terça-feira, 19 de maio de 2026

Sobre o filme «Rio Sem Regresso» de Otto Preminger, 1954



 
















Um filme mítico de cowboys, com dois actores improváveis em dois improváveis personagens. Um dos primeiros a ser filmado na grandiosidade do CinemaScope / Technicolor. O filme em que no esplendor do saloon a luminosa Marilyn Monroe (Kay Weston) canta “One Silver Dollar” e, depois, quase no final, no saloon da cidade, interpreta “River of No Return”. Pelo meio, na casa de Robert Mitchum (Matt Calder), ela canta, já maternal, despida do sedutor ambiente nocturno, “Down in the Meadow” para o embevecido miúdo Matt Calder (Tommy Rettig), filho de Matt.

Tudo aqui parece ser uma alegoria bíblica, nada é dito naturalmente, tudo vem do teatro, de um conceito moral. Não é por acaso que Matt apanha do chão a Bíblia que o padre deixa cair, no início do filme, enquanto atrás passa uma espécie de carrossel humano ao estilo “Sodoma e Gomorra”. Também não será ocasional que o filme termine com Kay a deitar por terra os seus sapatos vermelhos, rejeitando a cidade, rejeitando o passado, viajando de volta a uma casa que nunca terá sido sua. Duas cenas em espelho, deslumbrantes, sobre o pó e a terra nua.

Matt é a reserva moral de uma provável redenção pelo seu passado obscuro que vai sendo revelado aos poucos a seu filho Mark. Ao poucos surge a razão trágica do seu próprio abandono, que, assim revoltada pelo acto paterno, afinal, praticará o mesmo acto para salvar o pai. Outra vez uma questão da simetria.

Afinal, também será reflexiva, a indiferença de Matt perante Kay, até certo ponto, pois ele deverá manter sempre a reserva moral do filme, como aprendizagem de vida do filho, como regresso ao bom caminho de Kay. Por razão evangélica, o pai explica ao filho a razão de se chamar Mark, pois Marco segue a Mateus no Novo Testamento.

Filme mítico da minha infância. A minha mãe sempre me dizia que a Marilyn era das actrizes mais injustiçadas e exploradas pelo vórtice hollywoodesco que lhe colara à sua belíssima e luminosa pele o trágico anátema de mulher-modelo, sendo ela tão sensível e inteligentíssima, belíssima actriz.

Marilyn é mesmo deslumbrante. A câmara que em torno dela filma, nos saloons, e depois na gruta, enregelada após o desmaio, enquanto Robert Mitchum lhe fricciona as pernas, surge como acto de pura, digamos divina, devoção.


jef, maio 2026

«Rio Sem Regresso» (River of No Return) de Otto Preminger. Com Robert Mitchum (Matt Calder), Marilyn Monroe (Kay Weston), Rory Calhoun (Harry Weston), Tommy Rettig (Mark Calder), Murvyn Vye (Dave Colby), Douglas Spencer (Sam Denson), Fred Aldrich, Claire Andre, Hal Baylor, Don Beddoe, Phil Bloom, Buck Bucko, Roy Bucko. Argumento: Frank Fenton segundo a história de Louis Lantz. Produção: Stanley Rubin. Fotografia: Joseph LaShelle. Música: Ken Darby (letras das canções e ditector vocal), Lionel Newman (director e compositor musical), Edward B. Powell (orquestrador). Guarda-roupa: Travilla. Coreografia: Jack Cole. EUA, 1954, Cores, 91 min.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário