Numa cuidadíssima e recente edição da DarkSide (Rio de
Janeiro, 2025), incluída na colecção “Medo Clássico”, ilustrada, capítulo a
capítulo, com imagens extraídas do filme realizado um século antes por Rupert
Julian (Lon Chaney, Ernst Laemmle, Edward Sedgwick), os mil rostos de Lon Chaney
encantam, ensombram e caracterizam esta história romanticamente gótica.
Mais famosas que o texto original são todas as posteriores
adaptações cénicas que parecem surgir como actos tentados de adaptação do
romance de Gaston Leroux. Actos posteriores talvez frustrados pois esta história,
girando a dois tempos, duas partes, surge inapropriável dado a versatilidade
com que o autor preenche cada uma das duas séries de acontecimentos, começando
por um astuto prefácio em que descreve as fontes de investigação,
hipoteticamente reais, em que se baseou para reconstruir os acontecimentos descritos. Uma narrativa que sempre conta com alguns factos
históricos baseados na construção da Ópera de Paris e no envolvimento daquele
monumento nos episódios passados durante a Comuna de Paris e a invasão
prussiana da cidade. Sobre tudo isso, surge o humor de Gaston Leroux ao
descrever os acontecimentos e as personagens que, sendo acessórios à narrativa, tornam-se ao fim ao cabo parte essencial da atracção que
ela exerce sobre o leitor. Nem a história da aparecida, desaparecida e reaparecida
Christine Daaé, nem as vicissitudes aventurosas do atarantado visconde Raoul
Chagny, nem as supostas visitações do fantasmagórico pré-esqueleto Erik fazem
esquecer esse modo muito hábil com que Leroux sustenta a primeira parte de uma
escrita próximo do policial, incluindo a transcrição oficial de diálogos,
cartas, artigos de jornais e notas de pé de página sublinhando a respectiva verossimilhança.
Tudo misterioso e pontuado pela comicidade quase “vaudeville” da atitude de
certos personagens. Para chegar à segunda parte, num acto inventivo à guisa de
Júlio Verne, fazendo descer o visconde de Chagny, através de sucessivos
alçapões, até aos profundos e aquáticos subsolos da Ópera atrás do omnisciente
(talvez a personagem mais forte, e também a mais esquecida nas sequentes
adaptações dramáticas) o fantástico Persa que irá salvar o heróico casal e
resgatará finalmente do tenebroso passado o pesaroso fantasma.
Um mundo trágico e cómico em simultâneo, um policial romanticamente
operático, ou não ocorresse no grande edifício-emblema, a Ópera de Paris, onde
o camarote 5, ainda hoje, assinala a eterna presença ficcional, quase posse
abstractamente geográfica do omni-ausente Senhor da Máscara, o Anjo da Música!
Tão encantador quanto esta narrativa de uma versatilidade ora
geograficamente truncada ora revestida pelos inúmeros modos diegéticos, surge o
posfácio de Ana Paula Cabrera aglutinador de factos e ideias ficcionais que
sempre girarão em torno desta eterna fantasia gótica.
jef, fevereiro 2026



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