segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sobre o livro «Morrer na Primavera» de Ralf Rothmann, Sextante, 2019. Tradução de Gabriela Fragoso.


 









«Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a Terra.». Frase vincada com a unha sobre a página de uma antiga Bíblia, encadernação a couro, letras góticas, rebordo dourado, recheada de folhas secas de Outono e notas de marcos da inflação de 1923, mais tarde, talões do Supermercado Schätzlein.

A enigmática frase do Génesis (4:12) surge como a mais violenta epígrafe e a  grave conclusão do livro. Um arco de tempo sobre uma Alemanha que teve de superar a derrota de uma geração de, quase crianças, foi forçada a seguir para a frente húngara na Primavera de 1945, já americanos e russos avançavam e cercavam por todos os lados, por todos os meios. Walter e Friedrich-Fiete, amigos inseparáveis, ordenhadores competentes na vacaria propriedade da casa de Thamling. Dezassete anos, despojados da vida, de tudo viram, tudo sofreram sob a desesperada derrota breve dos nazis.

Um livro contado por fragmentos sincopados, fragmentos narrativos suportados por descrições tão visuais como paradigmáticas de uma exegese comprometida com a paz.

Um livro difícil mas que nos transmite a ternura infinita pelo sofrimento dos inocentes, nasçam eles onde nascerem. A vã procura de uma sepultura ou a necessidade urgente de um esquecimento impossível.

É fundamental conhecermos todas as belas ou terríveis histórias do mundo, venham elas de onde vierem.


jef, agosto 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sobre o livro «Mendigos e Altivos» de Albert Cossery, Antígona, 2025 (1955). Tradução de Júlio Henriques.



 







Eis um livro que nos coloca de modo revolucionário perante o desconchavo que a sociedade contemporânea nos revela. Albert Cossery num extraordinário romance policial obriga-nos a olhar de frente para a estrutura social e económica em que vivemos. Albert Cossery ri-se dela, porventura afirmando: “aos costumes disse nada” como, em tempos idos, terminavam alguns documentos escritos de índole castrense.

Aqui, tudo é colocado em causa perante a suprema busca da felicidade e da alegria, pois esse objectivo passa pela destruição dos cânones socio-políticos com que essa sociedade opressiva mantém cativos e infelizes os seres viventes que a alimenta. E a procura da felicidade (e a sua assunção) passa neste romance pelo literal, absoluto e radical despojamento e ascetismo. Sem nada de nosso, essa sociedade e os algozes que nela se protegem, nada poderão fazer contra nós, pois nada nos pode tirar porque nada temos. A partir daí podemos gozar a própria alegria, a absoluta liberdade e afirmar, então:  "aos costumes disse nada”. Pratique-se, finalmente, a mendicidade, sim mas de modo orgulhoso e aristocrático e o almoço será oferecido alegremente gratuito.

De um modo intenso, literariamente perfeito e através de uma intriga narrativa filosoficamente ininterrupta, Gohar, o ex-professor universitário de Literatura e Filosofia, contabilista do prostíbulo de Set Amina e mendigo por convicção; El Kordi, funcionário indolente do Ministério das Obras Públicas, revolucionário por teoria; e Ieguene, poeta, vendedor de haxixe e presidiário reincidente, irão desvendar uma nova perspectiva justa, livre e igualitária da sociedade a Nur El Dine, o chefe da polícia no Cairo.

«Mendigos e Altivos» é um tesouro libertário, o romance refractário por excelência, como diria o malogrado Luís Oliveira, ideólogo prático da editora Antígona.

Esta edição tem prefácio de Roger Grenier (2013), um glossário de termos árabes egípcios, um conjunto de fotografias do autor, alguns textos evocativos e as páginas iniciais de «Uma Época de Filhos de Cães», romance inacabado de Albert Cossery.

Livro fundamental para acabar com o neo-liberalismo desenfreado (mas também com o velho marxismo-leninismo!)


jef, agosto 2026

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Sobre o livro «Pastoralia» de George Saunders, Antígona, 2017. Tradução de Rogério Casanova



 







Rogério Casanova, o tradutor, no prefácio, evoca a popularidade do substantivo próprio adjectivante “Kafka” para enquadrar estas histórias sobre uma América que desconhece o destino ou o sonho que à boca cheia propala desde que se conhece. Contudo, Kafka tem um sentido oniricamente psicanalítico, esteticamente surrealista, quase romântico, para narrar as complexas situações em que os personagens se vêem enleados. A começar por Gregor Samsa.

Em «Pastoralia» de George Saunders não existe nada desse romantismo psicanalítico, desse diletante modo de cada um estar por si, dentro de si, mas à margem da sociedade. As histórias de Saunders usa o humor desabrido para colocar o leitor como juiz e credor de gente cujo sonho americano os levou até a um barraco num subúrbio dos subúrbios e ainda os manda ser felizes e sorrir, pois a coisa ainda pode vir a piorar… Se algum dia, bastante improvável, Trump ainda vier a ser eleito para presidente dos grandes Estados Unidos da América!

A começar pela novela que abre o livro “Pastoralia” onde escravos da sociedade do bem-estar se vêem empregados e vigiados num parque de diversão sobre os diversos estágios evolutivos da humanidade. A terminar com “Cataratas” com Morse de regresso a casa pela margem do Taganac, rio que se dirige para umas certas cataratas. Ele teme pelo futuro do filho Robert, teme também por desconhecer se Aldo Cummings, vizinho estranho ainda a viver com a mãe, poderá não gostar dele. Então, o que fazer quando uma canoa com duas miúdas pequenas se apresenta prestes a afundar?

Os contos não desdenham esse lado quase burlesco de uma certa literatura americana que se ri dela própria para não chorar por todos, e são muitos milhões, de americanos que, apesar de se poderem chamar Elon Musk, nunca conseguiram juntar um chavo e amargam no interior de um país que os toma por bastardos.

Contudo, George Saunders eleva essa literatura a uma narrativa de discurso directo sintomático, com descrições quase sem adjectivos, em diálogo cinematográfico, peremptória mas discreta, buscando imagens e situações de uma fantasia inusitada que oferece ao leitor a justa perplexidade para que ele possa completar um cenário, por vezes apenas delineado.

Afinal, Saunders reveste as personagens de uma ternura comovente, de um humor ácido e sarcástico, personagens que se aquietam perante um destino que lhes foi imposto e do qual não têm modo de fugir. 

John Steinbeck chamar-lhes-ia “ratos e homens”.


jef, julho 2026

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Sobre o livro «O Caso do Gato do Porteiro» de Erle Stanley Gardner, Livros do Brasil, Colecção Vampiro n.º 40. Tradução de Carlos Vidal de Oliveira. Revista e adaptada para Portugal por Baptista de Carvalho. Capa de Cândido Costa Pinto, 1950 (1935).



 







Quinze anos após a publicação original, a editora Livros do Brasil achou que o romance devia ser “adaptado para Portugal”. Curioso, porventura também pelo termo “filhoses”, ligado à actividade comercial de uma das personagens principais, Winifred Laxter, por quem desde logo Perry Mason se sente atraído, confiando-lhe o instinto detectivesco.

Se o inveterado solteirão se sente atraído por Winifred? Talvez, contudo ele não hesita em aceitar o caso proposto pelo porteiro (ou governante da casa Laxter), Charles Ashton, cujo seu gato de estimação, o “Escória”, vê a vida ameaçada pelos herdeiros de Peter (ou Pedro) Laxter. Perry Mason é contratado para defender um gato e aceita dez dólares de remuneração. Isto não estraga a intriga pois está dito logo nas duas primeiras páginas. Tudo o resto é uma diabólica trama, entre feridos, mortos e corpos reclamados e exumados, com uma perseguição desvairada de carros a eléctricos e uma suposta lua de mel (interrompida, hélas!) entre Perry Mason e a peça central definitiva do romance – a esplendorosa Della Street, secretária, motorista, jurista, mãe, irmã, confidente, coadjuvante, quase amante, quase noiva, cujo batom deixa marcas nos lábios do patrão. (Atenção às declarações que Della faz sob juramento em tribunal sobre a identificação de um gato. Um portento.)

Um romance em que Perry Mason esclarece desde logo o leitor em quem deve confiar, porque ele confia, e em quem desconfia, não se deixando enganar, apesar de muitas vezes apenas intuir a sequência de certos factos por desconhecimento próprio, deixando juízes, procuradores e investigadores da polícia de cara à banda na barra do tribunal.

Sem dúvida, um óptimo livro de férias!


jef, julho 2026

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Sobre o livro «A Neve Estava Suja» de Georges Simenon, Cavalo de Ferro, 2025 (1948). Tradução de Diogo Paiva.



 







Talvez seja um dos romances que marcam, ou sublinham o século XX, talvez justifiquem, agora, este século XXI. Um dos romances do existencialismo modernista, aquela ideia da liberdade mais pura, mais severa, mais atroz. Celine, Sartre ou Jean Genet aplaudiriam ou aplaudiram. Não poderá falar-se propriamente de Hans Castorp, esse jovem doente, perdido pelo pulmão de Davos, entre a dialéctica de Settembrini e de Naphta. Como neste último, a guerra não se aproxima, ela já está lá. Em «A Neve Estava Suja», não há salões aquecidos e chá servido, a ocupação estrangeira não aplaca o frio, a fome, a pobreza, opressão a morte e a vigilância de cada esquina, apenas acelera a miséria e o sofrimento. Porém, Frank Friedmaier está de pedra e cal e não se digna ceder, vergar, contestar ou colaborar. Nada mais lhe interessa do que resistir até ao fim, como ele próprio é, ou julga ser, como princípio, como meio, sem olhar à página última.

(Num outro sentido e talvez como escreveria Enrique Vila-Matas, Frank pertenceria a «Bartleby & Companhia» (2000).)

Talvez eu pudesse recordar as personagens de Albert Cossery, mas essas estão sobranceiras, talvez mesmo imponentes. Frank Friedmaier tem outro modo de circular, talvez outro passado, seguramente movimentos diversos. Poderemos lembrar-nos, então, de Meursault de «O Estrangeiro» de Camus (1949) ou de Rodion Raskólnikov do «Crime e Castigo» de Dostoiévski (1867). Contudo, fica-nos essa teia única que Simenon sabe urdir, página a página, diálogo a diálogo, corredor por corredor, janela frente a cada janela, deixando por último a ânsia pelo epílogo, nesse fraseado cromático que esconde a intriga e lança a cada linha o novo isco para que o leitor jamais possa descobrir o que a derradeira linha trará.

«A Neve Estava Suja» é um romance moderníssimo, diria fundamental, que ensina a ler, que obriga a parar para observar cada parede ou rua escondidas de uma sociedade que será sempre funesta frente ao pragmatismo individualista, frente ao crer existencialista onde a escolha do indivíduo será sempre apenas a sombra de uma personalidade interrompida.

Georges Simenon é genial, sem temer estar a extrapolar o adjectivo!


jef, julho 2026