terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Miroirs Nº. 3» de Christian Petzold, 2025




 











O realizador regressa aos seus melhores e mais originais argumentos, numa espécie de sequela do suspense hitchcockiano onde a ausência de explicação se transforma para o espectador no dilema supremo que ele próprio tem de resolver até chegar ao fim. Por que razão Laura (Paula Beer) se suspende sobre o rio, depois na sua margem, olhando distante os reflexos na superfície da água? Por que perde a mala, entretanto? Por que não dá qualquer explicação ao namorado, Jakob (Philip Froissant), quando entra em casa mais tarde? Todas, absolutamente todas as perguntas, parecem estar encerradas no limbo psicanalítico do silêncio. As imagens sucedem-se simples e perfeitas, dramáticas, artificiais, exteriores à realidade e ao próprio cinema, como num palco (com a sintomática fotografia de Hans Fromm). Contudo, toda a intriga se constrói sobre a expressão das personagens, na perturbação silenciosa e solitária de Betty (Barbara Auer), quando esta recebe carinhosamente Laura em sua casa, após esta sofrer o acidente e permanecer, também ela, num mutismo próximo da ausência. Mas se em Hitchcock todos os mistérios e inseguranças cénicas estratégicos, devendo ser explicados e conclusivos moralmente, aqui o sorriso de Laura, no final, ao regressar a casa (cruzando dois negros separadores), num plano cópia daquele com que o filme se inicia, parece dar-nos o cabal desfecho, entrega-nos a razão que tentámos descortinar desde o início. Ora, desvanece-se a dimensão categórica de Hitchcock e entra uma troca de olhares densos, ora incautos ora ameaçadores, ora inseguros ora poderosos, muito teatrais muito bergmanianos. Aliás, nessa insatisfação moral, digamos amoral, inexplicada, concentra-se a enorme dádiva cinematográfica de Ingmar Bergman. Por que razão Laura interioriza e surge indiferente à morte do namorado? Por que se distancia da própria casa mas regressa para o exame de piano sobre uma partitura de Ravel (Miroirs No. 3, Une Barque sur l'Ocean)?

Tudo fica no ar aquaticamente inesquecível.

Um belo e misterioso filme que merece uma segunda visita, hithcocks ou bergmans à parte.


jef, janeiro 2026

«Miroirs Nº. 3» de Christian Petzold. Com Paula Beer, Barbara Auer, Matthias Brandt, Enno Trebs, Philip Froissant, Hendrik Heutmann, Christian Koerner, Victoire Laly. Argumento: Christian Petzold. Produção: Anton Kaiser, Florian Koerner von Gustorf, Julius Windhorst, Michael Weber. Fotografia: Hans Fromm. Guarda-roupa: Katharina Ost. Alemanha, 2025, cores, 85 min.

 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Assim é o Amor» de Mike Mills, 2010
























É extremamente inteligente e ao mesmo tempo muito ternurento colocar Arthur (Cosmo) no verdadeiro centro desta serena comédia dramática. Tudo muito simples ao começar por descrever Arthur, um ‘jack russell terrier’ que informa conseguir entender cerca de 150 palavras humanas, apesar de não falar. No filme, o cãozinho não emite qualquer som mas fala em ‘legendas off’ e diz compreender a dor do novo dono, Oliver (Ewan McGregor) quando este o traz para sua casa pois o seu anterior dono já não o pode ter por se encontrar na fase terminal de uma doença. O seu antigo dono é Hal (Christopher Plummer), pai de Oliver, um conservador de museu que resolveu assumir a sua homossexualidade após a morte da mulher com quem esteve casado 44 anos.

Tudo se desenrola, afectuosamente, numa sucessão de flashbacks e flashforwards onde vamos conhecendo a relação próxima de Oliver em criança com a sua mãe (Mary Page Keller) e o permanente mas cerimonioso desconcerto dos seus pais; também a posterior liberdade afectiva de Hal, que namora com Andy (Goran Visnjic), e acompanhando a progressiva democratização da homossexualidade nos Estados Unidos. Oliver é designer e ilustrador e, numa festa, aproxima-se de Anna (Mélanie Laurent), uma actriz francesa que vive num hotel. Contudo, amor surge mas apresenta-se mais como dificuldade psicanalítica do que solução progressiva, talvez mais como sintoma do que terapêutica. Mas ele, o amor, permanece indelével e afirma-se.

É impressionante como um cão traz a reboque toda a estratégia de um filme, construído frontalmente sobre o amor nas suas diversas faces e sem uma única centelha de ódio ou recriminação. Um filme sobre o claro modo de aceitar o afecto como veículo primordial da generosidade, lealdade, humanas (e caninas), também da homossexualidade paterna tardia e, acima de tudo, da fase terminal e da morte de quem mais se ama.

Um filme que devia ser um caso de estudo cinematográfico. De uma beleza plástica fotográfica irrepreensível, de extrema sobriedade narrativa, com actores cuja minúcia dramática consegue transformar um drama atroz numa quase comédia de final feliz.


jef, janeiro 2026


«Assim é o Amor» (Beginners) de Mike Mills. Com Cosmo (Arthur) Ewan McGregor (Oliver), Christopher Plummer (Hal), Mélanie Laurent (Anna), Goran Visnjic (Andy), Kai Lennox, Mary Page Keller, Keegan Boos, China Shavers, Melissa Tang, Amanda Payton, Reynaldo Pacheco, Jodi Long. Argumento: Mike Mills. Produção: Miranda de Pencier, Lars Knudsen, Mark Levinson, Leslie Urdang, Jay Van Hoy, Dean Vanech. Fotografia: Kasper Tuxen. Música: Roger Neill, Dave Palmer, Brian Reitzell. Guarda-roupa: Jennifer Johnson. EUA, 2010, cores, 105 min.

 





domingo, 18 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Pai Mãe Irmã Irmão» de Jim Jarmusch, 2025





























Algures em New Jersey. Dublin. Paris.

Três episódios sobre irmandade. Em cada um deles dois irmãos confrontam-se e unem-se. E o último é o único dos episódios onde a ausência de silêncio entre irmãos é aquele em que a ausência dos pais está presente. Nos dois primeiros, se não existe propriamente cumplicidade está presente a urgência da respectiva fuga! Claro que o pai (Tom Waits) faz tudo para que os filhos, Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik) cumpram a função e desapareçam, pois a sua vida não é aquela; e a mãe (Charlotte Rampling) não é propriamente a mais carinhosa para as filhas, Timothea (Vicky Krieps) e Lilith (Sarah Greene), que olham constantemente para o relógio para poderem desamparar a loja do anual encontro com a progenitora.

No último, a caricatura sarcástica, quase burlesca, das personagens desaparece e Jim Jarmusch regressa carinhoso com os dois irmãos, Jeanette (Indya Moore) e Skye (Philippe Azoury) em busca das suas memórias enquanto desfazem a casa onde viveram com aos pais.

As cores são tão importantes quanto os silêncios quanto as canções que lhes dão o mote (Jim Jarmusch e Annika Henderson) quanto esse lado complacentemente onírico que sempre o realizador coloca sobre os personagens e as suas histórias. Tão importantes quanto os skaters a centrarem-se no mundo onde a solidão faz o seu inexorável percurso e o rolex, que é verdadeiro ou de contrafacção.

Pode não ser o melhor filme do terno realizador, mas sempre é uma obra maravilhosa de Jim Jarmusch.


jef, janeiro 2026

«Pai Mãe Irmã Irmão» (Father Mother Sister Brother) de Jim Jarmusch. Com Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling, Cate Blanchett, Vicky Krieps, Sarah Greene, Indya Moore, Philippe Azoury, Luka Sabbat, Françoise Lebrun, Beatrice Domond, Stephen Ostrowski, Eduardo Hoffman, Daire Mcgorman, Dave Murphy, Tom O'Reilly. Sébastien Rolando-Lapierre, Sarah Ribeiro. Argumento: Jim Jarmusch. Produção: Joshua Astrachan, Charles Gillibert, Carter Logan, Atilla Salih Yücer. Fotografia: Frederick Elmes e Yorick Le Saux. Música: Annika Henderson, Jim Jarmusch. Guarda-roupa: Catherine George. EUA / Irlanda / França, 2025, Cores, 110 min.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Sobre a peça «Cats» de Andrew Lloyd Webber, Campo Pequeno, 2026


























Um estranho objecto de encantamento. À partida teria tudo para me afastar emocional e esteticamente, mas a realidade é que me conquistou quando Grizabella (Jacinta Whyte), a gata que deixou a tribo, correu mundo, envelheceu e agora deseja voltar, fala da experiência e do significado da experiência dando a entender que esse significado é na realidade o preço da memória. “Memory” é a canção padrão que vai sendo desvendada ao longo da peça até se revelar, finalmente, como ícone apoteótico.

Claro que ainda mais encantador é o facto de, para terminar, esvaziando o impacto emocional do “esquecimento”, a canção dita e repete a máxima universal: “Não pensem que um gato é um cão! Dêem-lhe primeiro caviar, só depois talvez haja alguma hipótese do gato vos aceitar!”.

Quem não conheça o génio de um gato…

O facto é que musicalmente é surpreendente, deixando um lastro de alegre melancolia numa peça que não é para crianças nem deixa de ser. Enfim, teatro para infâncias nostálgicas!

Estranho! Andrew Lloyd Webber consegue a proeza de criar uma espécie de poema sinfónico para bailado, digamos “clássico”, onde os números se sucedem, contando a história dos vários gatos e das suas diversas personalidades e tropelias, como números de cabaré ou vaudeville. Entrecruza trechos sinfónicos sintomáticos com a aura musical muito anglo-saxónica, fazendo lembrar os clássicos «Mary Poppins» ou «Oliver» e misturando a minha suprema reminiscência irlandesa dos Pogues ou das canções fundamentais dos Monty Python.

A realidade é que a memória tem um papel fundamental na estabilidade da nossa estrutura proto-arqueológica diária. Os gatos sabem disso e reflectem permanentemente ao sol sobre o significado da experiência e a justiça do seu próprio nome.


10 de janeiro de 2026

«Cats» de Andrew Lloyd Webber baseado na obra de T.S. Eliot “Old Possum's Book of Practical Cats”. Com Jacinta Whyte (Grizabella), Martin Callaghan (Old Deuteronomy, líder dos gatos Jellicle), e Russell Dickson (Munkustrap, o narrador), Rum Tum Tugger (Harrison Wilde), Skimbleshanks (Philip Bertioli), e Gus/Bustopher Jones (Hal Fowler). Orquestra conduzida por Daniel Griffith.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Sobre o livro «As Janelas Defronte» de Georges Simenon, Cavalo de Ferro, 2025 (1933). Tradução de Diogo Paiva.



 







Georges Simenon é um escritor infinito. Sempre que iniciamos a leitura de um romance seu, também deste apelidado “roman dur”,  não sabemos onde iremos parar. O escritor vira as personagens do avesso, dá-lhes a consistência de um fortíssimo abraço. Ou seja, permite que as vejamos por dentro numa espécie de radiografia programática, demonstrando que uma intriga é válida desde que seja assumido o poder da literatura como definidor de um paradigma global da humanidade. A escrita é rápida, digamos sinteticamente objectiva, a intensidade dos diálogos faz muito mais do que a descrição pormenorizada da paisagem ou do quarto onde se inscrevem. Os cenários são invariavelmente inusitados, cheios de esquinas sombrias, gentes receosas ou poças de água engordurada à beira do porto de Batúmi, na Geórgia, a espreitar o Mar Negro. Cidade densamente afundada na União Soviética. O cônsul da Turquia, bei Adil, chega e aterra numa recepção no consulado da Pérsia, conversa com o casal Pendelli, italianos, porém desentendem-se. O turco sente-se ofendido e sai desalvorado. Pior, sente-se perdido, completamente sozinho. Depois, espiado. O edifício do seu consulado é frio, ainda não tem quem o ajude a limpá-lo. Aguarda a chegada de Sonia, a secretaria russa que também assegurou o trabalho ao seu precedente que morreu, sem nunca lhe terem dado qualquer explicação.

Contudo, para a polifónica verve narrativa de Georges Simenon também não existe qualquer esclarecimento possível. Basta lê-lo e fica tudo dito.


jef, janeiro 2026

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Sobre o filme «Na Terra dos Nossos Irmãos» de Raha Amirfazli e Alireza Ghasemi, 2024



 





























Toda a ironia da tragédia começa e termina do título. A dupla de realizadores iranianos concebe o filme como um tríptico que representa a saga de uma família de afegãos imigrados no Irão durante duas décadas, de 2001 a 2021. Claro que a exploração e a xenofobia não escolhem país, povo ou estatuto social. Aqui, os três episódios reflectem a escravidão, a exclusão e o abuso que os trabalhadores estrangeiros sofrem na pele. Contudo, habituados que estamos à superioridade da cinematografia de Abbas Kiarostami, Jafar Panahi ou mesmo de Asghar Farhadi, o filme surge como uma denúncia real e sincera mas um tanto simplificada, melodramática, ou mesmo entorpecida pelo excesso de dramatismo emocional. Aos poucos, o espectador afasta-se da justa comoção e do teatro mais forte que os filmes dos mestres iranianos já nos deram.

Existe, todavia, no primeiro episódio, talvez o mais cénico, mais objectivo, por isso mais contundente, dois actores de uma fotogenia arrebatadora. São extraordinárias as cenas de olhares silenciosos ou aquelas passadas à noite, na estufa de tomateiros, onde Mohammad (Mohammad Hosseini) ensina inglês a Leila (Hamideh Jafari). Actores e cenas que valem todo o filme.


jef, janeiro 2026

«Na Terra dos Nossos Irmãos» (Dar sarzamin-e baradar) de Raha Amirfazli e Alireza Ghasemi. Com Hamideh Jafari, Bashir Nikzad, Mohammad Hosseini, Marjan Khaleghi, Hajeer Moradi, Marjan Ettefaghian, Mehran Vosoughi, Reza Akbari. Argumento: Raha Amirfazli e Alireza Ghasemi. Produção: Raha Amirfazli e Alireza Ghasemi. Fotografia: Farshad Mohammadi. Música: Frederic Alvarez. Guarda-roupa: Raha Dadkhah. Irão / França / Holanda, 2024, cores, 95 min.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Sobre a peça «Estar em Casa», a partir de Adília Lopes. Teatro Variedades, 2026.



 
















Existe uma ironia trágica no facto de assistir ao espectáculo um ano após a morte da poetiza do absurdo concreto, Adília Lopes. Será também um doloroso e emocional passo dramático para Ricardo Neves-Neves, que assina a dramaturgia e a encenação, e que trabalhou a peça desde 2021, segundo a folha de sala.

(Onde Adília estiver escondida, sorrirá e aplaudirá!)

E o que impressiona nos 70 minutos da sintomática, quase milimétrica, actriz Sílvia Filipe, acompanhada no som de palco por Simão Bárcia, é a capacidade de nunca desvirtuar essa misteriosa chama que Adília Lopes nos deixa através da poesia sincrética, feita de matemática pura, inteligência aguda, contos Grimm dissecados a bisturi, lengas-lengas infantis, onomatopeias trava-línguas, modernidade antiquada, compêndios zoológicos ilustrados, brinquedos esquecidos, árvores encontradas, pardais, gatos, baratas, poeira, sexo, Deus, corpo, lágrimas e espírito provocador. Deixem-na ser como ela quer, deixem-na ser triste e alegre ao mesmo tempo, velha e criança em simultâneo.

Ricardo Neves-Neves, talvez provocadoramente reverente, coloca Adília-Sílvia-Palhaço no centro do palco, imita-lhe a forma, a roupa, o cabelo, o trejeito, e fá-la acompanhar de animação, insectos projectados, musas-medusas suspensas, casas e quartos difusos, modos concretos, para nos abrir um livro e ler-nos os contos infantis para velhos atentos de Adília, um após o outro.

E, assim, alegremente nos entristecemos, sabendo que a nossa casa, afinal, é todo o universo e este, mais tarde, terminará. Reconhecemo-lo com um riso lacrimoso, tendo a certeza que sempre as flores voarão, os pássaros espreitarão e a jarrinha partida será, algum dia, encontrada.

Viva Adília Lopes!

Viva Ricardo Neves-Neves e Sílvia Filipe!


jef, Teatro Variedades, 2 de Janeiro de 2026

«Estar em Casa» a partir de Adília Lopes. Dramaturgia e encenação: Ricardo Neves-Neves. Com Sílvia Filipe. Cenografia: Eric da Costa. Artes finais e cenografia: Rita Vieira. Desenho de luz e coordenação técnica: Cristina Piedade. Desenho de som e sonoplastia: Sérgio Delgado. Figurinos: Rafaela Mapril. Cabelos: Carlos Feio. Música: Simão Bárcia. Canções: Maia Balduz e Simão Bárcia. Ilustração e vídeo: Inês Silva. Video mapping: Eduardo Cunha. Produção e direcção de cena: Teatro do Eléctrico, Sílvia Moura / Culturproject: Nuno Pratas / Teatro do Elétrico, Cineteatro Louletano. Duração: 70 minutos.