domingo, 4 de janeiro de 2026

Sobre a peça «Estar em Casa», a partir de Adília Lopes. Teatro Variedades, 2026.



 
















Existe uma ironia trágica no facto de assistir ao espectáculo um ano após a morte da poetiza do absurdo concreto, Adília Lopes. Será também um doloroso e emocional passo dramático para Ricardo Neves-Neves, que assina a dramaturgia e a encenação, e que trabalhou a peça desde 2021, segundo a folha de sala.

(Onde Adília estiver escondida, sorrirá e aplaudirá!)

E o que impressiona nos 70 minutos da sintomática, quase milimétrica, actriz Sílvia Filipe, acompanhada no som de palco por Simão Bárcia, é a capacidade de nunca desvirtuar essa misteriosa chama que Adília Lopes nos deixa através da poesia sincrética, feita de matemática pura, inteligência aguda, contos Grimm dissecados a bisturi, lengas-lengas infantis, onomatopeias trava-línguas, modernidade antiquada, compêndios zoológicos ilustrados, brinquedos esquecidos, árvores encontradas, pardais, gatos, baratas, poeira, sexo, Deus, corpo, lágrimas e espírito provocador. Deixem-na ser como ela quer, deixem-na ser triste e alegre ao mesmo tempo, velha e criança em simultâneo.

Ricardo Neves-Neves, talvez provocadoramente reverente, coloca Adília-Sílvia-Palhaço no centro do palco, imita-lhe a forma, a roupa, o cabelo, o trejeito, e fá-la acompanhar de animação, insectos projectados, musas-medusas suspensas, casas e quartos difusos, modos concretos, para nos abrir um livro e ler-nos os contos infantis para velhos atentos de Adília, um após o outro.

E, assim, alegremente nos entristecemos, sabendo que a nossa casa, afinal, é todo o universo e este, mais tarde, terminará. Reconhecemo-lo com um riso lacrimoso, tendo a certeza que sempre as flores voarão, os pássaros espreitarão e a jarrinha partida será, algum dia, encontrada.

Viva Adília Lopes!

Viva Ricardo Neves-Neves e Sílvia Filipe!


jef, Teatro Variedades, 2 de Janeiro de 2026

«Estar em Casa» a partir de Adília Lopes. Dramaturgia e encenação: Ricardo Neves-Neves. Com Sílvia Filipe. Cenografia: Eric da Costa. Artes finais e cenografia: Rita Vieira. Desenho de luz e coordenação técnica: Cristina Piedade. Desenho de som e sonoplastia: Sérgio Delgado. Figurinos: Rafaela Mapril. Cabelos: Carlos Feio. Música: Simão Bárcia. Canções: Maia Balduz e Simão Bárcia. Ilustração e vídeo: Inês Silva. Video mapping: Eduardo Cunha. Produção e direcção de cena: Teatro do Eléctrico, Sílvia Moura / Culturproject: Nuno Pratas / Teatro do Elétrico, Cineteatro Louletano. Duração: 70 minutos.