domingo, 19 de abril de 2020

Sobre o filme «Suspeita» de Alfred Hitchcock, 1941
























Este é um dos filmes-chave de Hitchcock. Quero dizer, um dos melhores filmes de Alfred Hitckcock.

A jovem culta, puritana, míope, destinada a ficar para tia, Lina MacKinlaw (Joan Fontaine), encontra, por acaso, numa obscura viagem de comboio John Aysgarth (Cary Grant). ‘Jonhny’ Aysgarth é um encantador galã que aparece frequentemente nas páginas das revistas sociais. Pede-lhe uns cêntimos para cobrir o bilhete de comboio e chama-lhe ‘monkey face”. Ela fica irremediavelmente apaixonada e casam-se contrariando a família e a vocação paterna, autoritária e militar, de Lina. Só depois de uma lua-de-mel de sonho e chegada à sua nova casa principesca, é que Lina descobre que Jonnhy é um pobretanas, vive de expedientes e empréstimos cujo pagamento vai adiando, mas permanece um eterno e apaixonante sedutor. Porém a dúvida instala-se em Lina e a suspeita passará a ser a permanente linha narrativa do filme. Nunca mais saímos do nervoso de buscar a verdade, atrás dos passos de Lina. Até além do último segundo.

Hitchcock jamais deixa de colocar o espectador do lado de Joan Fontaine, apaixonada e desconfiada, tomando sempre a parte pelo todo, na incerteza do seu próprio julgamento sobre os sucessivos e suspeitos episódios. E nós, espectadores incrédulos, a olhar através das lentes dos óculos de Lina. E se a espantosa Joan Fontaine aparece como uma imatura e angustiada adolescente na desconfiança da sua própria paixão, vemos também Cary Grant como adolescente imaturo, seduzindo e provocando a nervosa desconfiança no próprio percurso que Hitchcock sugere ser alegre e estouvado. Uma figura que, no início, não desdenha as das comédias de Howard Hawks. Nada mais psicanalítico.

Por isso, o filme poder-se-ia chamar «Suspensão» em vez de «Suspeita» pois é difícil uma aparente comédia de costumes se transformar em tragédia sobre a angústia da desconfiança permanente no amor, terminando na cabal, quase fatal, suspensão sobre a verdade onde assenta, talvez de modo ingénuo, a tranquilidade (ou felicidade) do dia-a-dia.

jef, abril 2020

«Suspeita» (Suspicion) de Alfred Hitchcock. Com Cary Grant, Joan Fontaine, Sir Cedric Hardwicke, Nigel Bruce, Dame May Whitty, Isabel Jeans, Heather Angel, Auriol Lee, Leo G. Carroll, Reginald Sheffield, Maureen Roden-Ryan, Constance Worth, Violet Shelton. Argumento: Samson Raphaelson, Joan Harrison, Alma Reville baseado no romance de Francis Iles (Anthony Berkeley) «Before the Fact». Música: Franz Waxman. Fotografia: Harry Stradling. EUA, 1941, P/B, 99 min.

sábado, 18 de abril de 2020

O Manel gosta de ler as paredes
















O Manel gosta de ler as paredes

O Manel conhece bem as paredes da cidade. Melhor, o Manel é um rapaz que gosta de ler as palavras inscritas nas paredes da cidade. Diz que assim entende melhor as pessoas que se escondem no espaço fininho que existe entre a caliça e a tinta das ditas palavras. Corrijo, das ditas escritas palavras. Porque as paredes, diz, são como as palavras ou a música que elas emitem quando falamos. Por isso, há muito, começou a responder ao que lia nos rabiscos encontrados entre portas, ombreiras e janelas. Também em rodapés e corrimãos, escritas baixinho como se não fossem para serem ouvidas. Uma espécie de cartas sonoras, musicais. Alguns chamavam crónicas às cartas quando as liam, abrindo o envelope ou o jornal. Porque ele não esquecia os jornais de parede da antiga China, estrelas amarelas, livros vermelhos, tigres de papel. Ou os escritos que afirmavam, franceses, que que era proibido proibir. Ou, ainda, os que impediam os soldados de voltarem para a guerra e todos de voltarem ao fascismo. Quando ninguém podia conversar com as paredes. Escrever aquelas crónicas-canções era como que dar liberdade aos que se mantinham por trás da caliça, entre tijolos e argamassa.

O Manel dá muita importância à alegria de escutar as palavras nas paredes e de lhes responder em papel. Como não tem vocação de sonhador, prefere agir. Pega na trincha e no balde de tinta e escreve. Recorda-se do que, a tremer, fala ao Mostrengo: «El Rei Dom João II!». Ou o outro que, rompendo com a saudade, já nada teme e afirma-se o homem do leme.

jef, março 2020

* Perífrases e quarentena

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Carvalho-negral Quercus pyrenaica Willd.














Carvalho-negral Quercus pyrenaica Willd.
Família Fagaceae

Chamam-no assim porque a página inferior das folhas é coberta por um tomento abundante, lanoso e escuro. Essas folhas características são membranáceas, têm um recorte profundo e lobos estreitos, arredondados no ápice. O fruto é uma glande ovóide bastante envolvida pela taça. A copa desta caducifólia é irregular e ampla, que pode em alguns casos superar os 20 metros de altura, sendo o fuste coberto por ritidoma castanho-acinzentado, fendido em placas.

É um carvalho que ocupa matas na região interior do Minho, Trás-os-Montes e Beiras, com clima de influência atlântica e continental, apresentando aí os indivíduos mais imponentes. Dizem que é de montanha por se desenvolver melhor a altitudes entre os 400 e os 1500 metros, preferindo solos leves, siliciosos, de origem granítica. Contudo, pela sua apreciada madeira de qualidade ou pelo uso excessivo do material de talhadia, em revoluções de corte mais curtas, pode a sua conservação nas áreas de regeneração natural ser urgente, preservando um ecossistema rico e único e o futuro da exploração do seu material produtivo.

Curioso o facto de ser espontâneo na Península Ibérica, na região ocidental de França e em Marrocos mas estar praticamente ausente nos Pirenéus.

jef, abril 2020

* botânica

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Nogueira Juglans regia L.















Nogueira Juglans regia L.
Família Juglandaceae

Árvore caducifólia que pode atingir 30 metros de altura. Tronco amplo com ritidoma acinzentado que se vai cobrindo de fissuras com a idade. Copa larga e arredondada mas branda, talvez mesmo desarrumada. Folhas compostas por folíolos ímpares e flores em amentilhos. O fruto ovoide e verde, dita trima, como uma drupa (ou um pêssego), com perto de 5 cm de diâmetro, vai-se desfazendo com o tempo mostrando o que traz dentro (endocarpo e semente). Essa curiosa e única semente dividida em 4 lóbulos, recoberta por circunvoluções em modo cerebroide. Enfim, a noz.

jovis glans, chamavam-lhe os latinos antigamente. A glande de Júpiter. Os romanos muito viajaram e sempre tiveram inclinação para espalhar culturas. As agrícolas, as florestais e as outras… Na realidade, esta árvore vinda das bandas dos Balcãs não será propriamente «autóctone» ou «florestal», pertencendo mais à casa agrícola, ao quintal, à mão humana que muito a aprecia pelo fruto adstringente, de bons óleos, e pela sua madeira clara que é de alta qualidade. Ou em algumas regiões de Trás-os-Montes e Alto Alentejo, lugares frescos com solos húmidos e profundos, onde se assilvestraram. Apesar de tudo, muito amada e cultivada, disseminando patrónimos nas famílias portuguesas e topónimos em diversas regiões. Haverá muitas nogueiras na respectiva serra?

jef, abril 2020

* botânica

terça-feira, 14 de abril de 2020

Sobre o livro «Fahrenheit 451» de Ray Bradbury, 1953, tradução de Mário Henrique Leiria (1956). Público – Colecção Mil Folhas, 2003




Faber, o incógnito literato, talvez mais velho do que cobarde, explica às escondidas a Guy Montag como se processam os livros (e a democracia!). Três passos fundamentais: (1) a qualidade porosa dos livros e a rede dos conhecimentos; (2) o repouso e o tempo para pensar e assimilar; por último (3) o direito de realizar actos baseados no que é ensinado pela ligação de (1) e (2). Como exemplo, dá o de Héracles que venceu o gigantesco Anteu, monstro “invencível” que morava pelas bandas do mediterrâneo ocidental, bastando para tal tirar-lhe os pés da Terra.

Montag, que é tocado pelos inspiradores passeios da jovem vizinha Clarisse, afinal, sonega, ele próprio, livros à salamandra incineradora dos bombeiros e esconde-os atrás da grelha de ventilação. Salva um deles, a Bíblia, e recebe a incumbência de proteger a memória do antigo livro do Eclesiastes, o livro da sabedoria e da união. Terá de o fazer, em fuga, contra o furor letal do cão-polícia-mecânico, o vôo iluminado dos helicópteros, a derradeira guerra instantânea.

Um livro poético. Um livro presente. Um livro principal.

jef, abril 2020

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Sobre o filme «A Grande Ilusão» de Jean Renoir, 1937









Existe no espírito profundo do Mestre-Realizador Jean Renoir uma vocação ecuménica tão marcada quanto a sua propensão para a provocação. Para Renoir a humanidade é bela, diversa e una, e o dever do artista no meio de uma sociedade mundial em guerra é, acima de tudo, derrotar preconceitos e instigar à consciência colectiva.

Mas se Renoir ficasse por aqui, seria um génio apenas politizado. O que o torna um dos maiores realizadores de sempre é esse espírito diabolicamente criativo, irremediavelmente atrevido, apaixonadamente teatral, marcadamente estético… (será que este facto trará qualquer coisa de genético, vindo de seu pai, Auguste?)

Jean Renoir pela-se por realizar filmes de aventuras. Filmes de aventuras com aventuras lá dentro, saltando de peripécia em peripécia, de cenário para cenário, de movimento em movimento, de rapidez em rapidez. Ele manobra a atenção do espectador como quer, do início ao fim, afundando-a dentro da intriga que vai passando pelos episódios, do mais sério e social dos temas ao mais burlesco, da fuga mais desesperada para a cena bucólica e tão comovente. É assim Jean Renoir. É assim «A Grande Ilusão». A nossa grande ilusão de uma sociedade sem guerras e exposta através do estado maior da Arte Cinematográfica.

Dentro do filme contam-se história rigorosamente verdadeiras, afirma o realizador, a si contadas por combatentes na Grande Guerra de 1914-1918.

Após o abate do avião na frente alemã, o capitão von Rauffenstein (Erich von Stroheim) recebe com a maior deferência os prisioneiros, o aristocrata Boieldieu (Pierre Fresnay) e o contramestre Maréchal (Jean Gabin) que, mais tarde, serão transferidos para um campo de prisioneiros oficiais onde se juntam a outros, entre os quais o banqueiro judeu Rosenthal (Marcel Dalio). Aí, alguém olha para a janela e diz: «De um lado crianças brincam como soldados e do outro soldados brincam como crianças.» Aí, os prisioneiros  promovem um espectáculo de variedades para onde são convidados os oficiais alemães, os quais, no final, têm de ouvir «A Marselhesa» cantada pelos prisioneiros aliados emocionalmente travestidos de coristas. Aí, é também cavado um túnel de fuga mas que nunca chega a ser utilizado por conta de mais uma mudança de cena. Na fortaleza inexpugnável reencontram-se com alegria e cerimónia o alemão von Rauffenstein e o francês Boieldieu. Aí, o capitão fere mortalmente o amigo francês enquanto este vai subindo sucessivas escadas “renoirianas” e, por fim, deposita uma flor sobre o cadáver. Deste modo, Maréchal e Rosenthal conseguem fugir. Maréchal desconfiava do aristocrata, e desconfia do judeu, mas reconciliam-se. Chegam a casa de uma pobre viúva alemã (Dita Parlo) que os acolhe sem hesitar, sem mácula de desconfiança. Os laços restabelecem-se e a humanidade será maior.

Este é um dos maiores filmes anti-guerra que vi! Um dos grandes filmes do mundo que devia ser visto por todos, neste momento, com o guião ao lado, ou o libreto na mão, já que o que Jean Renoir filma são óperas. Trágicas, cómicas e de uma beleza cénica comovente e absoluta.

 jef, abril 2020

«A Grande Ilusão» (La Grande Illusion) de Jean Renoir. Com Pierre Fresnay, Jean Gabin, Erich von Stroheim, Dita Parlo, Marcel Dalio, Julien Carette, Jean Daste, Gaston Modot, Jacques Becker, Jean Dasté, Georges Péclet, Sylvain Itkine, werner Florian. Argumento e Diálogos: Charles Spaak e Jean Renoir a partir do romance de Rumer Godden. Fotografia: Christian Matras. Música: Joseph Kosma. França, 1937, P/B, 109 min.

domingo, 12 de abril de 2020

Sobre o livro «William Saroyan – Antologia do Conto Moderno» Atlântida, 1947. Selecção, tradução e prefácio de José Borrego e Victor Palla.


 



















«Não sei nada de gramática e pontuação. Tenho um sistema de gramática e de pontuação cá muito meu. A base deste sistema é: ser lúcido e escrever cada ideia por sua vez. Nunca falo de literatura. Falo a linguagem de todos os mandriões.»

Os prefácios escritos por Saroyan e apresentados neste volume (que o meu pai comprou, em Outubro de 1949, “num dia em que fui à praia”) são clarividentes, despudorados, mas incluem uma enorme dose de prosápia e falta de vergonha, facto que apenas engrandece o autor. Ele não teme dizer tudo, com elegância e humor, o que lhe vem à ideia. Diz na entrevista que aos nove anos nunca “pensou em escrever” apenas começou a escrever.

Os seus contos são isso mesmo. Quase em jeito de crónicas vindas de uma memória amada ou de um mundo deliciosamente agreste. São ternos, delicados, imediatos, cheios de humor e benevolência. Contam histórias, como en passant, de crianças respeitosamente irreverentes, de tios amavelmente loucos, de gentes de todas as origens que se juntam em Fresno, na Califórnia, onde William Saroyan nasceu e morreu (1908 –1981). A sua maior influência, e talvez genial desfaçatez, é ser americano dos seis costados mas amar acima de tudo a sétima costela vinda da sua família emigrada da Arménia. Conviveu com portugueses, espanhóis, gregos, judeus, filipinos, viajou por todo o mundo, vendeu jornais, escreveu para cinema, trabalhou nas vinhas californianas. Serviu na Segunda Grande Guerra como soldado raso. Recusou um prémio Pulitzer, dizendo: “O capital não tem direito de patrocinar a arte”. E ainda escreve:

«Mas o conselho mais sensato, creio, que se pode dar a um escritor é o seguinte: procura aprender a respirar fundo, a saborear verdadeiramente quando comes, a dormir verdadeiramente quando adormeces. Procura quanto possível estar inteiramente vivo, com toda a tua força; e quando rires ri a valer; e quando te zangares zanga-te que nem o diabo. Procura estar vivo. Deixa lá, que depressa morrerás.»

O humor, a ternura, a capacidade de desculpar, são o modo fundamental dos contos de Saroyan. Porém, um dos contos-chave que o elevou ao escaparate dos mundialmente famosos foi um texto curto, dilacerado, pungente. Alguém, ébrio de fome, dramaticamente só, sonha e trauteia a canção «O Rapaz do Trapézio Voador» enquanto percorre as ruas de uma cidade em ausência. Qualquer coisa muito forte entre o Raskolnikov de Dostoiévski e a «Fome» de Knut Hamsun.

Perto de 30 contos maravilhosos de um autor que, suspeito, é hoje injustamente esquecido.

A capa é deslumbrante, as pequeninas ilustrações também. O autor não vem creditado.

jef, abril 2020