quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Imersão



Cuidado!
Não meta o pé na banheira!
A água escalda e está muito turva.
Quantos serão os seres vivos que nela espreitam?

Pegajoso! O pensamento anda muito pegajoso, desliza incólume na turbidez clástica do sabão e vai deixando um vinco amarelo na felicidade do esmalte.
O sarro da sobrevivência!
Os pêlos do tédio rodam na acumulação da espera. No ralo escondido é que reside a perspectiva do futuro,
mas o presente fica pela válvula suja que o prende.

Um fastio!


jef, agosto 2017

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Do verbo Procrastinar















Jeremias não conseguia não copiar. Para ele copiar era viver porque tinha consciência de que o que mais gostava era não viver ou, pelo contrário, e que fique bem claro, tinha uma certa vocação para adiar para depois poder melhor copiar a vida. Não lhe interessava a originalidade. Interessava-lhe a perfeição. E adiar era atingi-la!

Para além de copiar, Jeremias gostava muito de coleccionar caricas e o que mais o satisfazia era seleccionar as tampinhas por estados e estilos, cores e origens. Procurava-as no chão, junto à leitaria ou à tasca do bairro. Seriava-las por refrigerante ou cerveja, pelo seu estado de conservação. Gostava de as juntar acima de tudo pelas repetições, admirava-se como elas se copiavam sem copiar. Todas iguais mas diferentes nas imperfeições.

Jeremias tinha na cave 10 estantes. Cada uma com 10 prateleiras. Cada uma com 10 caixas de sapatos, das grandes. Quase cheias de caricas diversas iguais.

Quando as caixas estivessem cheias, passaria a coleccionar as tampinhas de plástico transparente, aquelas parecidas com pequenos chapeuzinhos transparentes que selam as garrafas de 1 litro de mau vinho. Garrafas com estrelinhas pelo gargalo, cobertas no topo por alumínio colorido. Cabiam mesmo bem no interior da carica, davam-lhes estilo, ossatura, peso. E depois ainda podia ir para a rua jogar à carica. Os amigos ficariam cheios de inveja.

Ou, então, instalava na cave mais 1 estante com 10 prateleiras. Pois as 10 caixas de sapatos, das melhores, já ele as tinha guardado.


jef, agosto 2017

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Feelings



«Não raras são as ocasiões em que os sentimentos surgem dentro da cabeça ou debaixo das unhas, bem no centro do sabugo, formas impalpáveis, anjos brancos sem asas, negros andorinhões. Não os tocamos, não os vemos, quase não os sentimos. São objectos que ultrapassam o nosso coração para, rapidamente, se irem instalar no peito de outro alguém. São volúveis e insanos. Apesar de estarem dentro do crânio ou na génese das unhas que terminam os nossos dedos, eles partem para um lugar que não nos pertence, quantas vezes não nos entende e, pior, de que desconhecemos o paradeiro, o endereço, o código de acesso, a palavra passe. Tal e qual as células, as moléculas, os átomos que nos formam e estruturam, nos põem em pé e a andar, mas de que nunca questionamos a existência. Sentimentos inatos, genéticos, oferecidos, não adquiridos. Atingem-nos como balas por circunscrever, disparadas por armas impróprias, apontadas por mãos assassinas, rostos mascarados, provocando crimes imperdoáveis. tanto mais imperdoáveis quando no fim de penetrarem, rasgarem, dilacerarem a carne das unhas, as reviravoltas do crânio, o sabujo sujo do nosso querer, anjos negros, andorinhões invisíveis de tão brancos, o corpo permanece vivo apenas pela perversa alegria de nos ver de pé e a andar, obrigando-nos a constatar quão insuportável é existir sem ter segurado o sentimento que partiu mesmo agora. Para sempre.»

Naquela tarde, sem saber bem porquê, sentara-se num banco diferente do jardim. D. Aurora Figueiredo, a D. Aurita como era conhecida no bairro, sentia-se sentimental, o que a todos os níveis era considerado um pleonasmo. Tal facto incomodava-a, apesar de estar bom tempo, nem calor nem frio, céu azul, os patos mudos a nadar tranquilos no lago, e, poisado no banco a seu lado, um saco de ameixas maduras, fruta da época, compradas a menos de um euro. Um preço mesmo extraordinário!

jef, agosto 2017

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Sobre os discos «Wallflower» (2015) e «Turn Up The Quiet» (2017) de Diana Krall, Verve.













Distante vai o tempo de «Stepping Out». Era o ano de 1993 e o produtor, Jim West. (Ou talvez não irá assim tão distante…)
Longe também a incursão da cantora nos movediços terrenos na bossa nova. Para a cantar só poucos. Muito poucos o conseguem sem atingir aquele tropicalismo vão-de-escada-desesperado / fundo-de-hotel-meloso. Afinal, Diana Krall foi atrás da moda e tropeçou.
Depois veio Elvis Costello.
Depois fui-lhe perdendo o rasto na certeza de que ela se perdia por plateias platinadas, decotes sexagenários, sandálias douradas a condizer com os botões e o pink martini a tilintar na azeitona ou o ginger dry gin a refrescar as noites sem destino. A cabeça a dar-a-dar acompanhando a perna traçada.
Estou a ser mau… (Ou talvez não tanto assim…)
Depois veio Wallflower e eu torci logo o nariz à capa. Fui ver ao dicionário. «Wallflower: pessoa tímida, introvertida, anti-social; planta ruderal que cresce de encontro aos muros ou nos interstícios das paredes.» A medo, comprei-o. Tinha lá dentro duas canções da minha vida. «Alone Again (Naturally)» de Gilbert O'Sullivan e «Sorry Seems to Be the Hardest Word» de Elton John e Bernard Taupin. Não quis gostar do disco mas ele, à segunda rodada, derrotou-me. A tristeza e a memória fizeram o trabalho escavando na alma. Não resisti a tamanha capacidade de realçar a popularidade das composições revelando-lhes todos os genes emocionais sem as transformar com pirosos e inapropriados volteios jazzísticos. Por traz está o produtor David Foster, aturado trabalhador de tudo quanto é Grammy.
Dois anos mais tarde chega «Turn Up The Quiet». 11 standards re-re-regravados ad aeternum ad infinitum. «Night and Day» de Cole Porter ou «Like Someone in Love» de Johnny Burke e James Van Heusen. De novo o softjazz (ou talvez não tanto…). Para mim, o disco teria tudo para correr mal. Mas não correu. De volta à produção de Tommy LiPuma (e da própria cantora) são faixas que vibram na extraordinária base musical reinventando esse álbum único «All For You» de tributo ao trio de Nat King Cole (Impulse!, 1995). Reencontrada a simplicidade, a delicadeza, o respeito e o swing. Ufa!
Quem souber ouvir o que é uma gravação de qualidade que se dedique a separar a estrutura das orquestrações e arranjos sem perder o deleite de um belo álbum de Verão. [John Clapton Jr. Ou Christian McBride –  contrabaixo, Jeff Hamilton – percussão, Antony Wilson ou Marc Ribot – guitarra (…), fazem toda a diferença.]
Só as melhores canções são repetíveis. Logo, basta colocar em modo o disco em modo «repeat» e aumentar o volume da aparelhagem!


jef, abril 2017

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Salvo erro









Salvo o erro que está no centro do dia plano.

Um cardume no mar chão
Um veio de quartzo no interior do xisto
Uma dedada no fotograma
Uma pincelada afinal certeira
Um lírio no deserto
Um balão no céu de maio
Uma gralha na tipografia
Uma palavra difícil
A cor diferente no tubo de ensaio
Uma supernova a eclodir entre um buraco negro e um neutrino
A página que o vento abriu no livro por ler
Um aguaceiro inesperado (sem guarda-chuva)
Uma peripécia no autocarro
Uma conversa despropositada
A citosina trocada no cromossoma
A pena nova na asa de um pisco
A evolução das espécies
A viagem imprevista
Um viaduto desconhecido
O carro por demais apressado
Um bilhete cinema
Um sorriso trocado
E a pele
E o beijo, um quase engano

Salvo erro meu, o centro deseja o dia plano.


jef, 4 de agosto de 2017

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Sobre o filme «Um Dia Inesquecível» de Ettore Scola, 1977




















Se existe um filme que parece definir a palavra «intimidade» é este. Porque a intimidade compreende-se melhor quando concedida ao outro. Uma dádiva recíproca sem contraponto.

Rosmunda, um mainá de voz estridente que Antonietta (Sohia Loren) deixa escapar quando limpa a gaiola, vai poisar no patamar das traseiras onde mora Gabriele (Marcello Mastroianni). Antonietta pede a Gabriele que a ajude a capturá-lo. Antonietta é mulher, mãe e dona de casa assoberbada. Gabriele, locutor de rádio sem trabalho. Assim começa o filme. Ou talvez não…

Estamos em maio de 1938, quando Hitler (secundado pela guarda avançada Hess, Goebbels, Himmler, Ribbentrop…) chega a Roma para uma visita de estado e estadão a Mussolini. O povo fascista rejubila com a festa e a fanfarra, os estandartes e os pendões, e parte engalanado para assistir à apresentação dos ditadores. As imagens são de época e mostram os dirigentes tão aprumados e sorridentes quanto ridículos e presunçosos.

Quase todos partem bem-dispostos e fardados de preto para o estádio e a vigiar o condomínio apenas fica o relato radiofónico do espectáculo que a porteira coloca para que oiçam no exterior.

É nesse espaço vazio, arquitecturalmente extraordinário mas vigiado pelo som da rádio e pelo olhar da porteira, que Antonietta e Gabriele se encontram, revelando a intimidade um ao outro. Mais por privação afectiva que por desejo consubstanciado, as duas personagens vão necessitando cada vez mais um do outro. Necessidade do olhar, das mãos, das histórias, do carinho. O carinho é, certamente, bonito, as histórias menos.

Ettora Scola entrega esta dramaturgia esclarecedora de uma época inábil a dois actores únicos que transformam Antonietta e Gabriele em monumentos de impossibilidade e ternura.
Gabrielle refere ao telefone que rir só se consegue com o outro, enquanto chorar… Antonietta fica resignada a ler à janela «Os Três Mosqueteiros».

Um filme onde também a arquitectura e o guarda-roupa contracenam e dão a deixa perfeita a um filme inesquecível.

jef, agosto 2017


«Um Dia Inesquecível» (Una Giorrnatta Particulare) de Ettore Scola. Com Sophia Loren, Marcello Mastroianni, Tiziano de Persio, Alessandra Mussolini, Françoise Berd, John Vernon, Patrizia Basso. Itália, 1977, Cores, 103 min.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Pinheiro manso










Pinheiro manso

Busca no silêncio a fagulha do movimento.
É o que resta.
É, por sinal, o bastante.
O sinal é tudo.
Esse chão firme mesmo na ausência.
A árvore curva pelo peso do baloiço que retiraram.
O Verão findo.
A sesta recusada.
A praia distante.
Um pequeno ruído por baixo da cama que não se ouve.
O nó da madeira incrédulo.
A resina seca. A caruma extinta. A formiga escondida.
A manta morta.
O ramo que tomba
na palma da mão
no cabelo que se solta
no pinhão que germina
na memória que desperta
eternamente no centro de mim
como dupla folha pontiaguda
determinando
o silencioso símbolo do movimento em falso
afastado e perene.
O sinal que é exactamente o que representa.
A minha Mãe.

jef, 2 de agosto de 2017