segunda-feira, 11 de maio de 2020

Sobre o filme «Vidas Inquietas» de Otto Preminger, 1953.



 













Otto Preminger exige bastante dos espectadores. Deixa-os inquietos também. Não contemporiza com lirismos ou visões estéticas mais ou menos melodramáticas. Gosta de expor as situações, a acusação e a defesa das personagens, como o faria na barra do tribunal, fruto talvez da sua formação em direito, digamos forçada pelo pai.

Embora não seja tão flagrante como em «Anatomia de um Crime» (1960), também aqui o confronto entre as personalidades de Frank Jessup (Robert Mitchum), o condutor de ambulâncias, depois motorista privado, e a mimada, diletante, caprichosa, apaixonada, Diane Tremayne (Jean Simmons), é resolvido perante o espectador após as cenas de tribunal, quase a preto no branco (e o filme é a preto e branco), longe dessa adesão emocional tão ao jeito de Hollywood. A partir dali, deixa de haver compromisso possível, o caso está resolvido perante a lei. Não haverá segundo julgamento para um mesmo caso. Nem Diane pode voltar atrás, a essa suposta ingenuidade falsamente latente, nem Frank regressar à inocente carreira de condutor de ambulância e ao namoro displicente com Mary Wilton (Mona Freeman).

Otto Preminger conduz a história aparentemente sem nada nos impor, sem tácitas estratégias cinematográficas ou códigos morais prevalecentes, quase amoral o arco narrativo que faz começar o relacionamento entre Diane e Frank com a clínica troca de estalos e o termina com um interrompido toque entre taças de champanhe.

No meio do jogo, que tem tanto de cruel como de irónico, com muito mais vínculo de poder do que vínculo de amor, encontra-se o génio de Otto Preminger e o inquietante deslumbramento de «Vidas Inquietas».

jef, maio 2020

«Vidas Inquietas» (Angel Face) deOtto Preminger. Com Robert Mitchum, Jean Simmons, Mona Freeman, Herbert Marshall, Leon Ames, Barbara O’Neil. Argumento: Chester Erskine, Oscar Millard, Frank Nugent. Fotografia: Harry Stradling. Música: Dimitri Tiomkin. EUA, 1953, P/B, 91 min.


sábado, 9 de maio de 2020

O André une os pontos com o lápis













O André une os pontos com o lápis.


O André não teme percorrer a direcção que tomam as linhas que desenha. Corrijo. O André faz do caminho que leva o traço do seu lápis uma espécie de porto de abrigo ou de velho do restelo que, ao mesmo tempo, o protege e o intriga. Também o revela a si próprio, como uma partida que coincide exactamente com o lugar de chegada. A linha assim transformar-se num ponto único.

De manhã, risca uma linha quebrada, segmentos de recta unidos por vértices agudos, a fingirem-se hostis, que se alongam em ruas ou cruzamentos de uma cidade, perpendiculares aos candeeiros que as iluminam. As pessoas escondem-se atrás das janelas, de gelosias, de muros, por baixo dos telhados oblíquos, afastados de parques misteriosos ou de cães perdidos. São ápices criados por esses segmentos curtos que vão do número 1 ao número 103, finalmente, revelá-lo ou, melhor, figurá-lo. Como nos passatempos antigos dos jornais infantis.

À tarde, o café do Senhor Abel reabre. O André toma um café, ouve a conversa da vizinha confinada por uma constipação repentina, e volta para casa a pensar em afiar dois lápis. O contorno aproxima-se do papel manteiga, quase transparente, onde resolve experimentar a ponta afiada da grafite. A superfície enruga-se ligeiramente pela linha curva que, agora, anula os vértices e as arestas, adoçando-as. Surge um nariz, um pulso, um cotovelo, dois lábios. Corrijo novamente. Surgem dois narizes, dois pulsos, dois cotovelos, quatro lábios. Um abraço.

jef, maio 2020

* perífrases e quarentena

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Choupo-negro Populus nigra L.


















Choupo-negro Populus nigra L.
Família Salicaceae

Da família das Salicáceas, já era conhecida entre os romanos como ornamental ou produtora de madeira clara e branda, fácil de trabalhar e útil na construção ou na agricultura. Talvez Lineu assim a tenha chamado apenas por oposição à parente Populus alba, seguindo a nomenclatura popular. Contudo, o seu tronco é escuro e com a idade vai ficando fendido, pontuado por tuberosidades na base, podendo atingir 30 metros de altura. A copa tubular a ovoide é pródiga em folhas verde-claro, alternas, serradas, em forma de coração ou diamante, página superior muito brilhante, sustentadas num pecíolo longo de 2 a 6 cm. As suas flores unissexuais são amentilhos pendentes que derivam em fruto, pequenas cápsulas envoltas em lanugem que facilita a disseminação pelo vento.

Ladeando cursos de água, é exigente em água e nutrientes, esta caducifólia dióica, de crescimento rápido espalha-se por todo o território continental, desconhecendo-se se a sua origem não terá vindo de exemplares que escaparam de cultivos ancestrais. Bordejando também alamedas e arruamentos citadinos, estradas municipais ou jardins, o homem foi promovendo a respetiva hibridação para melhor o servirem. Por exemplo, entre as várias espécies euro-asiáticas e estas com as americanas Populus deltoides e Populus canadensis.

Esta espécie, as congéneres e os seus híbridos trazem no ritidoma e na goma dos rebentos compostos químicos de eficácia terapêutica. Fornecem madeira para celulose, embalagens, artesanato e também para os sempre citados palitos e fósforos. Definem a linha da paisagem com os fustes altos e resistentes, tão flexíveis à forte ventania. Contudo, ganham cada vez mais detratores urbanos à conta das crescentes alergias provocadas pelo pólen e algodão dos frutos, ou dos danos em pavimentos e entupimento de canalizações produzidos pelas ávidas e sedentas raízes.

jef, maio 2020

* botânica

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Choupo-branco Populus alba L.












Choupo-branco Populus alba L.
Família Salicaceae

Parente de salgueiros na família das Salicáceas, parente próximo, por exemplo, do choupo-negro Populus nigra e de diversos híbridos dentro do género, é uma espécie espontânea e cultivada em Portugal que se estende pela Europa Central e Meridional e mais a leste ainda. Cursos de água, estações frescas e umbrosas, até inundáveis, são o seu meio de eleição, mas também resiste à secura. Com um crescimento rápido e abundante, pega bem de estaca e através do raizame. Por isso os vemos plantados bordejando vias rurais ou ruas urbanas. Com o seu alto fuste de até 30 metros, engrossando com a idade, é coberto por um ritidoma branco a acinzentado que contém conhecidas substâncias químicas de uso medicinal antipirético.

Caducifólia dióica, sustenta uma copa de grande arborescência e quantas vezes irregular, formada de folhas, alternas, também elas de formas irregulares com pecíolo de 2 a 3 cm. Ovadas, dentadas, em modo de palma, quase elípticas ou quase pentagonais, têm a página inferior coberta por um espesso velo branco, além do tronco ser claro. São estas características particulares que a nomeiam. As flores unissexuais são amentilhos pendentes que dão como fruto pequenas cápsulas cujas sementes vêm envolvidas por um algodão fino que as ajuda a serem levadas pela brisa.

É fornecedor de madeira clara e branda, fácil de trabalhar, ajuda a fixar taludes e margens. O álamo, como também era conhecido, fundador de «alamedas», transporta ainda no imaginário clássico a fama de ter coroado com os seus ramos Héracles /Hércules, após este sair vitorioso de algum dos seus trabalhos.

jef, maio 2020

* botânica

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Teixo Taxus baccata L.




















Teixo Taxus baccata L.
Família Taxaceae

Os núcleos desta gimnospérmica autóctone encontrar-se-ão restritos às serras do Norte e do Centro, Gerês e Estrela, em zonas altas de declive acentuado, pedregosas, inacessíveis, onde os exemplares não atingirão os famosos 20 metros de altura daqueles que são plantados para embelezar pátios e jardins, com tronco austero, copa ampla e piramidal. A actual área limitada de distribuição também está associada ao ancestral abate pela sua apreciada madeira, resistente, dura mas elástica, procurada para trabalhos de marcenaria, torno e, diz a tradição, fabrico de arcos para a caça ou para a guerra. Talvez pela sua extrema longevidade, na antiguidade surgia ligada a necrópoles, servindo frequentemente para a construção de esquifes.

Ou talvez pela fama de toxicidade de praticamente todos os seus elementos, contendo a taxina, alcaloide que provoca graves danos no sistema neurológico e cardiovascular. Esse facto não ajudou à sua conservação. Também o composto derivado taxol (agora sintetizado em laboratório) era utilizado em tratamentos oncológicos.

O característico ritidoma castanho-avermelhado destaca-se em estreitas faixas longitudinais e as folhas lineares, perenes e alternas, dispõem-se em duas fiadas paralelas, porém falsamente dísticas, pois o seu paralelismo advém antes da delicada torção do curto pecíolo. Na axila de algumas folhas modificadas de cor alaranjada surgem os cones masculinos, mas apenas nos indivíduos masculinos pois é uma espécie dióica. Também as folhas apresentam forte toxicidade. Apenas um dos elementos não é tóxico: o arilo, o falso fruto. Pelo contrário, esse escarlate ou rosado-vivo invólucro seminal, carnudo, viscoso e adocicado, que surge nas árvores femininas pelo Verão, é muito apreciado pelas aves florestais. Mas a semente nua que está lá contida é muito venenosa, porém é dispersada posteriormente pelas aves sem lhes causar qualquer dano. Estratégias evolutivas da disseminação natural.

Uma das curiosidades da espécie cujas raízes se associam em simbiose com bactérias formando micorrizas que enriquecem o solo de nutrientes, é a capacidade de se desdobrar em variedades cultivares, fáceis de podar, gerando sebes recortadas e labirínticas, aprimorando parques e jardins “à francesa”. A arte da topiária. Consta que, a partir do enraizamento de ramos laterais adultos horizontais poderão surgir indivíduos que crescem, assim, rastejantes.

A verdade é que uma espécie com uma área de distribuição atualmente tão limitada já deu aso, na região Norte e Centro, a tão numerosos topónimos com o seu étimo: “teixo”, “teixoso” ou “teixeira”.

jef, maio 2020

botânica

domingo, 3 de maio de 2020

Sobre o filme «Os Filhos da Noite» de Nicholas Ray, 1949















Poucos filmes existirão onde a condição humana surja tão descarnada e, ao mesmo tempo, tão visceral. Ele diz-nos que mais inconsequente que o amor, só será mesmo a ternura.

O primeiro filme de Nicholas Ray parece ser o seu epitáfio. A cópia de «Lightning Over Water» de Wim Wenders (1980), o último filme-espelho realizado momentos antes da sua morte. Sem dúvida, copia «Fúria de Viver» (1955) ou muitos outros filmes seus incluindo «Cega Paixão» (1952) ou «Jonhny Guitar» (1954).

Como em qualquer tragédia clássica sabemos para onde vamos. No início, mesmo antes do genérico, os amantes beijam-se e espantam-se, segundos depois, com a proximidade da câmara, com o nosso olhar. Algum deus ex-machina escreve: «This boy and this girl were never properly introduced to the world we live in» (Este rapaz e esta rapariga nunca foram propriamente apresentados ao mundo em que vivemos). Está a tragédia anunciada. Está também escrito o que Nicholas Ray tentará a vida toda. Será mesmo isto o que cada um de nós vai sentindo com o passar do tempo. O mundo nunca nos chega propriamente a ser apresentado. Talvez Immanuel Kant, um dia, nos explique como a coisa funciona.

Bowie (Farley Granger) foge da prisão ajudado pelo gangue e refugia-se em casa do pai de Keechie (Cathy O’Donnell). São duas quase crianças que nada sabem do amor mas, num mundo perturbado, quase inacabado, se apaixonam. Também desconhecem como se beija. Também sabem que devem fugir mas não sabem de que mundo nem para que mundo. Afinal, nunca lhes foi apresentado.

«Os Filhos da Noite» é um filme síntese. É um filme onde a linguagem é crua, quase anti-literária, quase novelesca de tão sintética. «It could be» resume por repetição a cena crucial do início da paixão daqueles dois quase adolescentes. Tão ingénuos e seminais que surgem, no início, sem corpo formado, escondidos, foragidos de uma sociedade inexistente, quase em repulsa desse corpo, seres andrógenos que anseiam o que mais temem e, ao mesmo tempo, seres desejados pela sociedade madrasta que os quer devorar.

Um dos filmes mais belos e comoventes que alguma vez vi.

jef, maio 2020

«Os Filhos da Noite» (They Live by Night) de Nicholas Ray. Com Farley Granger, Cathy O’Donnell, Howard da Silva, Helen Craig, Jay C. Flippen, Will Wright, Marie Bryant, Ian Wolfe, Harry Harvey, Jim Nolan, Teddy Infuhr, Curt Conway, Regan Callais, Frank Marlowe, Charles Meredith, J. Louis Johnson. Argumento: Charles Schnee, a partir da adaptação por Nicholas Ray do romance “Thieves Like Us” de Edward Anderson. Fotografia: George E. Diskant. Música: Leigh Harline. EUA, 1949, P/B, 95 min.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

O Jerónimo olha pelas palavras













O Jerónimo olha pelas palavras

O Jerónimo mede a velocidade dos factos pelas palavras. Melhor dizendo, o Jerónimo é um rapaz que observa os dias que correm, mais depressa ou mais devagar, atrás do andamento das palavras. Ditas ou escritas, que assim tomam elas diferentes acelerações. Até as palavras que se lêem, reconhece, vão dos olhos à ideia umas vezes como um sopro, outras numa ventania.

Quando vê lá em baixo, junto ao rio, no ancoradouro, um barco cheio de turistas, louros, rosados, chapéu exótico, farta pança, sabe que dali a nada os receberá sorrindo, brindando, copo na mão. É esse o seu dever e fá-lo bem. Ninguém nota que ele deixou uma notícia por ler, uma imagem por conquistar, uma ideia para depois. Uma espécie de sesta adiada. Talvez um tempo enfadado… Ele aguarda a fila de caminheiros alegres, coloridos, íngremes, subindo a carreiro por entre as vinhas que, por falta de chuva, não se apresentam como devem, tão exuberantes. Mas, mesmo assim, deslumbram quem as desconhece, no brilho solarengo.

Volta a colocar a marca no livro interrompido. Anseia pelas novas palavras que estarão escritas no jornal, novamente dobrado. Encolhe os ombros, resigna-se. A clientela acaba de chegar. É tempo de adiar o ritmo das palavras, elas o aguardarão. Talvez uma conversa rápida as trará de volta, talvez num tempo paralelo que lhe passa agora, como ligeira brisa, na palma da mão que, sobre os olhos, lhe abre o horizonte dourado do rio.

jef, abril 2020

* Perífrases e quarentena