Um livro magnífico. Eis a guerra e a respectiva resistência ao invasor “contados às
crianças e lembrados ao povo”, como diria João de Barros numa velha colecção de
clássicos, também ilustrada.
John Steinbeck sai da sua Califórnia e dos seus Estados
Unidos da América, e centra-se numa pequena cidade possivelmente situada na
Noruega. Estaremos possivelmente da Segunda Grande Guerra e os invasores acham
inicialmente que a campanha será muito fácil pois o povo é, por demais, pacífico.
Não conhecem a guerra nem se lembram da última invasão que sofreram.
Estão naquele pacífico país pois a potência ocupante necessita do
seu carvão (aqui não é o petróleo que manda!).
No pequeno romance, quase novela, o autor usa uma espécie de
enquadramento teatral em que explora praticamente toda a acção através dos seus
mais finos, ágeis e acutilantes diálogos.
Os cenários, dois no essencial, o palacete do Presidente
Orden e a casa humilde de Molly Morden, são descritos minuciosamente para que tenhamos
consciência da dimensão do palco e dos seus espaços cénicos e ribaltas.
As personagens, os residentes e os invasores vem descrita na
sua essência nas primeiras páginas, na respectiva acção física e psicológica, como sucede nos
dramas teatrais, à guisa de didascália: Orden e a sua determinante esposa, o criado José, a cozinheira
Annie, o médico Winter, George Corell, o coronel Lanser, o major Hunter, os
capitães Bentick e Loft, os tenentes Prackle e Tonder…
E refiro a máxima de João de Barros pois este
drama tem o melhor humor, a mais irónica descrição psicológica das personagens,
as cenas são descritas minuciosamente de modo ternurento, apesar da acutilância
das situações, como numa peça para crianças. Todo o cenário parece uma
casa de bonecas. (Lembrei-me muito das silenciosas observação e observância do
Senhor Hulot).
Porém, a morte, o ódio, o rancor e a ininteligência absurda
da arte da guerra está lá toda. Também, o supremo amor, a fraternidade
e a resistência do povo.
Um maravilhoso retrato de um conflito armado que devia ser
dado a todas as crianças e a todos os povos para que tomem plena consciência da
dificuldade de conservar as frágeis liberdade e paz democrática.
Por último rasgo de humor, fala Sócrates segundo Platão: “Crito, eu devo um
galo a Asclépio. Quer fazer-me o favor de pagar essa dívida?”
jef, março 2026



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