segunda-feira, 2 de março de 2020

Sobre o livro «A Origem das Espécies de Charles Darwin recontada e ilustrada por Sabina Radeva». Nuvem de Letras, 2019.















Tenho um particular fascínio por livros ilustrados e intriga-me a razão por que, hoje em dia, quase desapareceram os livros ilustrados para adultos, como acontecia lá pelos séculos XIX e anteriores. Hoje, detenho-me avidamente sobre os maravilhosos livros que se editam para crianças e fico a pensar se os adultos começam a achar de somenos ler um livro com bonecos que não seja em banda desenhada ou guias de natureza.

Até que a minha querida amiga e colega Paula Bártolo me mostrou um livro (este!) que acabara de comprar para oferecer às filhas. Imediatamente tornei-me invejoso, folheando rapidamente as magníficas páginas cobertas de imagens que a artista e bióloga Sabina Radeva para ele desenhou, e que parecem ser a guache ou pastel de óleo. Ofereci-o ao meu sobrinho Francisco e vi-me obrigado a comprar um para mim. Tinha de o olhar, lendo-o, com calma.

E qual não é o meu espanto quando me surge um livro com tanta devoção pela teoria da evolução como pela vida de Charles Darwin, observador irreprimível, homem sensível, sensato, cândido e de família, oito filhos e cadela Polly. Um cientista que levou vinte anos a publicar em livro as suas avisadas ideias e reflectidas observações feitas durante as viagens a bordo do veleiro HMS Beagle.

O livro segue, a par e passo e desenho, os temas das variações naturais em indivíduos de uma espécie, as adaptações, a selecção feita pelo homem nas espécies domésticas, a selecção natural e a aptidão de determinados indivíduos para sobreviver no mundo selvagem, as descontinuidades geográficas e a oportunidade para as variações, a consequência de tudo isto transmitida às gerações seguintes, derivando na ramificação de seres cada vez mais complexos e diferenciados.

Mas Sabina Radeva faz mais. No final, em anexos sucintos e demonstrativos, descreve o que hoje se conhece sobre o ADN e a hereditariedade e Darwin, então, desconhecia. Explica como as mutações derivam em variações. E, ainda, sublinha os erros mais comuns ditos sobre a teoria da evolução.

Este livro ensina a observar, a gostar de observar, a reflectir sobre o imprescindível tempo de observação na ciência e na vida. É um livro que relembra, a adultos e miúdos, como Darwin fez evoluir o curso científico neste planeta e a visão moral do respectivo bicho-homem.

jef, março 2020

domingo, 1 de março de 2020

Sobre o filme «Vidas Duplas» de Olivier Assayas, 2018.




















Existe um lado na comédia francesa que me irrita um pouco. Em vez de se auto-libertar apoiando-se na história maior que França deu à liberdade do cinema, dos Irmãos Lumière a Renoir, de Godard a Agnès Varda, pelo contrário, enclausura-se no seu próprio casulo lambendo os fios de seda em que se fecha e se auto-elogia. Neste caso, Olivier Assayas irrita-me um pouco mais pois, além de fingir ser Woody Allen, tem à disposição dois pares de actores extraordinários que fazem das tripas coração para dar crédito (e dão-no, na realidade!) aos longos diálogos-teoria sobre a velha edição bibliográfia face à investida da escrita-leitura algorítmica.

Alain (Guillaume Canet) é um editor de livros em papel da velha guarda e bem-sucedido. É casado com Selena (Juliette Binoche), actriz de renome mas aprisionada em temporadas sucessivas das séries de televisão. Alain tem editado com sucesso as obras de Léonard Spiegel (Vincent Macaigne) mas tem dúvidas sobre o seu último manuscrito, «Ponto Final». Léonard é casado com Valérie (Nora Hamzawi) e tende a escrever cruamente sobre a realidade. Por outro lado, Léonard mantém uma relação mesmo muito próxima com Selena que defende o seu livro junto do marido, Alain, que se vê obrigado a abrir a edição a e-books e áudio-livros. Para isso, contrata uma jovem moderna que parece dominar o mundo digital das edições: a muito bela e ambiciosa Laure (Christa Theret).

E assim estaria tudo dito sobre este filme-tese sobre “o moderno caminho da edição literária” caso as personagens não tivessem uma cativante e autêntica densidade psicológica que as faz aprofundar o lado jovial da “comédia-pouco-romântica” feita de silêncios, olhares cruzados, suspeitas caladas e convivência benevolente, um tudo-nada hipócrita do ‘todos precisam de todos’.

Que maravilhosos actores são Guillaume Canet, Juliette Binoche, Vincent Macaigne e Nora Hamzawi!

jef, fevereiro 2020

«Vidas Duplas» (Doubles Vies) de Olivier Assayas. Com Guillaume Canet, Juliette Binoche, Vincent Macaigne, Christa Theret, Nora Hamzawi. França, 2018, Cores, 108 min.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Sobre o filme «Os Miseráveis» de Ladj Ly, 2019
















Há muito que um filme de acção não me punha os nervos em franja como este.

Aos subúrbios de Paris, em Montfermeil, onde convergem (ou divergem) raças, credos e culturas, chega o polícia Stéphane Ruiz (Damien Bonnard) para integrar a brigada anti-crime liderada por Chris (Alexis Manenti) e Gwada (Djebril Zonga), veteranos no controlo do crime através de métodos menos ortodoxos e negociações pouco éticas entre grupos rivais. Numa certa manhã de mercado, um pequeno leão é roubado de um circo de ciganos e um drone vigilante filma a acção da polícia.

A primeira longa-metragem do realizador francês de origem maliana, Ladj Ly, vem lembrar os confrontos violentos há uns anos, nos arredores de Paris, e até pode ser criticado por usar todos os estereótipos sociais e raciais do “bom ladrão” e do “mau polícia” (e todos sabemos como, hoje em dia, é perigoso embandeirar em fórmulas sociais tantas vezes baseadas no preconceito ou provocando preconceitos), mas «Os Miseráveis» tem um tal poder narrativo na montagem das cenas e na composição das personagens, provocando um suspense em crescendo, cena a cena, que deixa o espectador literalmente em palpos de aranha.

Um filme a homenagear (e a fazer ler) «Os Miseráveis» de Victor Hugo que, diz-se no filme, por ali viveu.

jef, fevereiro 2020

«Os Miseráveis» (Les Misérables) de Ladj Ly. Com Damien Bonnard, Alexis Manenti, Djibril Zonga, Issa Perica,Al-Hassan Ly, Steve Tientcheu, Almamy Kanoute, Jeanne Balibar. França, 2019, Cores, 102 min.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Sobre o livro «O Caminho da Glória» de Alexandre Kuprine. Novelas "Inquérito", 1942. Tradução de Remédios de Bettencourt.















Quando as novelas faziam a grata tarefa que hoje é realizada por ecrãs de telemóvel e novelas televisivas às seis da tarde... Ressalvando as devidas e reconhecidas vantagens cognitivas para o acto da leitura!

No século XIX, Nicolau Arkadievitch conclui na cidade os estudos em Agricultura e é colocado numa aldeia situada algures no nenhures russo. Sem grandes distracções tenta o teatro amador mas sem grande sucesso, excepto o das gargalhadas nas cenas mais dramáticas. É aí que encontra Lídia Mikailovna, aliás Lidochka, jovem burguesa, filha de juiz, que, atraída irremediavelmente pela glória dos aplausos e do palco, tenta em Moscovo a arte da declamação junto do famoso actor jubilado Slavinsky que lhe tenta abrir os olhos dizendo que o futuro mais provável será mesmo o do teatro ambulante, paupérrimo e decadente. Lindochka não quer saber e insiste na arte dramática, separando-se então de Nicolau que julga amá-la. Anos mais tarde reencontram-se…

E, pronto, fica tudo dito. Não há volta a dar… as companhias de teatro são perversas, levando os actores desgraçadamente para a má vida e atraindo somente como espectadores hussardos mal-educados, bêbados poltrões e gente de má catadura.

Felizmente que guardo na memória a imagem do teatro venerado, elevado ao estatuto de educador maior do povo, abolindo barreiras, banindo tradições, de «O Conto dos Crisântemos Tardios» de Kenji Mizoguchi (1939).

jef, fevereiro 2020

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Sobre o filme «Bacurau» de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, 2019















Um dos filmes do ano.
Um filme que me explica por que tanto gosto de «Sacanas sem Lei» (2009) ou «Django Libertado» (2012) de Quentin Tarantino, e não aderi assim tanto à famosa comédia «Parasitas» de Bong Joon-ho (2019).

Num futuro próximo, algures no Sertão brasileiro, filmado nas terras amplas do Rio Grande do Norte, Teresa (Bárbara Colen) regressa a Bacurau para o funeral de sua avó, D. Carmelita, 94 anos, amada pela família e pelo povo. Teresa chega à boleia de um camião cisterna cheio de água potável pois o perfeito prefere a campanha eleitoral à distribuição pública de água. Um camião com caixões virado na estrada é o primeiro fenómeno que Teresa estranha. Um pequeno disco voador sobrevoa a pacata aldeia que aposta mais na biblioteca pública e no ensino das crianças, na alegria dos psicotrópicos, nos serviços sexuais e nos cuidados médicos administrados por uma médica que nunca se ri, a Dr.ª Domingas – a extraordinária Sônia Braga! Tudo começa a descambar quando surgem dois motares sinistros, encapuçados pelos seus capacetes, e resolvem tomar uma cerveja na tasca da vila que nem sequer se encontra no mapa.

Aí, o sangue jorra, as cabeças saltam, nem as crianças são poupadas, numa comédia política, louca, despudorada, tão séria quanto o riso que me fez soltar. Nada ali falta, excepto a água potável!

jef, fevereiro 2020

«Bacurau» de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho. Com Bárbara Colen, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Sônia Braga, Udo Kier, Alli Willow, Karine Teles, Antonio Saboia, Jonny Mars. Música: Tomaz Alves Souza e Mateus Alves. França / Brasil, 2019, Cores, 131 min.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Sobre o livro «Apuros de Um Pessimista em Fuga» de Mário de Carvalho. Caminho, 1999













Eis um livro a que sempre volto, por razões várias, e que colecciono na estante da minha “biblioteca dos pequenos livros”. Uma das novelas de Mário de Carvalho de que mais gosto e que, ao longo do tempo, me faz crer que a eternidade de um texto reside tanto no apuro sintáctico, na beleza semântica, nesse modo divertido de irmos atrás de vocábulos invulgares, como no lastro que ele deixa na memória do nosso quotidiano.

Quero dizer que certos livros, como este, fazem-nos compreender o próprio dia-a-dia pois, na sua arqueologia profunda, o guardam lá dentro. Explicam-nos como a cidade de Lisboa se distribui vagueando na geografia que as ruas cravam na nossa mnemónica urbana. Executam um princípio fundamental que diz ser a ficção o melhor aliado emocional da História, a melhor tabela para o seu mais íntimo entendimento. Finalmente, acalmam-nos na nossa mais arreigada, e tantas vezes injustificada, descrença pessimista no dia que vem aí. A melhor ficção está sempre, no presente, a dizer-nos que a insegurança que a sociedade nos coloca dentro do nosso coração pré-deprimido deve ser combatida, pois o curso livre das ideias, a circulação democrática na cidade, a solidariedade pela opinião contrária, são fundamentos legados pelo 25 de Abril e de que jamais poderemos abrir mão.

jef, fevereiro 2020

Nota. Esta novela está actualmente editada na Porto Editora em conjunto com outros dois textos imprescindíveis para compreender a diversidade narrativa em Mário de Carvalho: «Quatrocentos Mil Sestércios» e «O Conde Jano».

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Sobre o filme «A Vida Invisível» de Karim Aïnouz, 2019





















Este melodrama "tropical", segundo o seu realizador, Karim Aïnouz, é deveras interessante! Conta a história a partir do romance de Martha Batalha e teve a atenção especial «Un Certain Regard» de Cannes.

Na década de 1950, duas irmãs, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), são separadas durante a alma e o corpo da sua juventude. Uma parte para uma hipotética Grécia. A outra, para uma putativa Viena, Áustria. O filme conta a história dessa separação, dessa saudade, através de um Rio de Janeiro opressivo de calor e preconceitos, no declive dos bairros cariocas ou entre a vegetação dos morros atlânticos. Não teme o suor ou o sangue, o sexo como estrutura paralela ao drama. Talvez risível. Os corpos desejados ou amedrontados, conquistados ou cedidos, contêm o próprio cerne da saga familiar, baseada em duas mulheres que não se vergam e nunca choram.

Se na estafada rotina da telenovela, o teatro sucumbe ao esgar apalhaçado de expressionismo cosmético, em «A Vida Invisível» a técnica dramática é extraordinariamente clara: o espectador é que tem de receber a lágrima, o pathos, numa circunstância narrativa de romance oitocentista. O espectador vê-se obrigado a aguardar o ápice emocional.

E no final, esse climax está nas mãos e no corpo, no rosto, soberbos, da enorme Fernanda Montenegro! Viva o teatro!

jef, fevereiro 2020

«A Vida Invisível» de Karim Aïnouz. Com Julia Stockler, Carol Duarte, Flávia Gusmão. Com Julia Stockler, Carol Duarte, Flávia Gusmão, Fernanda Montenegro, Gregório Duvivier, António Fonseca, Flávia Gusmão, Cristina Pereira. Segundo o romance «A Vida Invisível de Eurídice Gusmão» de Martha Batalha. Brasil / Alemanha, 2019, Cores, 139 min.