quinta-feira, 29 de agosto de 2019

A refracção da luz branca










A suave capacidade que a água tem em cair
A leveza da gota que sustém a gravidade na respectiva massa
A plenitude da refracção que infringe a tensão superficial
O fulgor que a penetra e se divide uno no espectro cromático
Dá ao nosso olhar a certeza de cada um dos comprimentos de onda em que se difunde a luz branca.
Houvesse noutra luz o nosso outro olhar e uma luz de cor diversa talvez fizesse erguer a gota até a uma perfeita e violeta nuvem do céu.

jef, agosto 2019

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Sobre o livro «A Única História» de Julian Barnes. Quetzal, 2019. Tradução: Helena Cardoso.















«Preferiam amar mais e sofrer mais; ou amar menos e sofrer menos? Esta é afinal, penso eu, a única, a verdadeira questão.»

Começa Julian Barnes sem rodeios. Explica depois, continuando nos prolegómenos, que afinal, não é essa a questão primeira. Porque não é uma questão de escolha. Se conseguimos controlar o sentimento será uma coisa a que não se chamará amor. E cada um só contará uma história, a única história. E contá-la-á tantas vezes a si próprio, por sobrevivência ou autocomiseração, que a verdade se vai afastando ou aproximando sem aviso. É preciso ter cuidado, avisa o protagonista que é cauteloso e vai iniciar a narração.

O escritor no seu jeito muito particular que é, em partes iguais, claro, terno e impiedoso, narra uma história de felicidade, realmente única, que, por inerência do étimo da palavra amor, transporta o grau adjacente de sofrimento, como já avisara no início.

Julian Barnes, mestre em dizer tudo, explicitamente, mas por poucas palavras, conta esta história entre dois seres saídos de mundos tão vizinhos mas tão diferentes, cuja alegria se vai transformando não em desespero mas numa certa melancolia tácita. Apesar de, como mais uma vez chamara a tenção, o protagonista jamais se alimenta de autopiedade.

Julian Barnes é brilhante na confirmação de que a vida é bela mas terrivelmente difícil e que o amor e o sofrimento não se podem colocar nos pratos de uma balança mas sim sobre o paralelismo das linhas (e das vidas) que se sobrepõem. «Vejo que o amor severo também é severo para quem ama», conclui.

[Sem razão explicável, quando acabei de ler o livro recordei um dos filmes da minha vida. «Breve Encontro» de David Lean (1945). E não terá sido apenas pelo modo como se escutam os concertos para piano. No filme, Laura e Alec encontram-se sob o véu de Rachmaninov. No livro, Susan e Casey Paul ouvem Prokofiev como ponto de fuga ou lógica de sedução.]

jef, agosto 2019

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Sobre o filme «Variações» de João Maia, 2019















Segunda-feira. Cinema do Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa. Sessão das 18h15. A sala a abarrotar. Ou me engano muito ou este filme português sobre as aventuras de um português muitíssimo respeitável embora totalmente incomum, será um sucesso de bilheteira, tornando-se um caso de estudo. E com toda a justiça!

(Lembram-se de «Cinema Paraíso» (Giuseppe Tornatore, 1988) e «O Carteiro de Pablo Neruda» (Massimo Troisi e Michael Radford, 1994)?)

O filme contém elementos que, em conjunto, o fazem um dos filmes portugueses mais sérios, sinceros, honestos, discretos e comoventes. E como é difícil tocar (sem tocar) numa das figuras mais especiais e acarinhadas (porque não era de todo controverso) da música pop portuguesa dos anos 80. E o realizador João Maia consegue rodar todo o filme em torno das canções de António Variações sem o 'expor' ou beliscar qualquer dos temas ‘fracturantes’ adjacentes. Esses temas modernos que clamam por audiências e facilitam a crueldade mórbida e a curiosidade voyeurista que tanto ensopa a arte hoje em dia.

O filme centra-se nessa centelha, incompreensível talvez até para o próprio cantor, que o fazia amar de tripas, alma e coração a sua própria música. E tudo o resto é filmado com uma cortesia e elegância, quase deferência, que muito se aproxima da imagem bondosa que nós fazemos de António Variações, no televisivo «Passeio dos Alegres» de Júlio Isidro ou nas festas do Jornal «se7e» no Campo Pequeno. Isso é espantoso. É um filme sobre a bondade de que ele vivia e fazia viver. E isso é raríssimo num filme.

Também é um filme que fala com pinças da emigração para a capital e para a Europa, da guerra colonial, do avanço da epidemia da SIDA, dos afectos homossexuais ‘livres’, de um país que, após o 25 de Abril, se ia reconstruindo a ouvir o novo rock, o punk, a pop, a electrónica…

Claro, que o actor Sérgio Praia tem um papel importantíssimo nessa oclusão de persona dramática face à obra de arte. Sem desejar colar-se ao ‘cliché António Variações’, representa-o como se o estivesse a construir de dentro para fora. Não é ele mas entrega-lhe a totalidade da sua própria obra de arte. Um papel único de esplendor e desaparecimento. Claro que o rodeiam os actores Filipe Duarte, José Raposo, Teresa Madruga, Augusto Madeira ou Tomás Alves.

Este é um filme, acima de tudo, sobre a solidão. Essa solidão generosa, alegre mas aflita, que fazia António Variações compor, cantar e viver «A Canção do Engate», «O Corpo É que Paga» ou «Dar e Receber».

Por todas as razões (incluindo as razões formativas), e na minha modesta opinião, este filme merece esgotar as salas com gente de todas as idades.

jef, agosto 2019

«Variações» de João Maia. Com Sérgio Praia, Filipe Duarte, Victoria Guerra, Augusto Madeira, Tomás Alves, Madalena Brandão, José Raposo, Teresa Madruga, Diogo Branco, Eric da Silva, Lúcia Moniz, Miguel Raposo. Direcção musical: Armando Teixeira. Portugal, 2019, Cores, 109 min.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Sobre o disco «Holly» de Holly Cole, Tradition & Moderne 2018
















Não me lembro de Holly Cole ter editado um disco com uma capa tão má, foleira mesmo, um título tão pífio, um digipack tão pobrezinho, sem direito a livrinho com letras e pormenores. Talvez seja melhor assim, pois não seria de esperar um booklet muito melhor. Talvez um disco a cumprir alguma estratégia editorial, suspeito eu.

Contudo, o que interessa é a música que está lá dentro impressa. E para o fã número um do ‘Holly Cole Fã Club’ que sou eu, fico muito entusiasmo com as novas 11 canções, pois Holly Cole permanece fiel aos seus longínquos e maravilhosos «Blame It on My Youth» (1992) ou «Temptation» (1995), dedicado este último a transfigurar as canções de Tom Waits.

Ou seja, a canadiana Holly Cole, ao fim de tantos anos, continua a tocar com os seus eternos amigos David Piltch (contrabaixo) e Aaron Davis (piano) para nos dar uma versão muito suave e respeitosa, acarinhada pela sua voz, cada vez mais terna e grave, de «Everybody Loves Somebody Sometime», «Ain’t That A Kick In The Head» ou «Your Mind Is On Vacation». Assim se juntam também Davide DiRenzo e Justin Faulkner (percussão) ou John Johnson (flauta).

Em «I Was Doing All Right» e «I Could Write a Book» aparece em dueto com o trombonista Wycliffe Gordon que tanto lembra os idos do grande Louis Armstrong.

Sem esquecer esse delicioso tom de fora de moda do órgão Hammond (Lary Goddings) em «Teach Me Tonight» ou no final «Lazy Afternoon».

Sim, pode a capa ser muito feia. Sim, pode cumprir calendário de edição, porém, fico contente por reconhecer a voz rouca, por vezes de pronúncia ciciada tão característica mas onde se ouve, palavra por palavra, um jazz maravilhoso, único, dengoso, quase libidinoso, a que poderíamos chamar «hollystico».

Que me importam as capas!

jef, agosto 2019

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Sobre o filme «Era Uma Vez em... Hollywood» de Quentin Tarantino, 2019


















O filme vive em duas velocidades.
Existem os momentos pausados, quase carinhosos, em que Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), antigo herói de westerns televisivos, luta contra o tempo que o coloca agora nos estúdios de cinema de Hollywood dos finais dos anos 60. Novos cowboys que devem seguir as novas modas de vestuário e cabelos compridos para novas plateias. Ele chora ao ver esse tempo passar. Fuma e bebe muito. Mas tem o conforto de uma espécie de valete-pagem-irmão-duplo-motorista-bricoleur, Cliff Booth (Brad Pitt), com quem partilha quase tudo na vida. Cliff Booth vive o dia-a-dia sem questionar o tempo. Rick Dalton vive em Hollywood, em Cielo Drive. É vizinho de Roman Polanski (Rafal Zawierucha) e Sharon Tate (Margot Robbie).

É o mesmo tempo lento em que Sharon Tate circula grávida e sorridente, vendo filmes, flanando encantada por Los Angeles, longe de Polanski por este ter viajado para outro continente. Tudo brilha e resplandece. Os carros são maravilhosos, o guarda-roupa extraordinário, a banda sonora magnífica.

Contudo, esse tempo de Woodstock (e Vietname!), de filmes, música e amor, tem o peso da História. Estamos no início do ano de 1969 e suspeitamos que terminará a 8 de Agosto de 1969, quando os acólitos e ‘familiares’ de Charles Manson partem, sanguinários, do rancho comunitário de Spahn em direcção a casa dos famosos vizinhos de Rick Dalton.

Claro que os factos reais, aqui, colocam o espectador, durante a maior parte do filme, em tensão máxima, transtornando de modo óbvio a suavidade da crise do Tempo que envolve a dupla Rick Dalton / Cliff Booth ou a luminosidade casta que cobre os passos de Sharon Tate.
Nesta duplicidade temporal Tarantino é, mais uma vez, fantástico!

Por outro lado, o realizador presenteia-nos, claro, com as suas cenas encarnadas em alta voltagem, de um suspense inacreditável, uma violência atroz, quer no rancho de Spahn, quer, finalmente, na casa de Rick Dalton.
É, neste momento de alta velocidade, o momento do sangue, quando o murro estala, o lancha-chamas ferve, a faca espetada aguça a hemoglobina, que o espectador, em catarse, aplaude, suspira de alívio e descansa!
Afinal, a realidade podia até ter sido diferente.

O cinema de Tarantino tem tido, ultimamente, essa função justiceira, alterando o rumo à História, sublimando os traumas colectivos mais impiedosos, fazendo a ficção moldar a realidade e deixando o espectador de cara à banda, a sorrir face à possibilidade de fantasia. Assim tem sido com «Sacanas Sem Lei» (2009), «Django Libertado» (2012), «Os Oito Odiados» (2015).
Nada mais há de ficcionalmente verdadeiro! Nada mais psicanalítico!

[E só os grandes realizadores – Martin Scorcese, Steven Soderbergh, irmãos Coen – conseguem extrair tanta energia criativa de um conjunto tão grande de actores. Maravilhosos!]

jef, agosto 2019

«Era Uma Vez em... Hollywood» (Once Upon a Time... in Hollywood) de Quentin Tarantino. Com Margot Robbie, James Marsden, Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Dakota Fanning, Tim Roth, Luke Perry, Al Pacino, Kurt Russell, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Dakota Fanning, Austin Butler, Bruce Dern, Damon Herriman, Rafal Zawierucha. Grã-Bretanha / EUA, 2019, Cores, 159 min.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Sobre o filme «Las Hurdes, Terra Sem Pão» de Luis Buñuel, 1932
















E eis que, em 1932, aparece o terceiro filme de Buñuel após o surrealismo estonteante de «Um Cão Andaluz» e «A Idade de Ouro». Um filme rodado num mês pelas terras montanhosas de Espanha, Las Hurdes, junto à fronteira com Portugal e pelas bandas da Serra da Gata. O dinheiro veio de um amigo anarquista que ganhara a lotaria e a vocação de o realizar chegou da leitura do relatório etnográfico do francês Maurice Legendre. Buñuel tinha regressado dos Estados Unidos e Espanha chegava à Segunda República que proibiu o filme após a exibição nos finais de 1933. Não era coincidente com as imagens que a república desejava dar do seu país (futuro).

Porque Buñuel afasta-se drasticamente do surrealismo e avança até à mais feroz realidade. Nota-se que o realizador fica mergulhado por aqueles factos atrozes que deseja muito filmar pois coincidem com os seus sonhos mais estranhos e incoerentes.

Porque a realidade que se vê no filme é brutal, estranha e ‘incoerente’! De surrealista Buñuel transforma-se em realista (ou neo-realista), apesar da nota final, apesar das forças progressistas o terem rejeitado.

E entende-se, causa ou consequência, como o sub-mundo da degradação humana de Las Hurdes veio moldar, aperfeiçoar ou simplesmente confirmar a estética do realizador. O modo cru de nos apresentar a miséria abjecta de Las Hurdes, talvez tenha sido o ‘golpe de sorte’ no meio do ‘azar supremo’ de uma região e de um povo, que veio deixar em carne viva o modo de filmar a sua fantasia interior. Outros, que não eu, chamar-lhe-ia “a obsessão de Buñuel”.

Entende-se, ainda, por estas imagens, a angústia secreta pela injustiça social e o afecto ‘escondido’ pelas crianças e pelos animais na obra de Buñuel.

Confesso. Após ter visto de enfiada mais de dezena e meia de filmes de Luis Buñuel, confirmo (a) que esta reportagem só poderia ter feita pelas suas mãos, (b) que me deixou um superior aperto no coração e nos olhos e o estômago virado do avesso. Luis Buñuel é um mesmo um génio e a sua obra transformou-se para mim, a partir de agora, verdadeiramente psicossomática.

jef, agosto 2019

«Las Hurdes, Terra sem Pão» (Las Hurdes) de Luis Buñuel. Com os habitantes de Las Hurdes. Voz off de Francisco Rabal. Argumento: Luis Buñuel, baseado no estudo etnográfico de Maurice Legendre. Fotografia: Eli Lotar. Música: 4ª Sinfonia de Brahms. Produção: Luis Buñuel. 1932, Espanha / França, 29 min.

Sobre o filme «A Idade de Ouro» de Luis Buñuel, 1930





















E um ano depois de «Um Cão Andaluz» surge «A Idade de Ouro». Afinal, havia sucessor na fama, na irreverência, na liberdade de filmar. No espanto. Mais Buñuel que Dali, já com uma verba substancial em francos cedidos pelos excêntricos Viscondes de Noailles (mecenas também de Man Ray e Jean Cocteau), em vez das pesetas da mãe Buñuel. Produção em grande. Argumento com uma possível história a ser seguida. Um escândalo. Apenas treze dias em cartaz na cidade de Paris, em vez dos oito meses do filme anterior. O cinema atacado por grupos de direita. Petardos lançados. Cadeiras partidas. 50 anos de proibição. Só em 1982 foi visto em Portugal.


Luis Buñuel consegue o impossível. Levar o segundo filme até ao patamar do primeiro em conceito estético, em discussão ética. Talvez mesmo ultrapassando-o, quem o poderá afirmar?

Numa ilha deserta os escorpiões fazem pela vida (ou pela morte). Tal como o grupo indigente de bandidos. Tal como um grupo de bispos que, em tempo, passam a esqueletos. Um conjunto de altos dignitários desembarcam para ali lançar a primeira pedra de Roma Imperial, mas o discurso é interrompido pelas cenas de afecto apaixonado de uma mulher (Lya Lis) e de um homem (Gaston Modot) no meio da lama. Ela é banida, ele vai preso, mas reencontram-se numa festa que não é perturbada pelo guarda que mata com tiros de caçadeira o próprio filho. Eles reencontram-se mas o amor aproxima-se da morte e da não consumação. Ela chupa libidinosamente o pé de uma estátua de um deus clássico, ele acaricia-se entre as penas brancas saídas de uma almofada esventrada. Parecem apaixonadamente desesperados. Uma vaca deve sair da cama. Um bispo, defenestrado, assim como uma girafa e um velho arado. Entretanto, no castelo de Séligny, as orgias sucedem-se, como em «120 Dias de Sodoma» de Sade. Mas o Duque de Blangis é Cristo!

A revolução e a psicanálise, dois dos motes do surrealismo, estão lá. De Luis Buñuel, tudo. A surpresa, a velocidade das cenas, as personagens como que suspensas ou encarceradas nos seus desejos. Também os animais, as cordas, os objectos como personagens ou como vítimas, o amor desvairado, a impossibilidade do amor e a morte, interligados, a igreja e o poder. A narrativa que acolhe o inexplicado como vocação e adesão da lógica de quem assiste… Está lá tudo como estará em «Este Obscuro Objecto de Desejo», o último filme, em 1977.

O que representará este filme, afinal, não para a História do Cinema mas para o espectador que o vê hoje, numa sala de cinema, em horário comercial, depois de sair do trabalho e antes do quotidiano o invadir novamente?

jef, agosto 2019

«A Idade de Ouro» (L’Âge d’Or) de Luis Buñuel. Com Lya Lis, Gaston Modot, Max Ernst, Pierre Prévert, Caridad de Laberdesque, Germaine Noizet, Duchange, Evardon, Joseph Albert, Marval, Manuel Ángeles Ortiz, Ibañez, Valentine Hugo, Lionel Salem, Llorens Artigas, Jacques B. Brunius, Marie-Berthe Ernst, Jacques Prévert, Firmo, Enrique Maula, Mario Call, Pancho Coll, Simone Cottance, Xaume Miravitlles, Pedro Flores, Jean Aurenche, Juan Esplandiá, Joaquin Roa, Pruna e a voz off de Paul Éluard. Argumento: Luis Buñuel e Salvador Dali. Fotografia: Albert Duverber. Música: Georges Van Parys, Mendelssohn, Mozart, Beethoven, Debussy, Wagner, ‘paso-doble’ e os tambores de Calanda. Produção: Visconde e Viscondessa de Noailles. 1930, França, P/B, 62 min.