segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sobre o filme «Sono de Inverno» de Nuri Bilge Ceylan, 2014





















As cores do poder
Capadócia. Inverno. Isolamento. 
Quantas tonalidades estão contidas nas sombras de uma lareira acesa? Quantas cores comporta a luz branca refractada pelos cristais da neve? Os pintores sabem-no dizer. Mas quantas variações poderão reflectir a palavra «poder»? Humilhação, prepotência, condescendência, tirania, subjugação[…] Nuri Bilge Ceylan vai multiplicando o complexo espectro visual, dando à palavra modeladora da humanidade o pantone de um melodrama estético sobre a solidão. Um filme a ser escutado, no palco que ele é, ao som de Voltaire, Shakespeare, Dostoiévski, Schubert… Um filme a reler!

jef, janeiro 2015

«Sono de Inverno» (Kis Uykusu) de Nuri Bilge Ceylan. Com Haluk Bilginer, Melisa Sözen, Demet Akbag, Ayberk Pekcan. Turquia, 2014, Cores, 196 min.

Sobre o livro «Animalescos» de Gonçalo M. Tavares, Relógio D’Água 2013














Ser vivo, ser animal, ser humano.
Imagine-se que as palavras sonham, melhor, que as palavras têm pesadelos, desses que associam sujeito, verbo, complementos directo e indirecto, num sistema lógico mas que nos conduz a uma porta fechada, até à queda livre sem saída, ou ilógica.

Segundo o Dicionário / Catálogo do autor, “Animalescos” é o caderno n.º 32 e situa-se no sector intitulado «Canções». Os pontos finais praticamente não são utilizados, as maiúsculas diluem-se à extinção, a leitura surge corrida ligando imagens e acções, consequências e sintomas. Ideias. A palavra «Cristo» em destaque. Um código gramatical onde o espírito nasce do corpo e a máquina do animal, na intimidade de uma série de monólogos oníricos indexados a palavras-chave ou índices remissivos.

«raspo a madeira para perceber se este é um material sujeito a neuroses, como os humanos, se a madeira fica louca aos poucos, se apodrecer é isso ou apenas uma mudança fisiológica; a perda de força do material, interessa-me isto, perceber na madeira o que é a neurose e no homem o que é esse apodrecimento que é visível na madeira cheia de humidade e tempo;» pp. 33.

A Natureza como ponto de fuga ou estratégia de sobrevivência. O leitor que é, ao mesmo tempo, ser vivo, ser animal e ser humano, que decida.

jef, agosto 2014

domingo, 27 de novembro de 2016

sobre o disco «Gisela João» Valentim de Carvalho, 2013

















Elogio a Gisela João.
Será difícil que, com este disco, alguém que não goste de fado passe a gostar. Mais fácil será prever que o primeiro disco da fadista ditará mais algumas achas na grata discussão sobre a renovação, a origem e as consequências do fado e dos novos fadistas. Alguns medirão a cantora e tentarão colocá-la na escala absoluta de Richter, onde se perfilam, santificados, Alfredo Marceneiro, Amália, Beatriz da Conceição, Maria Teresa de Noronha, Carlos Paredes ou Carlos do Carmo (e onde aguardam beatificação Aldina Duarte, Manuela de Freitas ou Camané). Todos sabem que o fado nunca será ciência, será outra coisa muito pouco definida e que se deseja sempre diferente para podermos dizer que é sempre igual, como diria o príncipe de Lampeduza. 

A cantora sabe (sente) bem do facto e a primeira coisa que me surge ao ouvi-la é algo que se diz de Amália: «Ela até canta o fado!». Gisela João, numa fúria emotiva, ataca sem tréguas ou panaceias orquestrais, os fados tristes e menores, os alegres e maiores, os ‘renovados’ com letra de Ary dos Santos, os viras e malhões, o ‘não venhas tarde’, o ‘maldição’ ou a ´casa remax da mariquinhas’. De certo modo, o contralto quebrado da voz, a guitarra portuguesa de Ricardo Parreira e a viola de fado de Tiago Oliveira, piscam o olho (o ouvido) à essência da canção e cobrem-na de uma forte irreverência, agressiva, diria ‘punk’. Por mim, folgo em emocionar-me com um disco sobre o qual deram grande destaque na imprensa e ofereceram enorme expectativa. 

O fado é mesmo assim, tem de ser popular, tem de ser, de certo modo, emocionalmente erudito.

Serve ainda o presente para elogiar, igualmente, o grande fadista e produtor executivo do disco, Hélder Moutinho. A produção e direcção musical: Frederico Pereira.

jef, setembro 2013

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Sobre o filme «A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2» de Abdellatif Kechich, 2013













Onde jaz o sorriso de Adèle?

Já tínhamos compreendido com Pedro Costa («Onde Jaz o Teu Sorriso?» 2001), este através de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub («Sicilia!» 1999), que a beleza está, justamente, nesse fotograma perdido que revela (ou esconde) o trejeito de um sorriso. Parece-me que essa capacidade estética de sublinhar ou desvanecer a sombra de uma imagem é o verdadeiro sinal contido na arte maior. Expor a intimidade como arte (pública) sem que seja revelada, sem haver devassa, fazendo antes do espectador cúmplice e devedor de uma ideia, é ética que nem todos os realizadores se podem gabar. Tal como Pedro Costa, mestre superior nessa demanda («No Quarto da Vanda» 2000), Abdellatif Kechiche consegue filmar uma refeição familiar sem a exibir (e o que há de mais íntimo que um cuscuz de peixe partilhado por amigos em tarde de fim-de-semana? - «O Segredo de um Cuscuz» 2007). Filmar um sorriso, uma lágrima, um jantar de esparguete à bolonhesa, a sesta sonolenta de uma criança ou uma relação sexual, tornando o público “protector” desse fotograma encoberto, é coisa rara, coisa difícil para actores e para quem tem a câmara em acção. Também para quem o idealiza e lhe realiza a montagem. Abdellatif Kechiche é absolutamente rigoroso na escolha ética do fotograma a esconder. Também as actrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux são absolutamente intransigentes na assunção da partilha dessa beleza oculta.
jef, dezembro 2013

«A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2» (La Vie d’Adèle – Chapitres 1 et 2) de Abdellatif Kechich. Com Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos, Salim Kechiouche, Aurélien Recoing, Catherine Salée, Benjamin Siksou, Mona Walravens. França, 2013, Cores, 177 min.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sobre o disco «God Don’t Never Change – The Songs of Blind Willie Johnson», Vários Artistas. Produção de Jeffrey Gaskill. Alligator Records, 2016










Blues. Blues. Blues. Soul. Soul. Soul. Gospel. Gospel. Gospel.
Texas, de Marlin a Beaumont.
Janeiro de 1987 a Setembro de 1945. 48 anos na América do Norte. Negra, profunda e bela. Injusta também.
Jesus Cristo na Terra. Depressão nas alturas. Slide-guitar no colo. E mais quanta alma exista!
Tom Waits («The Soul of a Man» & «John The Revelator») como nós o ouvimos desde «Swordfishtrombones» (1983), a era Island Records.
Lucinda Williams, Cowboys ‘Margo Timmins’ Junkies, Sinead O’Connor, Maria McKee, Rickie Lee Jones. As belas, as mais belas!
Ainda, Derek Trucks & Susan Tedeschi, Blind Boys of Alabama, Luther Dickinson & the Rising Star Fife & Drum Band.
«It’s Nobody’s Fault But Mine».
«Jesus is Coming Soon».
«Mother’s Children Have a Hard Time».
«Let Your Light Shine on Me».
A maravilha de uma América do Norte que será sempre nossa, apesar da ignomínia, do racismo e da segregação. Apesar do Trump.
O milagre sobre a Terra pode existir, sim, mas está apenas nas mãos dos homens.
Também na sua música!

jef, novembro 2016

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Sobre o filme «Tesouro» de Corneliu Porumboiu, 2015















Gosto do cinema romeno.
Gosto do modo como Corneliu Porumboiu dá o dito pelo não dito, troca o fio à história, deixa-nos na corda bamba, de cara à banda, entre a tragédia anunciada pelo neo-neo-realismo e o humor mais dramático que, em cinema, é o mais realista.
Assim foi «12:08 a Este de Bucareste» (2006). Terá sido um pouco menos em «Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolism» (2013).
Aqui, a fábula é mesmo desconcertante e tem a ver com o Sherife de Nottingham, Little John e Lady Marian. Todos conhecem a história mas neste caso diz respeito a vizinhos e dinheiro contado.
Uma família perfeita, um tesouro escondido, um detector de metais que anda como caracol sobre um quintal sem graça e vai apitando. Aqui e ali. Também tem polícias e ladrão.
Uma diversão sobre a falta de dinheiro e o desejo eterno que o metal sonante provoca. Tudo medido pela visão inocente e justa do pequeno Alin, em interpretação terna de Nicodim Toma.
Não esquecer, por fim e enquanto corre o genérico, de ouvir a versão soft-metal de «Life is Life» dos já enterrados e esquecidos Opus.

jef, novembro 2016

Porumboiu, Corneliu “Tesouro” (Comoara). Toma Cuzin, Adrian Purcarescu, Corneliu Cozmei, Nicodim Toma. Roménia / França, 2015, Cores, 89 min.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Sobre o filme «Dois Dias, Uma Noite» de Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2014


















O fio instável da resistência.
Se existe alguma função para um filme é fazer luz sobre o fio, desequilibrado e fundamental, da resistência. A vida por um fio e, mesmo assim, levá-la para a frente. O fio da ética sobre as forças cegas do trabalho que aniquila a razão que alimenta os sentimentos que lançam o prumo da existência. Satyajit Ray em «A Grande Cidade» (1968) colocava o poder do querer e do sentir sobre a tirania e o desespero, sobre toda a inconsciência. Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne prosseguem o corolário, demonstrando que a carnificina colectiva só pode ser vencida pela tenacidade individual. Sandra (Marion Cotillard) e Manu (Fabrizio Rongione) vão, durante um fim-de-semana, desfiando de porta em porta uma litania cujo corpo está centrado no manipulador Jean-Marc (uma personagem quase em ausência de cena, com o eterno Olivier Gourmet a dar-lhe a fugaz presença final). «A Grande Cidade» (1968) e «Dois Dias, Uma Noite» (2014) levam-nos à conclusão de que a História dos sem História é feita de individual resistência. Nesse pacto de consciência reside a estética do cinema. A sua própria resistência.

jef, novembro 2014

«Dois Dias, Uma Noite» (Deux jours, une nuit) de Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com Marion Cotillard, Olivier Gourmet, Fabrizio Rongione, Pili Groyne. 2014, Bélgica / Itália / França, Cores, 95 min.