quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Sobre o livro «O Fantasma da Ópera» de Gaston Leroux, DarkSide, 2025 (1910). Tradução de Fernando Paz.



 
















Numa cuidadíssima e recente edição da DarkSide (Rio de Janeiro, 2025), incluída na colecção “Medo Clássico”, ilustrada, capítulo a capítulo, com imagens extraídas do filme realizado um século antes por Rupert Julian (Lon Chaney, Ernst Laemmle, Edward Sedgwick), os mil rostos de Lon Chaney encantam, ensombram e caracterizam esta história romanticamente gótica.

Mais famosas que o texto original são todas as posteriores adaptações cénicas que parecem surgir como actos tentados de adaptação do romance de Gaston Leroux. Actos posteriores talvez frustrados pois esta história, girando a dois tempos, duas partes, surge inapropriável dado a versatilidade com que o autor preenche cada uma das duas séries de acontecimentos, começando por um astuto prefácio em que descreve as fontes de investigação, hipoteticamente reais, em que se baseou para reconstruir os acontecimentos descritos. Uma narrativa que sempre conta com alguns factos históricos baseados na construção da Ópera de Paris e no envolvimento daquele monumento nos episódios passados durante a Comuna de Paris e a invasão prussiana da cidade. Sobre tudo isso, surge o humor de Gaston Leroux ao descrever os acontecimentos e as personagens que, sendo acessórios à narrativa, tornam-se ao fim ao cabo parte essencial da atracção que ela exerce sobre o leitor. Nem a história da aparecida, desaparecida e reaparecida Christine Daaé, nem as vicissitudes aventurosas do atarantado visconde Raoul Chagny, nem as supostas visitações do fantasmagórico pré-esqueleto Erik fazem esquecer esse modo muito hábil com que Leroux sustenta a primeira parte de uma escrita próximo do policial, incluindo a transcrição oficial de diálogos, cartas, artigos de jornais e notas de pé de página sublinhando a respectiva verossimilhança. Tudo misterioso e pontuado pela comicidade quase “vaudeville” da atitude de certos personagens. Para chegar à segunda parte, num acto inventivo à guisa de Júlio Verne, fazendo descer o visconde de Chagny, através de sucessivos alçapões, até aos profundos e aquáticos subsolos da Ópera atrás do omnisciente (talvez a personagem mais forte, e também a mais esquecida nas sequentes adaptações dramáticas) o fantástico Persa que irá salvar o heróico casal e resgatará finalmente do tenebroso passado o pesaroso fantasma.

Um mundo trágico e cómico em simultâneo, um policial romanticamente operático, ou não ocorresse no grande edifício-emblema, a Ópera de Paris, onde o camarote 5, ainda hoje, assinala a eterna presença ficcional, quase posse abstractamente geográfica do omni-ausente Senhor da Máscara, o Anjo da Música!

Tão encantador quanto esta narrativa de uma versatilidade ora geograficamente truncada ora revestida pelos inúmeros modos diegéticos, surge o posfácio de Ana Paula Cabrera aglutinador de factos e ideias ficcionais que sempre girarão em torno desta eterna fantasia gótica.


jef, fevereiro 2026

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