Após
três anos de «Psico» (1960), surge outro dos ícones da cinematografia de
Hitchcock, um ícone também do cinema do medo. Numa espécie de universo fechado, Bodega
Bay (São Francisco, Califórnia), todas as aves (e não apenas da ordem passeriformes,
dentro da classe aves, como erradamente a nomenclatura cinematográfica portuguesa
fixou) se unem para atacar de modo abstracto o género humano. Tão abstracto que
poderíamos até usar o adjectivo absurdo, pois os aninais serão sempre
inocentes, porque involuntários e defensivos, quando se propõem atacar o bicho
homem.
Logo
Hitchcock usa a sua mestria para impor a definição cinematográfica de Medo,
de Pânico, de Histeria. Nada mais terrível que a ausência de explicação lógica
para um fenómeno que nos atormenta. – Não me esqueço do assustado modo em que
saí do cinema Caleidoscópio, no Campo Grande, em Lisboa, após ver pela primeira
vez o filme, a conselho dos meus pais, devotos a Hitchcock. Teria eu uns
dezasseis ou desassete anos. E tinha eu entrado de peito feito dizendo que já
nada me amedrontaria no cimema... – Medo absurdo, medo abstracto.
Contudo,
por que acontecerá este fenómeno se tudo, absolutamente tudo, está filmado de modo artificial, cenicamente teatral. A desenvolta Melanie Daniels (Tippi Hedren) move-se em
todo o cenário sem nunca se despentear ou desfigurar, mesmo quando conduz o
pequeno barco em segredo até a casa de Mitch Brenner (Rod Taylor) por quem
ficara atraída na loja de animais. Deseja entregar a Mitch o desejado
casal de love-birds que será a prenda de aniversário da jovem irmã daquele, Cathy Brenner (Veronica Cartwright). Contudo, quase no final, como ponto climax
do filme, Melanie resolve subir sozinha ao sótão da casa silenciosa para
descobrir de onde virá um piar indefinido. Aí, toda a estrutura feminina mantida até ali é
contrariada e o corpo de Tippi Hedren surge violentamente atacado, desfigurado,
quase sexualmente exposto.
O filme não esconde preferir uma soberba iluminação vinda de um bastidor cénico e artificial que faz de todas as expressões um modo plástico de nos contar a história pelas palavras que as personagens nunca dirão.
Por um lado, as aves prestes a atacarem, por outro esse expressionismo do feminino contrariado, ao colocar Mitch entre as quatro
mulheres: a mãe possessiva e ciumenta, Lidia Brenner (Jessica Tandy), a inocente
irmã Cathy, a antiga hipotética namorada Annie Hayworth (Suzanne Pleshette) e a
perturbadoramente revolucionária Melanie, causa e consequência desse pavor sem
rosto, ornitológico, como diz a assustada mãe das crianças no restaurante (Doreen Lang).
Tudo
Hitchcock faz condessar neste filme. No medo da perda, do abandono e do luto, como
se o fim do mundo se anunciasse pela boca de um bêbado encartado (Karl Swenson)
e não houvesse qualquer solução. Assim dita o final sem conclusão, assustadoramente
calmo no interior dos gritos de corvos e gaivotas que apenas aguardam o novo
sinal do instinto para desmembrar a humanidade.
jef,
fevereiro 2026
«Os
Pássaros» (The Birds) de Alfred Hitchcock. Com Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne
Pleshette, Tippi Hedren, Veronica Cartwright, Ethel Griffies, Charles McGraw, Ruth
McDevitt, Lonny Chapman, Joe Mantell, Doodles Weaver, Malcolm Atterbury, John
McGovern, Karl Swenson, Richard Deacon, Elizabeth Wilson, Bill Quinn, Doreen
Lang. Argumento: Evan
Hunter segundo o romance de Daphne Du Maurie. Produção: Alfred Hitchcock. Fotografia:
Robert Burks. Som: Waldon Watson e William Russell. Efeitos especiais: Larry H.
Hampton Guarda-roupa: Edith Head e Rita Higgs. EUA, 1963, Cores, 119 min.

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