quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Teorias













Há sempre uma teoria para tudo
Se não encontram uma teoria
Atirem-lhe uma pedra
Façam-se fortes
Digam que vem do coração
Da razão
Que a razão é causa forte
Como a pedra atirada sem atrito
Pelo ar, no vidro, até ao sangue
Que a palavra é coisa fraca
Cheia de teorias
Afogada no poema
Mal dirigida, maltratada
Sem direito a defesa
O tribunal de férias
A polícia a banhos
O pessoal distraído com as ondas da Nazaré
Caso não arranjem teoria, coração, razão
Acaso, maré
Se nem uma palavra descobrem
No campo deserto
Na areia submissa ao mar
Vá de agarrar na pedra
Que seja a primeira
Para acertar no alvo
Não esse! O outro!
Azelha! Esse é o surfista!
Bem no centro daquele que submerge o olhar
A experiência, a solução
Normalmente,
O outro, de pé, no campo deserto das pedras
Acaba morto
Assim
Deitado na poeira
Caído redondo como o chão
A pedra e o pó desaparecidos
A palavra que se enterre ou se deixe insepulta
Tanto faz
O diabo que a carregue
O vento que a leve mais o poema
Já não faz falta.
Assim como as suas teorias
Todas as teorias

jef, janeiro 2017

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sobre o filme «Minha Alma Por Ti Liberta» de François Dupeyron, 2013


















O Bom Gigante
Ou me engano muito ou este filme irá parar directamente à lista dos filmes mais injustiçados de 2014. Ninguém o irá ver às salas (ao Monumental, em Lisboa), ninguém comprará o dvd, ninguém o sacará à net. Arranjarão mil e um defeitos para o castigar, a começar pelo excesso de filtros e «brilhos» do Sol. Neste último caso, concordo. Porém, é um filme com características extraordinárias. É um filme sobre a bondade e o perdão, e todos sabemos como a bondade e o perdão não cativam a cultura (e a política). É um filme onde os personagens giram afectivamente em torno uns dos outros em cenas e diálogos entrecortados, aparentemente sem sequência, mas com consequência face ao núcleo familiar. No centro situa-se Fredi (Grégory Gadebois) em acto puro de composição dramática, acompanhado no desamparo, na inquietude e na solidão, por seu pai (Jean-Pierre Darroussin). Ali ninguém está só, todos voltam atrás para se desculparem, por sentirem o erro, por preferirem o amor à acusação. Ninguém se rende. Todos regressam por que desejam ser curados. Existe um universo de personagens-figurantes que, discretamente, humildemente, pedem pela cura. O outro pede desculpa por não lha poder entregar. São os outros que lha dão.
Poderá a bondade curar? E o perdão?

jef, junho 2014

Sobre o filme de François Dupeyron “Minha Alma Por Ti Liberta” (Mon Âme par Toi Guérie). Com Grégory Gadebois, Céline Sallette, Jean-Pierre Darroussin, Marie Payen, Philippe Rebbot. França, 2013, Cores, 123 min.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Sobre o dia 7 de Janeiro de 2015. Sobre o livro «Para já para já» de Vitor Silva Tavares, Dois Dias 2012-1972.
















Sobre o  dia 7 de Janeiro de 2015. Sobre o livro «‘Para já para já’, seguido de posfácio ‘Contumácia’» de Vitor Silva Tavares, agora, na edição Dois Dias, 2012. Antes, em edição do grande, Jornal do Fundão, 1972.

Ler livros que não são livros. Ler escritores que são editores. Ler capas que vão já no miolo. Ler livros que me oferecem no Natal! Viva!

«Senhor compositor: faça o favor de compor  Senhor leitor: escrever é trampolinice, maluquice, crassa burrice que chatice, um tipo deixa de cirandar pela rua por aí, deixa de beber cervejolas com amigos e tremoços, deixa de se preocupar com o fim do mês, deixa de ler o jornal sentado na retrete, deixa de namorar a tal do gostinho especial, deixa de viajar bilhete de quinze de autocarro, deixa de bater a soneca dos justos, deixa de ver televisão que a RTP nos dá hoje senhores, deixa de rezingar no café contra a bandalheira geral não desfazendo, deixa de comer o rabo do pargo, deixa de ser cidadão normal o que lhe permitem, atleta no arame da vidinha e, bic firme entre o polegar, o indicador e o médio, SG Filtro fumegando, põe-se a macular a inocência estática do papel, a desenhar sinais, a vomitar palavras, estas.» (capa – pp. 1-2)

E por falar em Charlie e no dia 7 de Janeiro de 2015, também eu o sou e recordo a forma das palavras, o corpo das ideias, o amor sobre o estupor. Para aqueles que se divertem em jogo real a degolar jornalistas, assassinar artistas, a executar o humor: Viva o Charlie Hebdo, o Jornal do Fundão, a & etc., a Apenas Livros Livros, a By the Book, edições especiais, lda., e todos os que pratica(ra)m a resistência privada, a consciência pública, a amizade global. Viva!

Viva o Vitor Silva Tavares (17-07-1937 / 21-09-2015)!

jef, 8 de janeiro de 2015

Sobre o filme «A Imagem que Falta» de Rithy Panh, 2013



















As imagens em falta. Rithy Panh, Umberto Eco (e o 25 de Abril).
Umberto Eco, através do seu encantador romance ilustrado «A Misteriosa Chama da Rainha Loana» (Difel, 2005), explica o processo cinematográfico do filme de Rithy Panh. O livro começa com uma pergunta simples feita pelo médico «E o senhor, como se chama?». «Espere, tenho-o debaixo da língua.» (…) «Chamo-me Arthur Gordon Pym». «O senhor não se chama assim.» contrapõe o médico. De modo semelhante ao paciente-protagonista de Umberto Eco, que sofrera um AVC e tenta recuperar a memória vasculhando um velho sótão atafulhado de objectos e imagens do passado (impressas no livro), também o cineasta Rithy Panh busca uma imagem em falta. Procura entender, demonstrar e reivindicar uma memória (uma História) que desvanece com o passar dos anos, por não poder agarrar-se a qualquer fotografia. Do mundo «Camboja / Phnom Penh / Khmer Vermelho / Pol Pot / 1975-1979», restam somente imagens que descrevem a gloriosa caminhada em direcção a uma sociedade «sem vestígios de capitalismo». Todas as outras foram destruídas. Da infância do realizador e dos campos de escravatura onde toda a família morreu de exaustão e fome nada restou para mostrar. Até o nome próprio lhes foi anulado. Ele a custo escapou e, mais tarde, fugiu para França. Então, como fazer valer uma memória sem ter à mão um sótão cheio de recordações, sequer um nome? Como reavaliar uma memória política através das recordações intangíveis de menino? Rithy Panh, em golpe genial de climax dramático, recria uma sequência de cenários onde, em lentos travellings, vai demonstrando essa história / História através da contemplação de centenas, para não dizer milhares, de figurinhas moldadas em barro (pelo escultor Sarith Mang). Um maravilhoso teatro de marionetas estáticas, narrado em voz-off por Randal Douc, que sem dúvida tem mais efeito do que milhares de imagens de arquivo. (Uma sumptuosa teatralidade, máscara da «imagem real», que podemos acompanhar igualmente em «Shoah» de Claude Lanzmann, 1985). Dir-se-ia que este teatro é muito mais real do que a realidade, lançando na consciência actual a verdade de uma família que se viu extirpada de um passado, recuperando um nome, a sua História, a sua imagem.
O objecto (e o teatro) é importante para a recuperação (compreensão) da História, e da nossa história. Os historiadores sabem-no.
E nós, o que poderemos fazer com todas as imagens (exteriores e interiores) que possuímos do 25 de Abril de há quarenta anos? Poderemos, hoje, neste país, com esta liberdade, com esta democracia, reinventar os quarenta anos que lhes seguirão?
Todos sabemos como a memória é leviana. De qualquer modo, se assim não fosse, não lhe sobreviveríamos.
Viva o 25 de Abril!

jef, 19 de abril de 2014

«A Imagem que Falta» (L`Image Manquante) de Rithy Panh, 2013. Cambodja / França, 2013, Cores, 90 min.
«A Misteriosa Chama da Rainha Luana» de Umberto Eco, Difel 2005

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Sobre o filme «Nebraska» de Alexander Payne, 2013


















Visitar a memória construída de novo.
Há filmes assim, que parecem simples, comuns, invariáveis. Filmes que filmam aquilo que julgamos já conhecido. Exactamente como quando revisitamos certos locais, certas cidades, certos amigos. Nós gostamos, sentimo-nos em casa. Certamente já serão (estarão) diferentes, mas nós sentimo-los invariáveis, comuns, simples. Sentimo-nos reconfortados, como se nos pertencessem. (E pertencem.) Pertencem a uma América de estradas sem fim e que reconstruímos continuamente em nosso benefício. Aí revisitamos alguma coisa que nós somos e que a nossa memória guardou (alterou) mas talvez tivéssemos esquecido. «Nebraska», lembra o álbum de Bruce Springsteen (1982), lembra também «Uma História Simples» de David Lynch (1999). Lembra uma América que faz parte de nós e que Frank Capra (1897-1991) ajudou a edificar. Forte, impulsiva, agreste, ampla, mas, ao mesmo tempo, generosa, bela (muito bela), atenta (muito atenta). Há filmes, assim, para serem contemplados, para serem ouvidos, para serem devolvidos à memória revisitada (para sempre).

jef fevereiro 2014

«Nebraska» de Alexander Payne, 2013. Com Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach. EUA, 2013, Cores 115 min.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Sobre o livro «As Aves do Jardim Gulbenkian» de João Eduardo Rabaça, Fundação Calouste Gulbenkian 2016


















A Fundação Calouste Gulbenkian é um grande-pequeno espaço que sempre teve o condão de influenciar e descentrar os pequenos-grandes espaços que são Lisboa e Portugal.
Não falamos das bibliotecas itinerantes que percorriam o país distribuindo leitura em carrinhas de difícil esquecimento.
Não referimos a sessão do filme «Roma, Cidade Aberta» que Roberto Rossellini apresentou no Grande Auditório, em 1973, levando João Bènard da Costa a descrevê-la, após os longos minutos de ovação em pé do público e entre Vivas à Liberdade!, como «a mais inesquecível sessão de cinema da minha vida».
Nem a apresentação de «Café Müller» ou «A Sagração da Primavera» da bailarina Pina Bausch, um pouco mais tarde…
Nem a estreia a 7 de Junho de 1969 de «La Transfiguration de Notre Seigneur Jésus-Christ», a oratória maior que Olivier Messiaen escreveu a pedido de Maria Madalena de Azeredo-Perdigão, comemorando o aniversário da morte do fundador.

Aqui, somente se fala das aves do Jardim Gulbenkian que, à época, talvez tivessem sido ouvidas por Messiaen, músico e também ornitólogo, que compôs igualmente os sete livros do seu «Catalogue d'Oiseaux», «Réveil des Oiseaux» e «Oiseaux Exotiques».
Aves que, no seu estatuto estético, desenvolvem as características humanas, urbanas, morais, dos habitantes de uma cidade. Tomam esta por sua vez como seu ecossistema, naturalizando o homem e, em simultâneo, humanizando-se.

De acordo com esta perspectiva, «As Aves do Jardim Gulbenkian» de João Eduardo Rabaça é um guia sereno, fácil de consultar, que ajuda a explorar mas nunca explicando. Lança a curiosidade para estarmos alerta, vivos perante o jardim e as suas (nossas) transformações. Nariz no ar, olhos atentos, ouvidos em riste. Primavera, Verão, Outono e Inverno, como dizia Vivaldi. Nada mais simples do que o ciclo de uma cidade.
Dividido essencialmente em duas partes: uma caracterização geral e enquadramento do espaço e do tempo na primeira parte e, na segunda, um guia de apresentação específico ilustrado por textos sensíveis e pelas fotografias de Diogo Oliveira e Luís Gomes.

Um guia amável para compreendermos que o homem, os seus jardins e cidades, as aves e os seus habitats e ninhos, fazem parte da mesma Natureza.

jef, janeiro 2017

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Sobre o livro «Uma Caneca de Tinta Irlandesa» de Flann O’Brien, Cavalo de Ferro, 2013


















O autor profetiza: «um bom livro pode ter 3 inícios completamente diferentes, podendo terminar de 300 maneiras igualmente diferentes» (página 9). O próprio chega-se à frente e concretiza-o. Na página 28, acrescenta: «o romance, nas mãos de um autor sem escrúpulos, pode ser despótico». Por isso, sou tentado a concordar e também passarei a ler apenas livros com capa verde (o livro de Cesário e o de João de Deus, são sugestões minhas). Terminada a leitura, fico com muito mais respeito pelos romances de cowboys, pela índole feminina dos marsupiais e pelos malefícios da cerveja, do tabaco e do chá (principalmente nas instituições de caridade dedicadas a idosos). Fiquei também a respeitar as Epíboles e as Anadilopses. Entabulei amizade com um Cacodemónio e um Agatodemónio. Já agora, onde poderei adquirir a enciclopédia «Panorama das Artes e das Ciências Naturais»? Aviso final: este romance é uma obra muito séria para quem gosta de ler e reflectir sobre a natureza íntima desse gesto cognitivo. Uma experiência sobre os discursos, directo e indirecto; sobre as diferentes culturas, a clássica, a cristã, a gaélica ou uma outra qualquer; sobre a democracia, a cortesia e o julgamento em sociedade. Um clássico da iconoclastia, publicado em 1939.
Um livro infalível para o ano de 2013.

jef, junho 2013

A tradução é de Maria João Freire de Andrade.