Uma mulher e um homem encontram-se no que parece ser a antecâmara de uma capela mortuária. Não se lhes conhece o nome. Apenas uma ligação antiga, com dez anos de afastamento, dez anos de luto. E um nome: Tiago. Uma presença ausente. Para além de Hendricks, lá fora, o porteiro do cemitério. Apenas isso. E o confronto provocado por um esclarecimento necessário mas por resolver. Por uma palavra que deve ser escolhida entre tantas para fazer entender o que se tornou impossível de alcançar…
Às 7h10 de 31 de dezembro de 2015.
Tudo simples, apesar de tudo… apesar da sala de espera… Duas
pessoas que permanecem numa espécie de antecâmara de qualquer coisa que ficou
cristalizada por dez anos. E contudo…
Enquanto aguardamos que a sala escureça, uma
viagem de carro, longa, chuvosa, por um Alentejo solitário e teórico que,
saberemos, ligará a Normandia a algures na Holanda. E a chuva, e a água que se bebe, símbolos de
lágrimas e dos remorsos permanentes, das recriminações sistemáticas. O ruído da
chuva que vai caindo lá fora, intermitente, que molha as mãos de quem continua em busca de palavras para explicar ou comunicar a dor. Uma sombra na
tela, um foco sobre o rosto como concentração potencial de uma interioridade
silenciada. Um desgosto. Uma revolta.
Uma situação simples pontuada pela complexidade de uma
encenação que nos remete para a omnipresença da imagem cinematográfica que,
depois, se sobrepõe à imagem dramática do teatro puro.
Uma peça das que colocam os actores sem rede, sem ponto de fuga, sem apoio cenográfico onde se possam esconder. Apenas cadeiras, uma máquina de água, outra de café. Uma carta relida.
Claustrofobia, poder-se-ia usar, se o substantivo não fosse o oposto da morte, o oposto do vazio.
Como epílogo ou elegia ou epifania, uma canção de Bernstein (It must be so / Assim deve ser) a lacrar
uma reconciliação impossível, um improvável telefonema. O abraço imprescindível,
como redenção.
Peça que lembra a irreversível e convergente dramaturgia de
Jon Fosse, e tão longe da realidade absurda e fantansista de Harold Pinter.
Contudo, a mesma concentração num ponto apenas – a família.
My world is dust now
And all I loved is dead
Oh, let me trust now
In what my master said
"There is a sweetness in every
woe"
It must be so
It must be so
The dawn will find me
Alone in some strange land
But men are kindly
They'll give a helping hand
So said my master, and he must know
It must be so
It must be so
Leonard Bernstein («Candide», 1956)
jef, 3 de abril de 2026
«Veneno – História de Um Casamento» de Lot Vekemans. com Carla Maciel e Gonçalo Waddington. Versão: João Lourenço e Vera San Payo de Lemos. Dramaturgia: Vera San Payo de Lemos. Encenação e cenário: João Lourenço. Figurinos: Marisa Fernandes. Desenho de luz: Anabela Gaspar. Vídeo: João Lourenço e Kimmy Simões. Fotografias: Filipe Figueiredo. Teatro Aberto. Duração: 90 min.




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