quarta-feira, 6 de maio de 2020

Choupo-branco Populus alba L.












Choupo-branco Populus alba L.
Família Salicaceae

Parente de salgueiros na família das Salicáceas, parente próximo, por exemplo, do choupo-negro Populus nigra e de diversos híbridos dentro do género, é uma espécie espontânea e cultivada em Portugal que se estende pela Europa Central e Meridional e mais a leste ainda. Cursos de água, estações frescas e umbrosas, até inundáveis, são o seu meio de eleição, mas também resiste à secura. Com um crescimento rápido e abundante, pega bem de estaca e através do raizame. Por isso os vemos plantados bordejando vias rurais ou ruas urbanas. Com o seu alto fuste de até 30 metros, engrossando com a idade, é coberto por um ritidoma branco a acinzentado que contém conhecidas substâncias químicas de uso medicinal antipirético.

Caducifólia dióica, sustenta uma copa de grande arborescência e quantas vezes irregular, formada de folhas, alternas, também elas de formas irregulares com pecíolo de 2 a 3 cm. Ovadas, dentadas, em modo de palma, quase elípticas ou quase pentagonais, têm a página inferior coberta por um espesso velo branco, além do tronco ser claro. São estas características particulares que a nomeiam. As flores unissexuais são amentilhos pendentes que dão como fruto pequenas cápsulas cujas sementes vêm envolvidas por um algodão fino que as ajuda a serem levadas pela brisa.

É fornecedor de madeira clara e branda, fácil de trabalhar, ajuda a fixar taludes e margens. O álamo, como também era conhecido, fundador de «alamedas», transporta ainda no imaginário clássico a fama de ter coroado com os seus ramos Héracles /Hércules, após este sair vitorioso de algum dos seus trabalhos.

jef, maio 2020

* botânica

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Teixo Taxus baccata L.




















Teixo Taxus baccata L.
Família Taxaceae

Os núcleos desta gimnospérmica autóctone encontrar-se-ão restritos às serras do Norte e do Centro, Gerês e Estrela, em zonas altas de declive acentuado, pedregosas, inacessíveis, onde os exemplares não atingirão os famosos 20 metros de altura daqueles que são plantados para embelezar pátios e jardins, com tronco austero, copa ampla e piramidal. A actual área limitada de distribuição também está associada ao ancestral abate pela sua apreciada madeira, resistente, dura mas elástica, procurada para trabalhos de marcenaria, torno e, diz a tradição, fabrico de arcos para a caça ou para a guerra. Talvez pela sua extrema longevidade, na antiguidade surgia ligada a necrópoles, servindo frequentemente para a construção de esquifes.

Ou talvez pela fama de toxicidade de praticamente todos os seus elementos, contendo a taxina, alcaloide que provoca graves danos no sistema neurológico e cardiovascular. Esse facto não ajudou à sua conservação. Também o composto derivado taxol (agora sintetizado em laboratório) era utilizado em tratamentos oncológicos.

O característico ritidoma castanho-avermelhado destaca-se em estreitas faixas longitudinais e as folhas lineares, perenes e alternas, dispõem-se em duas fiadas paralelas, porém falsamente dísticas, pois o seu paralelismo advém antes da delicada torção do curto pecíolo. Na axila de algumas folhas modificadas de cor alaranjada surgem os cones masculinos, mas apenas nos indivíduos masculinos pois é uma espécie dióica. Também as folhas apresentam forte toxicidade. Apenas um dos elementos não é tóxico: o arilo, o falso fruto. Pelo contrário, esse escarlate ou rosado-vivo invólucro seminal, carnudo, viscoso e adocicado, que surge nas árvores femininas pelo Verão, é muito apreciado pelas aves florestais. Mas a semente nua que está lá contida é muito venenosa, porém é dispersada posteriormente pelas aves sem lhes causar qualquer dano. Estratégias evolutivas da disseminação natural.

Uma das curiosidades da espécie cujas raízes se associam em simbiose com bactérias formando micorrizas que enriquecem o solo de nutrientes, é a capacidade de se desdobrar em variedades cultivares, fáceis de podar, gerando sebes recortadas e labirínticas, aprimorando parques e jardins “à francesa”. A arte da topiária. Consta que, a partir do enraizamento de ramos laterais adultos horizontais poderão surgir indivíduos que crescem, assim, rastejantes.

A verdade é que uma espécie com uma área de distribuição atualmente tão limitada já deu aso, na região Norte e Centro, a tão numerosos topónimos com o seu étimo: “teixo”, “teixoso” ou “teixeira”.

jef, maio 2020

botânica

domingo, 3 de maio de 2020

Sobre o filme «Os Filhos da Noite» de Nicholas Ray, 1949















Poucos filmes existirão onde a condição humana surja tão descarnada e, ao mesmo tempo, tão visceral. Ele diz-nos que mais inconsequente que o amor, só será mesmo a ternura.

O primeiro filme de Nicholas Ray parece ser o seu epitáfio. A cópia de «Lightning Over Water» de Wim Wenders (1980), o último filme-espelho realizado momentos antes da sua morte. Sem dúvida, copia «Fúria de Viver» (1955) ou muitos outros filmes seus incluindo «Cega Paixão» (1952) ou «Jonhny Guitar» (1954).

Como em qualquer tragédia clássica sabemos para onde vamos. No início, mesmo antes do genérico, os amantes beijam-se e espantam-se, segundos depois, com a proximidade da câmara, com o nosso olhar. Algum deus ex-machina escreve: «This boy and this girl were never properly introduced to the world we live in» (Este rapaz e esta rapariga nunca foram propriamente apresentados ao mundo em que vivemos). Está a tragédia anunciada. Está também escrito o que Nicholas Ray tentará a vida toda. Será mesmo isto o que cada um de nós vai sentindo com o passar do tempo. O mundo nunca nos chega propriamente a ser apresentado. Talvez Immanuel Kant, um dia, nos explique como a coisa funciona.

Bowie (Farley Granger) foge da prisão ajudado pelo gangue e refugia-se em casa do pai de Keechie (Cathy O’Donnell). São duas quase crianças que nada sabem do amor mas, num mundo perturbado, quase inacabado, se apaixonam. Também desconhecem como se beija. Também sabem que devem fugir mas não sabem de que mundo nem para que mundo. Afinal, nunca lhes foi apresentado.

«Os Filhos da Noite» é um filme síntese. É um filme onde a linguagem é crua, quase anti-literária, quase novelesca de tão sintética. «It could be» resume por repetição a cena crucial do início da paixão daqueles dois quase adolescentes. Tão ingénuos e seminais que surgem, no início, sem corpo formado, escondidos, foragidos de uma sociedade inexistente, quase em repulsa desse corpo, seres andrógenos que anseiam o que mais temem e, ao mesmo tempo, seres desejados pela sociedade madrasta que os quer devorar.

Um dos filmes mais belos e comoventes que alguma vez vi.

jef, maio 2020

«Os Filhos da Noite» (They Live by Night) de Nicholas Ray. Com Farley Granger, Cathy O’Donnell, Howard da Silva, Helen Craig, Jay C. Flippen, Will Wright, Marie Bryant, Ian Wolfe, Harry Harvey, Jim Nolan, Teddy Infuhr, Curt Conway, Regan Callais, Frank Marlowe, Charles Meredith, J. Louis Johnson. Argumento: Charles Schnee, a partir da adaptação por Nicholas Ray do romance “Thieves Like Us” de Edward Anderson. Fotografia: George E. Diskant. Música: Leigh Harline. EUA, 1949, P/B, 95 min.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O Jerónimo olha pelas palavras













O Jerónimo olha pelas palavras

O Jerónimo mede a velocidade dos factos pelas palavras. Melhor dizendo, o Jerónimo é um rapaz que observa os dias que correm, mais depressa ou mais devagar, atrás do andamento das palavras. Ditas ou escritas, que assim tomam elas diferentes acelerações. Até as palavras que se lêem, reconhece, vão dos olhos à ideia umas vezes como um sopro, outras numa ventania.

Quando vê lá em baixo, junto ao rio, no ancoradouro, um barco cheio de turistas, louros, rosados, chapéu exótico, farta pança, sabe que dali a nada os receberá sorrindo, brindando, copo na mão. É esse o seu dever e fá-lo bem. Ninguém nota que ele deixou uma notícia por ler, uma imagem por conquistar, uma ideia para depois. Uma espécie de sesta adiada. Talvez um tempo enfadado… Ele aguarda a fila de caminheiros alegres, coloridos, íngremes, subindo a carreiro por entre as vinhas que, por falta de chuva, não se apresentam como devem, tão exuberantes. Mas, mesmo assim, deslumbram quem as desconhece, no brilho solarengo.

Volta a colocar a marca no livro interrompido. Anseia pelas novas palavras que estarão escritas no jornal, novamente dobrado. Encolhe os ombros, resigna-se. A clientela acaba de chegar. É tempo de adiar o ritmo das palavras, elas o aguardarão. Talvez uma conversa rápida as trará de volta, talvez num tempo paralelo que lhe passa agora, como ligeira brisa, na palma da mão que, sobre os olhos, lhe abre o horizonte dourado do rio.

jef, abril 2020

* Perífrases e quarentena

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Faia Fagus sylvatica L.


















Faia Fagus sylvatica L.
Família Fagaceae

As páginas dos botânicos colocam-na a seguir a nogueiras, bétulas, amieiros e avelaneiras. Dá nome a uma família famosa onde, logo antes, se encontram castanheiros e carvalhos. As Fagáceas. O nome do género sugere alimento, apetite, voracidade. Os frutos são aquénios, em grupo de dois ou três, lustrosos, de secção triangular e arestas marcadas, nutritivos, contendo grande percentagem de lípidos, apreciados pelos animais da floresta. Estão encerrados numa cúpula de quatro brácteas ligeiramente espinhosas que se abrem, lembrando avelãs, castanhas ou glandes. As inflorescências masculinas dispõem-se como pêndulos enquanto as femininas são menos conspícuas. As folhas, de 4 a 9 cm, são de um verde aberto e apresentam nervuras vincadas; ovaladas a elípticas, pontiagudas, com a margem ondulada e percorrida por pequenos cílios.

De folha caduca, pode atingir 35 metros de altura, tendo bom fuste, direito e claro. Oferece boa madeira também ela muito clara, grão fino e riscada pelos seus delgados raios lenhosos, apreciada em trabalhos de torno e marcenaria. O ritidoma contém elementos químicos com fama para diversas aplicações terapêuticas. Prefere encostas expostas a clima suave e húmido, entre 1000 e os 1500 metros, solos frescos sem secura estival nem muito ácidos. Ocorre nas serras do Centro e do Norte de Portugal continental, onde é cultivada ou está ligada à silvo-pastorícia, e estende-se por uma vasta área na Europa Central, desde o Sul da Escandinávia à Grécia Setentrional. Ocorre também na América do Norte.

As suas exigências hídricas e edafo-climáticas têm retirado expressão florestal em Portugal, mas as suas características botânicas, copa harmoniosa e ampla, folhagem delicada, tronco de coloração pouco comum, tem-lhe mantido a fama estética na tradição cultural popular.

jef, abril 2020

Maria Faia

Eu não sei como te chamas
Oh Maria Faia!
Nem que nome te hei-de eu pôr
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Cravo não, que tu és rosa
Oh Maria Faia!
Rosa não, que tu és flor
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Não te quero chamar cravo
Oh Maria Faia!
Que te estou a engrandecer,
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Chamo-te antes espelho
Oh Maria Faia!
Onde espero de me ver
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

O meu amor abalou
Oh Maria Faia!
Deu-me uma linda despedida,
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Abarcou-me a mão direita
Oh Maria Faia!
Adeus oh prenda querida
Oh Maria Faia, oh Faia Maria!

Tradicional Malpica do Tejo / Beira Baixa

José Afonso in «Traz Outro Amigo Também», 1970

* botânica

terça-feira, 28 de abril de 2020

Carvalho-cerquinho Quercus faginea Lam.













Carvalho-cerquinho Quercus faginea Lam.
Família Fagaceae

Já foi chamado «português» (Q. lusitanica). Quando os solos de características básicas ou a mão humana o deixa, em modo de bosque climácico, esta espécie espontânea supera os 20 metros de altura, adaptando-se bem a essa transição portuguesa entre o Norte húmido e o Sul mais seco, o Atlântico e o Mediterrâneo. Deu nome a diversas povoações com o étimo «Cercal». Também se apresenta de porte mais retraído, como coberto mais rasteiro ou associado a outros carvalhos, sobreiros ou azinheiras, formando com estes híbridos. Apesar de se distribuir no Noroeste de Portugal e numa área considerável que vai do Mondego a Lisboa, da Arrábida ao Oeste, do Alentejo ao Algarve, não aparece em alguns manuais de produção florestal, apesar dos indivíduos de maior porte darem boa madeira. É uma árvore característica de alguns ecossistemas florestais autóctones, muito ricos em biodiversidade, a necessitar de sérias medidas de conservação.

As folhas desta caducifólia são marcescentes, ou seja, mantêm-se até ao aparecimento da nova folhagem. São elípticas a ovaladas, de contorno crenado, enrolando-se para dentro, convolutas, e possuem alguma pilosidade na página inferior. A bolota que é oblonga sob uma taça, ou cúpula, de escamas assentes, não se confunde com as galhas ou bugalhos, que são esféricos, resultado da inoculação de ovos em alguns rebentos através da picada de certos insectos.

jef, abril 2020

* botânica

domingo, 26 de abril de 2020

Sobre o filme «Sabotagem» de Alfred Hitchcock, 1942

















João Bénard da Costa conclui o texto sobre o filme dizendo que a enorme adesão que os seus vários climaxes provocam tem muito que ver com fantasmas bem pouco inocentes e terrores bem pouco tranquilos.

E eu, sem querer aproximar-me da superior análise de J.B.C., acrescentaria que o filme resume tudo o que faz de Hitchcock um génio na construção de um filme totalmente coerente sobre uma inacreditável rede de episódios incoerentes.

Tudo aqui parece uma sequência louca de scherzos onde a qualidade da fotografia; a impressionante capacidade visual dos cenários; a “rapidez” da montagem; a habilidade dos diálogos literários de fazer ‘pausas morais e políticas’ sem interromper, uma vez sequer, o ritmo da história; desejam apenas que o espectador esqueça tudo e percorra uma espécie de alienação levado pela mão de um pesadelo criado pelo humor, a moral e o medo.

Para que lado devemos cair, então, numa história que começa com a enigmática beleza da sombra de um homem que percorre um enorme portão metálico e um incêndio apagado com um extintor cheio de gasolina, para terminar na magistral queda da Estátua da Liberdade de outro homem (o mesmo?) seguro por um fio do casaco, arrastando consigo a absolvição da inocência mas também a interrupção da culpa?

Tudo neste filme parece magnificamente falso mas orquestrado por quem domina a estratégia onírica que diz que, na arte, a adesão do espectador-leitor assenta mais em princípios de verosimilhança do que de verdade. E João Bénard da Costa bem reconhece que Hitchcock bem sabe manobrar a culpa intranquila dos nossos (talvez seus) fantasmas e terrores.

 jef, abril 2020

«Sabotagem» (Saboteur) de Alfred Hitchcock. Com Robert Cummings; Priscilla Lane, Otto Kruger; Alan Baxter; Alma Kruger, Vaughan Glazer; Dorothy Peterson; Ian Wolfe; Norman Lloyd; Clem Bevans; Anita Bolster; Marie Le Deux; Pedro de Cordoba. Argumento: Peter Viertel, Joan Harrison e Dorothy Parker sobre uma ideia de Hitchcock. Música: Frank Skinner, dirigida por Charles Previn. Fotografia: Joseph Valentine. EUA, 1942, P/B, 102 min.