quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Sobre o livro «Vinte Degraus e Outros Contos» de Hélia Correia, Relógio D’Água 2014


















Sant’Ana ensina Nossa Senhora a ler.
Ao ler o livro de Hélia Correia fico na dúvida. Falará ele de retábulos, parábolas e ícones metafísicos, do mediterrâneo helénico, da profundidade azul do encantamento, ou dissertará, antes, sobre o encarnado e a carnificina humana? Hélia Correia nestes contos narra o poder carnívoro pegando no escopro e bisturi e forçando a criação de um híbrido de espírito e vísceras e profecia. Um casamento entre a definição de Natureza tentada por Gonçalo M. Tavares e a cicatriz social feminina avançada por Agustina Bessa-Luís. É verdade, é injusto comparar grandes escritores, mas a leitura tem destas coisas…
No entanto, cuidado!, deste livro ninguém sai ileso. É aprender a ler e, depois, partir.

jef, novembro 2014

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Sobre o filme «Os Belos Dias de Aranjuez» de Wim Wenders, 2016














É difícil dizer mal de «Os Belos Dias de Aranjuez», a peça de teatro que Peter Handke escreveu e que Wim Wenders realizou venerando a amizade que o une ao escritor de «A Angústia do Guarda-redes Antes do Penalty» (1970) que dois anos mais tarde Wim Wenders vem filmar.
Por outro lado, este filme deixa uma sensação de incompletude, de suspensão da acção presente sobre as histórias recordadas, de ausência de palavras (e aqui só há palavras, em campo contracampo e com a câmara a rodar suavemente sobre os rostos destacados da folhagem do jardim pela técnica das três dimensões).
Mas falta aqui qualquer coisa.
Também temos um inicial «Perfect Day» de Lou Reed a soar sobre os céus tranquilos de Paris e um quase conclusivo «Into My Arms» que vem da jukebox para o piano de Nick Cave. Um cão em fuga derivando na floresta, tal como o escritor que antes escutava a voz em diálogo dos seus protagonistas. Uma mesa com uma maçã em repouso e duas cadeiras, minúscula réplica do cenário essencial do filme. Coisa esteticamente perfeita, insubmissa e desconcertante, tal como faria Tarkovksy. Tal como vão fazendo as palavras narradas, a plena insatisfação do amante quando recorda um passado que talvez não mereça tanta memória. Uma «cabana de lavrador» perdida numa paisagem inventada. Uma paisagem que se desejava recriada, duplamente imaginada.
No entanto, a este filme talvez falte o deslumbrante isolamento do guarda-redes face à premente expectativa.
Talvez falte qualquer coisa. Não sei…
Mas não será essa mesma angústia nostálgica que transborda de «Alice nas Cidades» (1974), «Ao Correr do Tempo» (1976), «O Estado das Coisas» (1982), «Paris Texas» (1984), «As Asas do Desejo» (1987)?
Continuará Peter Handke a cuidar do jardim de Wim Wenders e este a ceder a imagem a uma solidão tão absoluta quanto estética?

jef, dezembro 2016


«Os Belos Dias de Aranjuez» (Les Beaux Jours d'Aranjuez) de Wim Wenders. Com Reda Kateb, Sophie Semin, Jens Harzer, Nick Cave, Peter Handke. Portugal / Alemanha / França, 2016, Cores, 97 min.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Sobre o filme «Bom Dia» de Yasujiro Ozu, 1959


















A verdade não se toma de uma vez só. 
É preciso olhá-la uma, outra vez, virá-la do avesso, afastarmo-nos, aproximarmo-nos dela. Mesmo assim, no dia seguinte, apresentará tonalidades diferentes. Por isso, Yasujiro Ozu filma sempre a mesma história, faz-se acompanhar dos seus actores de sempre, as cores e a arquitectura, os planos, os diálogos, são permanentemente rigorosos, estáticos, belos. Em «Bom Dia», Ozu refaz uma comédia de 1932 («Nasci, mas…») e apresenta dois irmãos em «greve de palavras» contra a atitude dos pais. Contudo, a verdade filmada volta a ser esse sedimento que resiste, nostálgico, ao que é novo e insiste em renascer. O silêncio dos rapazes é, ao mesmo tempo, simples e muito complexo. Como o é toda a linguagem no seio da sociedade. A invasão da tecnologia hertziana do novíssimo aparelho televisivo contra a necessidade repetida de um «Bom Dia!» e de uma conversa vácua sobre o estado atmosférico na plataforma ferroviária. Toda a força ética da ternura contida na cena final do filme. Quem por ela não for tocado, que se cale para sempre!

jef, agosto 2014

«Bom Dia» (Ohayô) de Yasujiro Ozu. Com Keiji Sada, Yoshiko Kuga, Chishu Ryu, Kuniko Miyake, Haruko Sugimura, Koji Shitara, Masahiko Shimazu. Japão, 1959, Cores, 94 min.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Sobre o filme «Mãe e Filho» de Calin Peter Netzer, 2013














A viscosidade da lixa.
A ideia imediata que tenho de cinema europeu de vocação «social» (preferiria escrever «socialista» mas teria de gastar muitas linhas para dizer o que não quero dizer) vai directa aos filmes de Jean-Pierre e Luc Dardenne e ao cinema romeno. De entre as imagens dessa Roménia dura, rigorosa, empenhada, programática, surge a enorme força (poder) de uma actriz: Luminita Gheorghiu. Quem a vê neste filme, nunca mais a esquece, como nunca mais a esquecemos em «A Morte do Senhor Lazarescu» (Cristi Puiu, 2005) ou no papel minimal em «Código Desconhecido» (2000) de Michael Haneke, outro inveterado cineasta «socialista». «Mãe e Filho» é um filme para consagrar Luminita Gheorghiu, para lhe dar a tela toda, para oferecer ao espectador uma personagem (Cornelia) complexa, viscosa, áspera, quase feia, composta por camadas e silêncios, deslocando-se obstinada e obcecada entre movimentos de câmara excessivos. Contudo, o «excesso de câmara» é interrompido, concentrando o olhar ao espectador, nos três momentos decisivos do filme: (a) o encontro de Cornelia com a testemunha do acidente, (b) o momento em que a nora expõe a intimidade do seu filho; (c) o confronto final com a perda irremediável de um filho (ou do seu amor). As três derrotas de Cornelia. Um filme dedicado à dramaturgia da derrota que, em todo o caso, será sempre a conquista de um certo Herói / Heroína.

jef março 2014
«Mãe e Filho» (Pozitia copilului) de Calin Peter Netzer. Com Luminita Gheorghiu, Bogdan Dumitrache, Natasa Raab. Roménia, 2013, Cores, 112 min.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Sobre o livro «Uma Vasta e Deserta Paisagem» de Kjell Askildsen, Ahab 2011


















A solidão ou a dor imensa.
7 histórias contidas dentro de 1 pequeno livro. 74 páginas.
Sete contos que denunciam a dificuldade em estabelecer um espaço que circunscreva a solidão. Kjell Askildsen define-o com a ausência de coordenadas quando o corpo começa a falhar e as palavras tropeçam nos afectos ou, pior, se vêem sitiadas pelo silêncio. Kjell Askildsen é um escritor radical e minucioso que coloca no centro da narrativa os pequenos gestos e os quartos vazios. Também os quintais ao fim da tarde. Kjell Askildsen é o narrador do tempo em falta. Quem não sabe o que é esse sentido visceral que pode surgir como um sótão escuro e abafado mas também como o parapeito que fracassa perante o abismo, não precisa deste livro.
Sete histórias minúsculas dentro de um livro imenso.

jef, agosto 2014

A tradução é de Mário Semião

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Sobre o filme «Lágrimas e Suspiros» de Ingmar Bergman, 1973














O crédito da morte. O débito da vida.
Este filme parte de uma premissa radicalmente simples. A simplicidade com que a morte fundamenta a vida quando esta se conclui. O silêncio que cai sobre a pele que arrefece, sobre as palavras que não foram ditas. Talvez sobre a pele que cobre as próprias palavras. Uma película que, nesses breves momentos (90 minutos de projecção), é rasgada deixando a família sem refúgio, sem presente, sem compreensão. Logo depois, a sociedade reorganiza-se, volta a cimentar a distância, revestindo as palavras com nova pele, novos compromissos, nova hipocrisia. Novos silêncios. A simplicidade deste filme é tão irremediável como a própria morte. O branco, o negro e o vermelho, a separar. A mazurca de Chopin e a sarabanda de Bach, a terminar. O amor, o desamor e o medo, em contratempo e contracampo. A imagem que traz o nosso olhar para perto, infinitamente perto, até ferir, da derme, do grito, do falso sorriso, dos lábios, das mãos, das sombras, da dor. E, por fim, uma cena demasiado simples para não ser dolorosa. Um plano a fechar-se sobre uma página de diário, as quatro mulheres reunidas, um baloiço no parque, um lapso de felicidade. Este é um filme para ser simplesmente sentido, explicá-lo é destruí-lo (como dizia João Bènard da Costa).

jef, fevereiro de 2014
«Lágrimas e Suspiros» (Viskningar Och Rop). Com Harriet Andersson, Liv Ullmann, Ingrid Thulin, Kari Sylwan, Anders Ek, Erland Josephson, Hening Moritzen. Suécia, 1973, Cores, 91 min.

Sobre o filme «O Salão de Jimmy» de Ken Loach, 2013


















A arte é mais política do que a violência.
Pode não ser o melhor filme de Ken Loach, mas é um filme de Ken Loach. Pode ser demasiado programático e temporalmente confuso mas é um belo filme inglês. Daqueles com os cenários, o guarda-roupa, a banda-sonora, os diálogos e os actores no lugar certo. E, acima de tudo, é muito bom reflectir no papel da arte na política. Hoje, com a violência real a surgir como falso acto estético emanado de algum perverso vídeo-clip ou jogo de play-station (Síria Iraque Palestina Israel Ucrânia Europa Estados Unidos…) é bom relembrar como a poesia, a música e a dança podem unir consciências e agregar comunidades. O coreógrafo e bailarino Maurice Bèjart (1927-2007) sabia-o quando discursou no Coliseu de Lisboa, em 1968. O contrabaixista Charlie Haden (1937-2014) sabia-o quando discursou no Dramático de Cascais, em 1971. Bèjart e Haden sofreram as consequências mas exerceram o seu direito político à dança e à música. Exerceram o seu direito de consciência pública. No filme, também Jimmy Gralton ajudou a entregar o direito colectivo da dança à população do Condado de Leitrim (Irlanda), em 1932. Sofreu as consequências mas fez política.

jef, agosto 2014

«O Salão de Jimmy» (Jimmy's Hall) de Ken Loach. Com Barry Ward, Simone Kirby, Jim Norton, Francis Magee, Aisling Franciosi, Andrew Scott. Grã-Bretanha, 2013, Cores, 109 min.