sábado, 21 de março de 2020

Azinheira Quercus rotundifolia Lam.














Azinheira
Quercus rotundifolia Lam.
Família Fagaceae (Fagáceas)

Poderá parecer estranho o facto de uma árvore que simboliza o Sul de Portugal, que transporta, com os seus montados, um regime integrado e de excelência para a pastorícia, a apicultura, a cinegética ou o turismo, tenha ao mesmo tempo a sua área de distribuição ameaçada.

Espécie perenifólia que pode atingir 20 metros de altura se as podas a que frequentemente a sujeitam, e lhe transformam a copa nessa espécie de taça aberta, não forem excessivas. O tronco é coberto por um espesso ritidoma acinzentado e bastante fendido. As folhas são elípticas, coriáceas, de margem dentada ou espinhosa, com a página inferior coberta de pêlos que lhes dão uma tonalidade esbranquiçada.

A bolota é a glande mais doce dos carvalhos e a preferida pelos animais selvagens e pelas varas de porco de montanheira. A regeneração e dispersão são promovidas pela acção natural de gralhas e pombos. Contudo, tal desenvolvimento é muitas vezes impedido pelo sobre-pastoreio ou pelas searas cerealíferas que lhes estão associadas, deixando as árvores dispersas na paisagem. A sua madeira é densa e pesada, difícil de trabalhar, mas é uma excelente fonte de lenha e carvão.

Adapta-se bem tanto a solos calcários como a solos siliciosos e estende-se pelas áreas do Alentejo e Algarve, pelo interior Norte de Portugal até à terra quente transmontana, embora a sua distribuição tenha sido reduzida pela expansão aquática da barragem do Alqueva e as posteriores culturas de regadio. Muito importante para o modo tradicional de uso-fruto do homem mas também para a conservação da biodiversidade de um ecossistema único.

Uma árvore que faz parte do imaginário das longas e belas planícies alentejanas, de canções que ajudaram a alterar o país e até da católica mitologia mariana, deve ser sujeita à atenção de todos e ao cuidado sistematizado da sociedade.

jef, março 2020


Grândola, vila morena

Grândola, vila morena
terra da fraternidade
o povo é quem mais ordena
dentro de ti ó cidade.

Dentro de ti ó cidade
o povo é quem mais ordena
terra da fraternidade
Grândola, vila morena.

Em cada esquina um amigo
em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
terra da fraternidade.

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
em cada rosto igualdade
o povo é quem mais ordena.

À sombra duma azinheira
que já não sabia a idade
jurei ter por companheira
Grândola a tua vontade.

Grândola a tua vontade
jurei ter por companheira
à sombra duma azinheira
que já não sabia a idade.

José Afonso in «Cantigas de Maio» (1971)

* botânica

segunda-feira, 16 de março de 2020

Sobre o filme «Vencidos pela Lei» de Jim Jarmusch, 1986













Em Jim Jarmusch há sempre o princípio de diversão aliado ao do “fazer-se o que nunca se fez”, guiado ainda pelo princípio do clã 'Jarmusch'. Nova Orleães, Luisiana, a cidade rodeada de pântanos e crocodilos, a cidade das casas com varandas em ferro forjado e cadeira de baloiço à porta. A fotografia a preto e branco (Robby Müller) percorre as ruas até chegar à vida difícil de Zack (Tom Waits), DJ no desemprego e despejado por Laurette (Ellen Barkin), que lhe atira os vinis e as botas pela janela. Também o chulo Jack (John Lurie) não vê a vida facilitada quando tenta contratar uma prostituta adolescente. Encontram-se os dois na mesma cela da prisão de N.Orleans-Parish, andam à pancada mas ficam quase amigos. E quase amigos ficam também de Roberto (Roberto Benigni) que matou um homem. Os três fogem e, no fim, Roberto encontra o amor junto a Nicoletta (Nicoletta Braschi).

Neste filme, a estética comanda a narrativa, mais do que a lógica, guiando o espectador por um caminho que surge, plano por plano, libertador, como uma história popular que se conta a uma criança, pela noitinha… Tão divertida e musical quanto «O Brother, Where Art Thou?» (Ethan Coen & Joel Coen, 2000). Tão puro e abstracto como «A Sombra do Caçador» (Charles Laughton, 1955).

jef, março 2020

«Vencidos pela Lei» (Down By Law) de Jim Jarmusch. Com Tom Waits, John Lurie, Roberto Benigni, Nicoletta Braschi, Ellen Barkin, Billie Neal, Rockets Redglare, Vernel Bagneris, Timothea, L.C. Drane, Joy N. Houck, Carrie Lindsoe, Ralph Joseph, Richard Boes, Dave Petitjean. Música: John Lurie, Tom Waits. Fotografia: Robby Müller. Argumento: Jim Jarmusch. 1986, EUA, P/B, 103 min.


quarta-feira, 11 de março de 2020

Formigueiro












Na longitude do horizonte,
no seu fio,
à beira de um raio verde,
quando este se avistava,
a neblina em ausência,
romântico e fugaz
trazendo o desejo ao olhar,
existe aí tanta determinação estática,
a mais cristalina abstracção
ou alienação,
como a que encontramos na extensa linha feita pelas formigas
que caminham absortas,
cruzando audazes toques de antenas e feromonas,
violentamente maternais na protecção dos seus ovos
alheadas de que a criança vai chegar,
graveto e copo de água na mão
pronta a destruir com intolerante perspicácia,
e lúdico entusiasmo,
a última postura da comunidade.

jef, março 2020

terça-feira, 10 de março de 2020

Sobre o livro «Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos» de Alves Redol. Aventura Vivida / Portugália Editora, 1962
















Se existe livro ilustrado que me surpreende (e compreende), sempre, é este.

As fotografias expostas em grande ou médio tamanho, a preto e branco num livro de 23,5 x 16,5 cm, mostram um Constantino Cara-Linda, o “Cuco”, magro e andarilho, olhar duro, entre o determinado e o constrangido, talvez mais voluntarioso que desconfiado, entre os matos e os muros do Freixial, lá para Bucelas; entre os pintassilgos, contando os ninhos, a Ti Elvira, sua avó, e o bebedouro onde bebem a boa da Mimosa, a caprichosa da Carôcha, também a teimosia dos burros. Acima de tudo os canaviais, as margens, as águas do Trancão que desaguam no Tejo, em lembrança de barcos e viagens grandes…

Sobre as imagens que obrigam a percepção do leitor ao ‘realismo’ pictórico (as fotografias são de António Neto e do próprio autor), Alves Redol conta histórias banais, ‘pouco-histórias’, da vida do Constantino e da sua cadela Rasteira, dividindo-as em duas secções – «Um Cuco Rambóia» e «Um Cuco Laborioso» –, alterando a verosimilhança da realidade com a ternura emocional com que observa a diversão e o sofrimento ao correr do tempo na aldeia saloia. O autor deseja afastar-se do ‘neo-realismo’ que as fotografias demonstram e ilustra-as com o enlevo romântico com que parece recontar também as viagens da própria família quando emigrou para a lezíria, em Vila Franca de Xira.

Alves Redol comove-se, libertando-se de peias e catálogos académicos, e entrega-se ao veio livre das palavras. Em «Um bacalhau depois de uma raposa», dá livre curso na descrição da garraiada, coisa que o escritor tratava por tu, descrevendo toureiros borrachões e vacas cansadas de tédio. Em «Guardador de vacas», coloca os animais de Constantino a pastar no arco-íris, quando a avó enuncia: “os animais precisam de verde!”. No final, entrega-se à liberdade fantástica de um sonho onde Constantino navega com o seu compincha Manel até ao alto mar para lá do mar da palha do Tejo.

Alves Redol descreve as imagens de Constantino com a tranquilidade, talvez nostalgia, de quem tem tem a escrita em dia e a consciência de que a infância contém quase sempre a génese de um sonho talvez perdido.

Duas Notas do Interior Duas
(1)  Este livro foi-me oferecido num Natal pelo meu pai quando eu era miúdo e lembro-me de ter ficado muito orgulhoso por já ter direito a livros “a sério”.
(2)  Um livro sobre a aldeia do Freixial onde os meus pais nos levavam a almoçar, no domingo, com os meus avós, num restaurante com uma varanda que dava para o monte Picoto. Tinha um cruzeiro e, lá no céu, estoiravam ao retardador os morteiros com os seus penachos de fumo.

jef, março 2020

domingo, 8 de março de 2020

Sobre a exposição «Manual de Conversação» de Henrique Ruivo, Casa da Cultura, Setúbal, Março 2020
















Não lhe chamem surrealista…

São duas dezenas de caixas, moldura com requinte, profundidade e relevo suficientes para a pintura se chamar colagem e esta se transformar em escultura. A primeira imagem que me veio à cabeça é a de estar na frente de objectos regressados de um museu de caixas de música com bailarina em pontas lá no topo ou de um teatro mecânico onde se coloca a moeda para o macaquinho bater os pratos. Ou daqueles livros ilustrados para miúdos onde se puxa uma patilha lateral e o lobo mau vai de comer os três porquinhos de uma vez só. Caixa de furos dos chocolates regina a sair sempre a bola prateada, a grande tablete.

Porém, aqui não podemos tocar o objecto. É ele que nos toca. No início, um homem nostálgico, a pensar, sentadinho no cimo de uma ravina obscura, feita de folhas e outras nuvens coladas, diz: «foda-se!». É esse o movimento inicial. O movimento mais profundo e sintomático, o da palavra dita ou redigida. Coloquial ou introspectiva, colada sobre o recorte em cartolina da «casa da beira alta de raúl lino» e com a política a subnadar… Temos de sorrir. A conversa de leitaria ou de salão de cabeleireiro ou de clube chique da marinha, posta como pensamento escrito em balão de banda desenhada, pode ser incompreensivelmente irónica, talvez romântica, mas nunca é modernista ou surrealista! Porque, aqui, o absurdo absorve clinicamente o desespero do mundo real e reinventa-o, em termos estéticos, para nós o suportarmos.

Há poucos dias, Henrique Ruivo partiu com Madalena Ruivo. Deixou-nos esta exposição para podermos sorrir (sempre sem escárnio e com a ternura pela mão) sobre um futuro ‘impossível’ e entendermos que a conversa e a memória, como as palavras e as imagens ali sobrepostas, são imprescindíveis para nos trazer luz sobre o nosso mundo ‘hiper-realista’. Henrique Ruivo fá-lo muito mais facilmente do que uma biblioteca cheia de dicionários de academia, tratados de história da arte ou manuais de conversação.

jef, março 2020

quarta-feira, 4 de março de 2020

Sobre o filme «O Lago dos Gansos Selvagens» de Diao Yinan, 2019















Digamos que, na China, em torno do Lago dos Gansos Selvagens, existem uma ou várias povoações organizadas em gangues mafiosos de ladrões de motocicletas, que se digladiam, enquanto sobre o lago, dentro de barcos, acontece um estranho comércio sexual. Condomínios com pátios centrais e uma comunidade que se espia entre escadas apodrecidas e corredores sujos. Pelo meio de uma rixa e na respectiva fuga desenfreada, Zhou Zenong (Hu Ge) mata um polícia e fica com a cabeça a prémio. Um prémio avultado desejado por muitos. A jovem prostituta Liu Aiai (Kwei Lun-Mei) ajuda-o a dar o melhor caminho ao dinheiro. A polícia acaba a tirar uma espécie de selfie com o pé sobre o troféu de caça.

É, assim, mais um filme rigorosamente fotografado (Song Dong-jin) que parece encantar-se a si próprio com os cenários e os episódios de sucessivas perseguições que encadeia, encantando também os espectadores (eu, por exemplo!) que gostam de admirar o pormenor das danças com ténis luminosos e de circos desactivados em jeito «Dama de Xangai». Diverte quanto baste nessa reciclada fórmula “gore” de exibir litros de sangue, cabeças decepadas, tiroteio sem tino, e humor a la carte. Também bastante ternura depositada sobre as personagens principais.

Um rebelde sem justa causa, entre Tarantino e uma certa “nouvelle vague” chinesa.

jef, março 2020

«O Lago dos Gansos Selvagens» (Nan Fang Che Zhan De Ju Hui) de Diao Yinan. Com Hu Ge, Kwei Lun-Mei, Liao Fan, Regina Wan. Fotografia: Song Dong-jin. China, 2019, Cores, 113 min.

segunda-feira, 2 de março de 2020

Sobre o livro «A Origem das Espécies de Charles Darwin recontada e ilustrada por Sabina Radeva». Nuvem de Letras, 2019.















Tenho um particular fascínio por livros ilustrados e intriga-me a razão por que, hoje em dia, quase desapareceram os livros ilustrados para adultos, como acontecia lá pelos séculos XIX e anteriores. Hoje, detenho-me avidamente sobre os maravilhosos livros que se editam para crianças e fico a pensar se os adultos começam a achar de somenos ler um livro com bonecos que não seja em banda desenhada ou guias de natureza.

Até que a minha querida amiga e colega Paula Bártolo me mostrou um livro (este!) que acabara de comprar para oferecer às filhas. Imediatamente tornei-me invejoso, folheando rapidamente as magníficas páginas cobertas de imagens que a artista e bióloga Sabina Radeva para ele desenhou, e que parecem ser a guache ou pastel de óleo. Ofereci-o ao meu sobrinho Francisco e vi-me obrigado a comprar um para mim. Tinha de o olhar, lendo-o, com calma.

E qual não é o meu espanto quando me surge um livro com tanta devoção pela teoria da evolução como pela vida de Charles Darwin, observador irreprimível, homem sensível, sensato, cândido e de família, oito filhos e cadela Polly. Um cientista que levou vinte anos a publicar em livro as suas avisadas ideias e reflectidas observações feitas durante as viagens a bordo do veleiro HMS Beagle.

O livro segue, a par e passo e desenho, os temas das variações naturais em indivíduos de uma espécie, as adaptações, a selecção feita pelo homem nas espécies domésticas, a selecção natural e a aptidão de determinados indivíduos para sobreviver no mundo selvagem, as descontinuidades geográficas e a oportunidade para as variações, a consequência de tudo isto transmitida às gerações seguintes, derivando na ramificação de seres cada vez mais complexos e diferenciados.

Mas Sabina Radeva faz mais. No final, em anexos sucintos e demonstrativos, descreve o que hoje se conhece sobre o ADN e a hereditariedade e Darwin, então, desconhecia. Explica como as mutações derivam em variações. E, ainda, sublinha os erros mais comuns ditos sobre a teoria da evolução.

Este livro ensina a observar, a gostar de observar, a reflectir sobre o imprescindível tempo de observação na ciência e na vida. É um livro que relembra, a adultos e miúdos, como Darwin fez evoluir o curso científico neste planeta e a visão moral do respectivo bicho-homem.

jef, março 2020

domingo, 1 de março de 2020

Sobre o filme «Vidas Duplas» de Olivier Assayas, 2018.




















Existe um lado na comédia francesa que me irrita um pouco. Em vez de se auto-libertar apoiando-se na história maior que França deu à liberdade do cinema, dos Irmãos Lumière a Renoir, de Godard a Agnès Varda, pelo contrário, enclausura-se no seu próprio casulo lambendo os fios de seda em que se fecha e se auto-elogia. Neste caso, Olivier Assayas irrita-me um pouco mais pois, além de fingir ser Woody Allen, tem à disposição dois pares de actores extraordinários que fazem das tripas coração para dar crédito (e dão-no, na realidade!) aos longos diálogos-teoria sobre a velha edição bibliográfia face à investida da escrita-leitura algorítmica.

Alain (Guillaume Canet) é um editor de livros em papel da velha guarda e bem-sucedido. É casado com Selena (Juliette Binoche), actriz de renome mas aprisionada em temporadas sucessivas das séries de televisão. Alain tem editado com sucesso as obras de Léonard Spiegel (Vincent Macaigne) mas tem dúvidas sobre o seu último manuscrito, «Ponto Final». Léonard é casado com Valérie (Nora Hamzawi) e tende a escrever cruamente sobre a realidade. Por outro lado, Léonard mantém uma relação mesmo muito próxima com Selena que defende o seu livro junto do marido, Alain, que se vê obrigado a abrir a edição a e-books e áudio-livros. Para isso, contrata uma jovem moderna que parece dominar o mundo digital das edições: a muito bela e ambiciosa Laure (Christa Theret).

E assim estaria tudo dito sobre este filme-tese sobre “o moderno caminho da edição literária” caso as personagens não tivessem uma cativante e autêntica densidade psicológica que as faz aprofundar o lado jovial da “comédia-pouco-romântica” feita de silêncios, olhares cruzados, suspeitas caladas e convivência benevolente, um tudo-nada hipócrita do ‘todos precisam de todos’.

Que maravilhosos actores são Guillaume Canet, Juliette Binoche, Vincent Macaigne e Nora Hamzawi!

jef, fevereiro 2020

«Vidas Duplas» (Doubles Vies) de Olivier Assayas. Com Guillaume Canet, Juliette Binoche, Vincent Macaigne, Christa Theret, Nora Hamzawi. França, 2018, Cores, 108 min.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Sobre o filme «Os Miseráveis» de Ladj Ly, 2019
















Há muito que um filme de acção não me punha os nervos em franja como este.

Aos subúrbios de Paris, em Montfermeil, onde convergem (ou divergem) raças, credos e culturas, chega o polícia Stéphane Ruiz (Damien Bonnard) para integrar a brigada anti-crime liderada por Chris (Alexis Manenti) e Gwada (Djebril Zonga), veteranos no controlo do crime através de métodos menos ortodoxos e negociações pouco éticas entre grupos rivais. Numa certa manhã de mercado, um pequeno leão é roubado de um circo de ciganos e um drone vigilante filma a acção da polícia.

A primeira longa-metragem do realizador francês de origem maliana, Ladj Ly, vem lembrar os confrontos violentos há uns anos, nos arredores de Paris, e até pode ser criticado por usar todos os estereótipos sociais e raciais do “bom ladrão” e do “mau polícia” (e todos sabemos como, hoje em dia, é perigoso embandeirar em fórmulas sociais tantas vezes baseadas no preconceito ou provocando preconceitos), mas «Os Miseráveis» tem um tal poder narrativo na montagem das cenas e na composição das personagens, provocando um suspense em crescendo, cena a cena, que deixa o espectador literalmente em palpos de aranha.

Um filme a homenagear (e a fazer ler) «Os Miseráveis» de Victor Hugo que, diz-se no filme, por ali viveu.

jef, fevereiro 2020

«Os Miseráveis» (Les Misérables) de Ladj Ly. Com Damien Bonnard, Alexis Manenti, Djibril Zonga, Issa Perica,Al-Hassan Ly, Steve Tientcheu, Almamy Kanoute, Jeanne Balibar. França, 2019, Cores, 102 min.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Sobre o livro «O Caminho da Glória» de Alexandre Kuprine. Novelas "Inquérito", 1942. Tradução de Remédios de Bettencourt.















Quando as novelas faziam a grata tarefa que hoje é realizada por ecrãs de telemóvel e novelas televisivas às seis da tarde... Ressalvando as devidas e reconhecidas vantagens cognitivas para o acto da leitura!

No século XIX, Nicolau Arkadievitch conclui na cidade os estudos em Agricultura e é colocado numa aldeia situada algures no nenhures russo. Sem grandes distracções tenta o teatro amador mas sem grande sucesso, excepto o das gargalhadas nas cenas mais dramáticas. É aí que encontra Lídia Mikailovna, aliás Lidochka, jovem burguesa, filha de juiz, que, atraída irremediavelmente pela glória dos aplausos e do palco, tenta em Moscovo a arte da declamação junto do famoso actor jubilado Slavinsky que lhe tenta abrir os olhos dizendo que o futuro mais provável será mesmo o do teatro ambulante, paupérrimo e decadente. Lindochka não quer saber e insiste na arte dramática, separando-se então de Nicolau que julga amá-la. Anos mais tarde reencontram-se…

E, pronto, fica tudo dito. Não há volta a dar… as companhias de teatro são perversas, levando os actores desgraçadamente para a má vida e atraindo somente como espectadores hussardos mal-educados, bêbados poltrões e gente de má catadura.

Felizmente que guardo na memória a imagem do teatro venerado, elevado ao estatuto de educador maior do povo, abolindo barreiras, banindo tradições, de «O Conto dos Crisântemos Tardios» de Kenji Mizoguchi (1939).

jef, fevereiro 2020

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Sobre o filme «Bacurau» de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, 2019















Um dos filmes do ano.
Um filme que me explica por que tanto gosto de «Sacanas sem Lei» (2009) ou «Django Libertado» (2012) de Quentin Tarantino, e não aderi assim tanto à famosa comédia «Parasitas» de Bong Joon-ho (2019).

Num futuro próximo, algures no Sertão brasileiro, filmado nas terras amplas do Rio Grande do Norte, Teresa (Bárbara Colen) regressa a Bacurau para o funeral de sua avó, D. Carmelita, 94 anos, amada pela família e pelo povo. Teresa chega à boleia de um camião cisterna cheio de água potável pois o perfeito prefere a campanha eleitoral à distribuição pública de água. Um camião com caixões virado na estrada é o primeiro fenómeno que Teresa estranha. Um pequeno disco voador sobrevoa a pacata aldeia que aposta mais na biblioteca pública e no ensino das crianças, na alegria dos psicotrópicos, nos serviços sexuais e nos cuidados médicos administrados por uma médica que nunca se ri, a Dr.ª Domingas – a extraordinária Sônia Braga! Tudo começa a descambar quando surgem dois motares sinistros, encapuçados pelos seus capacetes, e resolvem tomar uma cerveja na tasca da vila que nem sequer se encontra no mapa.

Aí, o sangue jorra, as cabeças saltam, nem as crianças são poupadas, numa comédia política, louca, despudorada, tão séria quanto o riso que me fez soltar. Nada ali falta, excepto a água potável!

jef, fevereiro 2020

«Bacurau» de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho. Com Bárbara Colen, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Sônia Braga, Udo Kier, Alli Willow, Karine Teles, Antonio Saboia, Jonny Mars. Música: Tomaz Alves Souza e Mateus Alves. França / Brasil, 2019, Cores, 131 min.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Sobre o livro «Apuros de Um Pessimista em Fuga» de Mário de Carvalho. Caminho, 1999













Eis um livro a que sempre volto, por razões várias, e que colecciono na estante da minha “biblioteca dos pequenos livros”. Uma das novelas de Mário de Carvalho de que mais gosto e que, ao longo do tempo, me faz crer que a eternidade de um texto reside tanto no apuro sintáctico, na beleza semântica, nesse modo divertido de irmos atrás de vocábulos invulgares, como no lastro que ele deixa na memória do nosso quotidiano.

Quero dizer que certos livros, como este, fazem-nos compreender o próprio dia-a-dia pois, na sua arqueologia profunda, o guardam lá dentro. Explicam-nos como a cidade de Lisboa se distribui vagueando na geografia que as ruas cravam na nossa mnemónica urbana. Executam um princípio fundamental que diz ser a ficção o melhor aliado emocional da História, a melhor tabela para o seu mais íntimo entendimento. Finalmente, acalmam-nos na nossa mais arreigada, e tantas vezes injustificada, descrença pessimista no dia que vem aí. A melhor ficção está sempre, no presente, a dizer-nos que a insegurança que a sociedade nos coloca dentro do nosso coração pré-deprimido deve ser combatida, pois o curso livre das ideias, a circulação democrática na cidade, a solidariedade pela opinião contrária, são fundamentos legados pelo 25 de Abril e de que jamais poderemos abrir mão.

jef, fevereiro 2020

Nota. Esta novela está actualmente editada na Porto Editora em conjunto com outros dois textos imprescindíveis para compreender a diversidade narrativa em Mário de Carvalho: «Quatrocentos Mil Sestércios» e «O Conde Jano».

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Sobre o filme «A Vida Invisível» de Karim Aïnouz, 2019





















Este melodrama "tropical", segundo o seu realizador, Karim Aïnouz, é deveras interessante! Conta a história a partir do romance de Martha Batalha e teve a atenção especial «Un Certain Regard» de Cannes.

Na década de 1950, duas irmãs, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), são separadas durante a alma e o corpo da sua juventude. Uma parte para uma hipotética Grécia. A outra, para uma putativa Viena, Áustria. O filme conta a história dessa separação, dessa saudade, através de um Rio de Janeiro opressivo de calor e preconceitos, no declive dos bairros cariocas ou entre a vegetação dos morros atlânticos. Não teme o suor ou o sangue, o sexo como estrutura paralela ao drama. Talvez risível. Os corpos desejados ou amedrontados, conquistados ou cedidos, contêm o próprio cerne da saga familiar, baseada em duas mulheres que não se vergam e nunca choram.

Se na estafada rotina da telenovela, o teatro sucumbe ao esgar apalhaçado de expressionismo cosmético, em «A Vida Invisível» a técnica dramática é extraordinariamente clara: o espectador é que tem de receber a lágrima, o pathos, numa circunstância narrativa de romance oitocentista. O espectador vê-se obrigado a aguardar o ápice emocional.

E no final, esse climax está nas mãos e no corpo, no rosto, soberbos, da enorme Fernanda Montenegro! Viva o teatro!

jef, fevereiro 2020

«A Vida Invisível» de Karim Aïnouz. Com Julia Stockler, Carol Duarte, Flávia Gusmão. Com Julia Stockler, Carol Duarte, Flávia Gusmão, Fernanda Montenegro, Gregório Duvivier, António Fonseca, Flávia Gusmão, Cristina Pereira. Segundo o romance «A Vida Invisível de Eurídice Gusmão» de Martha Batalha. Brasil / Alemanha, 2019, Cores, 139 min.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Sobre o filme «O Farol» de Robert Eggers, 2019

















Este é o filme de que se fala e que esgota a sala em que é exibido, juntando público dos 14 aos 80, num estado de ansiosa expectativa… Não é comum…

Não será necessário vislumbrar a piscadela de olho ao expressionismo mudo de Buñuel, Murnau ou Eisenstein, a tensão de Hitckcock, as insanas obsessões de Ahab, de Melville, os fígados de Prometeu agrilhoado, para dizer, como o outro, tanto barulho por nada…

A fotografia a preto e branco (Jarin Blaschke) em jeito “35 mm” sob uma banda sonora em alto e bom som “mecânico”, vindo das tempestades do oceano, da casa das máquinas do farol ou do velho casebre que aos poucos se desfaz, constrói parte grande do “mistério” do filme. A música de Mark Korven completa o círculo.

Mas o barulho que se faz pelo filme tem alguma razão de ser, sobrepondo-se mesmo à respectiva banda sonora. A dupla faroleiro Thomas Wake (Willem Dafoe) e o seu servente-oficial Ephraim Winslow (Robert Pattinson) merece séria atenção. O diálogo realizado num espaço claustrofóbico, entre escadas estreitas, soalhos apodrecidos, sujidade em crescendo, covas abertas para vivos-mortos, é muitas vezes concluído com um arremedo de “comédia de costumes” que nos leva ao sorriso. Um ponto a favor do filme que mostra como Willem Dafoe é um grande mestre da comédia e da tragédia e Robert Pattinson, um partenaire à altura.

Dispensar-se-iam as imagens, obtusamente líricas, da pequena sereia …

jef, fevereiro 2020

«O Farol» (The Lighthouse) de Robert Eggers. Robert Pattinson, Willem Dafoe, Valeriia Karaman, Logan Hawkes, Kyla Nicolle. Argumento: Robert Eggers
Max Eggers. Música: Mark Korven. Fotografia: Jarin Blaschke. Canadá / EUA, 2019, Cores, 109 min.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Sobre o filme «Mulherzinhas» de Greta Gerwig, 2019
















Existe neste requintado e exuberante «Mulherzinhas» um extraordinário “savoir-faire” da realizadora Greta Gerwig.

Aqui se faz a apologia do romance de Louisa May Alcott (1868), tantas vezes preterido, por delicodoce, às grandes sagas americanas agrestes e violentas.

Aqui se faz a reverência sem submissão às diversas versões cinematográficas através de um belo conjunto de actrizes, liderado por uma luminosa Saoirse Ronan, em modo rápido e deslumbrante, servido por um guarda-roupa que rodopia, pela luz dourada ou sombria caindo sobre mansões, paisagens e ambientes, que sublinham mas protelam a época da Guerra da Secessão. A direcção da fotografia é de Yorick Le Saux.

Este é um filme divertido, terno e comovente, cruzado permanentemente pela alteração lógica dos tempos narrativos, embrulhado na música do hiperactivo Alexandre Desplat e por uma ostensiva vontade de mostrar como ainda é importante, hoje em dia, a luta pelo amor e o sentimento, pela independência profissional e afectiva da mulher, pela educação popular, pela igualdade racial.

Um excelente filme à antiga. Alegre, inteligente e empenhado. E sem uma gota de sangue ou demais humores!

jef, janeiro 2020

«Mulherzinhas» (Little Women) de Greta Gerwig. Com Saoirse Ronan, Emma Watson, Timothée Chalamet, Florence Pugh, Eliza Scanlen, Laura Dern, James Norton, Meryl Streep, Louis Garrel, Chris Cooper, Bob Odenkirk. Argumento: Greta Gerwig (a partir de um romance de Louisa May Alcott). Fotografia: Yorick Le Saux. Música: Alexandre Desplat. EUA, 2019, Cores, 134 min.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Sobre o disco «Lina_Raül Refree», Glitterbeat / Uguru, 2020

















A fadista Lina (o outro ego de Carolina, com disco de 2014 e participação em musicais de Filipe La Féria) encontra-se com Raül Refree, (músico e reconhecido produtor catalão ligado à música electrónica) e resolvem criar um disco de fado que poderia ser chamado "clássico" mas tem tudo para ser o oposto de “clássico”. O que o torna um caso curioso.

Por um lado, Lina não tenta “copiar” Amália em «Medo», «Gaivota» ou «Barco Negro». É ela própria que se atira ao «Fado Menor» com comoção e vibrato, talvez com a contida reverência, tímida fúria de quem se aproxima de «Foi Deus», juntando-lhes Améla Muge ou António Variações.

Por outro lado, a cantora não teme a construção ambiental electrónica, parecida com um certo trip-hop à Portishead / Beth Gibbons, com que Raül Refree vai destruindo cada canção anulando o (pre)conceito da limpidez da voz, adaptando-lhe ruídos, distorções, respirações, quase suspiros, tão ao modo das gravações que são apagadas nos estúdios por imperfeitas mas que guardam mais emotividade que as mais finalizadas mas cansadas versões. É como se Brian Eno entrasse numa antiga casa de fados, ainda sem turistas e, tomado pelo éter do vinho carrascão e pelo esconso obscuro das paredes, não conseguisse colocar no local certo os amplificadores, os microfones, os teclados, esquecendo-se até da guitarra portuguesa e da viola.

Raül Refree retira a alma de fadista de Lina e devolve-nos a sua voz.
Lina recobre uma certa loucura do fraseado ambiental, do mundo musical demente de Raül Refree, e entrega-nos o seu eco.

Um disco não para ouvir, mas para re-ouvir.

jef, fevereiro 2020