sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Sobre o filme «Os Pássaros» de Alfred Hitchcock, 1963








Após três anos de «Psico» (1960), surge outro dos ícones da cinematografia de Hitchcock, um ícone também do cinema do medo. Numa espécie de universo fechado, Bodega Bay (São Francisco, Califórnia), todas as aves (e não apenas da ordem passeriformes, dentro da classe aves, como erradamente a nomenclatura cinematográfica portuguesa fixou) se unem para atacar de modo abstracto o género humano. Tão abstracto que poderíamos até usar o adjectivo absurdo, pois os aninais serão sempre inocentes, porque involuntários e defensivos, quando se propõem atacar o bicho homem.

Logo Hitchcock usa a sua mestria para impor a definição cinematográfica de Medo, de Pânico, de Histeria. Nada mais terrível que a ausência de explicação lógica para um fenómeno que nos atormenta. – Não me esqueço do assustado modo em que saí do cinema Caleidoscópio, no Campo Grande, em Lisboa, após ver pela primeira vez o filme, a conselho dos meus pais, devotos a Hitchcock. Teria eu uns dezasseis ou desassete anos. E tinha eu entrado de peito feito dizendo que já nada me amedrontaria no cimema... – Medo absurdo, medo abstracto.

Contudo, por que acontecerá este fenómeno se tudo, absolutamente tudo, está filmado de modo artificial, cenicamente teatral. A desenvolta Melanie Daniels (Tippi Hedren) move-se em todo o cenário sem nunca se despentear ou desfigurar, mesmo quando conduz o pequeno barco em segredo até a casa de Mitch Brenner (Rod Taylor) por quem ficara atraída na loja de animais. Deseja entregar a Mitch o desejado casal de love-birds que será a prenda de aniversário da jovem irmã daquele, Cathy Brenner (Veronica Cartwright). Contudo, quase no final, como ponto climax do filme, Melanie resolve subir sozinha ao sótão da casa silenciosa para descobrir de onde virá um piar indefinido. Aí, toda a estrutura feminina mantida até ali é contrariada e o corpo de Tippi Hedren surge violentamente atacado, desfigurado, quase sexualmente exposto.

O filme não esconde preferir uma soberba iluminação vinda de um bastidor cénico e artificial que faz de todas as expressões um modo plástico de nos contar a história pelas palavras que as personagens nunca dirão.

Por um lado, as aves prestes a atacarem, por outro esse expressionismo do feminino contrariado, ao colocar Mitch entre as quatro mulheres: a mãe possessiva e ciumenta, Lidia Brenner (Jessica Tandy), a inocente irmã Cathy, a antiga hipotética namorada Annie Hayworth (Suzanne Pleshette) e a perturbadoramente revolucionária Melanie, causa e consequência desse pavor sem rosto, ornitológico, como diz a assustada mãe das crianças no restaurante (Doreen Lang).

Tudo Hitchcock faz condessar neste filme. No medo da perda, do abandono e do luto, como se o fim do mundo se anunciasse pela boca de um bêbado encartado (Karl Swenson) e não houvesse qualquer solução. Assim dita o final sem conclusão, assustadoramente calmo no interior dos gritos de corvos e gaivotas que apenas aguardam o novo sinal do instinto para desmembrar a humanidade.


jef, fevereiro 2026

«Os Pássaros» (The Birds) de Alfred Hitchcock. Com Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne Pleshette, Tippi Hedren, Veronica Cartwright, Ethel Griffies, Charles McGraw, Ruth McDevitt, Lonny Chapman, Joe Mantell, Doodles Weaver, Malcolm Atterbury, John McGovern, Karl Swenson, Richard Deacon, Elizabeth Wilson, Bill Quinn, Doreen Lang. Argumento: Evan Hunter segundo o romance de Daphne Du Maurie. Produção: Alfred Hitchcock. Fotografia: Robert Burks. Som: Waldon Watson e William Russell. Efeitos especiais: Larry H. Hampton Guarda-roupa: Edith Head e Rita Higgs. EUA, 1963, Cores, 119 min.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário