quarta-feira, 18 de março de 2026

Sobre o livro «Partida» de Julian Barnes, Quetzal / Serpente Emplumada, 2026. Tradução de Salvato Teles de Menezes.



 







Eis um livro construído por cinco partes reflexas, como se estivéssemos a ler um espelho. A simetria da viagem. A memória como a última e imaginativa constructora do Eu superior. A sistematização do vazio como estação final da viagem, da memória e, por último, da consciência do nada.

Julian Barnes prega-nos a partida e escreve um livro em nome próprio, chama-nos para junto de si e confidencia que será o último livro que escreve. Um livro com a mesma graça britânica de sempre, ríspida, frontal, jocosa, com aquele sentido da morte que ele arrasta (de modo mais ou menos aproximado, e tal como faz Rui Cardoso Martins) ao longo de décadas de livros publicados. Este é o fim do meu “grande Eu Sou”, como intitula a primeira estação, onde teoriza sobre o facto de um cheiro ou sabor provados no imediato faz desenvolver uma cascata de “Memória Autobiográfica Involuntária” vindas de um tálamo sub-excitado por um acidente vascular, tal como fez a celebérrima madalena no chá de «Do Lado de Swann» de Proust. O que seremos nós sem a memória? O que será a memória reconstruída sem nós? Apenas um vazio pleno recordado somente por quem e por enquanto se lembra de nós.

Seguidamente, numa espécie de memória auxiliada por apontamentos colecionados justamente para, certo dia, ajudarem a escrever uma narrativa que sempre negou alguma vez vir a passar ao papel, segimos a história da relação entre Jean e Stephen. Com um hiato de 40 anos. Parte I e Parte II. No respectivo centro está escalpelizado o facto das células de uma memória, de um cancro, não poderem ser curáveis mas sim, tratáveis. Uma espécie de companhia íntima mas vigilante como a do cão Jimmy Jack Russell. Quem acaba com quem, assumindo variante e mutações.

Por fim, o escritor regressa ao início: "sem memória não existe identidade", duvida da própria asserção e, por fim, passada a viagem, convida o leitor para uma bebida gelada, agradece-lhe a companhia e cita a máxima: “a vida (ou o mundo) é uma comédia para aqueles que pensam e uma tragédia para aqueles que sentem”.

Um livro que nos faz compreender, por integrar, «o Sentido do Fim».


jef, março 2026

 

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