quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Sobre o filme «O Desconhecido do Lago» de Alain Guiraudie, 2013












O silurus e a morte. «Le Déjeuner sur l´Herbe»
A situação é muito clara, a imagem também. Sentados lado a lado, Henri (Patrick d'Assumçao), gordo, melancólico, espera pelo fim das férias e conversa com Franck (Pierre Deladonchamps) que vem decididamente para o engate. As margens pedregosas da albufeira são a plateia ideal para encontros homossexuais. A conversa tem por tema o silurus, peixe-gato, espécie invasora, carnívoro, navegando pelo fundo. O predador pode atingir quatro ou cinco metros e assusta os banhistas que se aventuram até à outra margem. O mote está lançado entre uma hipotética Comédia e uma provável Tragédia. O seu reflexo está no plano de água que tarda em devolver um cadáver. As cenas sucedem-se em repetição, lentamente, tendo como separadores a ondulação da vegetação, das nuvens, da superfície aquática, do crepúsculo. A posição dos automóveis no improvisado parque de estacionamento dá as entradas de cena e incita a intriga a precipitar-se. Todos os personagens são colocados lado a lado. Evitam o campo-contra-campo, não há hierarquia, estão em palco frente ao público que os olha nos olhos e no sexo. Como nos anfiteatros da Grécia Antiga. Franck está inevitavelmente atraído por Michel (Christophe Paou) apesar de tudo sinalizar a sua perigosidade de predador, carnívoro, navegando na obscuridade. Mesmo assim Franck entrega-se não querendo distinguir entre a expectativa e o desejo. As cenas dos encontros sexuais entre Franck e Michel são claras, essenciais para confrontarem o espectador com a irremediável proximidade e a possibilidade do amor. Mas o medo permanece entre os fios da atracção. A noite surge com o aprofundar das investigações policiais, a cargo do inspector Damroder (Jérôme Chappatte), uma de entre as muitas figuras caricaturais que compõem o cenário torpe da busca sexual nas margens do lago. No centro, a Tragédia revela-se sobre Franck, tenta salvar Henri da sua entrega ao sacrifício, foge e esconde-se do predador de fundo. A noite invade-o mas termina a chamar silenciosamente pelo algoz.
Prémio de Melhor Realização na secção Un Certain Regard e Queer Palm na 66.ª edição do Festival de Cannes, um “thriller” escrito e realizado por Alain Guiraudie.

jef, novembro 2013

Sobre o filme «O Desconhecido do Lago» (L'inconnu du Lac) de Alain Guiraudie, 2013. Com Patrick d'Assumçao, Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Jérôme Chappatte. França, 2013, Cores, 97 min.

Sobre o filme «Ela» de Paul Verhoeven, 2016














«A Força do Sexo Fraco», como diria Ingmar Bergman no filme de 1964
ou «Belle de Jour», como diria Luis Buñuel no filme de 1967. Bergman e Buñuel privilegiavam o humor como modo principal do teatro.

Este é um filme que Isabelle Huppert oferece ao realizador Paul Verhoeven e ao escritor Philippe Djian (o de «Betty Blue», realizado por Jean-Jacques Beineix em 1986).

Michèle Leblanc é a personagem exacta para colocar Isabelle Huppert no centro do palco e provocar uma hecatombe moral centrada numa sociedade hiperactiva e em pré-demência. Não podemos esquecer «A Pianista» (2001) e «O Tempo do Lobo» (2003) que a actriz “realizou” para Michael Haneke. Isabelle Huppert gosta de interpretar mulheres que interpretam a vida. Por vezes com sangue e suor, algum esperma, mas com poucas lágrimas.

Será que Michèle Leblanc é vítima ou culpada ao referir ao vizinho, en passant, após uma consoada com scrabble, o salvamento misericordioso de um hamster durante a noite da tragédia?

Tudo aqui está reunido. (E tudo por dizer.) Uma família funcional. Uma vizinhança acolhedora. Um filho atinado. Uma empresa de futuro com empregados motivados. Um gato impávido. Um Natal perfeito. Entre o suplício e o desejo. Por fim, que tal um possível happy-end «fracturante», como hoje os políticos diriam?

Sem querer excitar as papilas da controvérsia e da crítica, «Ela» é uma das grandes comédias negras destes últimos anos.

jef, novembro 2016

«Ela» (Elle) de Paul Verhoeven. Com Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Alice Isaaz, Charles Berling, Virginie Efira. Sobre o romance “Oh…” de Philippe Djian. Alemanha / França, 2016, Cores, 130 min.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Sobre o filme «A Prisão» de Ingmar Bergman, 1949















Com este filme Bergman torna-se explícito, fundamental, categórico. Bergman a experimentar Bergman, a transformar a compreensão da vida enfrentando o espectador numa alta comédia de estilo, filosofia e espelhos.
Em «a Prisão», a ficha técnica é apresentada em voz off pelo próprio Bergman já o filme vai avançado nos pressupostos. Já sabemos que é um filme sobre um filme que está a ser realizado em determinado estúdio, interrompido à hora do almoço pela chegada de um velho professor de matemática que traz um argumento infalível para novo filme: o mundo anda a ser gerido pelo demónio que, para levar a sua avante, faz crer em certa imagem contemporânea e decadente de deus. Esta ideia é levada a Tomas, jovem meio-alcoólico, meio-suicida, que escreve um artigo sobre uma personagem-actriz, Birgitta. O filme começa, então, com a vida dessa actriz, cruzada por flash-backs, por reminiscências oníricas e psicanalíticas, pelo visionamento infantil da curta-metragem muda da Pathé («Devil’s Wanton») quando o casal Birgitta-Tomas se escondem no sótão. Os diversos níveis da história confrontam-se no tempo e na geografia. Agora está tudo dito, agora está tudo baralhado. Já não sabemos quantos andares tem a casa que aparece no nosso sonho. O espectador que resolva: «A Prisão» é uma tragédia sobre o ignóbil assassinato de um recém-nascido ou uma história ditada pela loucura de um professor de matemática que acha que tudo isto não passa de uma paródia que temos de viver, num arco que une os pontos mais próximos entre o nascimento e a morte. Estamos no plano da arte como laboratório social, como primado da estética. Neste filme, a beleza de cada imagem e de cada ideia transmite-nos a certeza de que o cinema é um dos fundamentos da humanidade. Estamos no ano de 1949.

jef, março de 2014

«A Prisão» (Fängelse) de Ingmar Bergman. Com Birger Malmsten, Doris Svedlund, Eva Henning, Hasse Ekman, Stig Olin, Irma Christensson, Anders Henrikson, Birgit Lindqvist. 1948, Suécia, P/B, 78 min.

Índia de papel













– Vamos lá a marchar! Para a frente é que é o caminho, rapidamente e em força! Porte atlético, cabeça erguida, peito para fora, barriga para dentro. Estandartes ao alto, a Nação no espírito! Agora, chegados à fronteira, não é possível hesitar. Recuar é a morte, a afronta, a desonra!
Costumava dizer-me ao pequeno-almoço, frente a uma boa fatia de pão de centeio barrada de banha e açúcar, o metal da caneca a transbordar de café negro a escaldar os dedos, o meu tio-avô, coronel quase general de uma Índia tomada por convalescença, bebedeiras e malária, guerras e epidemias, muito chá, sarapatel e vindalho. Um tom vermelho no hálito matinal, o fumo de um charuto vogando entre comissões de serviço na selva e histórias de nativas desaparecidas, porventura devoradas. Elefantes esforçados na rechega da madeira. Templos invadidos por botânicas esfaimadas a esconder falos amantes e donzelas por eles ansiosas. Um relance de cumplicidade máscula e sóbria no olhar que divagava sobre a linha do horizonte invisível e desgastado pelo suor, em contraluz. Bigodes fartos e grisalhos, calções de investida, pingalim e botas cardadas. Um tigre a vigiar sobre o ombro, sobranceiro e forte. Na sombra. Pronto a saltar, logo que o comando da metrópole o permitisse!
Era um tio-avô de nome Venâncio Anselmo de Matos Salomão Noronha de Albuquerque e Sá que, diga a verdade verdadinha, nunca cheguei a conhecer mais gordo!
Raios partam os livros! Malditas paisagens de papel!


jef, novembro 2016

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sobre o filme «Sono de Inverno» de Nuri Bilge Ceylan, 2014





















As cores do poder
Capadócia. Inverno. Isolamento. 
Quantas tonalidades estão contidas nas sombras de uma lareira acesa? Quantas cores comporta a luz branca refractada pelos cristais da neve? Os pintores sabem-no dizer. Mas quantas variações poderão reflectir a palavra «poder»? Humilhação, prepotência, condescendência, tirania, subjugação[…] Nuri Bilge Ceylan vai multiplicando o complexo espectro visual, dando à palavra modeladora da humanidade o pantone de um melodrama estético sobre a solidão. Um filme a ser escutado, no palco que ele é, ao som de Voltaire, Shakespeare, Dostoiévski, Schubert… Um filme a reler!

jef, janeiro 2015

«Sono de Inverno» (Kis Uykusu) de Nuri Bilge Ceylan. Com Haluk Bilginer, Melisa Sözen, Demet Akbag, Ayberk Pekcan. Turquia, 2014, Cores, 196 min.

Sobre o livro «Animalescos» de Gonçalo M. Tavares, Relógio D’Água 2013














Ser vivo, ser animal, ser humano.
Imagine-se que as palavras sonham, melhor, que as palavras têm pesadelos, desses que associam sujeito, verbo, complementos directo e indirecto, num sistema lógico mas que nos conduz a uma porta fechada, até à queda livre sem saída, ou ilógica.

Segundo o Dicionário / Catálogo do autor, “Animalescos” é o caderno n.º 32 e situa-se no sector intitulado «Canções». Os pontos finais praticamente não são utilizados, as maiúsculas diluem-se à extinção, a leitura surge corrida ligando imagens e acções, consequências e sintomas. Ideias. A palavra «Cristo» em destaque. Um código gramatical onde o espírito nasce do corpo e a máquina do animal, na intimidade de uma série de monólogos oníricos indexados a palavras-chave ou índices remissivos.

«raspo a madeira para perceber se este é um material sujeito a neuroses, como os humanos, se a madeira fica louca aos poucos, se apodrecer é isso ou apenas uma mudança fisiológica; a perda de força do material, interessa-me isto, perceber na madeira o que é a neurose e no homem o que é esse apodrecimento que é visível na madeira cheia de humidade e tempo;» pp. 33.

A Natureza como ponto de fuga ou estratégia de sobrevivência. O leitor que é, ao mesmo tempo, ser vivo, ser animal e ser humano, que decida.

jef, agosto 2014

domingo, 27 de novembro de 2016

sobre o disco «Gisela João» Valentim de Carvalho, 2013

















Elogio a Gisela João.
Será difícil que, com este disco, alguém que não goste de fado passe a gostar. Mais fácil será prever que o primeiro disco da fadista ditará mais algumas achas na grata discussão sobre a renovação, a origem e as consequências do fado e dos novos fadistas. Alguns medirão a cantora e tentarão colocá-la na escala absoluta de Richter, onde se perfilam, santificados, Alfredo Marceneiro, Amália, Beatriz da Conceição, Maria Teresa de Noronha, Carlos Paredes ou Carlos do Carmo (e onde aguardam beatificação Aldina Duarte, Manuela de Freitas ou Camané). Todos sabem que o fado nunca será ciência, será outra coisa muito pouco definida e que se deseja sempre diferente para podermos dizer que é sempre igual, como diria o príncipe de Lampeduza. 

A cantora sabe (sente) bem do facto e a primeira coisa que me surge ao ouvi-la é algo que se diz de Amália: «Ela até canta o fado!». Gisela João, numa fúria emotiva, ataca sem tréguas ou panaceias orquestrais, os fados tristes e menores, os alegres e maiores, os ‘renovados’ com letra de Ary dos Santos, os viras e malhões, o ‘não venhas tarde’, o ‘maldição’ ou a ´casa remax da mariquinhas’. De certo modo, o contralto quebrado da voz, a guitarra portuguesa de Ricardo Parreira e a viola de fado de Tiago Oliveira, piscam o olho (o ouvido) à essência da canção e cobrem-na de uma forte irreverência, agressiva, diria ‘punk’. Por mim, folgo em emocionar-me com um disco sobre o qual deram grande destaque na imprensa e ofereceram enorme expectativa. 

O fado é mesmo assim, tem de ser popular, tem de ser, de certo modo, emocionalmente erudito.

Serve ainda o presente para elogiar, igualmente, o grande fadista e produtor executivo do disco, Hélder Moutinho. A produção e direcção musical: Frederico Pereira.

jef, setembro 2013