quinta-feira, 28 de maio de 2020

Paineira Ceiba speciosa (A. St.-Hil.) Ravenna




as fotografias são (quase todas) do meu querido colega e amigo José Carlos Figueiredo
















Paineira Ceiba speciosa (A. St.-Hil.) Ravenna (= Chorisia speciosa)

Família Malvaceae

 

Em tempos, teve o nome genérico de Chorisia, dedicado ao pintor germano-ucraniano Ludwig Choris (1795-1828) que seguia nas expedições europeias à América do Sul e lhe registava a beleza exuberante. É parente dos imponentes imbondeiros africanos de troncos bojudos, mas também das tílias. Acompanha ainda as flores dos hibiscos e das malvas.

Caducifólia, até 30 metros de altura, é originária do Brasil, do Nordeste da Argentina e da Bolívia, e possui algumas características que a torna tão vistosa nos jardins onde está plantada. Como os imbondeiros, tem um fuste volumoso que alarga na base como uma garrafa cravejado de acúleos aguçados quando jovem. O ritidoma é rugoso. A copa é ampla e arredondada formada por ramos com folhas de 5 a 7 folíolos, lanceolados e pontiagudos, verdes lustrosos, unidos pelos longos pecíolos num segundo pecíolo, formando como dedos de uma mão. As flores hermafroditas surgem no Outono ou Inverno, desfasadas das folhas, apresentando-se assim, garridas, com as suas cinco pétalas rosadas, de interior branco amarelado, em campânula aberta dentro do cálice tubular, com as anteras e os estames solidários. Flores solitárias que parecem as dos hibiscos. O fruto é uma cápsula grande, lenhosa, ovoide-fusiforme, com sementes em jeito de ervilhas, ricas em óleo de proveito alimentar e envoltas em fibras algodoadas, a que, nos lugares de origem, dão o nome de kapok. Servem estas para o enchimento de almofadas – a sumaúma. A madeira é das mais brancas, brandas e porosas, tão usada no modelismo ou nas maquetes de arquitectura, tal como a balsa da sua parente Ochroma pyramidale.

São muitas particularidades botânicas cuja estética logo encheu de gáudio a avidez dos exploradores, a curiosidade dos jardineiros, o deslumbramento dos pintores e o coleccionismo dos enciclopedistas.

 

jef, maio 2020

 

* botânica


quarta-feira, 27 de maio de 2020

Freixo Fraxinus angustifolia Vahl






Freixo Fraxinus angustifolia Vahl

Família Oleaceae


Da família das oliveiras. Quem o estiver a observar certamente não se encontrará numa floresta ou bosque cerrado de uma espécie única. Mais provável, andará pelas margens umbrosas de um rio, de permeio com amieiros ou carvalhos e vegetação das galerias ripícolas. Ou andará perto de um lameiro ou prado húmido, em solos mesotróficos. Verá um tronco amplo de ritidoma fendilhado, oferecendo copa frondosa e folhas opostas, compostas, de folíolos ímpares, lanceolados e ligeiramente serrilhados. Isto, claro, se não passear durante o Inverno, que é árvore caducifólia em que as flores sem pétalas ou sépalas surgem antes das folhas originando frutos que são sâmaras, aladas, longilíneas, reunidas numa espécie de cacho. A diversidade biológica estará sempre associada à paisagem, ao habitat ou a imagem de uma árvore que pode atingir altura imponente de 20 metros e, ainda, oferecer madeira clara de grandes resistência e elasticidade para que o homem construa os seus utensílios.

 jef, maio 2020

*botânica

terça-feira, 26 de maio de 2020

Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa.












Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa.
Da família Laridae ou a sombra do homem.


«Uma gaivota pousou na praia, duma espiral de asas que rondavam em pairo vagaroso e calado, e começou a marchar, perto de nós, marcando na superfície húmida silhuetas cuneiformes. Duas, três, mais gaivotas, saltaram, parecia que a espiral se ia desenrolando, de cima, vertendo-se para o solo. Asas enclavinhadas, toque em terra, asas recolhidas, passeio grave e peitudo, observação suspeitosa.»
Apuros de um Pessimista em Fuga de Mário de Carvalho


Não será necessário recordar o caso cinematográfico, pré-psicótico, de «Os Pássaros» (Alfred Hitchcock, 1963), ou a delicodoce espiritualidade de «Fernão Capelo Gaivota» (Richard Bach, 1970), nem a data da canção «Somos Livres» de Ermelinda Duarte (1974). Basta debruçarmo-nos sobre o círculo perfeito que Alexandre O’Neill compôs para a voz de Amália sob o som de Alain Oulman (1969), para avaliarmos a projecção psicológica que a gaivota tem, em termos semióticos, no bicho-homem e no povo português em particular. Falamos dessa ave de porte médio a grande, patas amarelas, pinta encarnada na mandíbula inferior, peito claro, dorso e asas de um cinzento mais ou menos escuro, as últimas primárias negras pintalgadas de branco. Gritam aos céus enevoados de Lisboa de modo enigmático, sempre angustiado. Talvez urgente, sim, por nos lembrar que, afinal, existe vida além da rotina urbana. A conspícua, gregária, destemida, mesmo aguerrida ave tão presente aos olhos do homem por a ele se dirigir, até perseguir, junto aos portos, cais de embarque dos cacilheiros, rumo ao soturno das traineiras, ao apetite de lixeiras e aterros sanitários.

Falar de gaivotas é falar de um certo romantismo comportamental, ora do onírico, ora da viva saudade, essa dor terna com que a beira-mar impede o homem de ir além-mar, além-o-outro, talvez além-ele-próprio. A saudade que do enlevo na observação circunvagante da gaivota se afigura em inveja pelo seu voo libertário.

Penso até que os ornitólogos se toldam por essa sinantropia, quase simbiose lírica, lágrima no canto do olho pela baixa luz do sol invernante, ao perscrutar o horizonte, tentando descobrir se a migradora gaivota-d’asa-escura Larus fuscus já mais se habituou a criar no lar português. Muito discutem tais olheiros científicos, vendo para lá do gesto da ave e do cinzento difuso das asas, em simultâneo, fenótipos e etologias, sem decidirem se o genoma vem mais ou menos cruzado pelo da gaivota-argêntea Larus michahellis, outrora gaivota-de-patas-amarelas, que o animal sempre assim as teve, ou pelo Larus argentatus, a gaivota-prateada, ou pela velha nomenclatura da do Cáspio, a Larus chachinnans… Pobres observadores, confundidos que andam pelos bancos da academia, queimando pestanas na cega voragem do curricular. Gaivotas… todas diferentes, todas iguais, de Lineu.

Melhor fora se lessem Mário de Carvalho, que tão bem observa o voar gregário pelos ares ou sobre as areias de Tróia, envolvendo a memória tristonha do “Pessimista em Fuga”. As recordações resvalam, no exacto momento narrativo, para o lado pungente de uma notícia que traz próxima a morte de Marília, adensando a tragédia do sofrimento e da solidão do auto-desconfiante personagem da novela. Refere o escritor uma espécie de vórtice descendo e poisando, para ali ficarem depois, agoirentas, «olhos parados, bicos curvos, penas pontiagudas», em torno do casal que em breve deixará de o ser, como se circulassem em multidão ansiosa, temente, faminta, à volta do cubo negro e proibido de Meca.

Sinceramente, eu vos digo. Se desejam a mais cabal e científica descrição de um caso, ou de uma aurora, ou de uma nuvem, ou de uma gaivota, passem a palavra ao ficcionista poeta.

João Eduardo Ferreira

Nota importante.
Este texto foi carinhosamente solicitado pelo projecto Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental
e publicado em Abril de 2020 na revista ambiental on line Wilder

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Bétula Betula celtiberica Rothm. & Vasc.
















Bétula, bidoeiro, vidoeiro Betula celtiberica Rothm. & Vasc.
Família Betulaceae

Tal como no género Alnus, do amieiro, neste, também os amentilhos femininos, menos expressivos, derivam numa espécie de pinha de estrutura característica onde, entre as brácteas lenhosas, trilobadas, se encontram os frutos, sâmaras, munidos como que de duas pequenas asas. Dizem que esta particularidade, naturalmente, está associada à fácil regeneração natural em zonas de altitude e ventos fortes – Estrela, Marão, Gerês e Montesinho –, formando bosquetes sobre solos profundos e húmidos, aluvionares, de preferência siliciosos, também em prados, turfeiras, junto a cursos de água.

Confere ao espaço onde se encontra um certo ar arcádico ou bucólico, certamente pela tonalidade quase branca do seu ritidoma e pela silhueta singela e flexível. Caducifólia, frequentemente não ultrapassa os 20 metros de altura, com a idade o revestimento branco do tronco vai sendo fendido horizontalmente por linhas escuras devido ao aparecimento das lentículas. As folhas de 2 a 5 cm, romboides a triangulares, ápice agudo, margem serrada, possuem um pecíolo flexível. Os raminhos novos apresentam pelos e glândulas gumosas. Não desprezada em parques e jardins urbanos, a sua madeira é clara, fina e resistente, boa para trabalhos de marcenaria e artefactos domésticos. A casca possui substâncias medicinais diuréticas e anti-inflamatórias. A seiva quando fermentada produz “cerveja”. Antigamente, o interior do ritidoma servia de suporte à escrita como sucedâneo do papiro.

Talvez os botânicos discutam sinonímias e derivações com a espécie sua parente Betula pubescens, de muito mais vasta geografia euroasiática e símbolo nacional da Rússia; talvez os florestais tenham até utilizado alguns híbridos mais eficientes em plantações de outrora; mas todos concordam que esta espécie é endémica da Península Ibérica.

jef, 2020

* botânica

sábado, 23 de maio de 2020

A Teresa tem queda para os doces









A Teresa tem queda para os doces

A Teresa tem muita queda para as compotas. Reflicto melhor, a Teresa é uma rapariga que gosta de ir até ao fogão e, com cuidado, ver o ponto de açúcar dos seus doces. Conhece muito bem a curiosa ligação que existe entre a fruta e o açúcar, ligação natural, de cheiros coloridos, que tanto atrai os insectos e os pássaros, ladrões que antes já polinizaram o que agora tomam como seu.

Sabe que são fundamentais as voltas da colher de pau sobre a massa informe, escaldante, borbulhosa, não vá pegar e desfazer esse outro instante futuro em que ela pensa “Está pronto!” e apaga o lume. Um instante único e tão precioso como o instinto de reconhecer a exactidão do ponto açucarado sobre os marmelos, os alperces, os pêssegos, os morangos, as amoras. Um instinto, uma espécie de amor, melhor dizendo, uma ternura que faz com que insectos e pássaros saibam sem saber que já principiou a época frutuosa do açúcar.

Teresa sente o mesmo instinto que inicia a época dos dias longos e ensolarados e que, mal arrefeçam os frascos, devidamente etiquetados com o nome da fruta e o ano correspondentes, a faz pensar nessa dádiva ternurenta que os outros confiarão depois a uma torrada em luminosa manhã de Verão.

jef, maio 2020

* perífrases e quarentena

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Carrasco-arbóreo Quercus rivasmartinezii J. Capelo & J.C. Costa



 as fotografias são do querido amigo Jorge Capelo









Carrasco-arbóreo, carrasco da Arrábida Quercus rivasmartinezii (J. Capelo & J.C. Costa) J. Capelo & J.C. Costa
Família Fagaceae

O endemismo português gosta do calor, é termófilo, e não desdenha os solos calcários provenientes de estratos dolomíticos, também solos profundos sobre xistos e antigas dunas. Acompanha, entre loureiros, medronheiros, alfarrobeiras, lentiscos, camarinhas e aroeiras, as paisagens mediterrânicas debruçadas sobre o Atlântico. Tem um tronco único e direito coberto por um ritidoma escuro e fendido em pequenas placas. A copa é arredondada, formada de pequenas folhas até 10 cm, persistentes e glabras nas duas páginas, verde vivo, com um contorno ligeiramente dentado e espinhoso e um grande número de nervuras. As flores são amentilhos e o fruto, a glande, é fusiforme e comprido, envolvido por uma taça suportada por um pedúnculo lenhoso, coberta por escamas um pouco levantadas, triangular-lanceoladas.

Anteriormente, permanecia indistinto entre bosques e matos habitados por um outro carrasco, aquele seu parente muito próximo nomeado por Lineu como Quercus coccifera. Parecido, sim, mas tomando progressivamente, sob o olhar comparativo e colecionista dos botânicos, características díspares daquele, ocupando núcleos específicos entre a área mais vasta do primeiro. A serra da Arrábida. Ali, era mesmo uma árvore, distinta do outro carrasco, de tronco firme e fendilhado, bolota mais oblonga com escamas ainda mais eriçadas, as nervuras nas folhas sobressaíam… Assim, esses filatelistas classificadores da Nova Flora foram-se aproximando de uma entidade diferente, primeiro como Quercus coccifera L. subsp. rivasmartinezii J. Capelo & J.C. Costa (2001), mais tarde, assumindo já a nomenclatura específica como “carrasco de Rivas Martínez”, em 2005. As análises genéticas (a que Lineu ainda não podia deitar mão) confirmaram a nova espécie das encostas da Arrábida. Com o seu nome, os novos classificadores dirigiram a atenção dos amantes do universo vegetal para o decano fito-sociólogo Salvador Rivas Martínez, nascido em Madrid em 1935, conhecedor profundo das comunidades vegetais de uma Península Ibérica que percorreu de lés-a-lés. Especialmente, um andarilho de bosques regidos pelos tão distintos carvalhos.

Deste modo, a serra da Arrábida acolheu, neste século, uma nova espécie de árvore que foi reconhecida também em Pataias, junto da Mata Nacional de Leiria, e ainda na área olissiponense, nas serras de Grândola e no Sudoeste Alentejano.

jef, maio 2020


* botânica

terça-feira, 19 de maio de 2020

Ulmeiro Ulmus minor Miller














Ulmeiro Ulmus minor Miller (= U. procera)
Família Ulmaceae

Conhecido também por olmo, negrilho ou mosqueiro, apresenta uma madeira de tom escuro, resistente, boa para a construção de artefactos na casa agrícola. As folhas abundantes tem elevado valor nutritivo como forragem e o ritidoma contém taninos e diversos compostos com utilidade terapêutica. Distribuía-se por todo o território continental, nas matas ribeirinhas, em solos frescos e profundos da várzea. Contudo, a famosa árvore que projectava sombra sobre os túmulos dos heróis gregos e as culturas agrícolas dos romanos, e até nomeou uma clássica entidade livreira portuguesa, não tem resistido à grafiose, doença provocada pelas várias estirpes do fungo Ophiostoma novo-ulmi, associado à presença do escaravelho curculionídeo Scolytus scolytus.

Caducifólia de porte robusto e copa imponente, podendo atingir 30 metros de altura, caso os animais selvagens ou domésticos não a forem podando naturalmente pelo seu apetite. Tem uma densidade de copa grande e característica, já que as folhas de curto pecíolo são sustentadas sem transição dos ramos finos e estes logo para os mais grossos. Essas folhas, muito nervadas, são alternas, orladas de dupla serrilha, ovaladas e pontiagudas, ostentando na base uma nítida assimetria. Tal como as flores, os frutos, de curto pedúnculo, nascem quase diretamente dos ramos. Estas sâmaras, achatadas e com uma asa periférica paleácea, são precoces, amadurecendo mesmo antes das folhas concluírem a sua formação.

Vários híbridos vão sendo testados para que este género pioneiro, aparecendo muitas vezes associado a diferente árvores, tanto folhosas como resinosas, não desapareça dos povoamentos florestais, da compartimentação da paisagem, também da memória.

jef, maio 2020

* botânica