O realizador regressa aos seus melhores e mais originais argumentos, numa espécie de sequela do suspense hitchcockiano onde a ausência de explicação se transforma para o espectador no dilema supremo que ele próprio tem de resolver até chegar ao fim. Por que razão Laura (Paula Beer) se suspende sobre o rio, depois na sua margem, olhando distante os reflexos na superfície da água? Por que perde a mala, entretanto? Por que não dá qualquer explicação ao namorado, Jakob (Philip Froissant), quando entra em casa mais tarde? Todas, absolutamente todas as perguntas, parecem estar encerradas no limbo psicanalítico do silêncio. As imagens sucedem-se simples e perfeitas, dramáticas, artificiais, exteriores à realidade e ao próprio cinema, como num palco (com a sintomática fotografia de Hans Fromm). Contudo, toda a intriga se constrói sobre a expressão das personagens, na perturbação silenciosa e solitária de Betty (Barbara Auer), quando esta recebe carinhosamente Laura em sua casa, após esta sofrer o acidente e permanecer, também ela, num mutismo próximo da ausência. Mas se em Hitchcock todos os mistérios e inseguranças cénicas estratégicos, devendo ser explicados e conclusivos moralmente, aqui o sorriso de Laura, no final, ao regressar a casa (cruzando dois negros separadores), num plano cópia daquele com que o filme se inicia, parece dar-nos o cabal desfecho, entrega-nos a razão que tentámos descortinar desde o início. Ora, desvanece-se a dimensão categórica de Hitchcock e entra uma troca de olhares densos, ora incautos ora ameaçadores, ora inseguros ora poderosos, muito teatrais muito bergmanianos. Aliás, nessa insatisfação moral, digamos amoral, inexplicada, concentra-se a enorme dádiva cinematográfica de Ingmar Bergman. Por que razão Laura interioriza e surge indiferente à morte do namorado? Por que se distancia da própria casa mas regressa para o exame de piano sobre uma partitura de Ravel (Miroirs No. 3, Une Barque sur l'Ocean)?
Tudo fica no ar aquaticamente inesquecível.
Um
belo e misterioso filme que merece uma segunda visita, hithcocks ou bergmans à
parte.
jef,
janeiro 2026
«Miroirs
Nº. 3» de Christian Petzold. Com Paula Beer, Barbara Auer, Matthias Brandt,
Enno Trebs, Philip Froissant, Hendrik Heutmann, Christian Koerner, Victoire
Laly. Argumento: Christian Petzold. Produção:
Anton
Kaiser, Florian Koerner von Gustorf, Julius Windhorst, Michael Weber. Fotografia:
Hans Fromm. Guarda-roupa: Katharina Ost. Alemanha, 2025, cores, 85 min.






















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