quarta-feira, 15 de abril de 2020

Nogueira Juglans regia L.















Nogueira Juglans regia L.
Família Juglandaceae

Árvore caducifólia que pode atingir 30 metros de altura. Tronco amplo com ritidoma acinzentado que se vai cobrindo de fissuras com a idade. Copa larga e arredondada mas branda, talvez mesmo desarrumada. Folhas compostas por folíolos ímpares e flores em amentilhos. O fruto ovoide e verde, dita trima, como uma drupa (ou um pêssego), com perto de 5 cm de diâmetro, vai-se desfazendo com o tempo mostrando o que traz dentro (endocarpo e semente). Essa curiosa e única semente dividida em 4 lóbulos, recoberta por circunvoluções em modo cerebroide. Enfim, a noz.

jovis glans, chamavam-lhe os latinos antigamente. A glande de Júpiter. Os romanos muito viajaram e sempre tiveram inclinação para espalhar culturas. As agrícolas, as florestais e as outras… Na realidade, esta árvore vinda das bandas dos Balcãs não será propriamente «autóctone» ou «florestal», pertencendo mais à casa agrícola, ao quintal, à mão humana que muito a aprecia pelo fruto adstringente, de bons óleos, e pela sua madeira clara que é de alta qualidade. Ou em algumas regiões de Trás-os-Montes e Alto Alentejo, lugares frescos com solos húmidos e profundos, onde se assilvestraram. Apesar de tudo, muito amada e cultivada, disseminando patrónimos nas famílias portuguesas e topónimos em diversas regiões. Haverá muitas nogueiras na respectiva serra?

jef, abril 2020

* botânica

terça-feira, 14 de abril de 2020

Sobre o livro «Fahrenheit 451» de Ray Bradbury, 1953, tradução de Mário Henrique Leiria (1956). Público – Colecção Mil Folhas, 2003




Faber, o incógnito literato, talvez mais velho do que cobarde, explica às escondidas a Guy Montag como se processam os livros (e a democracia!). Três passos fundamentais: (1) a qualidade porosa dos livros e a rede dos conhecimentos; (2) o repouso e o tempo para pensar e assimilar; por último (3) o direito de realizar actos baseados no que é ensinado pela ligação de (1) e (2). Como exemplo, dá o de Héracles que venceu o gigantesco Anteu, monstro “invencível” que morava pelas bandas do mediterrâneo ocidental, bastando para tal tirar-lhe os pés da Terra.

Montag, que é tocado pelos inspiradores passeios da jovem vizinha Clarisse, afinal, sonega, ele próprio, livros à salamandra incineradora dos bombeiros e esconde-os atrás da grelha de ventilação. Salva um deles, a Bíblia, e recebe a incumbência de proteger a memória do antigo livro do Eclesiastes, o livro da sabedoria e da união. Terá de o fazer, em fuga, contra o furor letal do cão-polícia-mecânico, o vôo iluminado dos helicópteros, a derradeira guerra instantânea.

Um livro poético. Um livro presente. Um livro principal.

jef, abril 2020

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Sobre o filme «A Grande Ilusão» de Jean Renoir, 1937









Existe no espírito profundo do Mestre-Realizador Jean Renoir uma vocação ecuménica tão marcada quanto a sua propensão para a provocação. Para Renoir a humanidade é bela, diversa e una, e o dever do artista no meio de uma sociedade mundial em guerra é, acima de tudo, derrotar preconceitos e instigar à consciência colectiva.

Mas se Renoir ficasse por aqui, seria um génio apenas politizado. O que o torna um dos maiores realizadores de sempre é esse espírito diabolicamente criativo, irremediavelmente atrevido, apaixonadamente teatral, marcadamente estético… (será que este facto trará qualquer coisa de genético, vindo de seu pai, Auguste?)

Jean Renoir pela-se por realizar filmes de aventuras. Filmes de aventuras com aventuras lá dentro, saltando de peripécia em peripécia, de cenário para cenário, de movimento em movimento, de rapidez em rapidez. Ele manobra a atenção do espectador como quer, do início ao fim, afundando-a dentro da intriga que vai passando pelos episódios, do mais sério e social dos temas ao mais burlesco, da fuga mais desesperada para a cena bucólica e tão comovente. É assim Jean Renoir. É assim «A Grande Ilusão». A nossa grande ilusão de uma sociedade sem guerras e exposta através do estado maior da Arte Cinematográfica.

Dentro do filme contam-se história rigorosamente verdadeiras, afirma o realizador, a si contadas por combatentes na Grande Guerra de 1914-1918.

Após o abate do avião na frente alemã, o capitão von Rauffenstein (Erich von Stroheim) recebe com a maior deferência os prisioneiros, o aristocrata Boieldieu (Pierre Fresnay) e o contramestre Maréchal (Jean Gabin) que, mais tarde, serão transferidos para um campo de prisioneiros oficiais onde se juntam a outros, entre os quais o banqueiro judeu Rosenthal (Marcel Dalio). Aí, alguém olha para a janela e diz: «De um lado crianças brincam como soldados e do outro soldados brincam como crianças.» Aí, os prisioneiros  promovem um espectáculo de variedades para onde são convidados os oficiais alemães, os quais, no final, têm de ouvir «A Marselhesa» cantada pelos prisioneiros aliados emocionalmente travestidos de coristas. Aí, é também cavado um túnel de fuga mas que nunca chega a ser utilizado por conta de mais uma mudança de cena. Na fortaleza inexpugnável reencontram-se com alegria e cerimónia o alemão von Rauffenstein e o francês Boieldieu. Aí, o capitão fere mortalmente o amigo francês enquanto este vai subindo sucessivas escadas “renoirianas” e, por fim, deposita uma flor sobre o cadáver. Deste modo, Maréchal e Rosenthal conseguem fugir. Maréchal desconfiava do aristocrata, e desconfia do judeu, mas reconciliam-se. Chegam a casa de uma pobre viúva alemã (Dita Parlo) que os acolhe sem hesitar, sem mácula de desconfiança. Os laços restabelecem-se e a humanidade será maior.

Este é um dos maiores filmes anti-guerra que vi! Um dos grandes filmes do mundo que devia ser visto por todos, neste momento, com o guião ao lado, ou o libreto na mão, já que o que Jean Renoir filma são óperas. Trágicas, cómicas e de uma beleza cénica comovente e absoluta.

 jef, abril 2020

«A Grande Ilusão» (La Grande Illusion) de Jean Renoir. Com Pierre Fresnay, Jean Gabin, Erich von Stroheim, Dita Parlo, Marcel Dalio, Julien Carette, Jean Daste, Gaston Modot, Jacques Becker, Jean Dasté, Georges Péclet, Sylvain Itkine, werner Florian. Argumento e Diálogos: Charles Spaak e Jean Renoir a partir do romance de Rumer Godden. Fotografia: Christian Matras. Música: Joseph Kosma. França, 1937, P/B, 109 min.

domingo, 12 de abril de 2020

Sobre o livro «William Saroyan – Antologia do Conto Moderno» Atlântida, 1947. Selecção, tradução e prefácio de José Borrego e Victor Palla.


 



















«Não sei nada de gramática e pontuação. Tenho um sistema de gramática e de pontuação cá muito meu. A base deste sistema é: ser lúcido e escrever cada ideia por sua vez. Nunca falo de literatura. Falo a linguagem de todos os mandriões.»

Os prefácios escritos por Saroyan e apresentados neste volume (que o meu pai comprou, em Outubro de 1949, “num dia em que fui à praia”) são clarividentes, despudorados, mas incluem uma enorme dose de prosápia e falta de vergonha, facto que apenas engrandece o autor. Ele não teme dizer tudo, com elegância e humor, o que lhe vem à ideia. Diz na entrevista que aos nove anos nunca “pensou em escrever” apenas começou a escrever.

Os seus contos são isso mesmo. Quase em jeito de crónicas vindas de uma memória amada ou de um mundo deliciosamente agreste. São ternos, delicados, imediatos, cheios de humor e benevolência. Contam histórias, como en passant, de crianças respeitosamente irreverentes, de tios amavelmente loucos, de gentes de todas as origens que se juntam em Fresno, na Califórnia, onde William Saroyan nasceu e morreu (1908 –1981). A sua maior influência, e talvez genial desfaçatez, é ser americano dos seis costados mas amar acima de tudo a sétima costela vinda da sua família emigrada da Arménia. Conviveu com portugueses, espanhóis, gregos, judeus, filipinos, viajou por todo o mundo, vendeu jornais, escreveu para cinema, trabalhou nas vinhas californianas. Serviu na Segunda Grande Guerra como soldado raso. Recusou um prémio Pulitzer, dizendo: “O capital não tem direito de patrocinar a arte”. E ainda escreve:

«Mas o conselho mais sensato, creio, que se pode dar a um escritor é o seguinte: procura aprender a respirar fundo, a saborear verdadeiramente quando comes, a dormir verdadeiramente quando adormeces. Procura quanto possível estar inteiramente vivo, com toda a tua força; e quando rires ri a valer; e quando te zangares zanga-te que nem o diabo. Procura estar vivo. Deixa lá, que depressa morrerás.»

O humor, a ternura, a capacidade de desculpar, são o modo fundamental dos contos de Saroyan. Porém, um dos contos-chave que o elevou ao escaparate dos mundialmente famosos foi um texto curto, dilacerado, pungente. Alguém, ébrio de fome, dramaticamente só, sonha e trauteia a canção «O Rapaz do Trapézio Voador» enquanto percorre as ruas de uma cidade em ausência. Qualquer coisa muito forte entre o Raskolnikov de Dostoiévski e a «Fome» de Knut Hamsun.

Perto de 30 contos maravilhosos de um autor que, suspeito, é hoje injustamente esquecido.

A capa é deslumbrante, as pequeninas ilustrações também. O autor não vem creditado.

jef, abril 2020

sábado, 11 de abril de 2020

Sobre o disco «Paixão Segundo São Mateus, BWV 244» de Johann Sebastian Bach / Gustav Leonhardt, Deutsche Harmonia Mundi, 1990.













«Erbarme dich,
Mein Gott, um meiner Zähren willen!
Schaue hier,
Herz und Auge weint vor dir
Bitterlich.»

(A voz roga a Deus por piedade. Tem os olhos e o coração em lágrimas. Pedro já terá negado jesus mas Judas ainda não se aproximou do templo nem Pilatos tomou a sua decisão, de mãos lavadas.)

A ária é uma das mais belas canções do mundo e encontra-se no interior de uma das obras de arte que melhor define (ou estrutura) a palavra humanidade. Não suspeitaria J.S. Bach, quando a compôs lá pelo ano de 1727, que Gustav Leonhardt, séculos depois, viesse a construir um monumento sobre o seu inicial monumento, ao dirigir a orquestra La Petite Bande, o coro Tölzer Knabenchor e os solistas masculinos: Christoph Prégardien (tenor, Evangelista), Max van Egmond (baixo, Jesus Cristo), René Jacobs (contralto), Marcus Schäfer (tenor), Klaus Mertens (baixo), David Cordier (contralto), John Elwes (tenor), Peter Lika (baixo), Christian Fliegner (soprano) e Maximilian Kiener (soprano).

É imprescindível nomear os cantores pois constroem, juntamente com os coros e a orquestra, sob a régia maestria de Gustav Leonhardt (1928-2012), a mais emocional e íntima das versões desta partitura. Uma interpretação que entrega esse mais elevado espírito artístico ao absoluto, talvez abstracto, e agora pode dizer-se confinado, prazer musical de quem agora o ouve.

Um dos discos que me mostrrou a dimensão real do mundo em que os meus pés assentam.

jef, abril 2020

Plátano Platanus orientalis L. var. acerifolia Aiton














(a forografia tirou a Sofia Bruxelas da sua janela)


Plátano Platanus orientalis L. var. acerifolia Aiton (= P. hybrida)
Família Platanaceae

Caducifólia, pode atingir os 30 metros de altura (caso as podas camarárias não as mutilem de modo drástico), de copa ampla, frondosa, tronco avantajado coberto de ritidoma marmoreado que se destaca em placas, manchando-o de amarelo esverdeado, de castanho ou cinzento. Folhas largas, com um limbo até 30 cm, alternas, de recorte profundo como a mão de dedos abertos ou a folha de uma videira, de pecíolo comprido na base do qual se escondem, de novo, os gomos. As flores são unissexuais e os frutos, múltiplos de aquénios, esféricos, cujos elementos radiais se vão desfazendo pelo outono, cada um acompanhado por um tufo de pêlos para que o vento o dissemine, provocando também algumas irritações alérgicas.

Prefere solos húmidos, ladeando cursos de água permanentes, mas resiste à secura do Verão e aos frios invernais. Fornece boa madeira para marcenaria, de cor clara assinalada pelos raios lenhosos. Marca a paisagem urbana, as ruas e parques citadinos, os cursos de água junto às povoações, as estradas municipais com as árvores quantas vezes pintadas de branco. Desde os romanos que é chamado platanos, termo helénico que significa amplo, dando-lhe a importância que o seu porte sugere.

Pertence ao único género da família das Platanáceas. Género de poucas espécies, umas com origem a Oriente, Europa e Ásia Menor e Central (P. orientalis); outras de origem no Leste da América do Norte (P. occidentalis). Contudo, não é uma árvore usada em floresta apesar do seu crescimento rápido e de pegar facilmente por estaca. Mas se é menosprezada por silvicultores, é acarinhada por botânicos que desde há muito discutem por ela. Se o português, jesuíta e naturalista, Brotero a nomeou como P. hybrida, porque nascida das duas espécies, outros fizeram-na regressar à origem oriental, comparando ainda as suas folhas às do ácer (Platanus orientalis var. acerifolia).

jef, abril 2020

* botânica

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A Fernanda entende o espaço













A Fernanda entende o espaço

A Fernanda é uma rapariga que gosta do espaço. Por isso, movimenta-se. Compreende que só assim pode constatar a seu real dimensão, ocupando-o, completando-o. Confessa que gosta de dançar. O seu gato não tanto, mesmo que se espreguice e tente tocar com os bigodes e a cauda tigrada nas duas paredes opostas, ao mesmo tempo. A música que a dona coloca para dança incomoda-o, transcende sem ocupar o espaço onde se encontra em simultâneo com aquela dança. A música alto de agudos definidos e sincopada por baixos muito baixos enerva-o ligeiramente, apesar de reconhecer a satisfação da sua dona, o que muito lhe agrada. A Fernanda feliz quer dizer mais festas no queixo e ração húmida na tijela. Os gatos, como os donos dos gatos, respondem aos mesmos estímulos, reagem de modo semelhante aos mesmos olhares físicos, espaciais. Pele no pêlo, pata no peito.

O que o gato da Fernanda não reconhece, ainda, (ora aqui estão algumas diferenças genéticas e adquiridas entre símios e felinos) é que a dona não dança. Faz exercício físico porque ela acha (e sente) que lhe é essencial. Fundamental para a circulação sanguínea, o tónus muscular, o fomento de adrenalinas, serotoninas, endorfinas e outros alcalóides naturais. Também para o comportamento social e os sorrisos. Isso já Tibério Augusto (assim se chama o gato da Fernanda) compreende muito bem.

Tibério sabe, tal como a dona, que há um espaço que deve ser preenchido, activado, animado. Apenas coisa do mundo animal. Caso contrário esse lugar, que é o deles, vai diminuindo, encolhendo, ficando eles em perigo de exclusão. O maior dos perigos! Por isso e para acompanhar e compreender a dona nos seus movimentos físicos, musicais, repetidos, ligeiramente suados, Tibério desenvolve corridas sobre os móveis que, por vezes, também se mexem, como o próprio nome indica. Esconde-se, salta, faz escorregar o tapete para debaixo da estante dos livros da Fernanda.

É assim que Tibério Augusto faz expandir o espaço para que Fernanda possa dançar.

jef, abril 2020

* Perífrases e quarentena