sexta-feira, 1 de maio de 2020

O Jerónimo olha pelas palavras













O Jerónimo olha pelas palavras

O Jerónimo mede a velocidade dos factos pelas palavras. Melhor dizendo, o Jerónimo é um rapaz que observa os dias que correm, mais depressa ou mais devagar, atrás do andamento das palavras. Ditas ou escritas, que assim tomam elas diferentes acelerações. Até as palavras que se lêem, reconhece, vão dos olhos à ideia umas vezes como um sopro, outras numa ventania.

Quando vê lá em baixo, junto ao rio, no ancoradouro, um barco cheio de turistas, louros, rosados, chapéu exótico, farta pança, sabe que dali a nada os receberá sorrindo, brindando, copo na mão. É esse o seu dever e fá-lo bem. Ninguém nota que ele deixou uma notícia por ler, uma imagem por conquistar, uma ideia para depois. Uma espécie de sesta adiada. Talvez um tempo enfadado… Ele aguarda a fila de caminheiros alegres, coloridos, íngremes, subindo a carreiro por entre as vinhas que, por falta de chuva, não se apresentam como devem, tão exuberantes. Mas, mesmo assim, deslumbram quem as desconhece, no brilho solarengo.

Volta a colocar a marca no livro interrompido. Anseia pelas novas palavras que estarão escritas no jornal, novamente dobrado. Encolhe os ombros, resigna-se. A clientela acaba de chegar. É tempo de adiar o ritmo das palavras, elas o aguardarão. Talvez uma conversa rápida as trará de volta, talvez num tempo paralelo que lhe passa agora, como ligeira brisa, na palma da mão que, sobre os olhos, lhe abre o horizonte dourado do rio.

jef, abril 2020

* Perífrases e quarentena

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Faia Fagus sylvatica L.


















Faia Fagus sylvatica L.
Família Fagaceae

As páginas dos botânicos colocam-na a seguir a nogueiras, bétulas, amieiros e avelaneiras. Dá nome a uma família famosa onde, logo antes, se encontram castanheiros e carvalhos. As Fagáceas. O nome do género sugere alimento, apetite, voracidade. Os frutos são aquénios, em grupo de dois ou três, lustrosos, de secção triangular e arestas marcadas, nutritivos, contendo grande percentagem de lípidos, apreciados pelos animais da floresta. Estão encerrados numa cúpula de quatro brácteas ligeiramente espinhosas que se abrem, lembrando avelãs, castanhas ou glandes. As inflorescências masculinas dispõem-se como pêndulos enquanto as femininas são menos conspícuas. As folhas, de 4 a 9 cm, são de um verde aberto e apresentam nervuras vincadas; ovaladas a elípticas, pontiagudas, com a margem ondulada e percorrida por pequenos cílios.

De folha caduca, pode atingir 35 metros de altura, tendo bom fuste, direito e claro. Oferece boa madeira também ela muito clara, grão fino e riscada pelos seus delgados raios lenhosos, apreciada em trabalhos de torno e marcenaria. O ritidoma contém elementos químicos com fama para diversas aplicações terapêuticas. Prefere encostas expostas a clima suave e húmido, entre 1000 e os 1500 metros, solos frescos sem secura estival nem muito ácidos. Ocorre nas serras do Centro e do Norte de Portugal continental, onde é cultivada ou está ligada à silvo-pastorícia, e estende-se por uma vasta área na Europa Central, desde o Sul da Escandinávia à Grécia Setentrional. Ocorre também na América do Norte.

As suas exigências hídricas e edafo-climáticas têm retirado expressão florestal em Portugal, mas as suas características botânicas, copa harmoniosa e ampla, folhagem delicada, tronco de coloração pouco comum, tem-lhe mantido a fama estética na tradição cultural popular.

jef, abril 2020

Maria Faia

Eu não sei como te chamas
Oh Maria Faia!
Nem que nome te hei-de eu pôr
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Cravo não, que tu és rosa
Oh Maria Faia!
Rosa não, que tu és flor
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Não te quero chamar cravo
Oh Maria Faia!
Que te estou a engrandecer,
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Chamo-te antes espelho
Oh Maria Faia!
Onde espero de me ver
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

O meu amor abalou
Oh Maria Faia!
Deu-me uma linda despedida,
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Abarcou-me a mão direita
Oh Maria Faia!
Adeus oh prenda querida
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Tradicional Malpica do Tejo / Beira Baixa

José Afonso in «Traz Outro Amigo Também», 1970

* botânica

terça-feira, 28 de abril de 2020

Carvalho-cerquinho Quercus faginea Lam.













Carvalho-cerquinho Quercus faginea Lam.
Família Fagaceae

Já foi chamado «português» (Q. lusitanica). Quando os solos de características básicas ou a mão humana o deixa, em modo de bosque climácico, esta espécie espontânea supera os 20 metros de altura, adaptando-se bem a essa transição portuguesa entre o Norte húmido e o Sul mais seco, o Atlântico e o Mediterrâneo. Deu nome a diversas povoações com o étimo «Cercal». Também se apresenta de porte mais retraído, como coberto mais rasteiro ou associado a outros carvalhos, sobreiros ou azinheiras, formando com estes híbridos. Apesar de se distribuir no Noroeste de Portugal e numa área considerável que vai do Mondego a Lisboa, da Arrábida ao Oeste, do Alentejo ao Algarve, não aparece em alguns manuais de produção florestal, apesar dos indivíduos de maior porte darem boa madeira. É uma árvore característica de alguns ecossistemas florestais autóctones, muito ricos em biodiversidade, a necessitar de sérias medidas de conservação.

As folhas desta caducifólia são marcescentes, ou seja, mantêm-se até ao aparecimento da nova folhagem. São elípticas a ovaladas, de contorno crenado, enrolando-se para dentro, convolutas, e possuem alguma pilosidade na página inferior. A bolota que é oblonga sob uma taça, ou cúpula, de escamas assentes, não se confunde com as galhas ou bugalhos, que são esféricos, resultado da inoculação de ovos em alguns rebentos através da picada de certos insectos.

jef, abril 2020

* botânica

domingo, 26 de abril de 2020

Sobre o filme «Sabotagem» de Alfred Hitchcock, 1942

















João Bénard da Costa conclui o texto sobre o filme dizendo que a enorme adesão que os seus vários climaxes provocam tem muito que ver com fantasmas bem pouco inocentes e terrores bem pouco tranquilos.

E eu, sem querer aproximar-me da superior análise de J.B.C., acrescentaria que o filme resume tudo o que faz de Hitchcock um génio na construção de um filme totalmente coerente sobre uma inacreditável rede de episódios incoerentes.

Tudo aqui parece uma sequência louca de scherzos onde a qualidade da fotografia; a impressionante capacidade visual dos cenários; a “rapidez” da montagem; a habilidade dos diálogos literários de fazer ‘pausas morais e políticas’ sem interromper, uma vez sequer, o ritmo da história; desejam apenas que o espectador esqueça tudo e percorra uma espécie de alienação levado pela mão de um pesadelo criado pelo humor, a moral e o medo.

Para que lado devemos cair, então, numa história que começa com a enigmática beleza da sombra de um homem que percorre um enorme portão metálico e um incêndio apagado com um extintor cheio de gasolina, para terminar na magistral queda da Estátua da Liberdade de outro homem (o mesmo?) seguro por um fio do casaco, arrastando consigo a absolvição da inocência mas também a interrupção da culpa?

Tudo neste filme parece magnificamente falso mas orquestrado por quem domina a estratégia onírica que diz que, na arte, a adesão do espectador-leitor assenta mais em princípios de verosimilhança do que de verdade. E João Bénard da Costa bem reconhece que Hitchcock bem sabe manobrar a culpa intranquila dos nossos (talvez seus) fantasmas e terrores.

 jef, abril 2020

«Sabotagem» (Saboteur) de Alfred Hitchcock. Com Robert Cummings; Priscilla Lane, Otto Kruger; Alan Baxter; Alma Kruger, Vaughan Glazer; Dorothy Peterson; Ian Wolfe; Norman Lloyd; Clem Bevans; Anita Bolster; Marie Le Deux; Pedro de Cordoba. Argumento: Peter Viertel, Joan Harrison e Dorothy Parker sobre uma ideia de Hitchcock. Música: Frank Skinner, dirigida por Charles Previn. Fotografia: Joseph Valentine. EUA, 1942, P/B, 102 min.

sábado, 25 de abril de 2020

O Paulo olha o mínimo das coisas











O Paulo olha o mínimo das coisas

O Paulo é um rapaz que olha para o interstício das casas, para os pespontos das coisas. Esses lugares como bainhas onde tanto se acumulam o pó e o cotão como as migalhas do que está para chegar. Também a história de quem as coseu e, agora, de quem as olha. É assim que ele se reconhece sem precisar de passar pelo espelho.

Por outras palavras, o Paulo gosta de percorrer a cave ou o sótão à procura, investigando, do alicerce ou da estrutura de uma memória. A viga ou o pilar de uma ideia. Habituou-se a recordar e a recortar as fotografias dessa ideia, colando-lhe depois os pedaços de um modo diverso, ou de um modo difuso. É assim que melhor entende o osso de um olhar, a estética de um sorriso que ainda se irá expressar. Alinhava o presente, ou melhor, cose a bainha do presente como o faria a um jogo de Lego de que perdeu as instruções para montar. Sabe que o futuro é construído por tentativas e ajustes.

O Paulo sabe que, tal como a beleza, o dia que chegará está, precisamente, nas mãos da liberdade de o reconstruir, de olhar de novo para o alinhavo da bainha, para a poeira revelada pela luz que acabou de entrar pelo postigo.

jef, 25 abril 2020

* Perífrases e quarentena

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Sobre o filme «O Céu Gira» de Mercedes Álvarez, 2004.

















O filme começa com uma tela do pintor Pello Asketa onde se vêem duas crianças a espreitar para o fundo de um pântano. Buscam algo que lá se afundou ou esperam ver surgir alguma coisa. Assim também parte a realizadora para a aldeia dos seus pais e antepassados. Aldealseñor, Soria. 14 habitantes.

Perante uma réplica de triceratops, uma senhora mostra as pegadas e o túmulo de um pequeno dinossauro marcado na pedreira. Antes do Dilúvio. Um padeiro pode vir na segunda-feira. No palácio construído por escravos passeia o espírito de uma menina que não sabe rir. No cemitério recolhem-se a alma dos que ficam e a podridão dos que partem. Os castros dos celtibéricos, os povos que fugiram para Numancia, um dólmen, as terras dos romanos, os árabes. A morte do republicado de Magaña às mãos dos franquistas. Bush, Sadam e as armas; a chegada das eólicas e o palácio que vai ser transformado em hotel. Uma campanha eleitoral que perturba o sono e a oração. A eterna transformação sobre o silêncio da ausência. A morte do tio Eliseo. Um ulmeiro gigante que definha e retém, entre as raízes, caveiras humanas.

O pintor regressa mas está quase cego. Tacteia o ulmeiro seco, como tacteia a luz e as pinceladas impressionistas sobre as linhas a carvão sobre, talvez, a sua derradeira tela. Afinal, a morte é um regresso organizado com ajustes meticulosos contra o tempo, diz a realizadora. Mesmo a de uma aldeia deserta mas paciente que aguarda esse tempo.

jef, abril 2020

Eucalipto Eucalyptus globulus Labill.

















Eucalipto Eucalyptus globulus Labill.
Família: Myrtaceae

Existe um exemplar no lugar de Contige, em Sátão, distrito de Viseu, que dá nome àquele cruzamento de caminhos, protegido em decreto por ser monumental e muito digno: 50 metros de altura; 9,52 metros de perímetro à altura do peito; 29,5 metros de diâmetro de copa. Dizem os proprietários que terá sido plantado pelo ano 1878 e andará, certamente, arredado de polémicas sobre empobrecimento de solos, monoculturas industriais e incêndios florestais.

O século XIX via nele um bom ajudante para drenar os solos e como doador de boa lenha. O século XXI vê-o mais como fonte de fibras celulósicas para uma vasta gama de produtos. Também dele as abelhas gostam, também as suas essências odoríficas servem usos medicinais e a cosmética.

Da família das Mirtáceas, entre centenas de espécies do género, esta árvore de crescimento rápido pode atingir em Portugal até 70 metros de altura, exibindo folhas juvenis emparelhadas e opostas às do nó anterior, ovadas, azuladas, que derivam, quando adultas, para longas folhas falciformes, verde brilhante. As flores hermafroditas, onde um tufo de numerosos estames brancos se destaca do opérculo, resultam em fruto, uma cápsula lenhosa quadrangular e de quatro faces, de 1,5 a 3 cm. O ritidoma nas árvores adultas destaca-se em longas fitas dando à base do tronco diversas tonalidades entre o castanho, o cinzento e o amarelo.

Esta árvore exótica e aromática tem origem na ilha da Tasmânia e extremo sudeste da Austrália e dizem os manuais que dois terços da sua área de plantações se situa na Península Ibérica.

jef, abril 2020

* botânica