Esta novela gráfica de Afonso Cruz é um acto poético escrito
a partir de duas histórias de José Saramago para ser interpretado num
espectáculo de teatro e dança (Play False) de Catarina Câmara. Os desenhos constantes de Afonso
Cruz, a preto, vermelho e branco, abrem uma perspectiva fundamental para que se
entenda como funciona o livro para o leitor – uma espécie de permanente fuga e
retiro filosóficos em cada um dos capítulos constituídos por frases curtas
numeradas como se se tratasse de versos antigos e orientais de uma estrofe a ser cantada ou linhas
quíntuplas de uma pauta musical.
Um diálogo entre a aranha, que prende a mosca na sua teia
feita de nós mas deixa escapar o céu, e a serpente, que
defende a visão do rio que nada retém na sua corrente. Existe um rio Yangzi,
com um único peixe que fugiu com o anzol lançado por uma cana partida e
deixa, na margem, o menino pescador desolado. Existe uma montanha Lu onde a
flor sequiosa é ajudada gota a gota pelo menino pescador, tornando-se a maior
flor do mundo. Há uma menina dançarina que salva o peixe do anzol e colhe
flores, encanta-se com a maior flor do mundo no topo da montanha, porém nunca se
encontra com o menino. Sobem ou descem a montanha por caminhos sempre diversos.
Afinal, o peixe mais desejado e a flor da montanha são as maiores dádivas – assuntos da
generosidade, coisa que libertam mas, no final, acaba por prender.
Afonso Cruz escreve poesia como desenha, as linhas que unem o
céu, o horizonte, o rio e as encostas da montanha são como cones de revolução ou pontos de fuga ou
planos que se interceptam criando linhas imaginárias.
Afonso Cruz cria com a sua escrita gráfica a mais bela e
poética geometria descritiva dos universos paralelos.
jef, junho 2026
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