sexta-feira, 3 de julho de 2026

Sobre o filme «O Céu Pode Esperar» de Ernst Lubitsch, 1943

 




 













Ora aqui está uma comédia, sublime e melancólica, sobre a vida, sobre a morte, sobre tudo. A parábola de sua Excelência, o Diabo (Laird Cregar), inteligente e sensível, que reconhece em Henry Van Cleve (Don Ameche), a ingenuidade, talvez inocência, de uma vida dedicada ao prazer do bem viver, deixando-o subir para o Céu mas prevenindo-o de que, lá por cima, as coisas também não serão muito divertidas.

Um enorme arco em flashback narrando, aniversário em aniversário, as sucessivas questões e problemas tidos com as diversas mulheres, desde a infância até chegar (em novo flashback) a Martha Strabel (Gene Tierney), uma noiva roubada em dia de aniversário ao seu primo Albert (Allyn Joslyn), passando por cima dos seus pais, Bertha (Spring Byington) e Randolph (Louis Calhern), mas tendo a eterna cumplicidade do avô Hugo (Charles Coburn).

Tudo aqui é perfeito, toda a morte é ocultada, como acontecia nas peças da Grécia Antiga, a bem de uma comédia que nos leva pelo caminho afunilado da finitude. Tal como em «Viver» de Akira Kurosawa (1952), este filme ensina a lidar com o espectro da inexistência através da soberba sumptuosidade de um diálogo infinito, da minuciosa estratégia cénica, quase amoral, da vivência do casal perfeito ao som da valsa da Viúva Alegre e dos ensinamentos do insuspeito livro How to Make Your Husband Happy, que reaparece no final como triste epílogo da memória. Também da rigorosíssima sátira a envolver os pais de Martha (Marjorie Main e Eugene Pallette) que termina no segundo rapto daquela, coadjuvado pelo avô Hugo. Terminando com a fabulosa cena, quase hitchcockiana na substituição do turno das duas enfermeiras, vendo-se aos espelho, onde Henry sonha viajar num belo navio a flutuar num oceano de whisky e soda, acarinhado pela beleza de uma jovem mulher loura.

Uma soberba comédia, triste e terna, sobre a inocência do bem viver e a eterna tentativa do bem envelhecer e do bem morrer.

Simplesmente, um filme genial. 

(O adjectivo aqui nada tem de exagero apressado.)


jef, junho 2026

«O Céu Pode Esperar» (Heaven Can Wait) de Ernst Lubitsch. Com Gene Tierney (Martha), Don Ameche (Henry Van Cleve), Charles Coburn, (Hugo Van Cleve), Majorie Main (Mrs. Strabel), Laird Cregar (Sua Excelência), Sping Byington (Bertha Van Cleve), Allyn Joslin (Albert Van Cleve), Eugene Pallette (E. F. Strabel), Signe Hasso (Mademoiselle), Louis Calhern (Randolph Van Cleve), Helen Reynolds (Peggy Nash), Clara Blandick (avó), Anita Sharp-Bolster (Mrs. Cooper-Cooper), Florence Bates (a velha do "inferno"). Argumento: Samson Raphaelson baseado no livro “Birthday” de Leslie Bush-Fekete. Produção: Ernst Lubitsch e William Goetz. Fotografia: Edward Cronjager. Música: Alfred Newman. Guarda-roupa: René Hubert. EUA, 1943, Cores, 112 min.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Sobre o livro «A Flor e o Peixe» de Afonso Cruz, Companhia das Letras, 2022


 









Esta novela gráfica de Afonso Cruz é um acto poético escrito a partir de duas histórias de José Saramago para ser interpretado num espectáculo de teatro e dança (Play False) de Catarina Câmara. Os desenhos constantes de Afonso Cruz, a preto, vermelho e branco, abrem uma perspectiva fundamental para que se entenda como funciona o livro para o leitor – uma espécie de permanente fuga e retiro filosóficos em cada um dos capítulos constituídos por frases curtas numeradas como se se tratasse de versos antigos e orientais de uma estrofe a ser cantada ou linhas quíntuplas de uma pauta musical.

Um diálogo entre a aranha, que prende a mosca na sua teia feita de nós mas deixa escapar o céu, e a serpente, que defende a visão do rio que nada retém na sua corrente. Existe um rio Yangzi, com um único peixe que fugiu com o anzol lançado por uma cana partida e deixa, na margem, o menino pescador desolado. Existe uma montanha Lu onde a flor sequiosa é ajudada gota a gota pelo menino pescador, tornando-se a maior flor do mundo. Há uma menina dançarina que salva o peixe do anzol e colhe flores, encanta-se com a maior flor do mundo no topo da montanha, porém nunca se encontra com o menino. Sobem ou descem a montanha por caminhos sempre diversos. Afinal, o peixe mais desejado e a flor da montanha são as maiores dádivas – assuntos da generosidade, coisa que libertam mas, no final, acaba por prender.

Afonso Cruz escreve poesia como desenha, as linhas que unem o céu, o horizonte, o rio e as encostas da montanha são como cones de revolução ou pontos de fuga ou planos que se interceptam criando linhas imaginárias.

Afonso Cruz cria com a sua escrita gráfica a mais bela e poética geometria descritiva dos universos paralelos.


jef, junho 2026