que também fazem na Linha de Sintra as suas viagens de vai-e-vem, entre noites mal dormidas e dias mal vividos. Esta é a história da traição sofrida por Públio Quintílio Varo às mãos dos aliados germânicos, na batalha da Floresta de Teutoburgo, 9 d.C.; a história de Augusto e de um Império que estremece. A história de uma cidade que será sempre Capital até ao último suicídio.

jef, janeiro 2014

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Sobre o disco «Nua» de Gisela João, Valentim de Carvalho 2016
















A imagem de felicidade não se ajusta ao fadista. O fado é o trauma português, a lamúria de quem vive entre o enorme espaço atlântico e a longa dinastia dos Filipes. Uma imagem bem envernizada para vender a alma pessoana e as sardinhas aos milhares de turistas que se aglomeram, hoje, no cais das duas colunas.

Contudo, Fernando Pessoa e as sardinhas não são objectos tristes só porque usam óculos, chapéu e bigodinho ou escamas soltas sobre as brasas. São simplesmente símbolos profundos que contêm muito mais do que melancolia e espinhas finas.
Também os fadistas não são depressivos. Cantam o que lhes vai na alma e isso alegra-os e alegra-nos.

Amália era alegre, cantava o que lhe apetecia. Marchas e modas populares, zarzulelas, bossas novas, hollywoodes. Por vezes, fado. E não fazia trinados «de la soul». Nunca levantava a voz, só a alma. Nada de berros. Aquela voz apenas lhe seguia a intuição de génio que, algumas vezes, a entristecia.

Gisela João é deste mesmo mundo. Uma cantora alegre, acompanhada por músicos simples e poucos. Maravilhosos! Ricardo Parreira na guitarra portuguesa, Nelson Aleixo na viola de fado, Francisco Gaspar na viola baixo. Canta Alain Oulman e Alexandre O’Neil, também Pedro Homem de Melo, David Mourão-Ferreira e Cartola. Canta Carlos Paião, Capicua. E uma «Llorona» que comoveria Chavela Vargas.

Gisela João canta o que lhe apetece como Amália, e até pode chamar «Nua» a um álbum sem parecer “assim, tipo coisa e tal”. «Nua» é um disco mesmo muito bom!

E por fim, fica dito que gosto muito de ver a Baixa a abarrotar de turistas, nariz no ar, a produzir “selfies” tolas. São felizes e vêem Lisboa talvez como os lisboetas não vêem. Talvez estes devessem aprender com eles e sentirem-se muito contentes por ouvir a alegria que vai na alma desta extraordinária e feliz cantora, Gisela João. Que também fadista!


jef, novembro 2016

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Sobre o livro «Índice Médio de Felicidade» de David Machado, Dom Quixote, 2013












Este livro sugere ter sido escrito para crianças. Crianças que são adultos e contam histórias e aventuras e viagens de adultos que parecem crianças. Quem o comece a ler, prepare-se, não vai parar até conhecer-lhe o final. Imagine-se uma carrinha de nove lugares, com acelerador e sem travão, que rola encosta acima, em movimento uniformemente acelerado. Claro, a força da gravidade é negativa, como negativos são os sinais do nosso tempo, da infeliz economia do desemprego, das casas devolvidas aos bancos por dação, de gerações de idade amputada, da sociologia avantajada, pronta a ser integrada num futuro por garantir. Mas Daniel tem de resistir, não pela sua própria solidão, mas por solidariedade com a família, com os amigos… Afinal, talvez haja solução! A felicidade ainda pode ser equacionada, relativizada, ponderada, numa função de grau elevado, tendo x, y, z por variáveis que, em absoluto, possuem o mesmo valor tanto para os adultos como para as crianças. Ou seja, a hipótese de felicidade quando nasce é para todos.
Valha-nos a esperança (que Xavier e Doroteia Marques recusam)!
Valha-nos o desejo (de que Mateus se quer alhear)!
Sentir ou entender a felicidade podem ser assuntos distintos, mas uma coisa é certa: é impossível viver sem os outros.

jef, outubro 2013

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Biografia








Caríssimo amigo,
por respeito a quem passa
(cheio de pressa e afazeres inauditos)
resumirei a minha vida a cinco / seis episódios:

(a) o meu nome
(b) a primeira queda
(c) o segundo ou terceiro encontro marcado
(d) um cheiro fresco na rua
(e) a vaga atmosfera a flores
(f) um novo dono para o gato.

Resumo também para não me enfastiar.
Sabe, o passado, 
o passado segue-me, tolhe-me o passo,
surpreende por demasia.
Um bom amigo sim, traz uma lembrança por outra,
mas faz-me tropeçar,
faz-se trôpego,
anda sempre a ficar para trás
e eu a recuar para o ir ajudar.
Amigo, já lhe contei a minha vida.
Agora, por favor,
vá-se embora!

jef, novembro 2016