A semente da violência em contraponto com o processo imoral da assunção da culpa.
«O Vídeo de Benny» é uma das obras mais integras e condensadas no abecedário do realizador, onde o fulcro da narrativa se fixa na expressão silenciada, sempre quase silenciosa, de Benny, a expressão da total aparente inocência do actor Arno Frisch (que veremos cinco anos depois em «Brincadeiras Perigosas»).
Tudo está perfeito no
mundo das cassetes vídeo que se alugavam por dias na loja. Tudo está estável na
serenidade burguesa da família de Benny, 14 anos. Os pais (Angela Winkler e Ulrich
Mühe) passam o fim de semana na quinta e Benny enclausura-se no quarto pouco
arejado da casa de Viena. Tudo é filmado e o resultado acumulado nas cassetes é
mais verosímil de que a realidade. Benny encontra na loja uma rapariga (Ingrid
Stassner), também ela fascinada pelos vídeos na loja e convida-a para casa.
Depois, há que experimentar, há que ir mais além.
Tudo
é descrito na sombra crua e pixelizada do vídeo. Tudo fica registado para
memória futura. Aqui não há culpa, nem sequer remorso. Apenas pragmatismo numa
sociedade que se abstém (ou se desvia) da empatia emocional.
Um filme rigoroso e brutal que mostra como Haneke é o mestre da génese da violência e da exegese da suspeição na sociedade ocidental.
Da trilogia da Glaciação fazem parte ainda «O Sétimo Continente» (1989) e «71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso» (1994).
jef,
outubro 2026
«O
Vídeo de Benny» (Benny’s Video) de Michael Haneke. Com Arno Frisch, Angela
Winkler, Ulrich Mühe, Ingrid Stassner, Stephanie Brehme, Stefan Polasek, Christian
Pundy, Max Berner, Hanspeter Müller, Shelley Kästner, Wolfgang Böck, Cecile
Gordon, Paulus Manker. Argumento:
Michael
Haneke. Produção: Veit Heiduschka, Bernard Lang. Fotografia: Christian Berger. Montagem:
Marie Homolkova. Som: Karl Schlifelner. Guarda-roupa: Erika Navas. Áustria /
Suíça, 1992, Cores, 110 min.





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