São crónicas breves, certamente saídas do audível espaço sem
forma da rádio e dos podcasts. São
simples e pragmáticas, contrapõem a nossa visão do dia-a-dia, por vezes tão
cego, com o sedimento essencial do que chegou até nós de um mundo antigo grego,
persa ou latino. Longe fica a dogmática e impositiva moral cristã; próximo,
muito próximo, fica a amoralidade, para não dizer imoralidade, de todos aqueles deuses perversos, tão santos com satânicos, tão vaidosos e libidinosos como amorosos
e vingativos, cuja crença leviana surge impante no metamórfico Zeus.
Contudo, o que nos demonstra, quase por A + B, Cláudio Moreno
é a imensa capacidade que a cultura clássica tem de não julgar, por si só, como
um preconceito, mas antes dar-nos ferramentas espirituais para formar o nosso
cabal julgamento, o nosso juízo baseado tanto na lei civil ou no estatuto da
Ágora, como, em pé de igualdade, colocando-o também sujeito à norma racional, emocional
ou afectiva de cada um dos leitores, como indivíduos e cidadãos.
Teoriza sobre a vingança como acto tão mais natural quanto a
cristã desculpa (Ah, Aquiles! Ah, Medeia!); estabelece a franca norma dos dois tempos
que nos condicionam em simultâneo – a do cronos,
o do calendário, relógio ou estações do ano – e a do kairos – “o momento certo, propício, a ocasião oportuna para as
coisas acontecerem”, aquele tempo sem cronómetro que apenas a intuição comanda
sem hora certa; afirma que o Amor não é cego e defende tanto a figura rechonchuda
de Cupido como a atlética, sedutora e máscula figura de Eros; fala sobre a vantagem,
quase necessidade, do esquecimento perante o natural decorrer dos factos na
nossa vida; citando afinal Marguerite Yourcenar – “tudo o que pudermos imaginar
para prejudicar o nosso semelhante já foi, ao menos uma vez, experimentado
pelos gregos, assim como também são gregos os modelos de todos os nossos vícios”.
Cládio Moreno é um mestre sereno e enciclopédico que tem o
dom de contar com simplicidade erudita brevíssimas histórias romanescas,
imaginativas, fantasiosas, delirantes. Histórias que, no início da noite, nos
fazem, tranquilamente, adormecer acordados.
Como um amigo meu refere, são histórias para podermos lavar o
palato do contemporâneo correr desenfreado, tão fétido e endiabrado.
jef, maio 2026

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