Eis um livro construído por cinco partes reflexas, como se
estivéssemos a ler um espelho. A simetria da viagem. A memória
como a última e imaginativa constructora do Eu superior. A sistematização do vazio
como estação final da viagem, da memória e, por último, da consciência do nada.
Julian Barnes prega-nos a partida e escreve um livro em nome
próprio, chama-nos para junto de si e confidencia que será o último livro que escreve. Um livro com a mesma graça britânica de sempre, ríspida, frontal, jocosa, com
aquele sentido da morte que ele arrasta (de modo mais ou menos aproximado, e
tal como faz Rui Cardoso Martins) ao longo de décadas de livros publicados.
Este é o fim do meu “grande Eu Sou”, como intitula a primeira estação, onde
teoriza sobre o facto de um cheiro ou sabor provados no imediato faz
desenvolver uma cascata de “Memória Autobiográfica Involuntária” vindas de um
tálamo sub-excitado por um acidente vascular, tal como fez a celebérrima
madalena no chá de «Do Lado de Swann» de Proust. O que seremos nós sem a
memória? O que será a memória reconstruída sem nós? Apenas um vazio pleno recordado somente por quem e por enquanto se lembra de nós.
Seguidamente, numa espécie de memória auxiliada por
apontamentos colecionados justamente para, certo dia, ajudarem a escrever uma
narrativa que sempre negou alguma vez vir a passar ao papel, segimos a história da
relação entre Jean e Stephen. Com um hiato de 40 anos. Parte I e Parte II. No respectivo centro está
escalpelizado o facto das células de uma memória, de um cancro, não poderem ser
curáveis mas sim, tratáveis. Uma espécie de companhia íntima mas vigilante como
a do cão Jimmy Jack Russell. Quem acaba com quem, assumindo variante e mutações.
Por fim, o escritor regressa ao início: "sem memória não existe identidade", duvida da própria asserção e, por fim, passada a viagem, convida o leitor para uma bebida gelada,
agradece-lhe a companhia e cita a máxima: “a vida (ou o mundo) é uma comédia
para aqueles que pensam e uma tragédia para aqueles que sentem”.
Um livro que nos faz compreender, por integrar, «o Sentido do
Fim».
jef, março 2026
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