sábado, 21 de março de 2026

Sobre o livro «Noite Sem Lua» de John Steinbeck, Ulisseia / Sucessos Literários n.º 5, 1955 (1940). Tradução e Prefácio de Pedro M. Figueiredo. Capa de Querubim Lapa. Ilustrações de Costa Pinheiro.



 





















Um livro magnífico. Eis a guerra e a respectiva resistência ao invasor “contados às crianças e lembrados ao povo”, como diria João de Barros numa velha colecção de clássicos, também ilustrada.

John Steinbeck sai da sua Califórnia e dos seus Estados Unidos da América, e centra-se numa pequena cidade possivelmente situada na Noruega. Estaremos possivelmente da Segunda Grande Guerra e os invasores acham inicialmente que a campanha será muito fácil pois o povo é, por demais, pacífico. Não conhecem a guerra nem se lembram da última invasão que sofreram.

Estão naquele pacífico país pois a potência ocupante necessita do seu carvão (aqui não é o petróleo que manda!).

No pequeno romance, quase novela, o autor usa uma espécie de enquadramento teatral em que explora praticamente toda a acção através dos seus mais finos, ágeis e acutilantes diálogos.

Os cenários, dois no essencial, o palacete do Presidente Orden e a casa humilde de Molly Morden, são descritos minuciosamente para que tenhamos consciência da dimensão do palco e dos seus espaços cénicos e ribaltas.

As personagens, os residentes e os invasores vem descrita na sua essência nas primeiras páginas, na respectiva acção física e psicológica, como sucede nos dramas teatrais, à guisa de didascália: Orden e a sua determinante esposa, o criado José, a cozinheira Annie, o médico Winter, George Corell, o coronel Lanser, o major Hunter, os capitães Bentick e Loft, os tenentes Prackle e Tonder…

E refiro a máxima de João de Barros pois este drama tem o melhor humor, a mais irónica descrição psicológica das personagens, as cenas são descritas minuciosamente de modo ternurento, apesar da acutilância das situações, como numa peça para crianças. Todo o cenário parece uma casa de bonecas. (Lembrei-me muito das silenciosas observação e observância do Senhor Hulot).

Porém, a morte, o ódio, o rancor e a ininteligência absurda da arte da guerra está lá toda. Também, o supremo amor, a fraternidade e a resistência do povo.

Um maravilhoso retrato de um conflito armado que devia ser dado a todas as crianças e a todos os povos para que tomem plena consciência da dificuldade de conservar as frágeis liberdade e paz democrática.

Por último rasgo de humor, fala Sócrates segundo Platão: “Crito, eu devo um galo a Asclépio. Quer fazer-me o favor de pagar essa dívida?”


jef, março 2026

  

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