quinta-feira, 12 de março de 2026

Sobre o filme «Sob o Signo de Capricórnio» de Alfred Hitchcock, 1963



 


















Este é um filme de confrontos, oposições e de monólogos. 

Um filme muito mais de suposição e expectativa do que de suspense. 

Um filme de longas cenas realizadas sob um só plano sem cortes sobre uma casa onde devemos seguir os silêncios no interior das imagens. Os pés nus de Henrietta Flusky (Ingrid Bergman) e as suas mãos sobre os ombros de Sam Flusky (Joseph Cotten) na sua primeira aparição. A longa história vinda do passado que justifica todo o presente que Henrietta contada a Charles Adare (Michael Wilding) após o baile em casa do Governador (Cecil Parker). A dissimulada história de intriga quase sussurrada por Milly (Margaret Leighton) a Sam Flusky, desencadeando-lhe a fúria contra Charles Adere e Henrietta. O colar de rubis, afinal escondido, que só o espectador e Sam conhecem. O vidro que se transforma em espelho pelo casaco de Charles e que devolve a dignidade perdida a Henrietta. A morte da égua preferida de Sam que vai provocar toda a segunda vaga de culpas truncadas e assumidas por amor. O discurso de Charles perante o Governador e a enorme expectativa – o climax do filme! – sobre a sua decisão de salvar a honra de Henrietta e do amor por Sam ou, pelo contrário, a acusação deste, com a consequente e cruel pena capital, e a salvação do próprio e da sua relação de amor com Henrietta.

Afinal, tudo parece estar contido no sentido erro do beijo que Charles dá a Henrietta em oposição, finalmente, aos beijos que Henrietta dá, por amorosa gratidão, nas mãos de Charles. A salvação!

Um belíssimo filme, resplandecentemente romântico e redentor, que demonstra a genialidade eclética de Alfred Hitchcock.


jef, março 2026

«Sob o Signo de Capricórnio» (Under Capricorn) de Alfred Hitchcock. Com Ingrid Bergman, Joseph Cotten, Michael Wilding, Margaret Leighton, Cecil Parker, Denis O'Dea, Jack Watling, Harcourt Williams, John Ruddock, Bill Shine, Victor Lucas, Ronald Adam, Francis De Wolff, G.H. Mulcaster, Olive Sloane, Maureen Delaney, Julia Lang, Betty McDermott. Argumento: James Bridie segundo o romance de Helen Simpson. Produção: Sidney Bernstein, Alfred Hitchcock. Fotografia: Jack Cardiff. Música: Richard Addinsell. Guarda-roupa: Roger K. Furse, Julia Squire. EUA, 1949, Cores, 117 min.

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

Sobre a peça «O Quarto» de Harold Pinter. Teatro Experimental de Cascais, 2026.




 


















É a primeira peça escrita por Harold Pinter. É a primeira encenação de Ricardo Neves-Neves para o Teatro Experimental de Cascais. Aqui tudo parece circunstancialmente ameaçado, cada vez mais prenunciado, no interior de uma penumbra de real comédia e sob o véu ou ecrã cinematográfico.

Tal como em «Festa de Aniversário» (também publicada em 1957), nada é explicado por narrativa clarividente, ou mesmo apenas através de uma exegese lógica. Um casal vive num quarto alugado num prédio sombrio, frio e húmido, com vários pisos e corredores e uma cave obscura. Contudo, Rose Hudd (Elsa Galvão) mima o marido, Bert Hudd (Luiz Rizo), com chás das cinco aprimorados, num aparente idílio doméstico. Porém, uma série de visitas ou intrusos, o casal Sands (Joana Castro e Hugo Narciso), ou o senhorio, o Senhor Kidd (Teresa Faria), ou até a ausência momentânea do marido, vêm colocar Rose num estado de progressiva ansiedade, desestabilizando a sua sossegada rotina, talvez a sua inusitada clausura. Qual a razão da ansiedade? Qual a razão do cárcere? Rose esconderá alguma coisa. Ninguém sabe mas os indícios e a suspeita avançam sobre as rodas de uma possível comédia quase burlesca, quase trágica. Até surgir o inesperado, mas ainda inexplicado, jovem Riley (Igor Regalla).

Ricardo Neves-Neves coloca em dois planos-palcos as personagens, como se estivéssemos no teatro isabelino, entre o translúcido da tela ou o fantasmagórico do fumo ou mesmo o estroboscópio do jogo de luzes e do jogo da sonoplastia. As personagens movem-se em planos absurdos e cadeiras de baloiço que se mexem por moto próprio, entre risos e revolveres. A história conta-se pelo numero de ‘pausas’ que são ouvidas por didascálias. O encenador brinca e parece assim encontrar-se com o tema forte de Harold Pinter que é esse dicionário da incompreensão que sempre ensombra o quotidiano de qualquer família, da casa, de uma comunidade, quase urbana, quase rural. Um tema tão caro à comédia inglesa.

Uma curta peça, quase um scherzo

A voz do absurdo quotidiano onde Neves-Neves coloca Harold Pinter entre Lewis Carroll  e David Lynch.


jef, Teatro Municipal Mirita Casimo / Teatro Experimental de Cascais, 8 de Março de 2026

«O Quarto» de Harold Pinter. Encenação: Ricardo Neves-Neves. Tradução: Miguel Graça. Com: Elsa Galvão (Rose Hudd), Hugo Narciso (Senhor Sands), Igor Regalla (Riley), Joana Castro (Senhora Sands), Luiz Rizo (Bert Hudd), Teresa Faria (Senhor Kidd), voz off Sérgio Silva. Cenografia, Figurinos, Adereços: Fernando Alvarez. Desenho de luz: Tasso Adamopoulos. Desenho de som e sonoplastia: Sérgio Delgado. Assistência de encenação Rafael Balão. Operação de som: Tiago Barão. Operação de luzes: Jorge Saraiva. Direcção de cena: Rodrigo Aleixo. Produção: Maria Lemos Costa / Teatro Municipal Mirita Casimo / Teatro Experimental de Cascais. Duração: 50 minutos.

27 de fevereiro a 29 março de 2026 (Quarta a Sábado – 21h00; Domingo – 16h00).




quinta-feira, 5 de março de 2026

Sobre o filme «Blue Moon» de Richard Linklater, 2025



 

















Onde se prova que o teatro, chamemos-lhe assim, com este vocábulo simultaneamente redutor e abrangente, é a arte que, por excelência, Richard Linklater, o realizador que filma de tudo um pouco, melhor sabe orquestrar.

«Blue Moon» é um filme à antiga Hollywood onde o discurso minucioso e ininterrupto está no centro dessa noite funesta que aponta o fim artístico do letrista (digamos melhor poeta, para também colocar a palavra no centro da questão), Lorenz Hart (1895-1943) (Ethan Hawke). Digamos, o seu derradeiro acto vital – a noite de estreia na Broadway do musical «Oklahoma!» (31 de Março de 1943), quando o compositor Richard Rodgers se separou musicalmente de Hart e encetou a colaboração com Oscar Hammerstein II. Lorenz Hart não suporta o espectáculo até ao final e segue para o bar onde o espera a benevolência complacente e confidente de Eddie (Bobby Cannavale), o barman. Também ali encontrará o piano do soldado, temporariamente de licença, Morty Rifkin (Jonah Lees), amenizando a guerra com os sucessos dos musicais da época; ou ainda o silêncio do ensaísta Elwyn ‘Andy’White (Patrick Kennedy). Pois, na parte que o toca mais de perto, Hart aguarda a chegada da jovem, sua musa e protegida, Elizabeth Weiland Margaret Qualley). Afinal, o ‘teatro literário' de Linklater baseia-se nas cartas realmente trocadas entre Hart e Elizabeth.

Contudo, o acto dramático ocorrido nessa noite apenas, e apenas no espaço cénico daquele bar, centra-se no movimento expressionista do actor Ethan Hawke que desaparece sob a pele do poeta, diminui de estatura, cria a personagem maior, quase burlesca, quase patética, de um homem desiludido, traído, vencido, mas ainda sobrevivendo com o fantasma da sua altivez de grande artista, alcoólico e abandonado.

Cada cena (ou plano) de Ethan Hawke é suportada pelo reflexo de cada um dos seus ouvintes, a quem ele dedica toda a derradeira verve, sejam eles o rapaz que vem entregar as encomendas de rosas – Sven (Giles Surridge); o aclamado ‘traidor’, Richard Rodgers (Andrew Scott); ou o concorrente Oscar Hammerstein II (Simon Delaney).

Richard Linklater e Ethan Hawke entregam a Hollywood a fantasia e o fascínio da Broadway. Também a sua definição dramática e o respectivo e voraz declínio.


jef, março 2026

«Blue Moon» de Richard Linklater. Com Ethan Hawke, Margaret Qualley, Bobby Cannavale, Andrew Scott, Margaret Qualley, Patrick Kennedy, Jonah Lees, Simon Delaney, Giles Surridge, Cillian Sullivan, Michael James Ford, John Doran, Anne Brogan, David Rawle, Aisling O'Mara, Caitríona Ennis, Robert Kaplow, Andrew Bennett, John Cronin, Elaine O'Dwyer. Argumento: Robert Kaplow inspirado nas cartas entre Lorenz Hart e Elizabeth Weiland. Produção: Mike Blizzard, Richard Linklater e John Sloss. Fotografia: Shane F. Kelly. Música: Graham Reynolds. Guarda-roupa: Consolata Boyle. EUA / Irlanda, 2025, Cores, 100 min.