Ora
aqui está uma comédia, sublime e melancólica, sobre a vida, sobre a morte, sobre tudo. A
parábola de sua Excelência, o Diabo (Laird Cregar), inteligente e sensível, que reconhece
em Henry Van Cleve (Don Ameche), a ingenuidade, talvez inocência, de uma vida
dedicada ao prazer do bem viver, deixando-o subir para o Céu mas prevenindo-o de
que, lá por cima, as coisas também não serão muito divertidas.
Um enorme arco em flashback narrando, aniversário em aniversário, as sucessivas questões e problemas tidos com as diversas mulheres, desde a infância até chegar (em novo flashback) a Martha Strabel (Gene Tierney), uma noiva roubada em dia de aniversário ao seu primo Albert (Allyn Joslyn), passando por cima dos seus pais, Bertha (Spring Byington) e Randolph (Louis Calhern), mas tendo a eterna cumplicidade do avô Hugo (Charles Coburn).
Tudo
aqui é perfeito, toda a morte é ocultada, como acontecia nas peças da Grécia Antiga,
a bem de uma comédia que nos leva pelo caminho afunilado da finitude. Tal como
em «Viver» de Akira Kurosawa (1952), este filme ensina a lidar com o espectro
da inexistência através da soberba sumptuosidade de um diálogo infinito, da minuciosa
estratégia cénica, quase amoral, da vivência do casal perfeito ao som da valsa da Viúva Alegre e dos ensinamentos
do insuspeito livro How to Make Your
Husband Happy, que reaparece no final como triste epílogo da memória. Também
da rigorosíssima sátira a envolver os pais de Martha (Marjorie Main e Eugene
Pallette) que termina no segundo rapto daquela, coadjuvado pelo avô Hugo. Terminando com a fabulosa cena, quase hitchcockiana
na substituição do turno das duas enfermeiras, vendo-se aos espelho, onde Henry sonha viajar num belo navio
a flutuar num oceano de whisky e soda, acarinhado pela beleza de uma jovem mulher loura.
Uma
soberba comédia, triste e terna, sobre a inocência do bem viver e a eterna
tentativa do bem envelhecer e do bem morrer.
Simplesmente, um filme genial.
(O adjectivo aqui nada tem de exagero apressado.)
jef,
junho 2026
«O
Céu Pode Esperar» (Heaven Can Wait) de Ernst Lubitsch. Com Gene Tierney
(Martha), Don Ameche (Henry Van Cleve), Charles Coburn, (Hugo Van Cleve),
Majorie Main (Mrs. Strabel), Laird Cregar (Sua Excelência), Sping Byington
(Bertha Van Cleve), Allyn Joslin (Albert Van Cleve), Eugene Pallette (E. F.
Strabel), Signe Hasso (Mademoiselle), Louis Calhern (Randolph Van Cleve), Helen
Reynolds (Peggy Nash), Clara Blandick (avó), Anita Sharp-Bolster (Mrs.
Cooper-Cooper), Florence Bates (a velha do "inferno"). Argumento: Samson Raphaelson baseado no livro “Birthday”
de Leslie Bush-Fekete. Produção: Ernst Lubitsch e William Goetz. Fotografia: Edward
Cronjager. Música: Alfred Newman. Guarda-roupa: René Hubert. EUA, 1943,
Cores, 112 min.




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