domingo, 19 de abril de 2020

Sobre o filme «Suspeita» de Alfred Hitchcock, 1941
























Este é um dos filmes-chave de Hitchcock. Quero dizer, um dos melhores filmes de Alfred Hitckcock.

A jovem culta, puritana, míope, destinada a ficar para tia, Lina MacKinlaw (Joan Fontaine), encontra, por acaso, numa obscura viagem de comboio John Aysgarth (Cary Grant). ‘Jonhny’ Aysgarth é um encantador galã que aparece frequentemente nas páginas das revistas sociais. Pede-lhe uns cêntimos para cobrir o bilhete de comboio e chama-lhe ‘monkey face”. Ela fica irremediavelmente apaixonada e casam-se contrariando a família e a vocação paterna, autoritária e militar, de Lina. Só depois de uma lua-de-mel de sonho e chegada à sua nova casa principesca, é que Lina descobre que Jonnhy é um pobretanas, vive de expedientes e empréstimos cujo pagamento vai adiando, mas permanece um eterno e apaixonante sedutor. Porém a dúvida instala-se em Lina e a suspeita passará a ser a permanente linha narrativa do filme. Nunca mais saímos do nervoso de buscar a verdade, atrás dos passos de Lina. Até além do último segundo.

Hitchcock jamais deixa de colocar o espectador do lado de Joan Fontaine, apaixonada e desconfiada, tomando sempre a parte pelo todo, na incerteza do seu próprio julgamento sobre os sucessivos e suspeitos episódios. E nós, espectadores incrédulos, a olhar através das lentes dos óculos de Lina. E se a espantosa Joan Fontaine aparece como uma imatura e angustiada adolescente na desconfiança da sua própria paixão, vemos também Cary Grant como adolescente imaturo, seduzindo e provocando a nervosa desconfiança no próprio percurso que Hitchcock sugere ser alegre e estouvado. Uma figura que, no início, não desdenha as das comédias de Howard Hawks. Nada mais psicanalítico.

Por isso, o filme poder-se-ia chamar «Suspensão» em vez de «Suspeita» pois é difícil uma aparente comédia de costumes se transformar em tragédia sobre a angústia da desconfiança permanente no amor, terminando na cabal, quase fatal, suspensão sobre a verdade onde assenta, talvez de modo ingénuo, a tranquilidade (ou felicidade) do dia-a-dia.

jef, abril 2020

«Suspeita» (Suspicion) de Alfred Hitchcock. Com Cary Grant, Joan Fontaine, Sir Cedric Hardwicke, Nigel Bruce, Dame May Whitty, Isabel Jeans, Heather Angel, Auriol Lee, Leo G. Carroll, Reginald Sheffield, Maureen Roden-Ryan, Constance Worth, Violet Shelton. Argumento: Samson Raphaelson, Joan Harrison, Alma Reville baseado no romance de Francis Iles (Anthony Berkeley) «Before the Fact». Música: Franz Waxman. Fotografia: Harry Stradling. EUA, 1941, P/B, 99 min.

sábado, 18 de abril de 2020

O Manel gosta de ler as paredes
















O Manel gosta de ler as paredes

O Manel conhece bem as paredes da cidade. Melhor, o Manel é um rapaz que gosta de ler as palavras inscritas nas paredes da cidade. Diz que assim entende melhor as pessoas que se escondem no espaço fininho que existe entre a caliça e a tinta das ditas palavras. Corrijo, das ditas escritas palavras. Porque as paredes, diz, são como as palavras ou a música que elas emitem quando falamos. Por isso, há muito, começou a responder ao que lia nos rabiscos encontrados entre portas, ombreiras e janelas. Também em rodapés e corrimãos, escritas baixinho como se não fossem para serem ouvidas. Uma espécie de cartas sonoras, musicais. Alguns chamavam crónicas às cartas quando as liam, abrindo o envelope ou o jornal. Porque ele não esquecia os jornais de parede da antiga China, estrelas amarelas, livros vermelhos, tigres de papel. Ou os escritos que afirmavam, franceses, que que era proibido proibir. Ou, ainda, os que impediam os soldados de voltarem para a guerra e todos de voltarem ao fascismo. Quando ninguém podia conversar com as paredes. Escrever aquelas crónicas-canções era como que dar liberdade aos que se mantinham por trás da caliça, entre tijolos e argamassa.

O Manel dá muita importância à alegria de escutar as palavras nas paredes e de lhes responder em papel. Como não tem vocação de sonhador, prefere agir. Pega na trincha e no balde de tinta e escreve. Recorda-se do que, a tremer, fala ao Mostrengo: «El Rei Dom João II!». Ou o outro que, rompendo com a saudade, já nada teme e afirma-se o homem do leme.

jef, março 2020

* Perífrases e quarentena

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Carvalho-negral Quercus pyrenaica Willd.














Carvalho-negral Quercus pyrenaica Willd.
Família Fagaceae

Chamam-no assim porque a página inferior das folhas é coberta por um tomento abundante, lanoso e escuro. Essas folhas características são membranáceas, têm um recorte profundo e lobos estreitos, arredondados no ápice. O fruto é uma glande ovóide bastante envolvida pela taça. A copa desta caducifólia é irregular e ampla, que pode em alguns casos superar os 20 metros de altura, sendo o fuste coberto por ritidoma castanho-acinzentado, fendido em placas.

É um carvalho que ocupa matas na região interior do Minho, Trás-os-Montes e Beiras, com clima de influência atlântica e continental, apresentando aí os indivíduos mais imponentes. Dizem que é de montanha por se desenvolver melhor a altitudes entre os 400 e os 1500 metros, preferindo solos leves, siliciosos, de origem granítica. Contudo, pela sua apreciada madeira de qualidade ou pelo uso excessivo do material de talhadia, em revoluções de corte mais curtas, pode a sua conservação nas áreas de regeneração natural ser urgente, preservando um ecossistema rico e único e o futuro da exploração do seu material produtivo.

Curioso o facto de ser espontâneo na Península Ibérica, na região ocidental de França e em Marrocos mas estar praticamente ausente nos Pirenéus.

jef, abril 2020

* botânica

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Nogueira Juglans regia L.















Nogueira Juglans regia L.
Família Juglandaceae

Árvore caducifólia que pode atingir 30 metros de altura. Tronco amplo com ritidoma acinzentado que se vai cobrindo de fissuras com a idade. Copa larga e arredondada mas branda, talvez mesmo desarrumada. Folhas compostas por folíolos ímpares e flores em amentilhos. O fruto ovoide e verde, dita trima, como uma drupa (ou um pêssego), com perto de 5 cm de diâmetro, vai-se desfazendo com o tempo mostrando o que traz dentro (endocarpo e semente). Essa curiosa e única semente dividida em 4 lóbulos, recoberta por circunvoluções em modo cerebroide. Enfim, a noz.

jovis glans, chamavam-lhe os latinos antigamente. A glande de Júpiter. Os romanos muito viajaram e sempre tiveram inclinação para espalhar culturas. As agrícolas, as florestais e as outras… Na realidade, esta árvore vinda das bandas dos Balcãs não será propriamente «autóctone» ou «florestal», pertencendo mais à casa agrícola, ao quintal, à mão humana que muito a aprecia pelo fruto adstringente, de bons óleos, e pela sua madeira clara que é de alta qualidade. Ou em algumas regiões de Trás-os-Montes e Alto Alentejo, lugares frescos com solos húmidos e profundos, onde se assilvestraram. Apesar de tudo, muito amada e cultivada, disseminando patrónimos nas famílias portuguesas e topónimos em diversas regiões. Haverá muitas nogueiras na respectiva serra?

jef, abril 2020

* botânica

terça-feira, 14 de abril de 2020

Sobre o livro «Fahrenheit 451» de Ray Bradbury, 1953, tradução de Mário Henrique Leiria (1956). Público – Colecção Mil Folhas, 2003




Faber, o incógnito literato, talvez mais velho do que cobarde, explica às escondidas a Guy Montag como se processam os livros (e a democracia!). Três passos fundamentais: (1) a qualidade porosa dos livros e a rede dos conhecimentos; (2) o repouso e o tempo para pensar e assimilar; por último (3) o direito de realizar actos baseados no que é ensinado pela ligação de (1) e (2). Como exemplo, dá o de Héracles que venceu o gigantesco Anteu, monstro “invencível” que morava pelas bandas do mediterrâneo ocidental, bastando para tal tirar-lhe os pés da Terra.

Montag, que é tocado pelos inspiradores passeios da jovem vizinha Clarisse, afinal, sonega, ele próprio, livros à salamandra incineradora dos bombeiros e esconde-os atrás da grelha de ventilação. Salva um deles, a Bíblia, e recebe a incumbência de proteger a memória do antigo livro do Eclesiastes, o livro da sabedoria e da união. Terá de o fazer, em fuga, contra o furor letal do cão-polícia-mecânico, o vôo iluminado dos helicópteros, a derradeira guerra instantânea.

Um livro poético. Um livro presente. Um livro principal.

jef, abril 2020

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Sobre o filme «A Grande Ilusão» de Jean Renoir, 1937









Existe no espírito profundo do Mestre-Realizador Jean Renoir uma vocação ecuménica tão marcada quanto a sua propensão para a provocação. Para Renoir a humanidade é bela, diversa e una, e o dever do artista no meio de uma sociedade mundial em guerra é, acima de tudo, derrotar preconceitos e instigar à consciência colectiva.

Mas se Renoir ficasse por aqui, seria um génio apenas politizado. O que o torna um dos maiores realizadores de sempre é esse espírito diabolicamente criativo, irremediavelmente atrevido, apaixonadamente teatral, marcadamente estético… (será que este facto trará qualquer coisa de genético, vindo de seu pai, Auguste?)

Jean Renoir pela-se por realizar filmes de aventuras. Filmes de aventuras com aventuras lá dentro, saltando de peripécia em peripécia, de cenário para cenário, de movimento em movimento, de rapidez em rapidez. Ele manobra a atenção do espectador como quer, do início ao fim, afundando-a dentro da intriga que vai passando pelos episódios, do mais sério e social dos temas ao mais burlesco, da fuga mais desesperada para a cena bucólica e tão comovente. É assim Jean Renoir. É assim «A Grande Ilusão». A nossa grande ilusão de uma sociedade sem guerras e exposta através do estado maior da Arte Cinematográfica.

Dentro do filme contam-se história rigorosamente verdadeiras, afirma o realizador, a si contadas por combatentes na Grande Guerra de 1914-1918.

Após o abate do avião na frente alemã, o capitão von Rauffenstein (Erich von Stroheim) recebe com a maior deferência os prisioneiros, o aristocrata Boieldieu (Pierre Fresnay) e o contramestre Maréchal (Jean Gabin) que, mais tarde, serão transferidos para um campo de prisioneiros oficiais onde se juntam a outros, entre os quais o banqueiro judeu Rosenthal (Marcel Dalio). Aí, alguém olha para a janela e diz: «De um lado crianças brincam como soldados e do outro soldados brincam como crianças.» Aí, os prisioneiros  promovem um espectáculo de variedades para onde são convidados os oficiais alemães, os quais, no final, têm de ouvir «A Marselhesa» cantada pelos prisioneiros aliados emocionalmente travestidos de coristas. Aí, é também cavado um túnel de fuga mas que nunca chega a ser utilizado por conta de mais uma mudança de cena. Na fortaleza inexpugnável reencontram-se com alegria e cerimónia o alemão von Rauffenstein e o francês Boieldieu. Aí, o capitão fere mortalmente o amigo francês enquanto este vai subindo sucessivas escadas “renoirianas” e, por fim, deposita uma flor sobre o cadáver. Deste modo, Maréchal e Rosenthal conseguem fugir. Maréchal desconfiava do aristocrata, e desconfia do judeu, mas reconciliam-se. Chegam a casa de uma pobre viúva alemã (Dita Parlo) que os acolhe sem hesitar, sem mácula de desconfiança. Os laços restabelecem-se e a humanidade será maior.

Este é um dos maiores filmes anti-guerra que vi! Um dos grandes filmes do mundo que devia ser visto por todos, neste momento, com o guião ao lado, ou o libreto na mão, já que o que Jean Renoir filma são óperas. Trágicas, cómicas e de uma beleza cénica comovente e absoluta.

 jef, abril 2020

«A Grande Ilusão» (La Grande Illusion) de Jean Renoir. Com Pierre Fresnay, Jean Gabin, Erich von Stroheim, Dita Parlo, Marcel Dalio, Julien Carette, Jean Daste, Gaston Modot, Jacques Becker, Jean Dasté, Georges Péclet, Sylvain Itkine, werner Florian. Argumento e Diálogos: Charles Spaak e Jean Renoir a partir do romance de Rumer Godden. Fotografia: Christian Matras. Música: Joseph Kosma. França, 1937, P/B, 109 min.

domingo, 12 de abril de 2020

Sobre o livro «William Saroyan – Antologia do Conto Moderno» Atlântida, 1947. Selecção, tradução e prefácio de José Borrego e Victor Palla.


 



















«Não sei nada de gramática e pontuação. Tenho um sistema de gramática e de pontuação cá muito meu. A base deste sistema é: ser lúcido e escrever cada ideia por sua vez. Nunca falo de literatura. Falo a linguagem de todos os mandriões.»

Os prefácios escritos por Saroyan e apresentados neste volume (que o meu pai comprou, em Outubro de 1949, “num dia em que fui à praia”) são clarividentes, despudorados, mas incluem uma enorme dose de prosápia e falta de vergonha, facto que apenas engrandece o autor. Ele não teme dizer tudo, com elegância e humor, o que lhe vem à ideia. Diz na entrevista que aos nove anos nunca “pensou em escrever” apenas começou a escrever.

Os seus contos são isso mesmo. Quase em jeito de crónicas vindas de uma memória amada ou de um mundo deliciosamente agreste. São ternos, delicados, imediatos, cheios de humor e benevolência. Contam histórias, como en passant, de crianças respeitosamente irreverentes, de tios amavelmente loucos, de gentes de todas as origens que se juntam em Fresno, na Califórnia, onde William Saroyan nasceu e morreu (1908 –1981). A sua maior influência, e talvez genial desfaçatez, é ser americano dos seis costados mas amar acima de tudo a sétima costela vinda da sua família emigrada da Arménia. Conviveu com portugueses, espanhóis, gregos, judeus, filipinos, viajou por todo o mundo, vendeu jornais, escreveu para cinema, trabalhou nas vinhas californianas. Serviu na Segunda Grande Guerra como soldado raso. Recusou um prémio Pulitzer, dizendo: “O capital não tem direito de patrocinar a arte”. E ainda escreve:

«Mas o conselho mais sensato, creio, que se pode dar a um escritor é o seguinte: procura aprender a respirar fundo, a saborear verdadeiramente quando comes, a dormir verdadeiramente quando adormeces. Procura quanto possível estar inteiramente vivo, com toda a tua força; e quando rires ri a valer; e quando te zangares zanga-te que nem o diabo. Procura estar vivo. Deixa lá, que depressa morrerás.»

O humor, a ternura, a capacidade de desculpar, são o modo fundamental dos contos de Saroyan. Porém, um dos contos-chave que o elevou ao escaparate dos mundialmente famosos foi um texto curto, dilacerado, pungente. Alguém, ébrio de fome, dramaticamente só, sonha e trauteia a canção «O Rapaz do Trapézio Voador» enquanto percorre as ruas de uma cidade em ausência. Qualquer coisa muito forte entre o Raskolnikov de Dostoiévski e a «Fome» de Knut Hamsun.

Perto de 30 contos maravilhosos de um autor que, suspeito, é hoje injustamente esquecido.

A capa é deslumbrante, as pequeninas ilustrações também. O autor não vem creditado.

jef, abril 2020

sábado, 11 de abril de 2020

Sobre o disco «Paixão Segundo São Mateus, BWV 244» de Johann Sebastian Bach / Gustav Leonhardt, Deutsche Harmonia Mundi, 1990.













«Erbarme dich,
Mein Gott, um meiner Zähren willen!
Schaue hier,
Herz und Auge weint vor dir
Bitterlich.»

(A voz roga a Deus por piedade. Tem os olhos e o coração em lágrimas. Pedro já terá negado jesus mas Judas ainda não se aproximou do templo nem Pilatos tomou a sua decisão, de mãos lavadas.)

A ária é uma das mais belas canções do mundo e encontra-se no interior de uma das obras de arte que melhor define (ou estrutura) a palavra humanidade. Não suspeitaria J.S. Bach, quando a compôs lá pelo ano de 1727, que Gustav Leonhardt, séculos depois, viesse a construir um monumento sobre o seu inicial monumento, ao dirigir a orquestra La Petite Bande, o coro Tölzer Knabenchor e os solistas masculinos: Christoph Prégardien (tenor, Evangelista), Max van Egmond (baixo, Jesus Cristo), René Jacobs (contralto), Marcus Schäfer (tenor), Klaus Mertens (baixo), David Cordier (contralto), John Elwes (tenor), Peter Lika (baixo), Christian Fliegner (soprano) e Maximilian Kiener (soprano).

É imprescindível nomear os cantores pois constroem, juntamente com os coros e a orquestra, sob a régia maestria de Gustav Leonhardt (1928-2012), a mais emocional e íntima das versões desta partitura. Uma interpretação que entrega esse mais elevado espírito artístico ao absoluto, talvez abstracto, e agora pode dizer-se confinado, prazer musical de quem agora o ouve.

Um dos discos que me mostrrou a dimensão real do mundo em que os meus pés assentam.

jef, abril 2020

Plátano Platanus orientalis L. var. acerifolia Aiton














(a forografia tirou a Sofia Bruxelas da sua janela)


Plátano Platanus orientalis L. var. acerifolia Aiton (= P. hybrida)
Família Platanaceae

Caducifólia, pode atingir os 30 metros de altura (caso as podas camarárias não as mutilem de modo drástico), de copa ampla, frondosa, tronco avantajado coberto de ritidoma marmoreado que se destaca em placas, manchando-o de amarelo esverdeado, de castanho ou cinzento. Folhas largas, com um limbo até 30 cm, alternas, de recorte profundo como a mão de dedos abertos ou a folha de uma videira, de pecíolo comprido na base do qual se escondem, de novo, os gomos. As flores são unissexuais e os frutos, múltiplos de aquénios, esféricos, cujos elementos radiais se vão desfazendo pelo outono, cada um acompanhado por um tufo de pêlos para que o vento o dissemine, provocando também algumas irritações alérgicas.

Prefere solos húmidos, ladeando cursos de água permanentes, mas resiste à secura do Verão e aos frios invernais. Fornece boa madeira para marcenaria, de cor clara assinalada pelos raios lenhosos. Marca a paisagem urbana, as ruas e parques citadinos, os cursos de água junto às povoações, as estradas municipais com as árvores quantas vezes pintadas de branco. Desde os romanos que é chamado platanos, termo helénico que significa amplo, dando-lhe a importância que o seu porte sugere.

Pertence ao único género da família das Platanáceas. Género de poucas espécies, umas com origem a Oriente, Europa e Ásia Menor e Central (P. orientalis); outras de origem no Leste da América do Norte (P. occidentalis). Contudo, não é uma árvore usada em floresta apesar do seu crescimento rápido e de pegar facilmente por estaca. Mas se é menosprezada por silvicultores, é acarinhada por botânicos que desde há muito discutem por ela. Se o português, jesuíta e naturalista, Brotero a nomeou como P. hybrida, porque nascida das duas espécies, outros fizeram-na regressar à origem oriental, comparando ainda as suas folhas às do ácer (Platanus orientalis var. acerifolia).

jef, abril 2020

* botânica

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A Fernanda entende o espaço













A Fernanda entende o espaço

A Fernanda é uma rapariga que gosta do espaço. Por isso, movimenta-se. Compreende que só assim pode constatar a seu real dimensão, ocupando-o, completando-o. Confessa que gosta de dançar. O seu gato não tanto, mesmo que se espreguice e tente tocar com os bigodes e a cauda tigrada nas duas paredes opostas, ao mesmo tempo. A música que a dona coloca para dança incomoda-o, transcende sem ocupar o espaço onde se encontra em simultâneo com aquela dança. A música alto de agudos definidos e sincopada por baixos muito baixos enerva-o ligeiramente, apesar de reconhecer a satisfação da sua dona, o que muito lhe agrada. A Fernanda feliz quer dizer mais festas no queixo e ração húmida na tijela. Os gatos, como os donos dos gatos, respondem aos mesmos estímulos, reagem de modo semelhante aos mesmos olhares físicos, espaciais. Pele no pêlo, pata no peito.

O que o gato da Fernanda não reconhece, ainda, (ora aqui estão algumas diferenças genéticas e adquiridas entre símios e felinos) é que a dona não dança. Faz exercício físico porque ela acha (e sente) que lhe é essencial. Fundamental para a circulação sanguínea, o tónus muscular, o fomento de adrenalinas, serotoninas, endorfinas e outros alcalóides naturais. Também para o comportamento social e os sorrisos. Isso já Tibério Augusto (assim se chama o gato da Fernanda) compreende muito bem.

Tibério sabe, tal como a dona, que há um espaço que deve ser preenchido, activado, animado. Apenas coisa do mundo animal. Caso contrário esse lugar, que é o deles, vai diminuindo, encolhendo, ficando eles em perigo de exclusão. O maior dos perigos! Por isso e para acompanhar e compreender a dona nos seus movimentos físicos, musicais, repetidos, ligeiramente suados, Tibério desenvolve corridas sobre os móveis que, por vezes, também se mexem, como o próprio nome indica. Esconde-se, salta, faz escorregar o tapete para debaixo da estante dos livros da Fernanda.

É assim que Tibério Augusto faz expandir o espaço para que Fernanda possa dançar.

jef, abril 2020

* Perífrases e quarentena

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Sobre o filme «O Terceiro Tiro» de Alfred Hitchcock, 1955















É impossível imaginar filme mais cândido sobre a culpa, a desculpa, a morte e a libido. Imaginamos o gozo que terá tido o realizador ao dar aos produtores e ao público um filme tão exótico e, ao mesmo tempo, tão hitchcockiano. Colocar um cadáver no centro das paisagens bucólicas e dos carvalhais outonais de Vermont, fotografados exemplarmente por Robert Burks. Afinal, um cadáver (Harry) que não angustia nem assusta ninguém, nem sequer o pequenino Arnie que gosta de trocar coelhos mortos por queques de mirtilo. Muito menos a solteirona Miss Gravely (Mildred Natwick) que, à beira do morto, se encanta pelo Capitão Albert Wiles (Edmund Gwenn) convidando-o para um chá e dizendo cerimoniosamente: «What seems to be the trouble, Captain?». Ou a inocente Jennifer Rogers (Shirley MacLaine) que oferece sorridente limonada ao pintor Sam Marlowe (John Forsythe) enquanto este afirma que desejava pintá-la nua.

Neste conto de fadas campestre e idílico, todos são simpáticos, caridosos, benevolentes, todos se desculpam mutuamente e percorrem a floresta distraidamente onde nada de mal acontece. Excepto ao pobre Harry, galã morto, sempre de fato impecável e meias coloridas, já que o encantador vagabundo lhe tira os sapatos. Harry que, afinal, todos desejaram ver morto ou suspeitaram ter matado. Mas sem culpa nem remorso. Por essa razão passam o filme a enterrá-lo e a desenterrá-lo, sucessivamente, nesse princípio tão britânico de misturar non sense, humor negro e cenários teatrais, com árvores em palco, gravatas enfiadas por trás de quadros, cadáveres escondidos na banheira, portas que se abrem sem qualquer explicação. Até o polícia Calvin Wiggs (Royal Dano), vendedor de carros em segunda mão, consegue nenhuma prova em concreto, mas já a sua mãe (Mildred Dunnock), que vende cidra e obras de arte à porta da sua mercearia, arranja um milionário marchand que irá satisfazer os desejos a todos.

Neste filme, tão maravilhoso quanto genial, tão amoral como estético (apresentando pela primeira vez ao cinema a deslumbrante Shirley MacLaine), Hitchcocock deixa todos de cara à banda. Parece estar a rir-se dele próprio nas, suspeito, que, em primeiro lugar, está a rir-se de todos nós.

E sem esquecer a magnífica partitura de Bernard Herrmann, inspirada e primaveril! A primeira para o mestre da intriga!

jef, abril 2020

«O Terceiro Tiro» (The Trouble with Harry) de Alfred Hitchcock. Com John Forsythe (Sam Marlowe); Edmund Gwenn (Capitão Albert Wiles); Shirley MacLaine (Jennifer Rogers); Mildred Natwick (Miss Gravely); Mildred Dunnock (Mrs. Wiggs); Royal Dano (Calvin Wiggs); Jerry Mathers (Arnie Rogers); Parker Fennely (o milionário); Barry MacCollum (o vagabundo); Dwight Marrfield (Dr, Greenbow). Argumento: John Michael Hayes baseado no romance de John Trevor Story. Música: Bernard Herrmann. Canção: «Flaggin’ the Train to Tuscaloosa» Mack David / Raymond Scott. Genérico inicial de um travelling sobre um desenho de Saul Steinberg. Fotografia: Robert Burks. EUA, 1955, Cores, 99 min.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Pinheiro-bravo Pinus pinaster Ainton

















Pinheiro-bravo Pinus pinaster Ainton
Família Pinaceae

É a árvore que mais acompanha a história de Portugal, a vida das povoações, as políticas de florestação. Perenifólia, atingindo 20 a 40 metros de altura, copa piramidal quando jovem, depois arredondada e mais aberta, quase estrelada quando velha. Tronco direito coberto de ritidoma gretado, castanho-avermelhado. As folhas aciculares surgem agrupadas em fascículos de duas agulhas. As pinhas são piramidais e arredondadas contendo grande número de sementes longamente aladas, o penisco. Adaptável a quase todas as condições mas preferindo solos leves, arenosos, sem carbonato de cálcio, é excelente para iniciar a sucessão ecológica em solos empobrecidos.

Emblemática do Pinhal do Rei, lá para Leiria, vindo da primeira dinastia, onde a madeira servia para a fixação das dunas, a construção naval e o uso das populações locais. Ancestral floresta produtiva. Séculos mais tarde, com o uso da resina, passou também a servir a indústria regional. Aí, talvez a subespécie autóctone P.p. escarena do interior do país ainda não tivesse sido substituída pelos genes litorais da subespécie P.p. atlantica. Desde o século XIX, foi ocupando vastas áreas de dunas que necessitavam de ser fixadas, serranias consideradas «não produtivas» ou propriedades desanexadas das ordens religiosas. Mais tarde, em meados do século XX (1950-1970), também os baldios comunitários das arborizações realizadas pelos Serviços Florestais.

O Norte e o Litoral cobriram-se de pinhal e os proprietários do Centro geográfico passaram a ter um rendimento suplementar quando surgissem desgraças ou se anunciassem casamentos. Visitava-se Mação, Oleiros, Vila de Rei, Proença-a-Nova, contemplando a grande mancha de pinhal, das maiores da Europa. Combatiam-se os fogos dispersos a toque de sino e agulheta.

Até que chegaram os grandes incêndios de 2003 e 2005, depois os de 2017 e 2019. A discussão sobre a floresta de pinheiro (e eucalipto) em monocultura reacendeu-se. No centro da discussão está, assim, uma árvore pioneira e resistente, generosa na produção de madeira e resina, cuja floresta dá abrigo a um ecossistema riquíssimo e imprescindível para centenas de espécies de fauna e flora.

jef, abril 2020

* botânica

terça-feira, 7 de abril de 2020

Castanheiro Castanea sativa Mill.
















Castanheiro Castanea sativa Mill.
Família Fagaceae

Da família das Fagáceas, tal como a faia e os carvalhos, pode atingir a altura de 30 metros. Prefere solos frescos, profundos e húmidos, onde pode acompanhar o carvalho-negral ou o carvalho-roble. Caducifólia de tronco robusto e folhas longas, lanceoladas, de margem serrada. As flores são amentilhos que se distinguem das dos carvalhos por serem erectos, dando origem ao fruto, um conjunto de aquénios, normalmente três, no interior de uma cúpula formada por brácteas fortemente espinhosas. Afinal, em média, três castanhas dentro do ouriço.

Será esta uma árvore de fruto autóctone, cultivada e enxertada como tal, que antigamente dava o ‘pão’ a muitos portugueses e que, mais tarde, foi substituído pela batata quando esta chegou do Novo Mundo? Ou terá vindo da Anatólia ou do Cáucaso, difundida em redor do Mediterrâneo como cultura «exótica» pelos romanos? (Porém, foi descoberto pólen fossilizado em Portugal anterior à chegada de celtas, iberos e romanos!)

Cultivado ou não, em bosque ou isolados, não se distinguem taxonomicamente mas dizem haver castanheiros «mansos», de frutos grandes e doces, e castanheiros «bravos» que dão madeira de alta qualidade ou varas para cestaria, surgindo por alto fuste ou talhadia. Uns são soutos, outros castinçais.

Tão difícil é a determinação da sua história biológica, tão antiga a relação com o homem, que este resolveu trazê-la para o interior da sua cultura, dedicando-lhe um santo e um dia. 11 de Novembro.

jef, abril 2020

* botânica

domingo, 5 de abril de 2020

Sobre o filme «Boneca de Luxo» de Blake Edwards, 1961




















Este é um desses “filmes-estudo”. Tal como «Casablanca» (Michael Curtiz, 1942), é um filme venerado pelo público e a que os críticos torcem bastante o nariz, talvez por essa mesma razão. É raro o público e os críticos conseguirem acertar o passo na mesma valsa. «Boneca de Luxo» também tem um par de actores de sonho, uma história comovente, uma canção inesquecível, e é estreado numa situação sócio-política de batalha campal a exigir do público evasão cinematográfica simples e compreensiva.

E, porventura, tal desprezo dos críticos transporta alguma injustiça. Se todo o filme é deslumbrado pela diva absoluta Audrey Hepburn (Holly Golightly), pelos olhos azuis de George Peppard (Paul Varjak) ou pelo compreensivo “gato sem nome” Cat (Orangey), nessa fuga conjunta para a “rica, fácil e luminosa” Nova Iorque da rapariga vinda de um meio paupérrimo e inóspito e do escritor desamparado que tem no currículo apenas o livro «Nine Lifes / Sete Vidas», existe o princípio crítico social, envolto numa terna amabilidade que Truman Capote não conseguiu, nem desejou, colocar no seu livro. No início, a figura de princesa de Holly Golightly olhando com devota solidão a montra da Tiffany’s, enquanto come um pequeno-almoço take-away do Starbucks, diz tudo. A vida não é fácil e há que vencer a intempérie com determinação, mesmo deitando mão a intrincados estratagemas, ao melhor guarda-roupa («How do I look?»), a menos recomendáveis namorados ou decoradoras ricas e sonsas (Patricia Neal), mesmo que digam: « I’m a very stylish girl!». 

Não haverá aqui algumas parecenças com o aplaudido «O Apartamento » (Billy Wilder, 1960)?

E essa maravilhosa troca cénica de andares num velho prédio nova-iorquino subalugado, escada a cima escada a baixo, não tem qualquer coisa de maravilhoso, tal como em «O Pecado Mora ao Lado» (Billy Wilder,1955)?

E «Moon River» de Johnny Mercer e Henry Mancini, não é uma comovente e eterna canção-ícone?

E os objectos, os decores, o guarda-roupa e o movimento dentro dos cenários, não fazem lembrar um pouco os palcos de Jacques Tati?

Acima de todas as críticas e interpretações, no centro de um filme, que revejo sempre que posso e a quarentena obriga, está uma das actrizes mais belas e amoráveis de sempre: Audrey Hepburn!

jef, abril 2020

«Boneca de Luxo» (Breakfast  at Tiffany’s) de Blake Edwards. Com Audrey Hepburn, George Peppard, Patricia Neal, Mickey Rooney, Buddy Ebsen, Martin Balsam, José Luis de Vilallonga, John McGiver, Dorothy Whitney, Stanley Adams, Elvia Allman, Alan Reed, Beverly Powers, Claude Stroud, Orangey (o gato). Argumento: George Axelrod baseado na novela de Truman Capote. Música : Henry Mancini. Canção: «Moon River» Jonnhy Mercer/ Henry Mancini . Fotografia: Franz Planer. Guarda-roupa de Audrey Hepburn: Hubert de Givenchy. Direcção artística: Roland Anderson & Hal Pereira; Decores: Sam Comer & Ray Moyer. EUA, 1961, Cores, 110 min.